domingo, 25 de setembro de 2016

Sobre uma nova montagem – confissão inaugural


O processo de montagem de um novo espetáculo é sempre o momento mais agudo da minha vida. Sempre que o momento urge, inicia-se em mim uma espécie de desconstrução criativa, pasmo abissal, escândalo informativo, colapso temporal, caos dramático. Tudo o que penso, imagino, estudo, pesquiso, desenvolvo, projeto, cobre-se de uma acentuada insignificância, irrelevância; a mais absoluta comprovação da verdadeira inutilidade da arte, do teatro, do artista. Tudo apodrece, tudo é falência, tudo é angústia, tudo é miséria, tudo é desencanto, tudo é descontentamento. Só me reconheço inútil, medíocre, embusteiro.

Então, para que isso tudo? O que me motiva? O que me provoca? O que me faz ser o encenador da próxima montagem da Pequena Companhia de Teatro? A utopia. Eu acredito piamente que, depois de pronto, o futuro espetáculo da Pequena será capaz de transformar o mundo. Sim. Transformar o mundo: acabar com a fome, resolver o problema dos refugiados, reduzir os índices de analfabetismo, suspender o aquecimento global, derrubar o governo Temer. A insistente leitora, o resistente leitor, devem espantar-se com o tamanho da minha pretensão nesta última sentença, mas é isso que eu pretendo quando se inicia uma nova jornada teatral. No momento da criação de um novo espetáculo, a exigência que me faço é que a montagem tenha a potência necessária para mudar o mundo. Claro que a realidade chegará, e a estreia confirmará outro dos tantos fracassos que colecionei durante toda minha vida. Mas, agora, com toda a dor da insegurança, acredito nisso.

Não sei bem como meus companheiros de grupo lidam com o início de um processo. Nunca sentamos, Katia, Jorge, Cláudio e eu, para falar das nossas aflições no momento de iniciar uma nova montagem. Como também é ofício, sempre nos concentramos no desenvolvimento do espetáculo, com seus ensaios, discussões, pesquisas, recursos; mas raramente externamos angústias íntimas, dúvidas existenciais, agonias criativas. Fazemos isso paralelamente, amigos que somos, um com outro, outros sem um, dois entre dois, e as configurações que o número quatro permite. Tampouco sei como outras pessoas lidam com isso. Raramente ouço de um amigo em processo de montagem quais são os seus fantasmas; divagamos sobre técnica, caminhos, leituras, treinamento, temática, mas raramente o âmago, a víscera, a chaga, a dor.

Dói. Dói em mim tudo o que há para dizer, tudo o que há para fazer, tudo ao mesmo tempo agora, e nunca, e sempre, e de repente. Sustento, apunhalada às minhas costas, a bandeira da transformação, e para alcançar o feito tento me transformar em um delirante, em um demente, em um infame; buscar o dito na palavra muda, conseguir o grito que acorde o mundo, desferir o golpe que vença a injustiça; e me deparo com a falha, a falência, a derrota, o problema, o dilema.

Utopia. Começar um novo espetáculo é reafirmar o poder da utopia, é relembrar a importância da luta inútil, é iniciar a luta da batalha perdida. É o único e singelo momento em que se vive a epifania de compreender a subversiva inutilidade da arte. Por isso minha dor, meu descalabro, meu desatino, meu desalento. Claro que o leitor insensível perguntará, com o escarnio que lhe é peculiar quando encontra o momento de achincalhar este dedicado escritor, – e o teatro é isso tudo? – É necessário esse drama todo? – É preciso essa choradeira infinda? – Se é tão ruim, não para por quê?

Respondo que só sei fazer assim. Foi assim que a vida me levou para este caminho. Foi assim que as mazelas do mundo me fizeram desembarcar no teatro. Nunca decidi fazer teatro, eu me percebi fazendo teatro. O teatro foi se transformando no meu grito. O teatro foi se transformando no meu solo. O teatro foi quem me deu colo. Por isso tem que ser assim. Por isso não pode ser diferente. Por isso não posso parar. Por isso não posso abandonar a utopia. Porque sem acreditar que podemos mudar o mundo minha vida não faria o menor sentido, e de inútil basta a arte.


domingo, 18 de setembro de 2016

A vitória da vaidade


O que está acontecendo com a sensatez humana? A pergunta, que será a provocadora da série de postagens que começo hoje, surge da espantosa capacidade de me surpreender que a sociedade contemporânea vem desenvolvendo, e que me transforma, cada vez mais, neste vetusto e incorrigível homem das cavernas.

Hoje ajusto o foco na vaidade, no autorretrato, na autopromoção, no autoelogio, na visibilidade a qualquer preço. Como chegamos a isso? Se fizermos um pouco de memória, não muito tempo atrás, tudo o que englobava esse tipo de comportamento era defeito grave digno de rejeição social e, em alguns casos, motivo de chacota, galhofa, pilhéria, caçoada, zombaria, troça, que atualmente recebe o nome de bullying – como se palavras como assédio, intimidação, tirania, opressão, ameaça não existissem no nosso vernáculo.

Quando foi que isso mudou? Em que momento a vaidade deixou de ser um defeito, um famigerado pecado capital, e se transmutou em qualidade? Que curiosa transformação colocou a humanidade nessa disputa despudorada e explícita para ver quem é o mais vaidoso? Como não preciso mais de provas, transformarei as minhas suspeitas em convicções, e tentarei lançar um olhar sobre a desumanização da humildade e o (in)consequente envaidecimento da vaidade.

Suspeito que a transformação ocorreu quando a lente da máquina fotográfica, que era a tradutora do nosso olhar perante o mundo – um olhar particular, único, que mostrava, através do meu enquadramento, das minhas opções de cores, das minhas escolhas, como eu enxergava o universo à minha volta –, foi rotando, sutilmente, em direção ao nosso próprio rosto, à nossa cara, à nossa maquiagem carregada, à nossa barba bem-feita, à nossa sobrancelha desenhada, ao nosso lifting, ao nosso Botox, à nossa necessidade de escancarar nossa belíssima perfeição estética, promovendo a cultura do autorretrato, do auto-almoço, da auto-paisagem, do auto-eu-mesmo-de-tudo-o-que-seja-de-mim, que hoje atende pela alcunha de selfie. Vaidade. Ao virarmos a câmara para nós, deixamos de entender a importância do nosso olhar particular perante o mundo, e transformamos o mundo na vitrine onde exponho o meu eu para uma infindável cachoeira de curtidas catatônicas.

 
Com a mesma sutileza, a humildade passou a ser defeito, uma característica a ser ocultada, mascarada, sob o risco de apresentar-se como uma pessoa com baixa autoestima. A humildade passou a ser conhecida como falsa modéstia, como se a modéstia fosse uma qualidade impossível de existir na atualidade. A humildade chegou ao ponto de ser a própria vaidade, se o humilde não se descuidar ao defender seu comportamento. Ouçam o meu brado retumbante: humildade não é defeito! A humildade precisa ser preservada, exercitada, ou viveremos a amargura de trocar uma mesa com velhos amigos por velhos em uma mesa com retratos antigos.
 

No início deste século dediquei um ano inteiro a um dos meus inúmeros fracassos poéticos, um livro que se chamava “O Calvário da Vaidade”, onde eu decidia enfrentar um dos meus mais temidos fantasmas, tentando dissecar esse pesado capital, na inútil tentativa de me tornar um homem melhor. Claro que fracassei, poeticamente, humanamente. Contudo, a experiência me acurralou, e ao terminar minha hercúlea jornada me deparei com um dilema matricial: a publicação do conteúdo do livro não seria um exercício de vaidade? Se tudo o que eu queria com a experiência era exercitar a humildade, o pavoneio da exposição comprometeria minha empreitada. Fracassei no exercício. A humanidade jamais viu os escritos, não por minha decisão de não publicar o livro, e sim pela mediocridade do seu conteúdo. Insisti, inscrevi, enviei, implorei, mas nunca consegui publicar. Todavia, inescrupulosamente, tentei. A tosca anedota demostra que, apesar do meu esforço em extirpá-la, a vaidade me venceu. Aviso aos navegantes que se regozijam ao saber do meu fracasso: não está morto quem peleja, e continuo meu exercício cotidiano.
 
Se eu procurei, sem sucesso, expurgar a vaidade através da literatura, a literatura tornou-se uma das grandes responsáveis pelas consequências que bradejo hoje, através de um gênero textual chamando de autoajuda. Os livros deste gênero são insufladores de autoestima, vaidade, autoafirmação, egolatria. Para estes, um ser humano humilde é um ser menor, com autoestima baixa, precisando de ajuda, mergulhado no abismo da sua insignificância. Para que ler o Dom Quixote, e se angustiar com a mediocridade do Cavaleiro da Triste Figura e sua derrocada perante a vida, se posso enriquecer meu repertório de ostentação qualitativa com a leitura de livros que vão direto ao ponto: seja um vencedor?
 
É isso o que este momento histórico pretende: camuflar nossa insignificância. Esconder o grande paradoxo da existência, nascer para morrer. Com essa investida, o sistema ameniza as angustias do humano ser, enquanto se alimenta com o consumo de processadores de selfies, cosmeticomilagres, app’aradores de falhas, gerando o consumismo predatório que hoje nos assola (tema de uma próxima postagem). Não lembro se Narciso se afogou, mergulhando atrás da sua imagem, se definhou contemplando sua beleza, ou se abriu um perfil em uma rede social. Só sei que sua experiência pouco tem contribuído para que as máquinas fotográficas recuperem seu objetivo original.  
 
 


domingo, 4 de setembro de 2016

Sobre festivais, festas, FestLuso e festejos

De 22 a 28 de agosto passado acompanhei a totalidade do FestLuso – Festival de Teatro Lusófono, em Teresina/PI, e participei da 5ª edição do NORTEA – Núcleo de Laboratórios Teatrais do Nordeste como expositor na mesa redonda “Teatro brasileiro de expressão nordestina: realidades, desafios e perspectivas”, além de dialogar através de demonstrações técnicas, encontro de diretores lusófonos, colóquios, conferências etc. Foi uma semana intensa, provocativa, afetiva.

A querida leitora, o caro leitor, sabem que toda experiência artística me provoca reflexões. No caso, lanço o olhar sobre os festivais, seus objetivos, desafios e padeceres, a partir de um exemplo singular, um encontro que se propõe a reunir todos os países de língua lusófona através do teatro – no caso da edição 2016, Brasil (Piauí, Bahia, Ceará e Rio de Janeiro), Portugal, Cabo Verde, Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe.

A primeira angústia emerge do enlace da realidade do FestLuso com a grande maioria dos festivais de teatro brasileiros: a falta de apoio continuado, tornando a edição seguinte uma mescla de sonho, desafio e abnegação. Com raríssimas exceções, todo festival brasileiro que se finda vive o dilema de não fazer ideia de como promoverá o vindouro, fator de comprometimento agudo no que tange à qualidade da programação, ao recorte curatorial, aos provocadores convidados, e a todo o entretecido que forma um festival de qualidade. É fácil colocar o olhar crítico durante, quando não se conhece o período de pré-produção dispensado possível, tendo em vista que algumas experiências chegam ao lançamento com promessas políticas e conta vazia.

Outro apontamento é quanto ao principal equipamento teatral da cidade, o Teatro 4 de Setembro, palco central da mostra lusófona e que, por coincidência, nos recebeu na semana anterior para a apresentação de Velhos caem do céu como canivetes, pelo SESC Amazônia das Artes. É urgente remediar o problema acústico provocado pela instalação de um número inimaginável de spliters em substituição à central de ar-condicionado anterior. Se a casa já não era de uma acústica impecável – apresentamos “Ramanda e Rudá”, em 1999 – agora transformou-se em um sumidouro de vozes, e nada que seja dito no palco consegue se ouvir se você estiver a partir da quinta fileira da plateia.

Observados esses dois problemas que perpassaram toda a mostra, ressalvo alguns pontos que valem a reflexão crítica, e me provocam como convidado e permanente colaborador deste querido festival. Quanto à necessidade de haver um recorte curatorial específico – neste ano versou sobre a negritude e suas ramificações – o comentário atento de Jorge Choairy ao ouvir meus relatos deu o tom da provocação: o ser lusófono já não é um recorte significativo como para somar recortes específicos? É uma questão que penso que valha ser analisada, sob pena de inviabilizar uma produção potente.

Certamente, a diferença mais significativa em relação às edições anteriores que acompanhei, foi a realização do NORTEA, deslocada sua 5ª edição do FILTE Bahia – Festival Latino-americano de Teatro da Bahia para o FestLuso. Se nos anos anteriores era reservada uma manhã para o encontro de diretores lusófonos, este ano todo o período matutino do festival dedicou importante espaço para a problematização do teatro, seu fazer e dizeres. Um diálogo intenso foi travado durante toda a jornada, oxigenando a mostra e ampliando seu alcance reflexivo. Penso que uma maior presença deveria ser cobrada dos grupos participantes em todas as atividades formativas e reflexivas, como contrapartida ao esforço da organização em viabilizar o intercâmbio. Essa participação auxiliaria no mapeamento dos grupos, suas estruturas e formas de manutenção artística.

Quanto à mostra propriamente dita, o recorte lusofônico promove um desnivelamento qualitativo significativo, fazendo o espectador transitar por estéticas e linguagens atípicas, ora seja por contingenciamento econômico evidente, ora pela peculiaridade da construção desenvolvida naquele país. No geral, percebe-se que há um esforço conjunto, por parte da produção e dos grupos convidados, para conseguir manter de pé uma proposta tão autêntica e tão na contramão do mercado cultural; e estendê-la para todo o estado, pois a mostra se ramifica por outros municípios do Piauí, alargando o alcance dos recursos públicos envolvidos.

O encerramento da programação de cada dia acontecia no espaço Trilhos. O encontro dava o tom afetivo que o festival propõe. Toda noite, músicos dos mais diversos estilos, desfilavam seus sons para uma plateia feita de pessoas de todas as artes. Movimentos, conversas, performances espontâneas, discursos, improvisos, integravam realidades de países tão distintos ligados pela língua, em alguns casos, literalmente.

Foi uma experiência deliciosa e exaustiva (me propus acompanhar todos os espetáculos da mostra e todas as atividades reflexivas, tornando a rotina diária uma jornada que começava às 9h e terminava às 3h.), e em cada momento, em cada canto, em cada diálogo a certeza da potência que encontros artísticos dessa natureza têm para ajudar a confrontar momentos tão duros como os que estamos enfrentando atualmente. Os afetos envolvidos também me tornam suspeito, mas quero acreditar que, ao enfrentar um desafio tão instigante quanto o FestLuso oferece, todos os envolvidos – organizadores, artistas e voluntários – estão empenhados em superar-se, ano após ano, na busca de produzir o melhor festival possível para a comunidade piauiense.  

domingo, 28 de agosto de 2016

As tolas palavras de um charlatão


A falta de reflexão crítica é o principal fator que amarra o desenvolvimento da cena teatral maranhense. Falo da nossa aldeia por não possuir nenhum fundamento para alargar a análise além das fronteiras do nosso umbigo. Nossa produção só adquirirá uma potência que extrapole as fronteiras do nosso estado quando tivermos condições de enxergar a nossa mediocridade e, a partir desse exercício, provocar nossa criatividade na busca da excelência que o teatro exige, pois, arte não admite meio-termo.

Nossa dificuldade em lidar com a crítica (tomo o termo em sentido único, pois não acredito em crítica destrutiva, por menos favorável que ela seja) vem entorpecendo a análise de nossa produção. E assim, fomos nos tornando uma classe corporativa, onde elogios superficiais abundam e tudo o que vemos é genial – mesmo que uma simples virada de costas desconstrua a opinião inicial, e retornemos para o nosso ego vociferando a real opinião.

Se você precisar de um companheiro para admitir, eu ajudo. Desde minha adolescência venho lutando com a dificuldade de assimilar as críticas no que se refere ao meu fazer teatral, e, frequentemente, me observo estruturando um discurso de compreensão para abafar minha dolorosa labuta com esse exercício. Por quê? Porque alguns artistas (estou lhe dando a chance de se isentar) lidam com o fantasma da mediocridade, a pretensão da genialidade, com a vontade de estar fazendo algo relevante, com a utopia de mudar o mundo. Só consegui começar a entender a função das críticas quando comecei a admitir os meus fracassos. Ainda estou tentando.

Nós temos a liberdade de fazer uma reflexão crítica sobre o trabalho de algum colega e expô-la sem constrangimento? Estamos preparados para ouvir uma reflexão crítica do nosso colega e recebê-la sem constrangimento? Arrisco a dizer que não, e, por isso, ouvimos, repetimos e institucionalizamos os acenos de parabéns, bravos e uhus. Maravilhoso, genial e fantástico também são adjetivações comuns. Menos. Enxerguemos o lugar do teatro maranhense na cena teatral brasileira dos últimos trinta anos e perceberemos que nosso autoelogio não contribuiu em nada para o amadurecimento do nosso fazer.

Hoje escrevo no contexto do FestLuso – Festival de Teatro Lusófono, em Teresina, dentro do NORTEA – Núcleo de Pesquisadores Teatrais do Nordeste, fórum propício para oxigenar o pensamento, para exercitar a humildade, para identificar nossas falências, para tentar entender nosso lugar na cena, para perceber a nocividade da vaidade artística – tema da minha próxima postagem. Aqui, o exercício da reflexão permanente se estabeleceu, propiciando-me o tempo e a distância necessária para enxergar o óbvio.

Não saberia diagnosticar por que nos tornamos essa fonte inesgotável de hipocrisias. Só tenho suspeitas. A primeira passa pelo afeto. Ao não estar preparado para sofrer críticas (a utilização do verbo sofrer não é gratuita) nos precavemos elogiando os nossos pares, por receio de que o efeito desta seja o mesmo que sentimos quando criticados, e com isso, deixamos de estabelecer parâmetros reflexivos para o artista que espera (ou deveria esperar) a verdade do nosso olhar perante a obra apresentada.

Precisamos admitir isto, sobre pena de cairmos no ostracismo artístico, retroalimentando nosso egocentrismo. Quem de nós já teve a coragem de dar, sem receio, uma opinião verdadeira perante o olhar afetuoso, fraterno e esperançoso do artista amigo que a espera, como se esta fosse a sentença definitiva para a obra em questão? Reflexão crítica, opinião, ponto de vista, impressão: é apenas isso. O meu olhar não refletirá a verdade, mas a negação de um olhar verdadeiro refletirá na trajetória do espetáculo, pois, o silêncio esconderá o contraponto necessário para os vivas, aplausos e loas.

Precisamos ser mais amigos. Mais sinceros. Mais delicados. Mais dedicados. Precisamos entender que a arte não resiste sem verdade, e que a verdade é fundamental para a análise de qualquer obra, pois os diversos e múltiplos olhares ajudam a reorganizá-la. Não é possível que sejamos assim com nossos amigos. Digamos a verdade, ou admitamos que não estamos em condições de dizê-la pelo envolvimento afetivo com o interlocutor. Desconfiemos se só ouvimos elogios. Cobremos a honestidade dos próximos, dos pares.

Mesclo a condição de artista e espectador propositadamente, pois em um estado onde não há reflexão crítica formal, onde os meios de comunicação só se dedicam a reproduzir releases, nós cumprimos essa dupla função, mesmo que a contragosto. A recente passagem de Beth Néspoli e Kil Abreu pela Semana do Teatro no Maranhão foi fundamental para sinalizar os caminhos de uma reflexão crítica delicada, produtiva, atenta, dedicada; contudo, conseguimos perceber a importância e reavaliamos nosso posicionamento quanto à forma de receber diferentes opiniões? Espero que sim. Espero que eu esteja totalmente errado, que seja o único que tenha dificuldade em lidar com críticas, que seja o único que omita sua real opinião, que a realidade da cena maranhense seja apenas um problema sócio-político-cultural, e não tenha nada a ver com falta de autocrítica. Tomara. Dessa maneira, bastaria me banir e todos viveriam felizes para sempre.  

domingo, 21 de agosto de 2016

Entretecendo a teia da revolução


Anteontem encerramos nossa participação no SESC Amazônia das Artes, e mês passado concluímos nossa circulação pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura. A experiência de circular e suas consequências já foram postas aqui diversas vezes, sobre plurais pontos de observação. Todavia, em todos, a ressalva quanto a importância dessa deslocação permanente para que um grupo de teatro possa manter uma pulsação contundente, artística e financeira.

No decorrer dos últimos anos, precisamente treze, esse exercício foi possível graças a uma atenção específica por parte do governo federal, através dos mais diversos programas de fomento ao teatro, que culminou em um fortalecimento de coletivos teatrais palpável, reconhecível, admirável. Esse esforço conjunto, operado por estes dois atores – grupos e governo – possibilitou que plateias de todo o Brasil tivessem acesso ao teatro de todo o Brasil, experiência capital para o desenvolvimento de cidadania (o espectador conhece o país através dos dizeres apresentados por cada estado), para o fortalecimento do sentido de pertencimento (o país é nosso, e cada parte dele diz da nossa identidade) e para a redução dos preconceitos de classe, gênero, região, cor, religião etc.

Agora, o grave momento político vivido e os claros e daninhos caminhos sinalizados pelo Ministério da Cultura, me provocam a reflexão quanto a pouca atenção que foi dada por nós, grupos de teatro de todo o Brasil, para a consolidação de uma rede sólida de teatro que caminhasse paralelamente à esfera pública, e construísse condições de autonomia gerencial, formativa,  financeira – não cito a autonomia artístico-criativa porque creio que essa permaneceu imutável independentemente de qualquer tipo de pressão recebida. Inúmeras experiências aconteceram, com os mais diversos nomes, e semana passada, enquanto circulávamos, acontecia o III Congresso do Teatro Brasileiro, em Goiânia. Foi pouco. Para o poder que nos foi dado na última década, nossa articulação como atores políticos foi parca, e nossa ação de construção estrutural de inter-relações artísticas e sócio-político-econômicas foi tímida, por vezes, preguiçosa.

Nos foi dada a oportunidade de tecer uma teia indestrutível, onde o poder do intercâmbio, do conhecimento mútuo, da colaboração recíproca entre vinte e seis estados de um gigantesco país seria o principal instrumento de combate às arbitrariedades e desmandos de qualquer projeto político que atentasse contra o cidadão. Sei que muito foi feito (movimentos, ocupações, congressos, encontros, cartas, manifestações etc.), o que tento dizer é que, ainda assim, foi muito pouco, se comparado às condições dadas. Não soubemos entender o momento e acreditamos que poderíamos viver, permanentemente, em um estado minimamente justo. Doce ilusão.

Nos cabe alargar o tempo despendido, aprender com a experiência, e fortalecer essa teia com caminhos além das estratégias que usamos até aqui. Talvez o sinal esteja no passado, quando o único mecanismo que o teatro amador utilizava para não ser massacrado era nada mais do que um contar com o outro. No fim dos anos oitenta, o grupo Ger“ar-te”, de Balsas, sabia que o grupo “Oásis”, de Imperatriz, estava lá, e podia contar com ele.  Recebíamos inúmeros artistas em nossas casas para falar da vida, que é o que o teatro faz. Nós somos muitos e, hoje, fortes. Poderíamos ser mais, e quanto maior essa força, maior o poder para movimentar as estruturas que engessam o poder público e, por consequência, o país.

O que tento dizer é que o poder do enlaçamento, do emaranhado, da tessitura, do embrenhar-se, do enredamento, do ajuntamento foi subutilizado. A força de poder contar com centenas de grupos de teatro Brasil adentro para assentar a nossa independência foi subestimada. Nos apoiamos nos pequenos sinais dados para a construção de uma política pública cultural eficiente (editais, prêmios, fomentos, leis, bolsas etc.) e pouco usamos nosso principal apoio, o mosaico de grupos de teatro incrustados por todo o país. O que digo agora é: podem contar com a Pequena Companhia de Teatro para o diálogo, para a reflexão, para as discussões, para as manifestações, mas, também, para o colchonete no chão, para a divisão do pão, para a toalha limpa; podem contar conosco para conseguir chegar a um dos estados mais pobres do pais com seus discursos artísticos, estéticos, políticos, que são o esteio da revolução que o teatro pode promover através da capilarização dos seus dizeres.

Sim, é um mea-culpa o que faço aqui. Como artista, fiz muito pouco. Como grupo de teatro, fizemos muito pouco. Como já disse, tenho conhecimento de tudo o que foi conseguido, e reconheço nosso esforço para conquistar o que temos. Ccontudo, se você, grupo de teatro combatente, ativo, militante, não entende que tento lançar um olhar além das nossas conquistas, ou sua vaidade não permite reconhecer o que não foi feito, não vejo solução para dissipar a tempestade que se avizinha.

domingo, 7 de agosto de 2016

Como crescer ficando pequeno?


Com a recente aprovação da nossa ocupação do Centro Cultural BNB de Fortaleza, em novembro, através do Edital de Seleção de Projetos Culturais, chegamos a pouco mais da metade do ano de comemoração da nossa década de teatro passando por três regiões do país, Norte, pelo SESC Amazônia das Artes (terça-feira partiremos para a 2ª etapa), Centro-Oeste, pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, e agora, uma mordiscada no nosso Nordeste. Ainda temos três meses livres para convites do Sudeste e Sul para fecharmos o aniversário com chave de roda.

Isso tudo que o parágrafo menciona, e que nos alegra profundamente, esconde um fato gravíssimo que vimos percebendo no decorrer dos últimos anos, e que hoje, como de costume, exponho aqui no blog, este muro de indagações: como crescer mantendo-se pequeno?

A pergunta pode parecer anedótica, mas explicarei seu propósito antes mesmo de você tentar responder ou desvendar. Durante os últimos anos percebemos que nossas conquistas e o robustecimento do nosso currículo tem sido prejudicial na busca de alguns mecanismos de viabilização teatral – leia-se editais e projetos de ocupação, circulação, montagem, manutenção etc. Acredite, o fato de termos nos tornado uma companhia de teatro estruturada, contínua, profissional e produtiva, virou, em certa medida, um problema.

A assertiva vem sendo percebida por outros grupos de teatro parceiros, de trajetórias incomparavelmente mais contundentes que a nossa, o que reforça a necessidade do debate que proponho a partir desta explanação: pode algo ou alguém ser punido por sua excelência? Claro que quando uso o termo excelência estou me referindo a eles, pois nós ainda galgamos, aos sobressaltos, um trilhar na busca de atingir o patamar das nossas referências, que, na maioria, são coletivos teatrais de queridos amigos.

Essa realidade pressupõe que grupos de teatro consolidados são tão estruturados que prescindem dos poucos instrumentos de apoio à produção teatral que existem no país, e que vivem em condições estáveis e confortáveis. O equívoco nefasto esconde a principal realidade de 99% dos grupos de teatro brasileiros, o de não fazerem a menor ideia do que acontecerá com eles no ano seguinte, independentemente do estágio de organização que o coletivo tenha atingido.

Se a esse problema estrutural soma-se a desconsideração por parte dos mecanismos de viabilização cultural, por pressupor a não necessidades desses, pode-se deduzir que quanto maior a trajetória do grupo maior a possibilidade de que ele acabe, o que forja um contrassenso tipicamente brasileiro. Então deveríamos tentar não crescer? Ficarmos um pouquinho piores? Não deixar transparecer nossas conquistas? A querida leitora, o caro leitor, entenderão que o dilema que aqui exponho, apesar de seríssimo, é tão irônico que não me privaria jamais de utilizá-lo para uma chacota: devemos camuflar nossas vitórias e alardear nossas derrotas?

Entendo que o favorecimento ao novo, à iniciação, ao começo é fundamental para a oxigenação da arte, e que todo aquele que começa precisa de apoio para poder se desenvolver, porém, também é verdade que nós começamos na unha, sem apoio nenhum, totalmente clandestinos, e tivemos que provar, a muito chão, porrada e decepção, que estávamos aptos a receber algum tipo de aceno, e nem por isso desistimos.

Mais uma vez vou tropeçar na ausência de políticas públicas, único caminho para aprofundar a compreensão da necessidade de estudos, mapeamentos, diagnósticos e apreciações que a sofisticada linguagem teatral requer; para que problemas capitais como o que aqui exponho não se alastrem, tornando-nos professadores de falácias com a tese de que quanto melhor for o grupo de teatro para a comunidade pior será para ele. Somente políticas públicas bem estruturadas conseguem enxergar além do óbvio, e problematizar questões que fogem do senso comum, do debate virtual, do bate-boca em rede social. Na atual conjuntura, esse sonho está ficando cada vez mais distante, e continuaremos, indefinidamente, tentando fazer no peito o que os governos não fazem por puro desrespeito.

Claro que você, que está começando a fazer teatro, deve pensar que reclamo de barriga cheia. Na verdade, e mais uma vez, estou pensando no seu futuro, se você tiver estômago, persistência, criatividade, coragem, ideal, ânimo e paciência para chegar até lá.  

domingo, 31 de julho de 2016

Entre tantas escrituras, uma homenagem ao leitor


Hoje presto uma homenagem a você, minha cara leitora, meu caro leitor. Dos meus dez anos de Pequena Companhia de Teatro, seis foram ocupados escrevendo neste blog, em um permanente adestramento do pensamento para tentar estabelecer um diálogo reflexivo, escrevendo sobre teatro e todo o seu entorno, o mundo, pois, para mim, o mundo gira em torno dele.
Portanto, hoje abandono minha permanente lamúria quanto à sua indiferença, minha constante chantagem por uma leitura, minha persistente insistência na sua presença, para dar lugar ao fato que escondo, por mero mecanismo de defesa, pois, sou apenas um fabulador que faz da sua escritura uma tentativa de aproximar um pensamento quanto aos caminhos que podemos seguir para sentirmos úteis fazendo algo de inútil nesta vida de exigente rendimento.
Comecei escrevendo para ninguém; outrora, para quase ninguém; logo, para alguns; mais tarde, para poucos; depois, para vários; e hoje escrevo para algumas centenas e, dependendo da postagem, milhares. Sim, essa informação que escondo permanentemente de você, para que não me abandone, hoje é uma realidade que quero externar e lhe dedicar.
É difícil prestar esta homenagem sem revelar minha surpresa ao ver a quantidade de gente que, no decorrer dos anos, se aproximou para estender seu olhar e amenizar as angústias que este parco escritor carrega na lida com um mundo repleto de injustiças, desigualdades, mazelas e intempéries. Perceber que mais e mais pessoas estão atentas às agruras de uma sociedade precária de autocrítica me fez acreditar cada vez mais na potência do diálogo e na necessidade de questionar tudo e todos, para que das questões surjam mais conceitos e menos iluminuras.
Em certa medida, íntima e cálida, você é parte do meu pensamento, parte do meu ser, parte do meu existir, parte da minha teimosa fortuna de jamais desistir. Você está aí e eu não sei se lhe conheço, mas você me conhece na mais profunda intimidade e me ampara com a generosidade de um irmão, de uma amiga, de um compadre, de uma companheira, extraindo de mim um compromisso inadiável, um diálogo inimaginável, um franqueamento incurável.
Por isso, minha homenagem. Jamais desista de mim, minha cara leitora, meu caro leitor. Jamais abandone a esperança de tornar o diálogo a arma para combater as mazelas do mundo, as faltas sociais, os descompassos da vida. Você é a minha esperança de que ainda existe espaço para a reflexão, para o pensamento, para o questionamento, para o velado desconforto atual de debater ideias.
A homenagem não apresenta uma justificativa palpável. Não é uma data específica, nem é o dia que iniciei este exercício; não há marca no calendário, não estou morrendo (espero), nem vou parar de escrever. Não há nada que pontue esta homenagem, a não ser o reconhecimento do quão importante você se tornou no decorrer dos anos, e no quanto eu, por mero exercício de sobrevivência criativa e literária, insisti em ocultar, imaginando que talvez um dia, sem aviso prévio ou motivo justificável, você fosse desaparecer. Obrigado. Por mais infiel, irresponsável, traidor, displicente e preguiçoso, você jamais me abandonou.

domingo, 24 de julho de 2016

Relato confessional sobre um conflito existencial


Durante toda a minha vida teatral me esquivei da palavra método quando se referia a práticas e teorizações organizadas por mim para o desenvolvimento de um ator pleno. Processo metodológico, treinamento, prática metodológica, metodologia, sistema, uma sorte de expressões e termos que serviram para camuflar, esconder, velar o desenvolvimento de algo que, ao nomenclaturá-lo como método, manifestava uma pretensão não condizente com o sentido da minha trajetória, porque, aos meus ouvidos, as palavras método e metido forçavam uma paronímia constrangedora.

Hoje, quase trinta anos depois de uma lida permanente e conflitante com o teatro, me pergunto: por que não chamar nosso sistema de operação do Quadro de Antagônicos de método? Pode ser insignificante, ineficiente, trôpego, claudicante, mas, tecnicamente, não seria um método, quer eu queira querer ou não?

Para simplificar o diálogo comigo mesmo recorro ao dicionário, e transponho a definição: 1) procedimento, técnica ou meio de se fazer alguma coisa, esp. de acordo com um plano. 2) processo organizado, lógico e sistemático de pesquisa, instrução, investigação, apresentação etc. É o que desenvolvemos, no mínimo, há mais de uma década com o Quadro de Antagônicos. Sei que o fato nomenclatural é irrelevante, mas o que faço aqui é um desafogo quanto à minha angustiante relação com essa palavra, instrumento de cânones intocáveis da teoria teatral.

Não sei se o que expresso tem alguma importância, nem se resolve o meu conflito, mas creio que desmistificando publicamente certos conceitos arraigados em mim, endosso a desmistificação de outros tantos que engessam o fazer teatral, principalmente para que novos agentes não demorem trinta anos como eu para se livrar de alguma amarra. Todo engessamento na arte é nocivo, inclusive quando o gesso vem da resistência em se engessar com uma palavra – haja dicotomia paradoxal para justificar essa última frase!

É isso. O breve comentário que aqui faço sobre o tema, e que me é tão incômodo, foi provocado em uma das oficinas que ministrei recentemente pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, quando o caro Táliton questionou meu receio e opôs-se contundentemente à minha resistência em utilizar o termo. Como o tempo na oficina não possibilitava minha réplica, prometi que a faria em uma futura postagem. Eis.

E agora, caro leitor, o meu sussurro final. É assombrosa a função confessional que, por momentos, este instrumento [o blog] exerce sobre minha vida profissional e pessoal – que nada mais é do que tratar de teatro dentro de casa. Espero que tenha alguma valência para você, pobre confidente a quem convido a receber a confissão. Não fosse assim, eu morreria seco.
 
 

domingo, 17 de julho de 2016

Teatro em movimento – a roda da fartura


Hoje encerramos o projeto Pai & Filho, pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, que buscou ocupar, com o maior número de atividades possíveis (apresentações, debates, oficinas e um fórum permanente de reflexão com um grupo de teatro convidado), o Centro-Oeste do Brasil (as cidades de Primavera do Leste/MT, Campo Grande/MS e Goiânia/GO), região menos atingida pelas circulações da Pequena Companhia de Teatro até aqui, pois só Cuiabá havia nos recebido, em 2012.
É o teatro que nos move, literalmente. Nos movimentamos durante uma década, em todas as direções; seguimos por via terrestre, aérea, fluvial; de carro próprio, de avião, de van, de balsa, de ônibus, de camionete, de carroça (sim, nossos cenários já viajaram de carroça algumas vezes), e colhemos os frutos desse trânsito no olhar de cada espectador, de cada garçom, de cada companheiro de luta, de cada cidadão.
Plateia em Campo Grande
Na região central não foi diferente. O Centro-Oeste se apresentou como um outro Brasil, dos muitos Brasis distintos que carregamos na nossa memória, basilar para a composição deste país plural, heterogêneo, multicultural, ambíguo, desigual; carregado de tanta potência e desperdiçado por tanta incompetência – política, pois a soma desses muitos Brasis demonstra que um poder não é capaz de aniquilar a soma das vontades de uma nação.
Aqui, goianienses, primaverenses, campo-grandenses nos ensinaram que Panelinha, Mojica de Pintado e Sobá são manjares incomuns, que toda cidade tem os taxistas que merece, que árvore dá sombra, que teatro pode ser um belo programa de fim de semana, que existe um maranhense em cada esquina, que o valor de um real varia; e nos relembraram que toda plateia merece apreço, seja de vinte ou de duzentas pessoas, pois, sempre haverá um espectador atento ao trabalho de uma companhia de teatro compromissada com a reflexão sobre o nosso país.   
Oficina em Primavera do Leste
É impossível não pensar nas pessoas que encontramos pelo caminho; nos produtores, assistentes, atores, diretores, assessores, amigas,  recepcionistas, alunos, técnicos, tradutores; nos grupos Faces Jovem, Anthropos, e Mercado Cênico a materializar a importância da troca de experiências; na quantidade de gente que resolveu dedicar sua vida ao teatro e seu entorno, e no quanto essa escolha pesa, para bem ou para mal.
O país só será nosso quando nos apropriarmos dele na sua totalidade. É o que tentamos fazer quando circulamos. Nos apropriar de cada sabor, de cada costume, de cada gesto, de cada dificuldade, de cada paisagem, de cada distância; nos sentirmos donos de cada parte que forma esse todo chamado Brasil.
Espetáculo em Goiânia
Quando parados, aprisionados na nossa aldeia, não conseguimos mensurar o quão importante é viajar, conhecer, entender, refletir; e chegamos a duvidar do poder que o teatro tem de provocar a reflexão das pessoas, de abrandar convicções cristalizadas, de dar concretude ao pensamento crítico, de abrir o diálogo, de redefinir parâmetros para a vida. O teatro é importante para vocês, para nós.
Hoje falo na terceira pessoa do plural, pois, se bem sabemos que como grupo somos a soma das nossas particularidades, como indivíduos somos a comunhão da nossa mais profunda intimidade, mesmo sem ter a menor consciência disso. E que venha a segunda etapa do SESC Amazônia das Artes!

domingo, 10 de julho de 2016

Passeando na contramão – 10 anos de teatro


Amanhã, dia 11 de julho, a Pequena Companhia de Teatro celebra dez anos de história. Durante os dias que antecederam a data, ocupei meu desgovernado juízo na reflexão do quão descompassadas com a norma foram as nossas opções no decorrer desta década, fazendo-nos trafegar na contramão na maioria das nossas ações, projetos, pensamentos e realizações.
O leitor atento perceberá que o que aqui faço não é um juízo de valor, e que não mensuro virtudes ou defeitos, apenas aponto o nosso contrapasso com a atualidade, sendo por vezes crítico, ou pelo menos ácido, ao abordar alguns dos assuntos da nossa prática.
No que se refere à tecnologia teatral – quando sabemos que a palavra tecnologia alude a todo e qualquer saber técnico desenvolvido para o aprimoramento do teatro – a Pequena Companhia de Teatro sempre transitou na contramão da pirotecnia, dos equipamentos eletrônicos, das novidades estéticas, dos mecanismos modernos, e focou o desenvolvimento de uma  tecnologia que favorecesse soluções simples para problemas complexos, concebendo técnicas de praticidade, precisão, operacionalidade e efetividade; alertando para a percepção de que é possível desenvolver tecnologia teatral a partir do desperdício contemporâneo, sem necessariamente depender de recursos financeiros  significativos.
No exemplo que estamos vivendo agora, outra contravenção. Sustentado pela lógica do capital, as circulações de espetáculos devem sempre realizar suas ações no menor prazo de tempo, buscando a otimização de recursos, e tornando as passagens pelas cidades fugazes, tanto para quem visita quanto para quem recebe. Nossa prática, quando são projetos propostos pela Pequena Companhia, busca a permanência na cidade visitada pelo maior tempo possível e incluindo o maior número de atividades, para viabilizar um intercâmbio efetivo, nos possibilitando conhecer minimamente a cidade que nos recebe e sermos por ela reconhecidos.
Mesmo nas atividades formativas, quando hoje prepondera a maleabilidade de conteúdo, a horizontalidade, o improviso, a descontração, a ausência de rigidez, a tolerância de horários, nossas oficinas concentram esforços em estabelecer um padrão de conteúdo, uma organização programática, uma intolerância com atrasos e ausências, uma exigência em oferecer resultados, um rigor em avaliar se os resultados foram atingidos; uma chatice. Contramão.
Em tempos de tablets, laptop, celulares e afins – e agora falo de uma prática minha – os registros de processos de montagens, oficinas, observações de ensaios, análises de circulações e reflexões são manuscritas em catálogos, diários e cadernos, que vão se espalhando pela sede e pela casa, consumindo dezenas de canetas BIC pretas, para depois deixar-me contrafeito ao precisar transportar os manuscritos para o computador, palavra por palavra, quando uma necessidade de produção me exige o transporte.
Outra curiosa oposição de sentido percebe-se na terceirização: quando a lógica atual é a de aglutinar, através da contratação de terceiros, para fazer como que o trabalho seja o mais coletivo possível, nossa prática é a de concentrar o maior número de funções prováveis, e só são buscados fora da companhia aqueles serviços que não nos sentimos verdadeiramente capazes de realizar, não significando que aqueles a que nos propomos tenham a excelência pressuposta para a empreita.
E a sede? Enquanto qualquer humano normal pensa em ter uma piscina, nós queríamos ter um teatro. Próprio. Esse desejo talvez fosse mais meu e de Katia, do que de Jorge e Cláudio. Ou, talvez, nem de Katia, pois imagino que ela ainda sonhe em pegar sol à beira de uma piscina. Ainda assim, investiu-se todo e qualquer centavo acumulado durante toda uma vida para poder conquistar a independência de espaço, fundamental para o efetivo desenvolvimento artístico de um grupo teatral dedicado à pesquisa de linguagem.
E assim chegamos à própria linguagem. No momento em que tempo é dinheiro, e quanto maior o número de montagens por ano maior a possibilidade de multiplicar os ganhos, nossas encenações levam, em média, três anos, entre o início da pesquisa e a estreia do novo espetáculo, contramão digna de multa gravíssima e perda de sete pontos na carteira.
Tudo na contramão; não calculada, não programada, não pensada, mas, contramão enfim. O tortuoso caminho de estabelecer um fazer identitário, orgânico, honesto, por vezes reinventando a roda, por vezes sendo atropelado por ela.
Como supracitado, o que faço aqui é uma reflexão sobre a nossa jornada, nesse dia que antecede o do nosso aniversário, sem apontar erros ou acertos, pois, acredito que na arte não exista certo ou errado, existem caminhos; e se bem sabemos que o caminho de dez anos não nos torna gênios, ele serve, com certeza, para descobrirmos que nós possuímos a soma dos quatro piores gênios que possa existir em um grupo de teatro – adoro antanáclases.

domingo, 3 de julho de 2016

A política da preguiça



Em 2012, durante a nossa circulação pelo Palco Giratório, assistimos ao espetáculo Cabaré, do Teatro Faces, de Primavera do Leste/MT, e debatemos com eles a encenação – prática do projeto de circulação do SESC após as apresentações. Na ocasião, também encontrávamos o querido amigo Sandro Lucose, elo entre a longínqua apresentação e a nossa proposta de ocupar o município mato-grossense com todas as nossas atividades durante a semana que hoje se encerra.
O teatro tem dessas coisas: um espetáculo, uma conversa, um amigo em comum, um contato feito cinco anos atrás, reverberam nas trajetórias dos grupos e possibilitam encontros inesperados como o que estamos vivendo aqui, graças ao patrocínio da Petrobras, através do Programa Petrobras Distribuidora de Cultura.


Quando a Pequena Companhia de Teatro pensou o termo Teatralidades foi na perspectiva de extrapolar a ideia de circulação e tentar estabelecer um conceito de permanência, convivência, entrançamento e intercâmbio com a comunidade que nos hospeda, e o primeiro passo dessa ideia encontrou eco em 2015, quando da ocupação do Centro Cultural Banco do Nordeste, em Sousa.

Agora, com o auspício da Petrobras, a experiência se estende a outras três cidades brasileiras, quando nos instalamos durante uma semana no município e tentamos entender ao máximo sua gente, as agruras, desejos, conquistas e frustrações.
Claro que nossa observação está relacionada principalmente à forma como o teatro está capilarizado na comunidade, de que maneira está inserido no cotidiano da cidade, como se confrontam a obrigação do poder público de construir cidadania e a necessidade de responder ao mercado; tentar entender em qual pé está assentada a relação teatro & cidadão.
O que se vive aqui em Primavera é uma experiência incomum. Escola de teatro, grupos, centro cultural, secretário da área teatral com profundo conhecimento teórico e prático, alunos de teatro com bolsa de estudo, professores de teatro oriundos da escola contratados para lecionar, crianças brincando de teatro, artistas vivendo de teatro, teatro em árvore, teatro em caminhão cegonha, teatro de sombra, teatro na praça, teatro de graça; e o mais surpreendente, tudo isso em um município de pouco mais de cinquenta mil habitantes.
Claro que a primeira pergunta que emerge dessa pancada criativa é: como isso é possível? Um diagnóstico mais aprofundado exigiria muito mais do que uma semana, porém, a primeira resposta que encabeça todas as outras é: vontade política. Vontade política de abraçar boas ideias. Vontade política de identificar e apoiar projetos interessantes. Vontade política de criar condições para o desenvolvimento das artes. Vontade política de contratar seu secretariado por mérito. Vontade política de não se tornar um refém do voto. Vontade política de desenvolver uma gestão programada para todo o mandato, e não para o último ano. Vontade política de ser um servidor; ressalvando que, para servir, precisa-se de vontade – infausto paradoxo.
Em resumo, não há nada mais nocivo para a sociedade do que ver seus gestores alastrando sua melancólica falta de vontade e sua aguda preguiça intelectual.
 

domingo, 26 de junho de 2016

Sem polêmicas, exclamações ou superlativos


Passei a semana refletindo sobre o quanto o teatro consegue se descolar do rolo compressor imprimido pela contemporaneidade, e no quanto ele contribui para a educação do cidadão, em tempos onde gritos, pipocas, atrasos e ruídos fazem parte do cotidiano das artes, seja no cinema, no show de música, na galeria de arte, no circo.
O teatro é templo de pontualidade. Tolerância compreende, no máximo, quinze minutos. O espectador chega pontualmente – a grande maioria – e entende que isso é necessário para a melhor fruição da obra que vai assistir. Essa conquista é do teatro, tendo em vista que esse mesmo espectador chega a um show de música com uma hora de atraso, sabendo que vai entrar, e que o show ainda está longe de começar.
Qualquer espectador minimamente acostumado com uma sala de teatro sabe que não entrará para ver um espetáculo comendo ou bebendo, jamais. Essa conquista é do teatro, pois, esse mesmo espectador vai ao cinema e se empanturra de pipoca e refrigerante, sem o menor constrangimento.
O mesmo espectador do parágrafo acima sabe que, após adentrar na sala onde acontecerá a apresentação teatral, seu silêncio é o primeiro indício manifesto do respeito que ele tem pelos artistas em cena. Outra conquista do teatro, pois sabemos que, o reiterado espectador, não só cochicha, como conversa e brada em qualquer sala de cinema ou casa de show.
Hoje, em pleno século vinte e um, qual é o único lugar onde se desliga o celular antes de entrar? Na peça de teatro. E caso aconteça o indesejado esquecimento, corre-se o risco de que o toque do celular gere a virada do pescoço e o olhar de toda a sala, identificando em você o extraterrestre mais distante no espaço, ou o troglodita mais distante no tempo.
São amenidades que tornam a vida em coletivo mais afável, mais amável, mais sociável. São coisinhas sem importância que transformam as pessoas e ajudam a construir o sentido de cordialidade, boa educação, respeito. Pontualidade, assiduidade, atenção, reconhecimento, são predicados importantes na constituição do cidadão, e o teatro, com a parcimônia que lhe é particular, contribui para robustecer esses sentidos no imaginário das pessoas.
Sim, de fato, é sobre essa grande bobagem que eu estendo minha reflexão hoje. Um assunto menor, anódino, entediante: educação. Algo fora dos holofotes, mas que fundamenta meu esforço recente em explicitar a importância do teatro na vida das pessoas.
Percebam que a peça nem começou ainda.  Tudo o que advém da cena quando a cortina se abre é reconhecidamente construtor de dizeres que formam, esclarecem, questionam, contestam. Minha defesa hoje é mais sutil. Apenas destaco aqui a ação efetiva de formação cidadã que o teatro oferece antes mesmo do espetáculo começar – lembrando que, no teatro, antes da cortina se abrir, temos o nada. O teatro tem esse poder. Só ele pode fazer do nada um espaço de ensinamentos para a vida toda. 

domingo, 19 de junho de 2016

Arte não é adorno, cara pálida!


No ano em que completa dez anos de ininterrupto fazer teatral, a Pequena Companhia de Teatro mantém sua vocação itinerante, e celebra circulando com seu repertório de espetáculos por duas regiões completas do nosso país – Pai & Filho, pela região Centro-Oeste, através do Programa Petrobrás Distribuidora de Cultura, e Velhos caem do céu como canivetes, pela região Norte, através do SESC Amazônia das Artes.
Mas, como quase nada é festa, depois desses dez anos de história, o principal desafio do grupo continua sendo o mesmo: produzir teatro e sobreviver dessa produção em uma das periferias mais miseráveis e agônicas do país, o Maranhão.
Nosso fazer atual, e durante toda a última década, vem se sustentando com a democratização dos recursos públicos federais disponibilizados nos últimos anos, e de parceiros específicos da iniciativa privada (leia-se SESC e SESI), fatores que nos possibilitam resistir à indiferença recebida dos poderes públicos municipal e estadual, que insistem em construir nossa invisibilidade.

Agora, é o governo federal que guina para a destra e o desastre é iminente. Nós artistas, que vimos encontrando na arte uma forma de construir um dizer comprometido com a efetiva consolidação do conceito de cidadania, sabemos que os sinais dados levam os rumos da cultura do país à fatídica condição de mero evento.

O que essa situação tenta esconder é a notória necessidade de combater o pensamento crítico, a reflexão política, o desenvolvimento cultural. O provincianismo imperante em nosso estado, e que agora se estende Brasil afora, continua sendo o de olhar a cultura e a arte como um enfeite de bolo, um entretenimento para as elites, uma disfarçada mercadoria para turista ver. Exemplos tácitos desse caminho são a frustrada tentativa de extinguir o Ministério da Cultura, por parte do governo federal, e o menoscabo da cultura ao fundi-la com o turismo, por parte do governo estadual. A ideia de política pública cultural é uma nebulosa fantasia, e nós, artistas, continuamos pautados pelo calendário festivo de Carnaval, São João, férias, Pátria, Natal e Réveillon.
Um grupo de teatro como o nosso – que tem como objetivo a pesquisa, o desenvolvimento de linguagem, a revisão histórica, a contestação da realidade atual, a reivindicação de uma sociedade mais justa e equilibrada – ao encontrar-se incrustado no cerne de um ambiente tão inóspito para o desenvolvimento sociopolítico-cultural, despedaça-se na tentativa de manter-se erguido, atuante e contundente na reivindicação dos direitos dos pequenos, dos menores, dos sem voz, como demostrado nos nossos dois últimos espetáculo, ao visitar temas como poder e miséria.
Enquanto os poderes municipal, estadual e federal constituídos não conseguem enxergar o nosso fazer como instrumento importante para a consolidação de uma sociedade mais empoderada, é a circulação do nosso pensamento pelo país nossa principal força motora, comprovada com a extensão do nosso circuito nesses dez anos de viagens, intercâmbios, aplausos, vivências, quilômetros, plateias e bagagens. Os projetos que celebram os dez anos da Pequena Companhia de Teatro são exemplos manifestos do aqui posto.

 

 

sábado, 11 de junho de 2016

Que lugar o teatro ocupa em sua vida?


A Pequena Companhia de Teatro abriu as portas da sua sede há mais de três anos. De lá para cá, foram ofertados, gratuitamente, diversos espetáculos, oficinas, palestras, seminários, encontros, reuniões, lançamentos, jantares. Por aqui passaram, aproximadamente, mil e quinhentas pessoas. Recebemos artistas dos mais diversos lugares do Brasil, primordialmente para visitas, e todos, sem exceção, ficaram encantados com as condições de trabalho, a beleza do espaço, a riqueza de detalhes que favorecem o fazer teatral, o conforto oferecido para cada espectador que aqui se aprochega.
Contudo, o curioso, é que há conhecidos íntimos – aqueles que cordialmente chamamos de amigos – que não conhecem nossa sede, nunca assistiram a uma das cinquenta apresentações de espetáculos teatrais que aqui aconteceram, e sequer conhecem o endereço. Minha bajulação incessante para conseguir a atenção de alguns beira a humilhação, portanto, nem o argumento da desinformação, nem a desconfiança qualitativa valem para justificar a ausência de interesse, a não ser que seja da turma do “não vi, não gosto”.

Não. O que faço aqui não é um reproche. Apenas indago: qual o lugar que o teatro ocupa na sua vida? Se o caríssimo leitor, que acusa o golpe semanal de ler esta postagem, puder se perguntar, avaliando as consequências da resposta para o fazer teatral maranhense, estará nos auxiliando no diagnóstico do nosso espectador assíduo e do nosso conhecido íntimo.
O país vive um momento obscuro, e todos nós, que fazemos teatro há mais de vinte anos, sabemos no que tudo isso vai dar. Nesse quadro, se a tragédia se confirmar, o único esteio que permanece é o elemento basilar do teatro: o espectador. Mas, como continuar erguendo a utópica torre de papéis se a sustentação é frágil a ponto de não atingir aquele que seria o primeiro a fundamentar nosso propósito?
Provocando a discussão, refletindo, indagando: qual o lugar que o teatro ocupa na sua vida? Sim, a pergunta é sobre o teatro, e não sobre a arte. A música você pode ouvir em casa, o livro, lê-lo no ônibus, o quadro pode estar na sua parede, mas, o teatro, precisa de você, ali, frente a frente, para poder existir.
Sou da opinião de que o público que se tornou cúmplice da nossa empreitada na última década é a coisa mais preciosa e inimaginável que um grupo de teatro pode conquistar; basta fazer um pequeno retrocesso no tempo, como escrevi outrora aqui. Entretanto, é necessário diagnosticar as condições em que se estabelece a relação entre teatro e espectador para que, passada outra década, nossa surpresa seja ainda maior.
Porém, e principalmente, é preciso estar em permanente estado de autocrítica. E é o que aqui também agora faço. Para nós, que fazemos um teatro mais reflexivo, com um diálogo menor com o mercado, a chave inicial que se apresenta é a de extrapolar os limites do conhecido íntimo, do artista, do apreciador de arte, do professor, do aluno.  Estender nosso alcance ao cidadão plural, aquele que está no ônibus, no consultório, na feira, no bairro, na padaria.
De que maneira fazer isso é que são elas, ele, tu, eu, vós, nós. Enquanto isso, se você não gosta tanto de teatro, venha pelo menos conhecer o jardim, e o jardineiro.