domingo, 10 de junho de 2018

Enquanto nós latimos, a caravana passa!


Nós, artistas, temos por hábito reclamar da gestão, e atribuímos grande porcentagem da nossa desdita à incompetência gerencial de toda e qualquer instituição, seja ela pública ou privada. Hoje tenho um fato que me permite fazer de advogado do diabo, e desenvolver uma análise que fará o contraponto a essa permanente vigilância, virando a metralhadora contra nós mesmos.

Embarco, neste exato momento, para Macapá. Ano passado participei do SESC Dramaturgias, como tanto tratei aqui; e qual foi a minha surpresa e alegria ao receber o convite para participar novamente este ano, agora com a oficina sobre a dramaturgia do ator? Mas, o maior espanto não veio com o convite, e sim, com a necessidade de mudança do formato anterior, pois os resultados atingidos no ano passado não alcançaram as expectativas.


Explico: em 2017 o projeto oferecia oficinas de dramaturgia com formato de 32h/aula, divididas em dois encontros, com um significativo tempo de estudos, maturação e produção entre um encontro e outro, iniciativa que me era muito cara, como destaquei aqui, aqui, aqui... Eis o meu assombro quando recebo a informação de que o formato agora obedeceria a carga horária de 20h, em um encontro único. Ao indagar os gestores sobre os motivos da mudança, recebo como resposta o argumento que é objeto da reflexão que hoje proponho: na maioria das oficinas ministradas se comprovou um esvaziamento significativo entre o primeiro encontro e o segundo.

Como? A instituição oferece maior carga horária, dois momentos para aperfeiçoamento da pesquisa, intervalo entre os encontros para desenvolvimento das práticas – aumentando despesas, exigindo grande empenho por parte dos idealizadores para sensibilizar os promotores – e a classe artística responde com evasão, desinteresse, desprestígio? Se fosse um caso isolado poderíamos atribuir o fato à qualidade profissional do oficineiro, mas, sendo a grande maioria, a teoria cai por terra antes mesmo de levantar voo.


E daí vem a provocação que hoje faço: é muito fácil reclamar, exigir, reivindicar; difícil é trabalhar, pesquisar, estudar, praticar. Como pode ser que percamos algo tão valioso por pura displicência nossa? Não é o primeiro projeto, edital, programa, fomento, que perdemos por falta de empenho, disposição, prontidão, assiduidade e, claro, reivindicação.

Como sempre dou a primeira cajadada em mim mesmo, me perguntem quantas oficinas do SESC Dramaturgias frequentei antes de ser convidado para participar do projeto como oficineiro? Nenhuma! Sempre tinha uma circulação, uma montagem, uma visita, um jantar, um jogo de botão. Será? Ou sou gênio demais, e não tenho nada para aprender com artistas que admiro como Fernando Lopes, Wilson Coelho, Vinícius Piedade, Pedro Vilela, Henrique Fontes, Altemar Di Monteiro, só para citar amigos? Entendem onde quero chegar? Quanto nós, artistas, somos responsáveis por nossa condição? Estou eximindo os gestores? Claro que não. Eles têm a obrigação de atender as demandas de uma classe, mas se a oferta não for absorvida, evidentemente que a reivindicação escancara sua esterilidade. 


Como no caso que hoje problematizo: quantas vezes reclamamos que as atividades formativas precisavam alargar a sua carga horária, pois as práticas recentes estavam mais para pequenas vivências que para oficinas propriamente ditas? Quantas discussões perpassaram o assunto nesta mesma sala onde agora escrevo, com atores das mais diversas funções do fazer teatral? E quando se disponibiliza uma atividade com carga horária que se equipara a de meia disciplina de qualquer curso superior – o que não é pouco para uma oficina – respondemos com evasão.   

A crítica à gestão, seja pública ou privada, essa vocês conhecem, e está em uma porcentagem significativa de tudo o que escrevo aqui. Hoje queria tentar fazer uma avaliação sobre as nossas responsabilidades. Alguém reclamou da mudança do formato do SESC Dramaturgias para uma carga horária menor? Alguém poderia reclamar, com a assiduidade que apresentamos? Enquanto não tivermos o entendimento da responsabilidade que uma reivindicação gera naquele que reivindica, continuaremos bradando indiscriminadamente, reivindicando o óbvio; e seremos tratados como bufões, arautos do caos, bocas-de-confusão.


Claro que, a partir da postagem, o artista absoluto saltará em defesa de si próprio, tentando virar a metralhadora novamente para o projeto ou a instituição, dizendo que blá-blá-blá. Pare! Que, neste caso específico, fica feio. Os fatos são irrefutáveis até para mim, defensor ardoroso do formato anterior, e crítico contumaz de tudo e de todos – os números inibiram a minha réplica quando se fez necessária.

sábado, 2 de junho de 2018

Chove canivetes e não chove espectadores



Você, assídua leitora ou caríssimo – e não menos assíduo – leitor, deve estar estranhando a antecipação da postagem dominical para hoje. A explicação é simples: o fato que narro a seguir é o provocador da minha reflexão, e ele acontece no dia em que o criador descansou – ancoro que, sendo Ele, teria eu tirado um ano sabático.

Hoje iniciaremos uma curta temporada do espetáculo Velhos caem do céu como canivetes aqui na sede – Rua do Giz, 295, Praia Grande –, que durará até segunda, sempre às 19h, e com a peculiaridade de ser paga (R$ 20,00), pois das trinta e três apresentações do espetáculo, em São Luís, apenas três foram pagas, em outra curta temporada que fizemos em 2015.
O espetáculo concluiu mês passado uma jornada singular pelo Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, aprovado para circulação pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, com outras 56 companhias do país. A informação não é irrelevante, nem as 76 apresentações, os 5.265 espectadores, as 23 cidades visitadas, os 14 estados, o SESC Amazônia das Artes, a ocupação CCBNB Fortaleza, os dois Myriam Muniz, os quase 5 anos em cartaz. Todavia, por incrível que pareça, isso não tem relevância alguma em relação ao assunto que passo a abordar.

Para nós, a temporada regular do nosso repertório aqui na sede é a ação mais importante e sintomática do ano, pois diz da nossa estratégia de resistência, sobrevivência e guerrilha para superar um estado que não entende a nossa existência como fator de desenvolvimento humano.

Como nós entendemos assim, estamos permanentemente pensando em como reexistir – roubando a expressão que o querido César Ferrário usou no nosso último encontro –,  e apresentar nossos espetáculos na cidade que nos sedia parece uma alternativa óbvia, mas não é bem assim. Claro que o milhão de habitantes da cidade esconde um público potencial que seria mais que suficiente para que essa nossa ação fosse permanente e bem sucedida. Contudo, o primeiro grande nó é que, ao sermos invisíveis para o governo como agentes de desenvolvimento humano, por consequência sócio-político-cultural, também somos invisíveis para a maioria dos cidadãos ludovicenses. Eles não sabem da nossa existência; nem imaginam que existam teatros alternativos no centro de São Luís; nem desconfiam que o Maranhão produza artisticamente algo além de boi, tambor, bloco ou riso; nem sonham que tem grupos de teatro maranhense rodando o Brasil; ou seja, nosso superpoder de invisibilidade gerado pela gestão pública também afeta a nossa relação com o mercado, que no nosso caso, atende primordialmente pelo nome de público pagante.

Esse gargalo tem sido quase intransponível para nós. Como chegar – sem recursos para marketing, propaganda e todo aquele conhecido blá-blá-blá – a esses 5% da população de São Luís que, sabemos, aprecia o teatro que a gente faz, mas que não sabe que fazemos, e que representa algo em torno de cinquenta mil habitantes? Esse público garantiria nossas temporadas regulares pelos próximos 83 anos (!), tendo em vista que o teatro da nossa sede comporta, no máximo, 100 espectadores. Mas, também sabemos que esse é um número hipotético, e que a nossa realidade é fazer um esforço descomunal para garantir os 35 espectadores de hoje à noite. 


A discussão é recorrente, inclusive aqui no blog, e esbarra num fato mais curioso. Na bem sucedida temporada de Pai & Filho, dois meses atrás, foi surpreendente constatar a quantidade de pessoas do meio artístico, ou amigos, ou conhecidos íntimos, ou sensíveis ao teatro de pesquisa, ou docentes e discentes dos cursos técnicos e superiores de teatro e artes afins, que ainda não tinham assistido a um espetáculo que está há mais de oito anos em cartaz, e que acumula 150 apresentações. Ou seja, nossa dificuldade ainda consiste em convencer o entorno sensível, que dirá o recorte populacional potencial que pressupomos existir? Aqui a questão é pessoal: o que faz uma pessoa que gosta, trabalha, pesquisa, leciona ou estuda teatro não ver um espetáculo da sua cidade, na sua cidade, sendo que esse espetáculo foi ofertado de todas as formas possíveis durante quase uma década?

Claro que tudo isso que aporto aqui já me respondi na postagem Se no teatro servissem mocotó o meu mundo estaria completo, mas não podemos, como grupo, padecer sobre uma condição sócio-político-cultural sem tentar fazer alguma coisa que modifique essa realidade. Queremos ofertar um tipo de teatro, sabemos que há espectadores receptivos a esse tipo de experiência, mas não sabemos como localizá-los, ou não temos recursos para tal. Ao nosso alcance está a tática de guerrilha que estamos tentando desenvolver desde a última temporada de Pai & Filho, que envolve intervenções urbanas, panfletagem, estudo e utilização de mídias sociais, lambe-lambe, visitas a instituições, banners em locais estratégicos, convites pessoais, mas tenho a suspeita de que para estas três únicas apresentações do ano, em São Luís, será insuficiente. Prove o contrário ajudando a lotar as casas, comparecendo, compartilhando a informação, recomendando aos filhos, pais, alunos, amigos. Assim, você será o responsável em transformar o superpoder da invisibilidade no da onipresença.

domingo, 27 de maio de 2018

A vida que o teatro esconde


No início dos anos noventa vivi uma experiência que marcaria toda a minha vida teatral, e balizaria meus conceitos de potência criativa, disciplina, verdade, organicidade, prontidão e despudor. A jornada resultou em um mergulho experimental entre a atriz Noira Neuma e eu. O pretexto inicial, que envolvia outros participantes, era à montagem do texto “Perdoa-me por me traíres”, de Nelson Rodrigues, que, abortado não suspendeu a nossa pesquisa, e, sobre um novo pretexto – “Valsa Nº 6”, do mesmo autor – mantivemos o mergulho, somente ela e eu. Digo pretexto, pois no avançar da pesquisa, percebemos que a vivência dizia mais do que a montagem em si; quase que numa odisseia grotowskiana (falo do seu momento ritualístico final), a prática experimental que realizávamos contemplava mais os nossos anseios do que a pressuposta montagem, e, logo-logo Nelson foi esquecido, tanto quanto a cena, a dramaturgia, o espetacular e a relação palco-plateia. Absortos, embrutecidos, chocados, admirados, nos entregávamos, dia a dia, ao abismo que nos propusemos, e extraíamos desse mergulho, a vida que o teatro represa, e que acreditávamos como a pulsação verdadeira da cena não encenada; estávamos embevecidos da falta de experiência que exalávamos, mas seguros da sofisticação conceitual que experimentávamos. Como preambulei, a experiência me marcou. Carrego até hoje sensações, visões, cheiros, angustias, infortúnios e saberes dessa vivência.   

Hoje, em Caxias, depois de quase trinta anos, sinto lampejos ficcionais, pulsações do vivido, rememorações. Como já tratei na postagem Idiossincrasias de habitar Maranhão, tenho feito pequenas visitas para acompanhar a montagem de "A garota e o anjo", do Balaio Coletivo, e quem quiser saber detalhes sobre a sina de um grupo de teatro no interior do Maranhão, suas dores e sortes, meu estar, e demais intrigas, sugiro clicar no título que esconde o link e dar uma lida, pois vale entender o nosso problemático fazer teatral antes de redesenhar a distribuição de poder entre aqueles que se postulam para nos governar.

O que motiva minha postagem hoje diz respeito a esse "viver teatro", e a disposição criativa, que liga o experimento noventista aos meus dias em Caxias, colore o argumento. Aqui, um grupo de teatro tenta entender o seu processo, lida com os descalabros da opção, mas mantém pungente um vigor destemido.

O que buscávamos, Noira e eu, se a cena não era o fim? O que um pregresso esvaziamento de sentido formal pode ainda produzir no meu ser quase trinta anos depois? Sempre senti em mim resquícios de sabores oriundos dessa vivência. Sempre senti que eles estão lá, na Pequena, no meu trabalho com a Máscara, em tudo o que fiz até aqui.

Hoje tento falar, de maneira obtusa, daquele teatro que está além da cena. Daquele experimento irreproduzível, daquele processo abortado, daquela incomensurável pulsação perdida, daquele sussurro de vida plena que não tornou a se repetir, daquela inflexão perfeita que se foi, daquela ação que ficou gravada em nossa mente, e que a técnica não conseguiu reproduzir. O sopro da verdade. O grito emudecido pelo pranto. O corpo que ao saltar para no espaço. O abraço que carrega a dor do mundo. O aperto de mão que aturde nossa existência. O fim daquele ensaio que avisa: isto não se repetirá jamais. Hoje tento falar do que está fora dos sessenta minutos de cena. Hoje tento falar dos outros noventa por cento que formam o fazer teatral, e que o espectador desconhece. Toda obra teatral, por mais retumbante que seja, é um suspiro do vivido, um espasmo da experiência total, uma mísera reprodução imperfeita da verdade vivida no processo. Hoje tento falar de algo que não se define, e sei que não consigo falar nada.

domingo, 6 de maio de 2018

A arte de perturbar


Foram trinta dias na estrada. Dias de desassossegos e calmarias. A estrada é a palmatória que abarba os homens. Os desiguais se alinham, por bem ou por mal. Agenda, horários, refeições, compromissos, lazer, fuso, tudo gira em torno de um bem comum: o sucesso da empreitada. Em circulação, tudo o que de humano possa ser patético, se torna menor: manias, dores, humores, amores, rumores. A estrada dobra o soberbo, brune o rústico, açoita a megera, contradiz o absoluto, adoça a ríspida, ressabia o crédulo. Nenhum ser, por mais desumano, sai imune da contaminação humanitária que uma circulação teatral provoca. Circulas com teatro, humano és.

Domingo passado concluímos o projeto Velhos caem do céu como canivetes, pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura. Foram 4 cidades (Alta Floresta/MT, Primavera do Leste/MT, Campo Grande/MS e Dourados/MS), 12 apresentações, 1.226 espectadores, 12 debates, 4 oficinas, 86 concludentes, 4 intercâmbios (Teatro Experimental de Alta Floresta, Teatro Faces, Grupo Casa e Coletivo Clandestino), colégios visitados, professores provocados, alunos comprometidos, acessibilidade efetivada, dever cumprido. Uma jornada plena. Plenitude é a palavra que define o estado do que é inteiro, completo, total, integro. É como nos sentimos com o resultado da nossa residência no Mato Grosso e no Mato Grosso de Sul.

Difícil resumir humanidades em uma postagem, quando sabemos que a palavra é apenas um esforço humano de traduzir a existência. O sentir humano é intraduzível. Viver é uma experiência esvaziada de compreensões. Todavia, se a tarefa de um escritor é dar punho ao vivido, faço das minhas sensações, matéria, e do meu teclar, palavras.

Nossa finalidade era conseguir a maior interlocução possível com todos os atores do projeto; assim, grupos, público, alunos, oficinados, produtores e amigos foram abraçados pelo desejo de diálogo que nos moveu, e retribuíram com respostas muito mais potentes que as pretensas provocações lançadas; revigorando o nosso desejo de entender as condições em que se dá o fazer teatral, sobre os diversos aspectos conjunturais de cada uma das realidades vividas. De sintomático, os apagões de gestão pública que permeiam a vida do teatro, seja qual for a região, estado ou município, se a fronteira que os margeia e contém é a de um país chamado Brasil. Latente e lamentável realidade.

Entender o fenômeno teatral sempre foi outro dos nossos desejos. Com se dá a relação entre a plateia e o espetáculo? Por que essa relação se dá com permanentes altibaixos, fazendo desabrochar o paradoxo do artista espectar a plateia? Quem faz ou fez teatro já ouviu, em algum momento da vida, frases como: “a plateia estava difícil”, “que plateia ótima”, “a plateia estava fria”, “o público foi maravilhoso”, “o público reagiu bem”. Como é possível? Como, um mesmo espetáculo, pode ser recebido de maneira tão plural? Como essa relação pode variar tanto de estado para estado, de cidade para cidade? Como se dá uma plateia em estado de tensão e outra em plena euforia se estão defrontadas com o mesmo espetáculo? Pode a relação entre ator e espectador ser tão intrínseca ao ponto de conduzir a cena para lugares tão distintos, mesmo quando se tenta ser absolutamente fiel ao espetáculo? Neste ponto, o projeto não deu cabo de todas as respostas, nem poderia, mas ajudou a reformular algumas perguntas que atravessaram nossos doze anos de história, catapultadas pelas apresentações em cada uma das setenta cidades que já visitamos.

Amparados na falta de discrição que nos é peculiar, perguntamos; e ficamos sabendo de tudo, de todos, e sobre os todos do tudo. Nossa permanente dissecação de realidades, apesar de inconveniente, nos possibilita o mínimo entendimento das circunstâncias, meios e procedimentos com que se operam os códigos da linguagem teatral; mas, principalmente, das amarguras e doçuras da vida em grupo; seus atropelos, acertos, desistências, rupturas, abraçamentos, espantos e confirmações. Diagnosticar o quanto a vida em grupo é complexa, argilosa e difícil nos fortalece e fragiliza ao mesmo tempo; servindo de alavanca para o salto necessário, problemático e libertador que estamos programando. Teatro de grupo é uma somatória de falências individuais que, processadas, reorganizam-se em potência criativa, desconstruindo o “modus operandi” do individualismo contemporâneo.

Foi o que fizemos, e fazemos. Perturbar os outros com espetáculos, perguntas, encontros, treinos, jantares. Não sabemos fazer outra coisa. Perturbar a ordem, o poder, o silêncio, o sono, o juízo. Obrigado aos perturbados consortes que nos aguentaram, do primeiro ao trigésimo dia, e nos ensinaram que os caminhos podem não ser os mesmos, mas convergem para o belo encontro entre a pergunta e a resposta. E obrigado ao Programa Petrobras Distribuidora de Cultura por permitir a distribuição gratuita de um sonho maior: o de um país melhor para todos. Continuaremos, nem que chovam canivetes.

domingo, 22 de abril de 2018

A poética da vadiagem


Estamos em Campo Grande. Fazendo o quê? Que bicho é esse que nos move, nos faz sair de casa, enfrentar o abismo, atravessar o país de norte a sul, de leste a oeste, claudicar nas vias tortuosas da geografia humana sem agarrar nada palpável, nada concreto, somente a memória sensória dos que nos abraçaram, dos que nos assistiram, dos que nos provocaram, dos que nos ensinaram? Que bicho é esse, alcunhado de teatro, que mesmo não nos deixando nada nos enriquece de tudo? Que bicho é esse, bicho?

Retumbo na cama, pós-espetáculo, e continuo remoendo e tentando aprender algo sobre o espetacular; esse momento que não é nada, mas que se arraigou em nós como se conseguisse ser tudo. Bichos de teatro são espécimes em extinção. Arvoram um momento único, mesmo na repetição infinda de sequenciais apresentações, e florescem a cada encontro como novos, contaminando a existência de outros seres, sem perceber que o contaminante teatro os carcome, sorrateiramente, a cada noite bem dormida. É nessa hora que se processa o milagre: dorme o ingênuo ator, o tolo encenador, e o sono é a terra insensata e infértil onde germina o teatro. É lá que se planta o desespero, o espanto, o assombro, e amanhecemos com uma vontade imensa de continuar avançando para lugar nenhum; pois nosso lugar é o todo, a totalidade, o nosso país.

“Batatinha quando nasce espalha a rama pelo chão”. Somos batatinhas. Já nos espalhamos por sessenta e nove cidades, e Dourados será a septuagésima; mas, ainda não entendemos por que fazemos isso. Servimos a um exército de desvairados que busca o diálogo presencial em um mundo de “reacionamentos” virtuais. Nova cidade e nova esperança de encontrar. Encontrar respostas. Encontrar abraços. Encontrar perguntas. Encontrar soldados. Encontrar pessoas, de carne e osso. O teatro é de carne e osso. E nossos ossos, atrofiados pela eterna vadiagem territorial que o teatro nos impõe, vão tentando se rearmar, récita a récita, para receber como paga final a dança de esqueletos chamada abraço.

Em poética dialética, um ser humano diz para um ser alado, – Ensina-me a voar; e segue argumentando que é para poder respirar. É para isso que vagamos Brasil afora, para poder respirar. É no voo do gigante pássaro de ferro que deixamos a terra que nos marcou e voamos para o sem-fim, respirar o ar do desconhecido, do novo, do desafio. Para continuar tentando descoser essa trama absurda de “não ter poder de escolher nossos governantes”, de “ditadores que pensam igual”, “de parecer uma segregação”; para gritar contra a desigualdade, o extremismo, a multifobia, o racismo; para não ficar “mudo e quieto como querem que permaneçamos”; para tentar descompassar essa folia polifônica de descalabros que o mundo se tornou – se você não entendeu as aspas é porque não estava em nenhuma das setenta e três tempestades de seres alados que aconteceram em todo o país desde 2013.

Deixaremos Campo Grande para trás, mas Campo Grande não nos deixa. Ele estará conosco em cada um dos 40 participantes da oficina, dos 336 espectadores, dos 70 alunos, dos 10 professores, dos queridos amigos do Grupo Casa que reflexionaram permanentemente conosco durante estes sete dias. O Programa Petrobras Distribuidora de Cultura apresenta Velhos caem do céu como canivetes, e nós tentamos representar nossos anseios, nossos medos, nossas faltas, nossas lutas. Malucos que somos, fazemos isso no tête-à-tête, na cara do espectador, para que ele possa esfregar na cara o tamanho da nossa inutilidade. Você teria coragem?

domingo, 15 de abril de 2018

Manual básico para errar o alvo


Aqui é diferente. Pensar na postagem de hoje sem ser redundante com tudo o que escrevi na postagem A política da preguiça será meu grande desafio, pois tudo o que vivemos em Primavera do Leste, dois anos atrás, dilata-se, em potência e qualidade na atualidade, e nos espanta.

Então, para não chover no molhado, assentarei meu raciocínio em um único ponto de apoio: a oficina de dramaturgia do ator que ministrei; sustentando a argumentação na significativa diferença de comparecimento, rendimento e compreensão, quando observada a adequação da clientela.

Nos plurais projetos, eventos ou programas onde sou requisitado para ministrar oficinas – e a propriedade da minha reflexão tenta se balizar nas experiências vividas em 27 cidades de 14 estados –, sempre nos deparamos, promotores e eu, com as agruras referentes à dificuldade em formar a turma em questão; e o principal desafio é adequar a clientela.

As consequências de não conseguir a clientela específica para uma oficina são sempre as mesmas: evasão, ininteligibilidade do conteúdo, nivelamento para baixo etc. No caso da nossa oficina sobre o Quadro de Antagônicos, o público-alvo são atores, alunos de teatro de curso técnico ou superior, artistas de teatro, encenadores e pesquisadores com interesse no desenvolvimento de dramaturgia a partir do ator. Quando essa observância consegue se efetivar, tudo flui com potência; e é aqui que entra a nossa experiência em Primavera do Leste, onde das vinte e cinco atrizes e atores que iniciaram a oficina, vinte e quatro concluíram. Aqui, a atenção para a formação da turma conseguiu dirimir praticamente todos as agruras do que falei acima: evasão praticamente inexistente, interlocução efetiva e aprofundamento substancial do conteúdo preconizado.  

Então, como conseguir esse resultado, sem ser excludente, garantindo a ocupação da totalidade das vagas oferecidas, e sem comprometer a oficina, tendo em vista que a não adequação da clientela exige uma adaptação inconveniente do conteúdo? Vivo esse conflito quando me deparo com um convite que me transforme em oficineiro, e vou tentando achar algumas pistas para solucionar essa problemática, através das minhas experiências recentes.

A primeira prática tem sido a de não limitar o número de inscritos ao número de vagas oferecidas. Temos estendido as inscrições a um número 30% maior que a oferta, pois o tamanho da diferença numérica entre inscrição e comparecimento no primeiro dia de oficina, em alguns casos, chega a ser um enigma indecifrável – o que faz uma pessoa se inscrever em uma oficina, ocupar a vaga de uma outra, e não comparecer?

Outra prática é a pessoalidade. Independentemente da extensão e alcance da divulgação do projeto que contempla a oficina, procuro encontrar nas cidades que visito, aquelas pessoas que imagino terem interesse na atividade, e tento convencê-las, particularmente, através de mensagem, e-mail, apelo, ultimato, chantagem – prática que você, leitora e leitor deste blog bem conhece –, do quão significativo pode ser para mim a sua presença para que a interlocução proposta pela atividade se estabeleça.

Também, a não limitação de vagas tem gerado o excedente necessário para que a própria oficina se encarregue de adequar a clientela, sem comprometer o preenchimento do número de vagas oferecidas. Ao ter mais inscritos, oportuniza-se que o interessado possa ter contato com o conteúdo e suas práticas, e decidir com maior propriedade se a atividade lhe é oportuna, fazendo com que sua possível desistência no primeiro dia (outra situação frequente) não seja uma evasão e sim um ajuste do público-alvo, pois esse desistente normalmente está contemplado no número excedente de inscrições.

São pequenos deslocamentos de práticas que venho observando na tentativa de tornar a oficina eficiente para o participante, para mim, e para quem contrata, lógico. Claro que Primavera do Leste não serve de parâmetro, pois a realidade que se vive aqui é inusitada – tão surpreendente que vou ofertar novamente o link que você desprezou acima, para que leia a postagem sobre –, mas esta nova experiência de conduzir atividades formativas pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura tem possibilitado novas percepções que fazem com que nos movimentemos no sentido de dar maior ressonância a toda e qualquer atividade da Pequena Companhia de Teatro que seja financiada com recursos públicos, mesmo que através de renúncia fiscal. Compromisso político de que não abrimos mão, mesmo quando o poder público abre mão do teatro de grupo.

domingo, 8 de abril de 2018

O teatro como mediador


O teatro não precisa de mediação. Ele é o mediador do humano com o mundo. Ele faz a mediação entre o espectador e o incompreensível universo que o entorna. É dele a responsabilidade de traduzir o ininteligível, de apresentar o espanto, de aflorar o entendimento. Se passarmos a construir cênicas que exijam a mediação de um programa, de um curador, de um crítico, de um debate, o que sobra para um reles mortal como eu, um humano que busca a mediação do teatro para tentar entender um mundo incompreensível? Como sobreviver sem a mediação do teatro para processar um mundo de radicalismos, fobias, racismos e arbitrariedades? O teatro precisa preservar seu poder de mediação, conduzir o acordo para a necessidade da diversidade.  O teatro precisa manter o atilamento que lhe é peculiar na árdua tarefa de desvendar o humano ser; esse lugar de conflitos, exageros, extremismos, abusos, intolerância e medo. Colocar o teatro em um lugar de expectativa, em um lugar de passividade, em um lugar de espera pela mediação para a sua fruição, é aniquilar sua principal característica, a presencialidade, o tête-à-tête com o espectador; a tradução eficaz do que o sujeito vê e o que o visto esconde. O teatro não muda o mundo; muda a leitura de mundo do espectador, e isso não pode acontecer se a relação entre o teatro e o espectador exige uma mediação.

Digo isto porque estamos em Alta Floresta, no Mato Grosso, lugar de humanos que vão ao teatro na busca de entender a humanidade. Durante os debates ao fim das três apresentações de Velhos caem do céu como canivetes – e nos mais de duzentos debates que fizemos nos últimos anos –, pude perceber isso com larga clareza. Os comentários, as reflexões, os apontamentos, tudo o que ouvimos reforça o poder de mediação que o teatro tem, a valia de ser o instrumento que favorece a compreensão das faltas, das falhas, das navalhas que cortam um país desgovernado. Se atravessarmos, obrigatoriamente, um intruso na compreensão do espectador, ele se sujeitará à opressão do conhecimento como instrumento de poder, subtraindo sua liberdade de escolhas, percepções, leituras, bricolagens.

Percebam que meu argumento vai contra a “obrigatoriedade” do mediador; põe o acento nas obras que exigem uma mediação. Então, por que e para que fazer um teatro que exija, necessariamente, ser mediado? Por que extrair do teatro seu discurso direto, que por si só, já é metafórico, poético, complexo? O que ganhamos complicando radicalmente o diálogo com o espectador? E pergunto isso desde um lugar de criação, em um grupo que tem por peculiaridade provocar a reflexão do público através de montagens complexas. Contudo, me preocuparia saber que nossos espetáculos exigem a explicação, a tradução, a mediação de outro instrumento que não a própria fruição da apresentação. Penso que esses instrumentos devem ser disponibilizados, favorecem a interlocução, mas a obra não pode ser hermética ao ponto desses mecanismos serem indispensáveis para o acesso, como já acontece em diversas experiências nas artes visuais. O que se ganha com isso? Sei o que perdemos. Quando vou ver uma peça que obriga uma mediação, seja ela qual for, me dá preguiça. Me sinto desprestigiado como espectador. Eu não preciso que ninguém me explique a obra. Eu quero errar à vontade, quero descobrir, quero brincar de entender; mas a obra precisa me dar esses caminhos, a obra precisa operar os códigos de linguagem que me permitam o acesso às camadas mais profundas, a obra precisa me dar as pistas para o meu trôpego caminho, não o mediador. Depois, o resultado disso se opera na minha cabeça das formas mais diversas, não necessariamente como o artista imagina, e muito menos como o mediador sugere. Digo, o quão complexa precisa ser uma peça de teatro para que o espectador não tenha condições de acessá-la sem uma mediação? Por quê? Para quê? Para quem?

Velhos caem do céu como canivetes tangencia esse tema, e circular pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura não deixa de ser uma oportunidade de fazer reverberar essas perguntas, e provocar as respostas. Estamos só no início da nossa jornada, e hoje partiremos para Primavera do Leste/MT, que receberá nossa oficina, outro intercâmbio, mais três apresentações e seus respectivos debates. Momentos do fórum permanente de reflexão que propomos para os nossos consortes de jornada e para você que acompanha a experiência, e as elucubrações provenientes desta. Qual será a próxima?

domingo, 1 de abril de 2018

Uma distribuidora de encontros e reencontros


Amanhã, mais precisamente às 6h da manhã, a Pequena Companhia de Teatro inicia mais um mergulho pela imensidão do território brasileiro, numa caminhada de interlocução permanente – principal motor de sobrevivência criativa para um grupo sediado num estado como o Maranhão, que tem o superpoder de tornar invisível o teatro de grupo. A jornada faz parte do Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, que patrocina a circulação de 57 grupos de teatro pelo país, durante os anos de 2018 e 2019.

Mantendo o nosso ideário de ocupação, a circulação que propusemos não se limita à estada na cidade durante os dias de apresentação e o perpasse das atividades complementares nos outros horários disponíveis. Passaremos uma semana em cada uma das cidades; sempre na perspectiva de estreitar o enlace com a comunidade, de entender a urbe e sua lógica teatral, de tentar estabelecer uma lógica de diálogo que justifique a nossa caída em Alta Floresta/MT, Primavera do Leste/MT, Dourados/MS e Campo Grande/MS.

Serão 12 apresentações de Velhos caem do céu como canivetes (3 por cidade), 12 debates após as apresentações, 4 oficinas sobre o Quadro de Antagônicos, 4 ações de formação de plateia em colégios das cidades, e 4 fóruns permanentes de reflexão, com os grupos Teatro Experimental, em Alta Floresta; Teatro Faces, em Primavera do Leste; Grupo Casa, em Campo Grande; e Cia. Theastai, em Dourados.

É na seleção das cidades por parte do Programa Petrobras Distribuidora de Cultura que concentro a reflexão de hoje: o conceito de aprofundamento, continuidade, estreitamento e entrelaço que adivinho no critério de seleção do edital. Das quatro cidades que visitaremos, duas fizeram parte da nossa circulação pelo mesmo programa, em 2016, com o espetáculo Pai & Filho e a nossa oficina de dramaturgia: Primavera do Leste e Campo Grande. Ou seja, as duas cidades, em um curto espaço de tempo, terão contato com todo o repertório recente, e toda a conceituação metodológica de um grupo de teatro do Maranhão, fato praticamente impossível de acontecer sem um olhar atento à qualidade de atravessamento que essa opção oferece para amenizar a fugacidade inevitável que toda circulação sutilmente esconde, e que tanto nos aflige.

No caso, não. Essas cidades ancorarão na vida da Pequena Companhia de Teatro. Os grupos de teatro que tiveram a oportunidade de passar diversas vezes pela mesma cidade sabem do que estou falando. É diferente. A relação é diferente. O olhar é diferente. O espectador vê o grupo de maneira diferente, tem a possibilidade de observar a trajetória, de estabelecer relações com o repertório, de dialogar com a cena com maior integridade; o teatrista tem contato com os métodos, tecnologias e conceito, pode cotejar obras e procedimentos, discutir caminhos; um sem-fim de sabores e digestões que um encontro não pode proporcionar, e que só se efetiva com a delícia do abraço de um REENCONTRO. Adivinho essa linha curatorial, e quero acreditar que acerto, pois a nossa alegria com toda a circulação é inenarrável, mas a satisfação de retornar se narra facilmente com o conceito, vida e sentimentos de um verbo: voltar.

A partir de amanhã, e pelos próximos 29 dias, alargaremos os números afetivos que arrolam a nossa existência. Ao término dessa jornada, serão 76 apresentações de Velhos caem do céu como canivetes, em 23 cidades de 14 estados; 31 turmas da oficina sobre o Quadro de Antagônicos, em 23 cidades de 11 estados; e, se os produtores locais botarem quente, conheceremos também o espectador de número 5.000 de Velhos caem do céu como canivetes – para uma peça apresentada preferencialmente com plateias reduzidas, é um número a ser comemorado e prepararemos algum tipo de surpresa para a felizarda ou felizardo. Aviso: repeti três vezes o nome do espetáculo porque, se você clicar no vermelhinho de cada um, terá contato com três críticas diferentes escritas sobre ele.

Claro que as outras reflexões que a iminência da viagem provocou, e as outras que a nossa circulação pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura ainda vai provocar, você acompanhará aqui. Todo domingo, após o término de cada uma das ocupações, você terá uma descrição e as respectivas elucubrações provocadas pela experiência – narrativa que você vem acompanhando desde o dia 28 de julho de 2009, primeira postagem deste blog.

domingo, 25 de março de 2018

O maldito vídeo do espetáculo!


Desde o Festival de Teatro Sul-Maranhense, em Balsas, nos idos 1989, até o Boca de Cena, este ano, em Campo Grande, participo de festivais e mostras de teatro pelo país das mais diversas formas; seja como curador, participante, selecionador, debatedor, organizador, concorrente, promotor, selecionado, jurado, oficineiro, mediador ou programador, dependendo da década e do formato do evento.

As experiências me trouxeram diferentes aprendizados que não caberiam em uma postagem. Portanto, hoje me concentro em uma condição que vem perseguindo meu juízo e sendo um dos meus maiores motores de reflexão no que se refere aos eventos que promovem encontros de grupos teatrais: o quanto o teatro ficou dependente de uma tecnologia que deveria servir apenas como instrumento de registro, o vídeo.

Me assusta a transferência de responsabilidade que acontece entre o ato teatral e o registro videográfico, instrumento normativamente impossibilitado pelos festivais de operar códigos da linguagem cinematográfica – única alternativa para que um registro em vídeo consiga aproximar o espectador do espetáculo teatral e sua ambiência –, mas obrigado a apresentar o máximo de identidade possível com a peça em questão.

Claro que a dependência da qual trato aqui diz respeito aos mecanismos de seleção e curadoria postas no país atualmente, quando o destino do espetáculo depende da apreciação, em vídeo, dos inscritos, nas mostras por parte do selecionador contratado para a tarefa – metodologia aplicada para a seleção da programação na grande maioria dos festivais e mostras do país. Essa trágica condição reduz toda uma linguagem a nada. Todo e qualquer esforço teatral fica sujeito a uma filmagem, e às coincidências entre linguagens que possam favorecer e aproximar uma peça de uma tela.

Na minha última experiência como selecionador do material em vídeo enviado para o Boca de Cena, fiquei assombrado com a dependência e comprometimento do trabalho artístico quando a atenção para o registro em vídeo não apresenta a mesma atenção dedicada à própria montagem. Um sem fim de imagens borradas, saturadas, escuras, áudios ininteligíveis, personagens fora do quadro, mídias vazias, danificadas; um caleidoscópio de tudo o que não se deve fazer se queremos que o espetáculo tenha alguma chance. Claro que a argumentação óbvia caminhará no sentido de aperfeiçoar a qualidade do registro, e a mesma réplica se encarregará de assegurar que o olhar do profissional contratado para a função tenha o treinamento necessário para fazer as desconsiderações pertinentes a cada caso. Porém, o que quero observar não trata da incompetência do grupo em fazer o registro, nem da genialidade do olhar do curador que consegue transformar registro em vídeo em teatro vivo. Trata de que essa não deveria ser uma expertise do grupo de teatro: a obrigação do artista teatral é operar os códigos da sua linguagem – o que não é pouco – para conseguir um resultado artístico contundente o suficiente para que se queira ver nos diversos polos de mostragem chamados festivais. Somar a essa exigência a representação do espetáculo em vídeo, sem deixar que se utilizem os códigos da linguagem do cinema, me parece uma demanda descabida. Mesmo que o grupo contrate o melhor cineasta do país, sem operar linguagem, esse profissional não será capaz de aproximar o espectador da experiência teatral.

Porém, se é o que está posto, como resolver o imbróglio? Agora, educada leitora e paciente leitor, me permitam falar especificamente para a cena teatral sul-mato-grossense – última experiência de seleção que participei – e tentar contribuir de alguma maneira com umas observações. Penso que é através da representação. Estudar de que maneira a imagem captada representa o espetáculo visto. Mesmo que o edital exija um plano sequência fixo e geral, estudar as adequações necessárias para aproximar o observador da cena. Detalhes simples, mas que podem fazer a diferença; como o de jamais reservar um único momento para o registro; fechar a roda no tamanho do enquadramento, se o espetáculo for de rua; nunca deixar uma fala ou cena fora do enquadramento, se esta for estruturante da narrativa.  Porém, se não for possível, pelo menos concentrem energias na qualidade técnica da imagem e do som. Dediquem-se ao registro como se fosse parte do processo. Pensem nele com excelência. Desde o meio de microfonar até o teste da mídia em diversas máquinas; desde a resolução da imagem do link disponibilizado, até a conferência da senha, caso seja necessária. Atentem a todo e qualquer detalhe que possa piorar a já comprometida relação entre o responsável pelo destino do seu espetáculo e a imagem capturada por vocês para que ele tente se sentir no teatro – essa doce ilusão que atende pelo nome de vídeo completo do espetáculo. E se não conseguirem, pois as condições de produção do seu grupo são tão amargas quanto as condições do teatro de grupo no Maranhão, talvez sirva de consolo saber que a Pequena Companhia de Teatro tem os mesmos problemas e comete os mesmos erros desde a sua gênese. Falar é fácil.

Agora, se é o que está posto, por que está posto, e por que deixamos que alguém assim o pusesse? Perceba que voltei a falar com você, leitora e leitor, que não necessariamente mora no Mato Grosso do Sul. Isso é que são elas, e, como nunca tenho respostas, busco nas postagens o diálogo que me permita entender a condição, estruturar um pensamento, e aglutinar iniciativas que possam mudar esse quadro, antes que o quadro mude o teatro de grupo do país. Como chegamos a isso? Como desmontar uma prática que achata o resultado artístico de um espetáculo teatral? Como contestar essa exigência sem ficar à margem dos festivais? Como disponibilizar o acesso qualificado a uma produção teatral produzida nos confins do Brasil?

Claro que se você vive em outro planeta, mais especificamente em São Paulo, não deve fazer ideia do que eu esteja falando. Pois aí o curador consegue ver o espetáculo teatral ao vivo, sem pagar logística nem cachê pela apresentação, e o grupo ainda agradece a oportunidade. Adoro uma fofoca.

domingo, 18 de março de 2018

Idiossincrasias de habitar o Maranhão


Semana passada estive em Caxias/MA, a convite do Grupo Fama, para acompanhar a montagem de “A Garota & o Anjo”, processo que vem sendo urdido há mais de um ano, e que agora ganha um corpo mais dramático – motivo pelo qual suspeito que o chamado tenha se estendido a mim, pois o grupo desenvolve um trabalho mais relacionado com a comédia, o popular e a rua. Lá também ministrei a oficina sobre o Quadro de Antagônicos para o SESC, parceria que teve como objetivo custear as despesas da minha ida.


Não terei maior ingerência na montagem. A cena já está construída, o conceito estabelecido, a estética definida, a dramaturgia escrita; fui convidado para acompanhar o processo final; observar, apontar, sugerir, e tentar contribuir de alguma maneira para o amadurecimento da cena. O procedimento que utilizamos foi o de eu conduzir os ensaios – principal instrumento de aperfeiçoamento teatral que acredito. Trabalhamos até a exaustão durantes os três dias do encontro. Levando em consideração que a oficina ocorreu no sábado e domingo pela manhã, ensaiamos nos turnos restantes, desde a minha chegada, na sexta à noite, até a minha partida, domingo, tarde da noite.

A experiência me trouxe sensações que pensava estarem congeladas neste vetusto coração teatreiro. Alguns de vocês sabem que, tanto Cláudio quanto eu, fomos criados artisticamente no interior do Maranhão, mais precisamente nas cidades de Imperatriz e Balsas, trinta anos atrás. O impacto de encontrar um grupo maranhense em uma trajetória de luta tão similar à que percorremos, me fez lamentar o estado em que vivemos e o país que padecemos.

Como é possível que em trinta anos nada tenha mudado? Como é possível que as condições de trabalho de um grupo de teatro no interior do Maranhão, depois de três décadas, sejam apenas as condições que o grupo estruturou independentemente, a partir de uma resistência inaudita que precisaria ser estudada? As idiossincrasias de habitar o Maranhão são tão severas que adormece a nossa percepção, e passamos anos sendo pisados sem reagir.

Já a experiência em si trouxe o tempero que adoça a amarga realidade e faz tudo acontecer. Ver esses meninos trabalhando me deixou eufórico. Não me leiam pretensioso. Trato-os assim por ser contemporâneo de teatro do pai do ator mais velho do grupo, que tem mais de 30 anos. Descobrir essa filiação me fez perceber o quão próximo estou da morte. Cada movimento, cada palavra, cada gesto carregava a ancestralidade de luta de todos nós, paridos no interior do estado. A ousadia na escolha do tema, a guinada na proposta artística do grupo, a busca de sair de uma posição de conforto, a disposição afetiva, energética, física, emocional; tudo convergia para reavivar a memória de um tempo duro, importante para a nossa trajetória, e que nos trouxe – Cláudio e eu – até onde chegamos hoje: o lugar nenhum chamado Pequena Companhia de Teatro.

Me vi no desejo de interlocução. Na necessidade que também sentia de dialogar além das fronteiras de Balsas – em um tempo onde não existia internet –, e no descaso dos gestores de cultura em promover esse intercâmbio. Circulávamos entre Imperatriz e Balsas com recursos próprios. Trabalhávamos dia e noite para poder ensaiar de madrugada. Oferecíamos aos amigos que nos visitavam o que podíamos. Construíamos a nossa cena com o desperdício de uma sociedade consumista e indiferente ao fazer teatral. Nada mudou. Nada mudou? Nada. Tudo igual. Eles resistem através das mesmas práticas que nos possibilitaram resistir, mesmo em um estado que pela primeira vez convive com uma experiência comunista. Até nisso o teatro de grupo do Maranhão tem azar: com as atuais políticas públicas do governo vemos avanços em diversas áreas sociais, mas quem pode se interessar por algo tão inútil quanto um grupo de pessoas usando o teatro para questionar as injustiças do país? Caberia lembrar ao nosso governador que o teatro de grupo é a experiência comunista, por excelência.
Mas a colheita da visita não foi de dor e sim de frescor. Me entusiasmou ver que o teatro ainda é possível. Me revigorou saber que um grupo de teatro, em Caxias, está fazendo a diferença para a sua comunidade. Me provocou pensar que neste país ainda se faz teatro contra tudo e contra todos. São quatro lindos e queridos teatristas. Cada um com a sua peculiar potência cênica, seu particular humor, sua inesperada personalidade, suas diferentes leituras de mundo e suas obscenas idades: Adriele tem 19 anos; Rodrigo, 20; André, 24 e Igor, 34. Indivíduos plurais, reunidos no mais improvável lugar de fama: um grupo de teatro (Não podia perder a piada referente ao nome do grupo, pois rimos muito falando do assunto). Agora, eles tentam provocar o espectador com os desdobramentos da relação entre um anjo e uma mulher, e me dão o prazer e a alegria de poder acompanhar a empreitada da montagem.

Porém, tem sempre um gesto, uma incompreensão, uma palavra, um mal-entendido, uma situação que nos mostra que estamos vivendo e, como vida, nada pode ser perfeito. Ainda bem. Detalhe para uma possível postagem futura. Não convide o ermitão para sair da ermida. Você não vai saber lidar com ele.

domingo, 4 de março de 2018

Dez mil espectadores!


Próximo a completar 8 anos em cartaz, o espetáculo Pai & Filho se encontra em curta temporada aqui na sede da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, 295, Centro), ontem, hoje e amanhã (sábado, domingo e segunda), às 19h, com uma série de peculiaridades que servirão como fio condutor das micro-reflexões fragmentadas que me proponho na postagem de hoje.

A primeira peculiaridade atravessa a política de preços da Pequena Companhia de Teatro. Depois de quase uma década em cartaz, e 25 apresentações em São Luís, ontem foi a primeira vez que cobramos ingresso para assistir ao espetáculo. Como o nosso posicionamento político assegura a gratuidade de qualquer atividade da Pequena quando for subsidiada com recursos públicos, fica manifesta a aridez de políticas públicas culturais pela qual passa o teatro de grupo do país, e percebemos claramente o quanto essa gratuidade contribuiu para aproximar um público com menor elasticidade orçamentária e, por consequência, que não tem o teatro como hábito. É fácil dizer que tem que cobrar, mas qualquer apreciador de teatro, que cresceu na labuta diária pela sobrevivência, sabe o que é ser privado daquela experiência artística única porque não tem o vintém que separa o quero do posso. Desta feita, o vintém corresponde ao valor de R$ 20,00.

Também é a plateia, peculiarmente, a estrela desta temporada. Na apresentação de ontem conhecemos o espectador de número 10.000! Nilson Carlos Costa, é o nome dele. Levando em conta que o espetáculo Pai & Filho foi apresentado majoritariamente com plateias reduzidas, esse é um número a se comemorar. Para atingir essa quantia, o espetáculo precisou se apresentar 148 vezes, em 62 cidades de 22 estados do Brasil. Um fato desses não podia passar incólume, e o sortudo ganhou um certificado que dá direito vitalício à gratuidade de acesso a qualquer atividade da Pequena Companhia de Teatro, além de um espumante que nos custou o borderô dos três dias de apresentações. A anedota me serve para ilustrar o pensamento primordial do nosso grupo. Não fosse o entendimento da necessidade de nacionalização da Pequena Companhia de Teatro, seria impossível chegar a essa plateia, pois a demanda local por um teatro focado em uma pesquisa de linguagem com menor diálogo como o mercado não possibilitaria atingir esse número de espectadores. Sempre trabalhamos com esse propósito, e durante toda a nossa existência como grupo, procuramos estabelecer o maior diálogo possível com o país, independentemente de projetos custeados, como no caso recente da nossa ida a Mossoró e Natal com o espetáculo Velhos caem do céu como canivetes. É o diálogo com os grupos de teatro do Brasil que assegura a nossa sobrevivência.

Seguindo com a relação de peculiaridades desta emblemática temporada, é a primeira vez que uma apresentação de Pai & Filho, em São Luís, não tem nenhuma relação com algum tipo de projeto que a companhia esteja desenvolvendo, a não ser o de manutenção independente. O espetáculo – que foi o primeiro do Maranhão a participar do SESC Palco Giratório – sempre esteve referendado pelos principais editais, prêmios, projetos e programas do país; e assim, ocupamos o Centro Cultural BNB, em Sousa/PB, participamos do Viagem Teatral, do SESI, circulamos pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, e ganhamos dois Prêmios FUNARTE de Teatro Myriam Muniz – estes, responsáveis pelo maior número de apresentação do espetáculo em São Luís. Essa realidade diz muito do questionamento levantado no segundo parágrafo desta postagem: em tempos de escassez, cortes de verbas, privatização, contingenciamento, mercado, estado mínimo, e toda a sorte de palavras do dicionário neoliberal, a constatação de uma aguda desidratação do teatro de grupo é a prova do eficiente mecanismo de desmonte cultural iniciado recentemente. Com política, sem política, você ainda pode nos assistir hoje e amanhã.

Pai & Filho também concentra 6 Prêmios SATED/MA de Artes Cênicas, nas categorias de Melhor Ator, Diretor, Espetáculo, Produção, Cenário e Figurino. Esse prêmio, tão criticado pela classe, me sugere uma sentença que deve transitar pelo imaginário teatral da cidade: ter prêmio SATED ou não ter, eis a questão. Penso que o prêmio nunca atingiu a potência que poderia ter, como instrumento de celebração anual, como momento de encontro, como reconhecimento dos esforços de produção de uma classe, contudo, o desaparecimento deste supera todas as carências que a sua existência apresentava? Digo, com a extensão do prêmio, ganhamos ou perdemos? Às vezes, quando a crítica não se faz reflexivamente, pode apresentar resultados que não são os mais saudáveis, e o poder desta pode ser devastador. Não estou certo se as críticas que fiz ao prêmio contribuíram para o amadurecimento do movimento teatral maranhense, mas tenho certeza que colaboraram para a extinção do prêmio. Foi o melhor fim?

E para encerrar o desfile de peculiaridades da curta temporada de Pai & Filho, que abre nosso calendário de atividades para 2018, não poderia deixar de falar do espetáculo em si. Venha ver. Vale a pena ver atores como Cláudio Marconcine e Jorge Choairy. Depois de oito anos em cartaz, vale a pena ver o quanto essas personagens se apropriaram da cena, o quão integro está o vigor e o frescor da ação; vale a pena ver o quanto um espetáculo vive, amadurece e se transforma com o tempo, mesmo que não se mude uma vírgula.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Quer ser membro da Pequena Companhia?


Em 2018 a Pequena Companhia de Teatro passará por transformações tão agudas que temo não suportar a agulhada. Uma delas diz respeito ao elenco do novo espetáculo, considerando que Jorge resolveu não atuar na próxima montagem, e se ocupar com as outras atividades que a encenação demandará; voltando a atuar na montagem seguinte, prevista para 2020.

Não se engane, essa decisão esconde uma provocação tão pertinaz quanto a tradição revolucionária do nosso consorte. Desde sempre Jorge foi o mais incisivo quanto a necessidade da Pequena Companhia de Teatro extrapolar as fronteiras dos quatro membros, quanto a importância de eu dirigir e eles atuarem com outras pessoas, quanto a oxigenação que essa hipótese provocaria, e toda uma dita de argumentos que até então conseguíamos esvair, levando-o a se encontrar em cena de novo, fazendo teatro por amizade, como ele costuma dizer – pois os mais íntimos saberão que ele detesta essa conversinha chata de ator, e todas as respectivas e cansadas palavrinhas do glossário, como técnica, pesquisa, processo, linguagem, potência, etc.

Eu sempre entendi a provocação, mas, como lidar com isso? Essa opção apresenta inicialmente um problema existencial: nos obriga a procurar atrizes e atores para a nova encenação, fato que não acontecia comigo desde os idos 2001, quando tive que me debruçar sobre a definição do elenco de Marat/Sade – montagem com o querido e parceiro Fernando Bicudo – que me possibilitou dirigir quatro artistas fenomenais que não estão mais entre nós: Reinaldo Faray, Aldo Leite, Antônio Gaspar e Guilherme Teles.

De lá para cá, os elencos se formaram organicamente, tanto na Pequena quanto nas montagens que dirigi para outros grupos – como a Cia. A Máscara de Teatro e o extinto Galpão de Teatro –, e ter que retornar a esse delicado exercício tem me custado alguns anos, pois conhecemos a decisão de Jorge desde 2013. Bem no fundo da alma que não tenho, acreditava que essa decisão se reverteria, e passei praticamente dois anos pensando nisso até entender que a decisão era definitiva e necessária – argumento que esclarece ao nosso espectador o porquê da demora do novo espetáculo, pois Velhos caem do céu como canivetes já carrega quatro anos e quatro meses de trajetória.

E agora? É no que estamos mergulhados. Conversando, encontrando, refletindo, indagando, vamos conhecendo pessoas e provocando atrizes e atores que possam mergulhar nesse ensaio sobre a memória que a nova montagem propõe, ao adaptar o conto A outra morte, de Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo.

Essa decisão também provocou outra reflexão no grupo, que diz respeito a inclusão, ou não, de novos membros efetivos na Pequena Companhia de Teatro. Há algum tempo vimos percebendo que a Pequena cresceu demais. As conquistas e projeção que conseguimos nos quase doze anos de trajetória trouxeram demandas que começam a esgotar nossa capacidade de atender. Fomos nos tornando multiformes e plurifacetados ao ponto de exaurir a nossa paciência, e chegamos a atender a necessidade de faxineiro, ator, designer, atendente, oficineiro, videomaker, administrador de mídias, elaborador de projetos, locutor, promotor de vendas e audiodescritor com a mesma pessoa, para citar um exemplo. Chega, não? 

A ideia de convidar uma atriz e um ator para se juntar a Cláudio Marconcine no palco da nova montagem – sim, a Pequena Companhia de Teatro prepara um espetáculo com mais de duas pessoas em cena pela primeira vez – traz a reboque a possibilidade de pensarmos no alargamento definitivo do grupo. Para aumentar nossa potência criativa e nossa capacidade de gestão, a cumplicidade permanente que um novo membro pode trazem nos apresenta um horizonte para além da importância de fechar o elenco para o novo espetáculo. E, a se confirmar essa decisão, enfrentaríamos um grande desafio: quebrar a barreira da afetividade.

Diversas vezes propagado aqui – não vou colocar nenhum link para ver se você se digna a garimpar alguma relíquia filosófica nesse amontoado de lixo reflexivo que este blog produz –, nosso grupo foi construído a partir da afetividade. Muito antes da nossa existência como grupo, Cláudio, Jorge, Katia e eu existíamos como amigos. A própria formação da Pequena – que inicialmente reuniu apenas os três últimos – aconteceu pela constatação de que estávamos sempre juntos. Criamos um grupo de teatro sem saber o que queríamos, como seriamos, ou porque faríamos. Só entendíamos que, se íamos estar juntos o tempo todo, que fosse fazendo algo inútil: teatro.

Eis outra aguda transformação que o plural usado na abertura desta postagem escondia: como incorporar um membro em um grupo de teatro que até então se sustentou em fundações tão peculiares quanto as que formaram e consolidaram a Pequena Companhia de Teatro?

A resposta está em construção. Não temos a menor ideia, ainda, nem do formato que usaremos para habitar as personagens da nova peça, nem dos mecanismos que levam à incorporação de um membro em um grupo de teatro. Estamos tateando. Eu, titubeando, tremulando, hesitando, vacilando, duvidando. A provocação de Jorge é tão potente e oportuna que deve prenunciar os caminhos criativos da nossa próxima década, e, com ela, a natural incerteza que faz tremeluzir a chama do navegador de certezas que vos escreve. Contudo, como diria a mulher em um diálogo do novo espetáculo: certezas não existem.