domingo, 30 de maio de 2010

Nepotismo

Estamos comemorando a chegada do 30º seguidor. Tendo em conta que seguir um blog implica – diferentemente de orkut’s, facebook’s e afins – um mínimo de disposição para a leitura, conseguir seguidores deve ser comemorado como gol em copa do mundo. Admito que entre os seguidores estejamos nós mesmos, nossos primos, tios, esposas, avós, irmãos, filhos, periquitos, papagaios, mas já é alguma coisa. Seus primos aguentam você? Os nossos seguem a gente. Seus filhos não lhe ouvem? Os nossos fingem que nos lêem. Seus irmãos não lhe suportam? Nossos irmãos são fiéis seguidores... Brincadeira à parte, com quem a pequena companhia de teatro quer se comunicar? Fico me perguntando se o que fazemos – teatro – não continua sendo passatempo para a burguesia. Não seremos os bobos da corte modernos? Por mais pseudo-cult-intelectualóide-cool-cabeça nossas entranhas não estarão corroídas por pós-ditaduras, quedas comunistas, diretrizes financeiras e o vazio de quem não tem o que dizer? Qual é mesmo a importância disso tudo? Qual é o poder do teatro em um mundo globalizado? Fazemos para nós e que o resto se dane? Fazemos para os que se danam e o resto somos nós? Imagino um Brasil de leitores. Belos leitores. Roubo o conceito do meu amigo Gilberto e sonho com leitores de livros, leitores de peças, leitores de filme, leitores de mundo. Será que o nosso pequenininho fazer não está pelo menos auxiliando na formação desses leitores? Acredito. Acho que é com eles que tentamos nos comunicar. Pessoas que buscam algo mais, independentemente do nível de formação, gosto estético ou sonho destruído. Mesmo tendo um diretor hermético, um ator que não gosta de se apresentar e outro ator que não gosta de visibilidade, a pequena companhia de teatro continua firme no seu compromisso de mudar o mundo (risos) ou, pelo menos, tentar se comunicar com ele.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Sobre ser ator e amigo do encenador

Tive alguns diretores na minha vida, nesta ordem: Mauro Soh, Graça Ferraz, Gilberto Freire, Antonio Abujamra e Marcelo Flecha. Do primeiro, achavam que nós éramos irmãos. Da segunda, não nos falamos mais. As línguas dizem que ela me achou um chato. O terceiro, tínhamos uma relação afetivo-amorosa segundo toda a cidade de Imperatriz. No censo próximo passado responderam ao questionário sobre uma certa relação. Abujamra me perguntou uma vez: "Meganov, eu sou o melhor diretor que vc teve?". Respondi sem pestanejar: "- Nem morto!. Agora, Marcelo Flecha.

Atores são humanos e falhos, e mudam de acordo com a configuração dos astros, com a moda (piada isso), com o seu processo. Mudam cabelo, barba, corpo, alma. Diretores também, mas não no ritmo dos atores.

Minha relação, com os diretores, ideal, será a de aproximação total, de comunhão com a estética, com a vida. Precisa ser amigo, até para absorver críticas, questionamentos, um bom diálogo... Com Marcelo Flecha tive dois processos de montagem: Entrelaços e agora com Pai & Filho. 

Em Entrelaços, uma certa apreensão e um temor de decepcioná-lo. Estava há tempos sem ser dirigido, sem alguém para dialogar comigo na cena. Então, me contive um pouco e deixei rolar, fiquei mais amável, digamos assim (risos) comigo, principalmente.

Depois, Pai & Filho. Fiquei mais seguro, e isso não foi tão bom nem tão ruim. Como leite morno. Sem açúcar ou adoçante. Gosto do sabor de coisas mornas. Não sou um ator morno. Não sou um ator mediano. Nâo sou um ótimo ator. Sou ator. Simples e complexo assim.

Eu me angustio com muitas coisas, e uma delas é sempre estar insatisfeito com o resultado do trabalho. Sempre acho que posso/poderia ser melhor. Há uma insegurança mais pela figura do próprio encenador. Parece-me que, quando o encenador sabe o que quer, o ator fica mais exposto às suas falências. Sinto-me meio falho em algumas coisas, e para isso o vídeo é terrível. Marcelo sabe como é ator. Ele se aproxima um pouco disso.

Acho que preciso ser mais ator do que sou
(foto de Tharson Lopes)

Hoje, minha insegurança está em permanecer na Companhia sem, contudo, me preocupar com projetos particulares. Como ser um ator profissional se não está permanentemente em cena? Quero estar em temporada eterna. Assim, como estou, sinto-me incompleto e só. Distante do palco (não questiono a temporalidade, não agora), distante de quem amo, distante dos amigos. Construir a eternidade na vida não equivale a segundos de prazer no processo de encenação.

E assim, construo mais uma lacuna para ser preenchida. Ontem, entreguei um projeto de residência em artes cênicas pela Funarte. Crise à vista?

domingo, 23 de maio de 2010

Do espaço cênico e da plateia

“... o espectador tem visibilidade adequada e contato com a ação onde quer que esta se desenrole...”
(Yan Michalski sobre Cemitério de Automóveis, de Arrabal por Garcia-1970)

Foram tantos e tão variados os e-mails recebidos que ficou muito difícil escolher por onde começar. Escolho um e-mail de Antônio Átila Castillo, estudante de artes efêmeras na Universidade Democrática de Barcelona. O e-mail dele indagava sobre a espacialidade no espetáculo Pai & Filho.

Desde O acompanhamento, passando por Medéia, Deus Dando, Entre laços e Pai & Filho venho tentando experimentar uma distribuição cênica que propicie ao espectador o privilégio de olhar o que o encenador vê durante todo o processo de montagem. Isso levou a uma série de experiências espaciais, todas elas com acertos e equívocos. O desafio em Pai & Filho se tornou ainda maior quando pretendi que o mesmo espetáculo possa ser levado em espaço alternativo ou palco italiano, como ocorrerá em Imperatriz no mês de junho. O leitor dirá que a pretensão é impossível de ser alcançada, e eu direi que concordo e que continuo tentando. De todas as experiências, acho que Pai & Filho é a que melhor se adapta às duas opções - a frontalidade preserva o formato tradicional, sem prejuízos para a platéia convencional, mas com alguns problemas de visibilidade parcial em espaço alternativo quando o número de lugares tenta superar aqueles oferecidos pela lógica do espaço – diferentemente de Deus Danado e O Acompanhamento (fotos acima), quando o espectador está sempre na primeira fila, ou segunda no máximo. Observado esse fator, acho que Pai & Filho funcionará dramática e esteticamente nas duas opções. O que me aflige na opção do palco italiano é a distância entre o espectador e a cena: temo que o interlocutor seja afastado da atmosfera responsável pelo elo entre ele (bela cacofonia) e a cena, perdendo as propriedades íntimas oferecidas na encenação como fator de sufocamento. Imperatriz dirá.

sábado, 22 de maio de 2010

Sobre a Pequena Companhia, a mímica corporal dramática, o teatro físico & outros bichos.

Ainda estou meio encucado com o teatro físico. Então, estou me debruçando sobre, tentando ver alguns aspectos, pontos de contato com o teatro da Pequena Companhia... É só uma impressão, apenas isso.



A Antropologia Teatral, como “um estudo do comportamento sociocultural e fisiológico do ser humano numa situação de representação”1, consegue ser tão abrangente a ponto de possibilitar estudos de caso, em que cada ser é único e múltiplo, pois traz consigo referências e interferências outras que não somente e tão somente as que estão em seu entorno. Há componentes genéticos, do meio, das culturas, dos ancestrais, das escolhas que foram feitas e dos reflexos dessas tomadas de decisões, do tipo de alimentação de foi ingerida por nós. "Essa afirmação permite-nos inferir que trazemos em nossos corpos a experiência da vida que se apresenta aqui e agora, como síntese da existência humana, ou do conteúdo do existir"2. E é isso que nos faz perceber que o fazer teatral não deve perder essa referência, o que, invariavelmente possibilitará o surgimento de um ator-compositor, mais comprometido com o processo que o leva à cena.

Com isso, os estados de representação são mais ricos que os de interpretação, o que repercute na proposta, tanto da Pequena Companhia de Teatro como da mímica corporal dramática, quais caminhos possíveis para a construção de uma cena em que esses referenciais que o ator traz consigo possam ser valorizados a ponto de construí-la com rigor, com qualidade, com verdade. Nessa perspectiva o trabalho do ator estará relacionado com o corpo, sua carga energética e suas possibilidades de expressão.

A energia no teatro não é metafísica; é física. Remonta a Einstein e seu objeto de estudo que trata do corpo unificado, na fase final de seu trabalho: "a energia é uma espécie de massa fundamental, porque tudo que nós chamamos de massa e que caracteriza a matéria, na realidade é a medida da energia contida"3.

A Psicologia Transpessoal reforça a idéia de que, como o nosso corpo é matéria, logo é energia condensada, e que, se possuímos traços de outras culturas em nossa formação, referências ancestrais de nossos parentes, hábitos, temos em nós um apanhado de energias do próprio cosmos, daí nossa multiplicidade inclusive no campo energético. Essa energia "é o modo pelo qual uma força atua. A atuação de uma força sobre qualquer outra provoca uma mutação. Por isso estamos num universo em mutação (...). O corpo é a manifestação de um conjunto de energias em constante mutação"4. E onde fica aquilo que nos identifica? O que é imutável em nós? O que existe em nós que estará sempre presente, posto à cena, uma técnica aprimorada? Virtuose?

Essas energias, esse múltiplo em nós, existem independentes de nossa vontade. Entretanto, podemos controlar seus fluxos e definir qual ou quais usar em dadas circunstâncias, i. e., temos o total controle delas se, claro, tivermos técnica para aprimorar a sua utilização com/em nosso corpo elétrico. Assim, o Quadro de Antagônicos existe e resiste, pois essas energias são controláveis a partir de uma técnica aprimorada, podendo usá-lo – o corpo - objetivando uma expressividade além da palavra, além de seu uso cotidiano, pois "nosso uso social do corpo é necessariamente um produto de uma cultura. Nosso corpo foi aculturado e colonizado. Ele conhece somente seus usos e as perspectivas para as quais foi educado"5, já que os rituais de nossa sociedade ― qualquer que seja ela ―, “ao exigir certas respostas predeterminadas, acabam por impor a cada um a sua ‘máscara social’ (...) a nossa maneira de andar, a nossa forma de pensar, de rir e de chorar”6.

Quando aquecemos alguma matéria, qualquer que seja ela, ao aproximarmos dela, percebemos o desprendimento de calor, antes mesmo de tocar fisicamente o objeto. “Por exemplo, o calor se dá à experiência como uma espécie de vibração da coisa, (...) um objeto muito quente avermelha, pois é o excesso de sua vibração que o faz irradiar”7.

A física explica perfeitamente bem essa situação: ...todos os átomos possuem um núcleo composto de prótons e nêutrons. Circundando este núcleo, está a eletrosfera, composta de elétrons (...). Os elétrons, além de possuírem carga elétrica negativa, ao girarem em torno de seus eixos, geram energia magnética. Sendo o nosso corpo composto de átomos, estamos circundados por um corpo eletromagnético gerado pelos átomos que o compõem8.

A fonte de energia do nosso corpo é proveniente, possivelmente, de todos os referenciais que temos, inclusive genéticos; do ar que respirarmos, e da alimentação que ingerimos, quer sólida quer líquida. Então, a qualidade de energia desprendida pelo corpo deve levar em consideração esses aspectos ― se temos um rigor na técnica. Numa análise superficial poderemos compreender facilmente como fica o nosso corpo depois de uma noite bem ou mal dormida; depois de consumir uma feijoada regada a cerveja ou de uma salada colorida regada a água mineral meia hora antes ou depois da refeição; de uma confraternização com amigos ou do velório da pessoa amada; de um passeio às margens de uma rodovia de tráfego intenso ou de uma praia paradisíaca, desnudo.

Todas essas exemplificações, mesmo que superficialmente, ilustram as modulações de uma qualidade de energia possível, i. e., podemos manipular essa energia. E reforço a idéia da Pequena Companhia de sistematizar determinadas sensações para modulação de algumas energias composicionais para a cena. E mesmo numa suposta imobilidade há, ainda, a intenção, um impulso inicial, um propósito. E assim, tomamos a respiração, o ar que entra e sai do corpo. Além de ter uma qualidade de pureza, há uma qualidade em seu fluxo, velocidade... Uma respiração advinda de um susto tem uma qualidade diferente da de um orgasmo, ou de alguém que sorrateiramente se aproxima. Quando buscamos a cena podemos, então, controlar essa energia através da respiração.
1 BARBA, Eugênio, SAVARESE, Nicola. A arte secreta do ator: dicionário de antropologia teatral. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1995. p. 8.
2 SOARES, Marília Vieira. Técnica energética: fundamentos corporais de expressão e movimento criativo. Campinas, SP, 2000. Tese (Doutorado em Artes). Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas. p. 36.
3 Ibidem. p. 18.
4 Ibidem. p. 03.
5 BARBA, Eugênio, SAVARESE, Nicola. Op. cit. p. 206.
6 BOAL, AUGUSTO. 200 exercícios e jogos para o ator e o não-ator com vontade de dizer algo através do teatro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982. p. 18.
7 PASTRE, José Luiz. Expressão e coexistência: alguns signos em Merleau-Ponty. Campinas, SP, 2002. Dissertação (Mestrado em Educação). Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas. p. 75.
8 MORETTI, Andrezza Campos. A percepção energética como guia para a composição de poéticas corporais. Campinas, SP, 2003. Dissertação (Mestrado em Artes). Instituto de Artes, Universidade Estadual de Campinas. p. 21-22.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Por onde andará...

Meu companheiro de postagem sumiu. Faz uns vinte dias que não aparece por aqui. Não fosse ele quem é eu já estaria preocupado. No caso de Cláudio, os motivos podem ir de um retiro espiritual no Paquistão à mera desistência de existir. Eu estou de retorno ao meu dia de postagem para dar início às indagações que tenho sobre o espetáculo Pai & Filho. Não tive oportunidade de perceber como a peça repercutiu. Viajei imediatamente após a última apresentação e, à exceção dos debates no calor das apresentações, da contundente postagem de Sandro Fortes no seu blog e de um e-mail escrito por Hamilton Oliveira, não sei o que aconteceu. Sei que muita gente não conseguiu entrar para ver, por isso aproximo o leitor de algumas imagens:
Eis o filho carregando o mundo nas costas
  Primo mangiare, doppo filosofare
                                                                                          fotos Ayrton Vale
 
Se algum leitor/espectador quiser nos auxiliar na avaliação geral que estamos tentando fazer da temporada de estréia do espetáculo Pai & Filho em São Luís, poste aqui no blog seu comentário, ou, se você for tímido, mande sua opinião para marceloenriqueflecha@hotmail.com. A partir das opiniões e comentários pretendo desenvolver minhas próximas postagens e tentar montar um acervo literário da encenação – é que me falaram que em blogs é importante manter a interatividade (risos).

quinta-feira, 13 de maio de 2010

E no sétimo dia descansou

São Luís. Estou aqui. Atrasados de novo. Cheguei e não consegui normalizar minhas postagens. Não cheguei a tempo – a mentira tem poder de verdade, mesmo quando não se faz verdade. Mas vamos ao que interessa: teatro é trabalho? Ser artista implica quase que cotidianamente numa insatisfação latente que às vezes nos cega para a nossa própria realidade. Digo isto porque hoje me sinto um felizardo. Fazendo teatro não tenho horário. Não bato ponto. Durmo quando quero. Acordo quando quero. Há muitos anos não sei o que é obrigação formal. Faço o que gosto. No horário que gosto. Com quem gosto. Sou ranzinza porque gosto, não sei ser de outra maneira, mas não significa que a insatisfação que sinto fazendo teatro seja ruim. Ela é minha vida. E minha vida é boa. Em outros momentos vocês leram minhas queixas, mas hoje destaco minha sorte. Até sobrevivo disso: teatro. Por isso me pergunto: é trabalho? Creio haver encontrado, já faz algum tempo, a maneira de viver sem trabalhar – se levo em conta o peso social, formal e sacrifical que a palavra trabalho carrega. O trabalho no teatro é substituído pela possibilidade de manipular o nosso entorno para transformá-lo. Nosso trabalho é lidar com o ser sem exigências de concretude. Podemos chamar isso de trabalho? Evidentemente meu bom humor não durará para sempre, e amanhã estarei dizendo cobras e lagartos desta dolorosamente doce atividade, mas hoje estou assim. “E hoje não é hoje?” perguntaria o Pai do espetáculo Pai e Filho. É.
Homem trabalhando, por Hamilton Oliveira

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Encenação de identidades

Buenos Aires. Estou aqui. Atrasado de novo. Segunda que vem de volta a São Luís. Espero normalizar minhas postagens. Discuto com minha irmã, a psicanalista Silvia Flecha: arte e psicanálise. Minha sobrinha resmunga pedindo atenção – para quatro meses de vida o assunto parece enfadonho. Na pauta um e-mail do Hamilton, fiel amigo da pequena companhia de teatro. Penso: se é pertinente para uma psicanalista portenha será para nossos múltiplos leitores. Peço autorização para publicar. Quem cala consente.
Katia Lopes por Hamilton Oliveira
Eis o dito:

“Como espectador das produções da Pequena Cia me sinto às vezes na berlinda. Em parte, creio eu, porque os espetáculos me fazem questionar meus valores culturais de auto-identificação (o que sou vivendo essas experiências singulares aqui nesse lugar).

Na cena de Pai e Filho tudo se desmonta e se remonta a partir dos usos. A manipulação da linguagem transforma os objetos. Me incomoda, na condição de espectador, que os significados não são permanentes, eles são relacionados aos jogos, às atribuições entre os personagens. Cada posição (manifestação) é um ato para marcar o lugar (passagem entre lugares na cena) do outro. E nessa ação, cada coisa pode ganhar significados a cada novo momento vivido, a cada novo diálogo, a cada novo esforço de auto-realização de nós personagens (a platéia é personagem - mesmo que, para Gilberto, no Pequeno Teatro ela seja um personagem rejeitado). Em Pai e Filho, se vejo um pedestal, noutro instante aquilo já é um trampolim! Está tudo flutuando, o material não é a referência fixa para entender o mundo, no fundo é um espaço cênico sem chão (Jorge diz). As intencionalidades são desestabilizadas a cada instante antes mesmo de serem fixadas, de representarem alguma convicção de qualquer personagem.

A encenação de Marcelo me deixa atento, me faz observar que nas superfícies tem-se a impressão das permanências, das constâncias sacralmente inalteradas, das tradições, mas são só impressões que logo se desfazem... nas profundezas, sente-se/vive-se realmente os dramas em que as identidades culturais são inventadas e encenadas sem chão, sem fixidez, diluídas... e isso é um perigo, por isso às vezes corro apressado para tentar ancorar identidades em territórios de significados que atribuo a tudo e a todos (pelo menos temporariamente)... e louvo esses territórios, crio meus próprios símbolos... até que não me contento e vejo que dá para desmontar e remontar tudo de novo... a encenação desses rituais muda sempre. ”
Hamilton Oliveira

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Qual é mesmo a questão?

Parece-me ser um assunto recorrente, que vem sempre à tona, a necessidade de identificação nossa com alguma coisa, algo ou alguém. É como se isso moldasse o nosso pensamento, estabelecesse relações com a sociedade, com as instituições, com os outros.

Ser ou estar? Eis a minha verdadeira questão. Não é uma angústia que mata, mas provoca uma boa discussão. Coloquemos o teatro na berlinda. Já fiz teatro de todo o tipo e gosto, performances, e algumas coisas que não posso classificar – poderia, se fosse menos exigente.

Hoje tenho alguns outros que pensam comigo, teatro de grupo... A Pequena Companhia de Teatro ainda está em processo e vai sempre estar, pois é isso que faz com que a vida se estabeleça.

Quando da vivência no dia seguinte da apresentação do espetáculo Entrelaços, na Semana de Teatro do Maranhão/2010, eu utilizei a terminologia teatro físico, mas no sentido de um teatro que exige do físico do ator, e somente. Só que alguém levantou algo acerca da esterilidade proveniente do Teatro Físico, relacionado com a mímica contemporânea.

Nunca havia me aprofundado sobre o Teatro Físico. Na penúltima vez que estive em São Paulo, tive a oportunidade de fazer duas atividades na Cia. Luís Louis. E aproveitei para comprar a dissertação de mestrado dele pela PUC/SP, que trata sobre “A comunicação do corpo na mímica e no teatro físico”. Mesmo sabendo que uso a mímica no espetáculo Entrelaços e no Pai & Filho (quase ninguém percebe, mas alguns movimentos são muito pontuados), alguns pontos levantados pelo Luís têm um sentido enorme no que trabalhamos e pensamos. Nem ouso perguntar se o que fazemos é Teatro Físico, não é isso. O que insisto em questionar é essa necessidade monstruosa de ter que identificar algo com alguma coisa. Parece-me que as relações que fazemos são mais amplas, mais rizomáticas, e com isso, nossos pontos de contato são múltiplos, não dá para fechar em um único pensar, em uma única escola. Um teatro pequeno e múltiplo, talvez.

Essa conversa rende muito. Aqui é só um compartilhamento do que estou lendo e refletindo. Mesmo com alguns dias sem subir nos palcos, parece-me uma eternidade. Talvez o meu ser saiba o que sou, de fato, e esse conflito seja somente a repercussão de minha ansiedade para com o próximo ano.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Quanto vale ou é por quilo?


Inúmeros leitores cobrando o meu atraso. É que ontem foi o ensaio pré-geral e hoje o ensaio geral da Tosca. Muita correria. Na quinta a estreia e na sexta embarco para Buenos Aires, aí sim, uma semana para descansar da montagem de Pai e Filho, conhecer minha sobrinha e pensar na eterna questão: nosso teatro é viável? Falo financeiramente mesmo! Quais são os mecanismos e instrumentos que as companhias de teatro têm para poder sustentar o seu dizer?

“...Obra de arte não é produto (afirmação herética para os liberais de plantão). Torna-se produto dependendo de uma série de fatores e circunstâncias que dialoguem com o mercado vigente. Se uma obra, posteriormente à sua criação, polariza opiniões acaba afugentando os investimentos que tem por prática valorizar o consenso. Porém uma obra digna não deve abrir concessões no momento da formulação do seu dizer: está aí a origem que incompatibiliza obra e mercado. Para uma opção artística que não vise lucro o único caminho é o subsídio (palavra maldita se o dicionário for neoliberal) - sempre e quando a pesquisa invista em dizeres outros que aqueles consensualmente assimilados pelos espectadores acostumados ao entretenimento ou aqueles disseminados pela cultura popular. Essas atividades garantem bilheteria no primeiro caso e recursos públicos no segundo...”

Lendo esse fragmento de um manifesto jamais publicado me pergunto: serão sempre trabalhos artísticos outros e paralelos que aportarão recursos para a sustentação do meu viver e, por consequência, meu fazer? Nesse caso, não é a mesma coisa que vender pizza? (risos) Conflito de um homem de meia idade (nunca soube, efetivamente, que idade é essa).

quinta-feira, 22 de abril de 2010

3D: Dificuldade - Distância - Dor

Marcelo Flecha está em Sâo Paulo. Jorge Choairy em São Luís. Eu, em Imperatriz (ainda esta semana indo para Palmas-To ficar 45/50 dias desenvolvendo um projeto). Antes de nos separarmos, consignamos que faríamos manutenção do espetáculo, cada um em sua cidade, para que, quando nos reencontrássemos em Imperatriz, para as apresentações em junho), pudéssemos estar menos frios. Essa manutenção, seria: alongamento diário; outra atividade física qualquer; uma origem semanal para, inclusive, fazer uma espécie de mímica dos movimentos da personagem no espaço, e bater o texto.

Agora, vamos ao 3D:

A diificuldade - Uma casa em reforma. Parte dela ocupada. Sem espaço para concentrar-se. Ninguém que possa bater o texto comigo. Um desejo enorme de nada fazer. Outros pensamentos. Outras canções.

A Distância - Tudo parece não existir. A sensação é de que não estou aqui, que não tenho espetáculo para apresentar, que não faço teatro. Entendem exílio? Se em São Luís eu discutia e fazia teatro diariamente, aqui não falo sobre isso. É como se me fosse proibido refletir, dissertar sobre. Tudo é muito confuso e desnecessário. 

A Dor - Parece que estou aqui faz uma eternidade. Demorei dias para desfazer as malas, começar a limpar uma casa engraçada meio que abandonada e suja. As roupas ainda não foram lavadas. Ontem tive o cuidado de fazer minha primeira refeição digna. O desamparo é e-nor-me. Esta não é minha cidade. Este não é meu espaço. Sempre me queixo da inexistência de pertencimento para com o espaço que vivo. Acho que encontrei o meu, e não é esta cidade. Essa dor me consome a ponto de tentar amenizá-la fazendo o mínimo de esforço possível com o corpo, como se ele quisesse hibernar pela ausência de comida, como se não tivesse forças, como se meu espírito estivesse doente...

Decidi fazer alongamento hoje à tarde (ainda estamos nas primeiras horas do dia). Vou colocar uma música, me forçar a isso. Bater o texto sozinho... 

Quando o caminhar requer companhias e quando a temos, deixamos de sentir o prazer do sozinho. Sinto falta da sala de ensaio.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Mudança radical


Depois do processo de montagem de Pai e Filho que levou cinco meses, me encontro em São Paulo fazendo a assistência de direção da ópera Tosca de Puccini dirigida por Fernando Bicudo. É inevitável que comparações aconteçam na minha cabeça. Sempre me inquietou e incomodou o tratamento que a ópera dá à representação ou à interpretação, como preferem os profissionais da área. A música e o canto centralizam a comunicação, o que é normal. Mas o que poderia gerar um grau de modernização e aproximação de um novo público para a ópera seria uma construção dramática mais contundente e convincente das personagens. A formula aplicada hoje é antiga. O fato de não haver escolas de ópera no Brasil faz com que seus intérpretes dediquem longas jornadas a aulas de música e canto e muito pouco tempo ao trabalho dramático. Tudo fica quase intuitivo. Remonta à idéia do teatro em prosa de meados do século passado, quando a boa interpretação dependia somente do talento, do dom, e não do exercício. Uma atenção a esse ponto e teríamos pessoas se aproximando dessa linguagem, que, salvo detalhes, é bela.

Por outro lado a ópera nos ensina. Nós, que fazemos e pesquisamos teatro, lutamos desesperadamente para tentar sistematizar um fazer que nós leve à realização da obra. A ópera faz isso há séculos. Vinte dias. É o tempo de montagem da Tosca em que estou trabalhando. Tudo está sistematizado. Tudo está codificado: canto, música, cena, movimento, partitura, cronogramas de ensaio, tempo, necessidades físicas de repouso para a voz, etc. É claro que não dá para comparar, apesar de estar comparando, mas conseguir um mínimo de aproximação na qualidade de sistematização que a ópera tem tornaria o nosso fazer teatral muito mais sólido, objetivo, seguro... Ouvindo essas três últimas palavras, não sei bem se conseguiríamos conviver tão bem com elas, afinal, nosso fazer sempre beira o abismo.

sábado, 17 de abril de 2010

Deixe que digam, que pensem, que falem - 7

Sandro Fortes, em seu blog - O estranho mundo de San -, postou uma crítica sobre o espetáculo. Clique aqui para lê-la.


Abaixo, o texto na íntegra.

Teatralidades

Existem peças que são verdadeiras peça-para-cair-fora! Mas a montagem de "Pai e Filho", inspirada na "Carta ao pai", de Kafka, pelo Pequeno Grupo de Teatro, aqui do Maranhão, ao contrário, mantém você preso à cadeira, atento a palavras, sons e aos menores gestos.

É sempre bom destacar quem tem feito algo por aqui, levando em conta nossas iniciativas "culturais" sorumbáticas. A adaptação de um Kafka monologal de uma carta jamais enviada ao seu pai que, encenada, ganhou a forma de diálogo (arrasador) entre pai e filho, ficou a cargo do sempre produtivo Marcelo Flecha.

O resultado é brilhante: falas cortantes e contraditórias, que se anulam e desarmam umas às outras criando uma situação inescapavelmente conflitante num espaço de confinamento sepulcral. É preciso prestar atenção ao jogo cênico entre os atores, que estão perpetuamente labutando dentro de casa, o que faz pensar na obrigação moral do trabalho como parte da mentalidade burguesa. A casa dos dois é escura e triangular, a porta se transforma em mesa e escada, os livros e as roupas são costuradas pelos atores. O que se vê e ouve é um rompante desafiador (entre os atores Cláudio Marconcine e Jorge Choairy) como aquele estabelecido entre os mendigos de Beckett (autor altamente influenciado por Kafka), e fica estabelecido um jogo de gato e rato - negativo, sinistro, e terrivelmente irônico: ou seja, o universo de Kafka traduzido e revivido com direito a alusões a outras de suas obras, como A Metamorfose ou O Julgamento. Na peça, o filho é como um inseto prestes a ser esmagado pela presença atemorizante do pai. Mas cabe a ele desfiar a voz desafiadora (do escritor), embora essa voz apenas ressalte a própria derrota, a impotência e o fracasso.

Esta é - inegavelmente - a melhor peça de Flecha até aqui, a mais madura, e com uma característica impactante: a precisão. Não há improvisos, palavras deslocadas ou gestos gratuitos em cena - coisa que já vi em tantas outras montagens pra lá de amadorísticas por nossas terrinhas.

O espetáculo tem uma espécie de formato pocket: junta o público e a dupla de atores no mesmo palco. Foi a primeira vez que subi ao palco do Teatro Arthur Azevedo, embora a platéia elevada ao palco não interaja com o que veja (apesar da mania boba de alguns de fotografar os atores com seus celulares)! Uma sensação de claustrofobia e perigosa proximidade toma conta da plateia silenciosa. Há momentos de tanto silêncio tenso que tive a sensação de que se caísse um alfinete no chão este seria ouvido por todos.

E pra terminar, acho muito importante ressaltar: não presenciei bocejos nem ouvi reclamações do público ao fim da apresentação. Todos aplaudiram de pé. Este foi um grande milagre do Pequeno Grupo de Teatro.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Que tempo é esse?

Tempo de colher. Tempo de plantar - não nesta ordem. O processo de montagem se estabeleceu. O espetáculo foi posto à cena. Um pequeno recesso. Manutenção das personagens. Viagem. Saudades. Alguma coisa se partiu - e não foi a ponte. O corpo exige um preparo que o tempo distante não requer. A ansiedade residente é a resposta do espírito à mudança do cotidiano. Minha rotina não está sendo a mesma. Já em Imperatriz, a cidade me consome o resto de ar. É que preciso respirar e a cidade provinciana não me permite. E dizem que aqui nada acontece, e que as pessoas são apáticas frente a um teatro que não se sustenta, que não nos envolve. Eu sou avesso a isso. Sinto saudades da dor do corpo, do suor do Jorge Choairy no meu e da ladeira que dividia meu caminho. E de outras coisas e pessoas não menos importantes. Mas, não quero elencar. Este tempo não é de fotografias. Estou percebendo que agora sou ainda o mesmo ser de antes. Distancia-se da cena, mas o ator fica, eufórico ou anestesiado mediante o tempo que não retorna e não passa. Sinto-me estanque, como se fosse um couro de boi a ser curtido para virar cinto e sapatos. Essa sensação se contrapõe a uma ânsia de ser abatido. Hoje, sou somente mais um. Não sei se isso é bom ou se é ruim. - "Vou dormir".

 Quarto vídeo do processo


terça-feira, 13 de abril de 2010

Vida longa!


Fazemos teatro. Com tudo o que isso representa. O espetáculo apresentado neste último fim de semana mostrou o nosso fazer. Revelou como construímos a nossa jornada. Cada gesto, cada gota de suor, cada elemento, cada ação ali exposta serviu para presentificar o nosso querer. Nossas aflições e desejos se mesclaram para formar a argamassa que sustenta a cena. Nosso teatro é o que vocês viram. Foi bom. Casa cheia. Tudo caminhou bem, mas é só o começo. A vida de um espetáculo começa na sua estréia. A preparação é apenas a gestação. Vida mesmo, só agora: primeiro engatinhando para poder caminhar e depois correr. A maturidade vem com o exercício. Nós mesmos, pais e mãe desta proposta, não conhecemos ainda muito bem o resultado. Vamos avançar nos surpreendendo com cada mudança, cada correção, cada alteração necessária para que a maturidade chegue. Na verdade, acho que nem nós nos conhecemos, e esse conhecimento é fundamental para que o espetáculo sobreviva. As apresentações em Imperatriz, Balsas e Riachão serão os primeiros passos de uma longa vida. É o que todos desejamos.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Quando estamos prontos?

- Não reclame da comida!

Esta semana é a da estreia. Depois de uma boa jornada de ensaios - estamos nessa desde início de janeiro -, estamos prontos. Estamos? 

Ensaiar equivale a ficar trancafiado em uma sala com um outro ator - neste caso -, e com o encenador. O ator tem as sensações. O encenador detém a visão do todo. E o público, o que cabe a ele? 

A partir da primeira apresentação, o espetáculo é dos atores. É uma outra etapa. O público se fará presente - presumimos nós. As interferências são inevitáveis. Como se outros estivessem na sala de ensaio além dos atores e do encenador. O diferencial é que não mais interromperemos o ensaio. Pau dentro, como chamam. Prazer garantido? Eu já disse que gosto mais do processo? Gosto de ficar nas preliminares eternamente. A penetração é meio irrelevante. Não que eu despreze o público. Não é isso. Só que o prazer é menor.

O tempo da costura acaba. Inicia-se a etapa do uso

Mudando de assunto... O ritmo, em função da estreia, está alterado, fazendo com que a nossa rotina seja mais flexível. Anteontem e ontem a imprensa se fez presente nos ensaios. Ontem, só passamos uma vez o espetáculo na íntegra. Hoje, chovendo ou fazendo sol, mais imprensa, agora fora do espaço de ensaio. Mais tarde, ensaio técnico e geral, já no palco do Arthur Azevedo. 

Pareço mais concentrado, tentando perceber melhor a energia a ser modulado e os detalhes. Hoje é um bom dia. Dias contados na Ilha. Depois, uma pausa, e o retorno para a temporada de Imperatriz, Balsas e Richão. Mas, os encontros das quintas-feiras por aqui permanecem.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Deixe que digam, que pensem, que falem - 6

Alex Palhano comenta sobre o espetáculo. Para acessar o blog e ler a matéria, clique aqui.



Abaixo, a íntegra dela.

O FILHO

Quem ainda não conhece a faceta de ator do DJ Jorge Choairy terá não uma, mas três oportunidades no próximo fim de semana. É que junto com Cláudio Marconcine, sob direção de Marcelo Flecha, ele volta aos palcos após um hiato de quatro anos com o espetáculo “Pai & Filho”, baseado na obra “Carta ao Pai” do tcheco Franz Kafka, autor, também, do perturbador “A Metamorfose”.

“Carta ao Pai” será encenada no palco do Teatro Arthur Azevedo nos dias 09 (sexta), 10 (sábado) e 11 (domingo), às 20h. Todas as apresentações terão entrada gratuita, e os ingressos poderão ser retirados uma hora antes da cortina se abrir.

A última fez que o DJ mais cult de São Luís mostrou seu trabalho como ator foi entre os anos de 2005 e 2006, no peça “O Acompanhamento”, em que dividiu a cena com César Boaes, em mais uma trabalho da Pequena Companhia de Teatro.

Site AP deseja uma boa estreia para a trupe.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

O panfleto

Deixe que digam, que pensem, que falem - 5

Zema Ribeiro publicou em seu blog. Clique aqui para conferir.

Deixe que digam, que pensem, que falem - 4

O portal Praça da Cultura publicou matéria sobre o espetáculo no dia 11 de março de 2010. Para ter acesso, clique aqui


Abaixo, matéria na íntegra.

Espetáculo 'Pai e Filho' será apresentado em Imperatriz


A obra foi produzida partir do livro "Carta ao pai", de F. Kafka e terá temporada de estreia nas cidades de São Luís, Imperatriz, Balsas e Riachão, com entrada gratuita, graças ao prêmio Miryam Muniz da Funarte/Minc/governo federal. 

Segundo o ator Claudio Marconcine "estamos postando nossas impressões sobre o processo de montagem no blog (ver link abaixo) seja um seguidor e garanta sua senha para assistir a uma das sessões nas cidades contempladas na temporada de estréia"

No orkut tambem você encontra a comunidade é so procurar por "pequena companhia de teatro."

Serviço

No elenco, Cláudio Marconcine e Jorge Choairy. Na direção, Marcelo Flecha. Na produção, Kátia Lopes.

As cidades contempladas com a temporada de estreia, são: Imperatriz, São Luís, Balsas e Riachão, num total de 15 apresentações, todas gratuitas.


O treinamento dos atores já teve início, e está acontecendo de segunda a sexta, das 16 às 20h, na Sala do Coro, no teatro Arthur Azevedo.


Durante todo o processo estaremos postando fotos, vídeos e impressões sobre a montagem, que tem previsão de estreia no mês de abril deste ano.

Clike em: http://pequenacompanhiadeteatro.blogspot.com/

De novo o olhar


É minha última postagem antes da estreia. Venham ver. Ficou bom. É sexta-feira agora, no Arthur Azevedo. Dúvidas? Nenhuma (risos). Só fico me perguntando se as coisas vão bem mesmo ou se estou “torcendo” para que estejam bem. Se o olhar não está contaminado pelo entusiasmo ou pela necessidade de acreditar. Friamente consigo identificar pequenos ruídos que estamos corrigindo nesses últimos dias, mas nada que comprometa efetivamente o todo. O olhar virginal, aquele do espectador real, não é tão severo e, nesse caso, o espetáculo como um todo me parece contundente. Por isso me pergunto: posso estar tão seduzido a ponto de não ver? Tento me responder distanciando ainda mais o olhar e chego a ser cruel, o que também é perigoso. Um olhar pode se enganar tanto? Creio que não. Nesta reta final continuarei atento à procura da verdade, torcendo para que meu olhar continue sóbrio, já que, para estar bem como diretor, preciso gostar do que vejo sem o entusiasmo do espectador, este seria nocivo para a encenação. Se bem que entusiasmo não é lá uma palavra muito comum na nossa companhia. Somos mais pela acidez, pela crueldade, pela aspereza, pela ironia... Elogios são a conta-gotas. Não digo que isso seja bom. Também não digo que seja ruim. Apenas nos ajuda a manter um olhar crítico e distanciado de tudo o que fazemos: se algo passa incólume pelo crivo dos quatro membros desta companhia, o perigo de errar se reduz a quase zero (risos). Confesso que sinto uma certa inveja desses coletivos de artistas que se festejam entre si, onde a rasgação de seda é uma constante, mas, como diria Zaqueu na espetáculo Entre laços, cada um com cada uma.

P. S.: Acrescento os parênteses com a palavra risos apenas para que saibam que era para ser engraçado (risos).

Deixe que digam, que pensem, que falem - 3

Pedro Sobrinho publicou em seu blog matéria sobre o espetáculo. Para ter acesso, clique aqui, ou leia a transcrição abaixo. Eu e Jorge Choairy participamos do programa comandado por Pedro Sobrinho no domingo, dia 04 de abril de 2010, na rádio Mirante FM.


A pequena companhia de teatro estreia nesta sexta-feira, dia 9, sua mais nova produção, “Pai & Filho” – a partir da obra “Carta ao Pai” de Franz Kafka. No elenco, Cláudio Marconcine e Jorge Choairy vivem respectivamente o pai e o filho. A direção é de Marcelo Flecha. O trio participa da edição deste domingo, 4, do Plugado, na Mirante FM. O programa vai ao ar, a partir das 19h.

A temporada se estende pelos dias 10 e 11 no palco do teatro Arthur Azevedo sempre às 20h. A entrada é franca.

Única produção teatral maranhense a ser contemplada no Prêmio Miryan Muniz 2010 – FUNARTE de montagem de espetáculo, “Pai & Filho” também vai percorrer em sua temporada por três cidades do interior maranhense, Imperatriz, Balsas e Riachão.

A idéia é ampliar esse número de cidades pelo interior maranhense, assim como buscar visibilidade também fora do estado, participando de festivais e mostras – diz o diretor Marcelo Flecha.

O espetáculo “Pai & Filho” mais uma vez traz em sua bagagem a marca registrada deste diretor. Marcelo vem experimentando em seus últimos trabalhos o que ele denomina de teatro mínimo. Um teatro cru, onde o ator reina em cena, sem virtuoses, na busca de composições mais orgânicas em prol de uma boa história.

Seus últimos trabalhos têm em comum exatamente essa pretensão. Entrelaços (MA – 2009), Deus Danado (RN – 2007), O Acompanhamento (MA- 2005) e Medéia (RN – 2005). Espetáculos que definem muito bem o que Marcelo Flecha entende como seu fazer teatral . “Nossa arte é feita de vísceras, calos, dores musculares, cortes nos dedos, ossos quebrados e a utópica fantasia de conseguir dizer tudo de uma vez, para nunca mais ter que fazer”.

Com este novo trabalho não poderia ser diferente. A encenação de “Pai & Filho” desenvolverá uma linguagem crua e visceral para discutir a relação entre poder e submissão, originada na estrutura familiar e disseminada na estrutura sóciocultural contemporânea.

Na peça, um homem aprisionado e oprimido pelo poder do pai, procura enfrentá-lo, mas o discurso se reflete no pai como espelho, retornando para si e afastando a possibilidade da quebra hierárquica familiar para que o diálogo se estabeleça.

A reflexão funciona como um instrumento claro de amadurecimento social, sobre o conflito de gerações e a dependência econômica utilizada no seio familiar como instrumento de poder.
Na tentativa de diminuir a distância entre o espetáculo e a plateia e auxiliar a companhia na avaliação da montagem, será realizado um debate no final de cada apresentação, estabelecendo um diálogo com o espectador sobre a encenação e a sistematização das ações da companhia. Esta democratização de informações também pode ser acompanhada na página eletrônica da companhia (http://www.pequenacompanhiadeteatro.blogspot.com/), onde os membros da companhia relatam suas impressões desde o processo de ensaios até a montagem da peça.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

O teatro é sempre um primeiro de abril?

Já ouvi muita coisa a respeito do teatro. Desde a "incorporação de personagens," passando por "o teatro imita a vida" e o "no teatro tudo é falso".

Meu teatro é extracotidiano. Foge aos padrões. Ele não imita a vida, mas sim faz uma releitura dela. E personagem não se incorpora, se representa. E se falarmos sobre obra de ficção, digo que o buraco inexiste. Teatro é vida. Há uma outra realidade modificada no palco (ou na área de jogo).

Terceiro vídeo do processo

Personagens se tornam reais a partir da verdade cênica do ator. Emoções são possíveis quando a organicidade se estabelece entre a cena que se mostra e quem especta. O ato de se ir ao teatro tem que ser ums ato de vida ou de morte. Não dá para ir comer pizza depois (meu amigo chama a isso de teatro gastronômico). Se for, vai ter uma indigestão. Teatro reflexivo é o mote. 

Teatro não tem a ver com primeiro de abril. Tem a ver com dias 09, 10 e 11... de abril. A vida se redesenha nas interfaces do ator, do encenador e do seu público - que, no nosso caso, não passará de 150 por récita.

Não sei mentir. Por isso, faço teatro. Do contrário, faria televisão ou cinema/vídeo. Meu tempo é o agora. O devir é passadista. Moderno de menos (risos).

terça-feira, 30 de março de 2010

A estética

O universo estético onde estes dois seres se "simbiotizam” (invento palavras quando meu vocabulário se mostra deficiente) é recheado de signos & símbolos que reforçam os motivos do conflito. O cru, linha de pesquisa estética que nossa companhia desenvolve atualmente, vem com um toque de luxo desgastado, aplicando um leve tratamento aos materiais crus explorados, como a linha, a rolha, o papelão, o tecido, etc. Dizer com uma cor, com um objeto, com uma imagem não é tão desafiador quanto o dizer dos atores em cena, mas tem lá seu charme. Convenhamos que nunca, ou quase nunca, aquele detalhe, aquela escolha de material, aquela dobra obsessivamente milimétrica - mas imprescindivelmente necessária - no elemento confeccionado é percebida pelo espectador, e, mesmo assim, nos desdobramos em pesquisas, estudos e escolhas como se alguém efetivamente fosse se debruçar sobre a obra como quem aprecia um quadro de Dalí. Então por que fazemos? Fetiche? Masturbação mental? É a necessidade de completar nosso dizer. No complexo mundo do teatro tudo é pouco, pouco nunca é suficiente, e muito é menos que nada. O discurso deve estar completo de significado para não morrer com a amargura do que ficou sem se dizer. Dramático assim?

É. Nossa arte é feita de vísceras, calos, dores musculares, cortes nos dedos, ossos quebrados e a utópica fantasia de conseguir dizer tudo de uma vez, para nunca mais ter que fazer.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Apenas uma quarta-feira

Todos os dias pessoas acordam, tomam café reforçado e vão para o trabalho. Seis, oito horas diárias. Retornam às suas casas, comem, dormem. Finais de semana, saem para "curtir" a vida.

Teatro é efêmero - ao menos tentam secularmente vender essa ideia. E quando falam sobre isso, não se restringem às apresentações. É a essência dele, i. e., ela está, inclusive, nos ensaios, na energia do ator, no espaço. Os humores sempre influenciarão.

Um dia é sempre diferente do outro, mesmo que possamos percorrer os mesmos caminhos. É que o tempo é outro, e tem seu próprio ritmo.

A cabeça tem seu próprio ritmo

Na quarta-feira algumas coisas aconteceram. Eu me propus a modular minha energia para aquém do que sempre faço. Não para o que o diretor chama de "ensaio burocrático". Não, eu queria estar mais presente e atento à cena. Com isso, o ator fica mais propenso a analisar as circunstâncias, o discurso, o conflito, e passa a modular, também esse ritmar.

É sempre uma espécie de viagem ensaiar. É que ator é phoda. Quando ele quer, faz. Quando não, é insuportável. Algumas pessoas são muito instáveis. Atores também são pessoas.

Mudamos, por causa da realização da V Semana do Teatro no Maranhão, de local de ensaio. Ao invés da Sala do Coro, fomos para a Sala de Dança, mais ampla, muito mais espelhos (para o teatro isso é terrível), mais clara, mais barulhenta. E isso afetou nosso processo, a partir do aquecimento. Num maior espaço, a atividade aeróbica é mais consistente, o ator se torna mais flexível, ágil.

Sala de dança do Teatro Arthur Azevedo

Ensaiamos mais cedo, já que estamos tentando assistir o máximo de espetáculos da programação da Semana de Teatro.

Atores não são trabalhadores comuns. Alguém uma vez me disse algo como se o teatro existisse para preencher as lacunas do mundo deixadas pela criação divina.

Chegar em casa depois do trabalho, depois do prazer. Jantar, levar o namorado à parada de ônibus, ver House e dormir. Faço das palavras de Próspero as minhas: sou humano!

segunda-feira, 22 de março de 2010

Contando o final


O espetáculo tem seis finais. Isso. Seis alternativas diferentes de final. Inclinar-nos-emos por uma quando chegar a hora. Como assim? É que o final é menos importante. No centro está o nosso fim, o fim é o todo. Já o final é uma mera formalidade para você espectador/leitor, ávido por conclusões. É que, antes mesmo do início, o destino do pai, muito bem alcunhado de Próspero pelo próprio ator que o protagoniza, já está traçado e materialmente consolidado de acordo com a sua vontade, ou não. O filho, vazio de nome e de norte, transita entre seus seis possíveis destinos sem necessariamente importar-se com eles, porque ser um nada esvazia. Este anti-herói nos oferece como isca o enfrentamento. Nos conduz pelas entranhas do desamparo sem nos deixar acreditar na sorte. Contra um pai que é visto ao mesmo tempo como deus, juiz, estado, tirano e carrasco o que pode um filho que se vê como mártir, escravo, inseto, réu e vítima? A força está na tentativa. A ilusão também. Cada ator, na nobre função de defender sua personagem tem um final predileto. Eu tenho os meus. É a consolidação de toda a montagem que vem mostrando a tendência do final, mas, no fim, a busca da verdade exigirá de nós o consenso ou a resignação. Quem é que não gostaria de poder escolher o seu destino e prever o seu futuro? Faça teatro e brinque de ser deus. Se não quiser fazer, assista. Nós oferecemos o pai e o filho. O espírito santo ficaria por sua conta, já que a estreia está próxima.

domingo, 21 de março de 2010

V Semana do Teatro no Maranhão


A Pequena Companhia de Teatro se fará presente na Semana com o espetáculo Entrelaços, de Gilberto Freire, com direção de Marcelo Flecha e atuação de Cláudio Marconcine e Lio Ribeiro, no dia 25 de março (quinta-feira), às 21 horas, no Teatro Arthur Avezedo. 

No dia seguinte, às 9h, haverá debate sobre o processo de encenação na pousada Portas da Amazônia, na Praia Grande (Reviver). A programação completa pode ser acessada no blog do Tramando Teatro, clicando aqui.

quinta-feira, 18 de março de 2010

A, at, ato, ator, atores

Uma das poucas coisas que sei que sou é ator. A minha carteira de trabalho diz isso. Nunca me senti prostituto em qualquer montagem, e isso quase me enternece. Sei que existem muitas companhias de teatro. Centenas de grupos - registrados ou não. Cada um com um dizer diferente. 

Me afino com o processo que se estabelece para a montagem. Meu prazer está no processo, não no resultado - importa mais para o público. 

 Atores unidos por um processo, por uma companhia

Existem atores para qualquer tipo de trabalho. O mercado está cheio deles. Os que bebem, que fumam, que não praticam alguma atividade física regular, os que paralelamente desempenham outras atividades para sobreviver...

Com essa diversidade de atores, o diálogo entre eles, em uma montagem, precisa estar afinado com o dizer da companhia, do grupo. Não precisam ser amigos, mas partilhar a criatividade em cena. Tolerar é algo humano - acreditem. E num universo de egos fenomenais aplausos, prêmios e flores nos camarins não são futilidades ou extravagâncias.

Antes de tudo, o ator

Minha relação para com o teatro deixou de ser o onanismo dos espetáculos-solo para dialogar com os procedimentos metodológicos de um grupo que pensa. Assim, além do diálogo com o outro em cena, e da assinatura na obra teatral do encenador/diretor - quando exposta à apreciação da plateia - está o dizer do ator, em seu processo representativo.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Diário de montagem

“ (...) Acho que a ressonância deve ser produto da experimentação física. O ator deve perceber quais as influências que cada antagônico provoca no fluxo do ar e na projeção do som a partir da estrutura física particular que cada antagônico possui (...) Acho que qualquer caminho que não este (sempre e quando estejamos falando da aplicação do quadro de antagônicos) será uma tentativa de encurtar caminhos (...) e provocará a quebra da organicidade, gerando estereótipos e clichês de estranheza gratuita que não se justifica por si só, se essa estranheza estiver deslocada do corpo vivo que a solicita.” Slz, 18/02/10

“ (...) Acho que o que se busca no treinamento e na construção de uma personagem é um estado energético que se sustente até o fim, reverberando em todas as ações e dizeres (...) Se isso não ocorre, tudo vira marca independentemente da técnica utilizada, tornando a personagem burocrática. Essa busca deve se despertar no ator, identificando esse estado a partir da percepção cinestésica (...) Acho que esse estado pode ser fisicamente conseguido e possivelmente codificado. Não me refiro a um “estado de espírito” até porque sou ateu, mas a um estado de consciência cênica produto de um ator pleno. Acho que codificar esse caminho é o que todo método busca.”Slz, 23/02/10

“ (...) Acho que devo dedicar maior energia à preparação. Ser mais exigente no rito de chegada, alongamento e aquecimento para que os atores cheguem com melhor energia para o trabalho experimental. Um deslize nessa preparação e as coisas ficam um pouco fora do eixo (...) Acho que o resultado depende da minha energia no período de ensaio (...) Nesta etapa final, devo administrar bem minhas atividades, horários, desgaste e sono para não comprometer meu rendimento na sala de ensaio.” Slz, 08/03/10.

Como se vê/lê, o estado teatral é de dúvidas, incertezas, inseguranças e incompreensões, ou seja, estado de dor permanente. Durma com um processo desses.