domingo, 24 de julho de 2016

Relato confessional sobre um conflito existencial


Durante toda a minha vida teatral me esquivei da palavra método quando se referia a práticas e teorizações organizadas por mim para o desenvolvimento de um ator pleno. Processo metodológico, treinamento, prática metodológica, metodologia, sistema, uma sorte de expressões e termos que serviram para camuflar, esconder, velar o desenvolvimento de algo que, ao nomenclaturá-lo como método, manifestava uma pretensão não condizente com o sentido da minha trajetória, porque, aos meus ouvidos, as palavras método e metido forçavam uma paronímia constrangedora.

Hoje, quase trinta anos depois de uma lida permanente e conflitante com o teatro, me pergunto: por que não chamar nosso sistema de operação do Quadro de Antagônicos de método? Pode ser insignificante, ineficiente, trôpego, claudicante, mas, tecnicamente, não seria um método, quer eu queira querer ou não?

Para simplificar o diálogo comigo mesmo recorro ao dicionário, e transponho a definição: 1) procedimento, técnica ou meio de se fazer alguma coisa, esp. de acordo com um plano. 2) processo organizado, lógico e sistemático de pesquisa, instrução, investigação, apresentação etc. É o que desenvolvemos, no mínimo, há mais de uma década com o Quadro de Antagônicos. Sei que o fato nomenclatural é irrelevante, mas o que faço aqui é um desafogo quanto à minha angustiante relação com essa palavra, instrumento de cânones intocáveis da teoria teatral.

Não sei se o que expresso tem alguma importância, nem se resolve o meu conflito, mas creio que desmistificando publicamente certos conceitos arraigados em mim, endosso a desmistificação de outros tantos que engessam o fazer teatral, principalmente para que novos agentes não demorem trinta anos como eu para se livrar de alguma amarra. Todo engessamento na arte é nocivo, inclusive quando o gesso vem da resistência em se engessar com uma palavra – haja dicotomia paradoxal para justificar essa última frase!

É isso. O breve comentário que aqui faço sobre o tema, e que me é tão incômodo, foi provocado em uma das oficinas que ministrei recentemente pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, quando o caro Táliton questionou meu receio e opôs-se contundentemente à minha resistência em utilizar o termo. Como o tempo na oficina não possibilitava minha réplica, prometi que a faria em uma futura postagem. Eis.

E agora, caro leitor, o meu sussurro final. É assombrosa a função confessional que, por momentos, este instrumento [o blog] exerce sobre minha vida profissional e pessoal – que nada mais é do que tratar de teatro dentro de casa. Espero que tenha alguma valência para você, pobre confidente a quem convido a receber a confissão. Não fosse assim, eu morreria seco.
 
 

domingo, 17 de julho de 2016

Teatro em movimento – a roda da fartura


Hoje encerramos o projeto Pai & Filho, pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, que buscou ocupar, com o maior número de atividades possíveis (apresentações, debates, oficinas e um fórum permanente de reflexão com um grupo de teatro convidado), o Centro-Oeste do Brasil (as cidades de Primavera do Leste/MT, Campo Grande/MS e Goiânia/GO), região menos atingida pelas circulações da Pequena Companhia de Teatro até aqui, pois só Cuiabá havia nos recebido, em 2012.
É o teatro que nos move, literalmente. Nos movimentamos durante uma década, em todas as direções; seguimos por via terrestre, aérea, fluvial; de carro próprio, de avião, de van, de balsa, de ônibus, de camionete, de carroça (sim, nossos cenários já viajaram de carroça algumas vezes), e colhemos os frutos desse trânsito no olhar de cada espectador, de cada garçom, de cada companheiro de luta, de cada cidadão.
Plateia em Campo Grande
Na região central não foi diferente. O Centro-Oeste se apresentou como um outro Brasil, dos muitos Brasis distintos que carregamos na nossa memória, basilar para a composição deste país plural, heterogêneo, multicultural, ambíguo, desigual; carregado de tanta potência e desperdiçado por tanta incompetência – política, pois a soma desses muitos Brasis demonstra que um poder não é capaz de aniquilar a soma das vontades de uma nação.
Aqui, goianienses, primaverenses, campo-grandenses nos ensinaram que Panelinha, Mojica de Pintado e Sobá são manjares incomuns, que toda cidade tem os taxistas que merece, que árvore dá sombra, que teatro pode ser um belo programa de fim de semana, que existe um maranhense em cada esquina, que o valor de um real varia; e nos relembraram que toda plateia merece apreço, seja de vinte ou de duzentas pessoas, pois, sempre haverá um espectador atento ao trabalho de uma companhia de teatro compromissada com a reflexão sobre o nosso país.   
Oficina em Primavera do Leste
É impossível não pensar nas pessoas que encontramos pelo caminho; nos produtores, assistentes, atores, diretores, assessores, amigas,  recepcionistas, alunos, técnicos, tradutores; nos grupos Faces Jovem, Anthropos, e Mercado Cênico a materializar a importância da troca de experiências; na quantidade de gente que resolveu dedicar sua vida ao teatro e seu entorno, e no quanto essa escolha pesa, para bem ou para mal.
O país só será nosso quando nos apropriarmos dele na sua totalidade. É o que tentamos fazer quando circulamos. Nos apropriar de cada sabor, de cada costume, de cada gesto, de cada dificuldade, de cada paisagem, de cada distância; nos sentirmos donos de cada parte que forma esse todo chamado Brasil.
Espetáculo em Goiânia
Quando parados, aprisionados na nossa aldeia, não conseguimos mensurar o quão importante é viajar, conhecer, entender, refletir; e chegamos a duvidar do poder que o teatro tem de provocar a reflexão das pessoas, de abrandar convicções cristalizadas, de dar concretude ao pensamento crítico, de abrir o diálogo, de redefinir parâmetros para a vida. O teatro é importante para vocês, para nós.
Hoje falo na terceira pessoa do plural, pois, se bem sabemos que como grupo somos a soma das nossas particularidades, como indivíduos somos a comunhão da nossa mais profunda intimidade, mesmo sem ter a menor consciência disso. E que venha a segunda etapa do SESC Amazônia das Artes!

domingo, 10 de julho de 2016

Passeando na contramão – 10 anos de teatro


Amanhã, dia 11 de julho, a Pequena Companhia de Teatro celebra dez anos de história. Durante os dias que antecederam a data, ocupei meu desgovernado juízo na reflexão do quão descompassadas com a norma foram as nossas opções no decorrer desta década, fazendo-nos trafegar na contramão na maioria das nossas ações, projetos, pensamentos e realizações.
O leitor atento perceberá que o que aqui faço não é um juízo de valor, e que não mensuro virtudes ou defeitos, apenas aponto o nosso contrapasso com a atualidade, sendo por vezes crítico, ou pelo menos ácido, ao abordar alguns dos assuntos da nossa prática.
No que se refere à tecnologia teatral – quando sabemos que a palavra tecnologia alude a todo e qualquer saber técnico desenvolvido para o aprimoramento do teatro – a Pequena Companhia de Teatro sempre transitou na contramão da pirotecnia, dos equipamentos eletrônicos, das novidades estéticas, dos mecanismos modernos, e focou o desenvolvimento de uma  tecnologia que favorecesse soluções simples para problemas complexos, concebendo técnicas de praticidade, precisão, operacionalidade e efetividade; alertando para a percepção de que é possível desenvolver tecnologia teatral a partir do desperdício contemporâneo, sem necessariamente depender de recursos financeiros  significativos.
No exemplo que estamos vivendo agora, outra contravenção. Sustentado pela lógica do capital, as circulações de espetáculos devem sempre realizar suas ações no menor prazo de tempo, buscando a otimização de recursos, e tornando as passagens pelas cidades fugazes, tanto para quem visita quanto para quem recebe. Nossa prática, quando são projetos propostos pela Pequena Companhia, busca a permanência na cidade visitada pelo maior tempo possível e incluindo o maior número de atividades, para viabilizar um intercâmbio efetivo, nos possibilitando conhecer minimamente a cidade que nos recebe e sermos por ela reconhecidos.
Mesmo nas atividades formativas, quando hoje prepondera a maleabilidade de conteúdo, a horizontalidade, o improviso, a descontração, a ausência de rigidez, a tolerância de horários, nossas oficinas concentram esforços em estabelecer um padrão de conteúdo, uma organização programática, uma intolerância com atrasos e ausências, uma exigência em oferecer resultados, um rigor em avaliar se os resultados foram atingidos; uma chatice. Contramão.
Em tempos de tablets, laptop, celulares e afins – e agora falo de uma prática minha – os registros de processos de montagens, oficinas, observações de ensaios, análises de circulações e reflexões são manuscritas em catálogos, diários e cadernos, que vão se espalhando pela sede e pela casa, consumindo dezenas de canetas BIC pretas, para depois deixar-me contrafeito ao precisar transportar os manuscritos para o computador, palavra por palavra, quando uma necessidade de produção me exige o transporte.
Outra curiosa oposição de sentido percebe-se na terceirização: quando a lógica atual é a de aglutinar, através da contratação de terceiros, para fazer como que o trabalho seja o mais coletivo possível, nossa prática é a de concentrar o maior número de funções prováveis, e só são buscados fora da companhia aqueles serviços que não nos sentimos verdadeiramente capazes de realizar, não significando que aqueles a que nos propomos tenham a excelência pressuposta para a empreita.
E a sede? Enquanto qualquer humano normal pensa em ter uma piscina, nós queríamos ter um teatro. Próprio. Esse desejo talvez fosse mais meu e de Katia, do que de Jorge e Cláudio. Ou, talvez, nem de Katia, pois imagino que ela ainda sonhe em pegar sol à beira de uma piscina. Ainda assim, investiu-se todo e qualquer centavo acumulado durante toda uma vida para poder conquistar a independência de espaço, fundamental para o efetivo desenvolvimento artístico de um grupo teatral dedicado à pesquisa de linguagem.
E assim chegamos à própria linguagem. No momento em que tempo é dinheiro, e quanto maior o número de montagens por ano maior a possibilidade de multiplicar os ganhos, nossas encenações levam, em média, três anos, entre o início da pesquisa e a estreia do novo espetáculo, contramão digna de multa gravíssima e perda de sete pontos na carteira.
Tudo na contramão; não calculada, não programada, não pensada, mas, contramão enfim. O tortuoso caminho de estabelecer um fazer identitário, orgânico, honesto, por vezes reinventando a roda, por vezes sendo atropelado por ela.
Como supracitado, o que faço aqui é uma reflexão sobre a nossa jornada, nesse dia que antecede o do nosso aniversário, sem apontar erros ou acertos, pois, acredito que na arte não exista certo ou errado, existem caminhos; e se bem sabemos que o caminho de dez anos não nos torna gênios, ele serve, com certeza, para descobrirmos que nós possuímos a soma dos quatro piores gênios que possa existir em um grupo de teatro – adoro antanáclases.

domingo, 3 de julho de 2016

A política da preguiça



Em 2012, durante a nossa circulação pelo Palco Giratório, assistimos ao espetáculo Cabaré, do Teatro Faces, de Primavera do Leste/MT, e debatemos com eles a encenação – prática do projeto de circulação do SESC após as apresentações. Na ocasião, também encontrávamos o querido amigo Sandro Lucose, elo entre a longínqua apresentação e a nossa proposta de ocupar o município mato-grossense com todas as nossas atividades durante a semana que hoje se encerra.
O teatro tem dessas coisas: um espetáculo, uma conversa, um amigo em comum, um contato feito cinco anos atrás, reverberam nas trajetórias dos grupos e possibilitam encontros inesperados como o que estamos vivendo aqui, graças ao patrocínio da Petrobras, através do Programa Petrobras Distribuidora de Cultura.


Quando a Pequena Companhia de Teatro pensou o termo Teatralidades foi na perspectiva de extrapolar a ideia de circulação e tentar estabelecer um conceito de permanência, convivência, entrançamento e intercâmbio com a comunidade que nos hospeda, e o primeiro passo dessa ideia encontrou eco em 2015, quando da ocupação do Centro Cultural Banco do Nordeste, em Sousa.

Agora, com o auspício da Petrobras, a experiência se estende a outras três cidades brasileiras, quando nos instalamos durante uma semana no município e tentamos entender ao máximo sua gente, as agruras, desejos, conquistas e frustrações.
Claro que nossa observação está relacionada principalmente à forma como o teatro está capilarizado na comunidade, de que maneira está inserido no cotidiano da cidade, como se confrontam a obrigação do poder público de construir cidadania e a necessidade de responder ao mercado; tentar entender em qual pé está assentada a relação teatro & cidadão.
O que se vive aqui em Primavera é uma experiência incomum. Escola de teatro, grupos, centro cultural, secretário da área teatral com profundo conhecimento teórico e prático, alunos de teatro com bolsa de estudo, professores de teatro oriundos da escola contratados para lecionar, crianças brincando de teatro, artistas vivendo de teatro, teatro em árvore, teatro em caminhão cegonha, teatro de sombra, teatro na praça, teatro de graça; e o mais surpreendente, tudo isso em um município de pouco mais de cinquenta mil habitantes.
Claro que a primeira pergunta que emerge dessa pancada criativa é: como isso é possível? Um diagnóstico mais aprofundado exigiria muito mais do que uma semana, porém, a primeira resposta que encabeça todas as outras é: vontade política. Vontade política de abraçar boas ideias. Vontade política de identificar e apoiar projetos interessantes. Vontade política de criar condições para o desenvolvimento das artes. Vontade política de contratar seu secretariado por mérito. Vontade política de não se tornar um refém do voto. Vontade política de desenvolver uma gestão programada para todo o mandato, e não para o último ano. Vontade política de ser um servidor; ressalvando que, para servir, precisa-se de vontade – infausto paradoxo.
Em resumo, não há nada mais nocivo para a sociedade do que ver seus gestores alastrando sua melancólica falta de vontade e sua aguda preguiça intelectual.
 

domingo, 26 de junho de 2016

Sem polêmicas, exclamações ou superlativos


Passei a semana refletindo sobre o quanto o teatro consegue se descolar do rolo compressor imprimido pela contemporaneidade, e no quanto ele contribui para a educação do cidadão, em tempos onde gritos, pipocas, atrasos e ruídos fazem parte do cotidiano das artes, seja no cinema, no show de música, na galeria de arte, no circo.
O teatro é templo de pontualidade. Tolerância compreende, no máximo, quinze minutos. O espectador chega pontualmente – a grande maioria – e entende que isso é necessário para a melhor fruição da obra que vai assistir. Essa conquista é do teatro, tendo em vista que esse mesmo espectador chega a um show de música com uma hora de atraso, sabendo que vai entrar, e que o show ainda está longe de começar.
Qualquer espectador minimamente acostumado com uma sala de teatro sabe que não entrará para ver um espetáculo comendo ou bebendo, jamais. Essa conquista é do teatro, pois, esse mesmo espectador vai ao cinema e se empanturra de pipoca e refrigerante, sem o menor constrangimento.
O mesmo espectador do parágrafo acima sabe que, após adentrar na sala onde acontecerá a apresentação teatral, seu silêncio é o primeiro indício manifesto do respeito que ele tem pelos artistas em cena. Outra conquista do teatro, pois sabemos que, o reiterado espectador, não só cochicha, como conversa e brada em qualquer sala de cinema ou casa de show.
Hoje, em pleno século vinte e um, qual é o único lugar onde se desliga o celular antes de entrar? Na peça de teatro. E caso aconteça o indesejado esquecimento, corre-se o risco de que o toque do celular gere a virada do pescoço e o olhar de toda a sala, identificando em você o extraterrestre mais distante no espaço, ou o troglodita mais distante no tempo.
São amenidades que tornam a vida em coletivo mais afável, mais amável, mais sociável. São coisinhas sem importância que transformam as pessoas e ajudam a construir o sentido de cordialidade, boa educação, respeito. Pontualidade, assiduidade, atenção, reconhecimento, são predicados importantes na constituição do cidadão, e o teatro, com a parcimônia que lhe é particular, contribui para robustecer esses sentidos no imaginário das pessoas.
Sim, de fato, é sobre essa grande bobagem que eu estendo minha reflexão hoje. Um assunto menor, anódino, entediante: educação. Algo fora dos holofotes, mas que fundamenta meu esforço recente em explicitar a importância do teatro na vida das pessoas.
Percebam que a peça nem começou ainda.  Tudo o que advém da cena quando a cortina se abre é reconhecidamente construtor de dizeres que formam, esclarecem, questionam, contestam. Minha defesa hoje é mais sutil. Apenas destaco aqui a ação efetiva de formação cidadã que o teatro oferece antes mesmo do espetáculo começar – lembrando que, no teatro, antes da cortina se abrir, temos o nada. O teatro tem esse poder. Só ele pode fazer do nada um espaço de ensinamentos para a vida toda. 

domingo, 19 de junho de 2016

Arte não é adorno, cara pálida!


No ano em que completa dez anos de ininterrupto fazer teatral, a Pequena Companhia de Teatro mantém sua vocação itinerante, e celebra circulando com seu repertório de espetáculos por duas regiões completas do nosso país – Pai & Filho, pela região Centro-Oeste, através do Programa Petrobrás Distribuidora de Cultura, e Velhos caem do céu como canivetes, pela região Norte, através do SESC Amazônia das Artes.
Mas, como quase nada é festa, depois desses dez anos de história, o principal desafio do grupo continua sendo o mesmo: produzir teatro e sobreviver dessa produção em uma das periferias mais miseráveis e agônicas do país, o Maranhão.
Nosso fazer atual, e durante toda a última década, vem se sustentando com a democratização dos recursos públicos federais disponibilizados nos últimos anos, e de parceiros específicos da iniciativa privada (leia-se SESC e SESI), fatores que nos possibilitam resistir à indiferença recebida dos poderes públicos municipal e estadual, que insistem em construir nossa invisibilidade.

Agora, é o governo federal que guina para a destra e o desastre é iminente. Nós artistas, que vimos encontrando na arte uma forma de construir um dizer comprometido com a efetiva consolidação do conceito de cidadania, sabemos que os sinais dados levam os rumos da cultura do país à fatídica condição de mero evento.

O que essa situação tenta esconder é a notória necessidade de combater o pensamento crítico, a reflexão política, o desenvolvimento cultural. O provincianismo imperante em nosso estado, e que agora se estende Brasil afora, continua sendo o de olhar a cultura e a arte como um enfeite de bolo, um entretenimento para as elites, uma disfarçada mercadoria para turista ver. Exemplos tácitos desse caminho são a frustrada tentativa de extinguir o Ministério da Cultura, por parte do governo federal, e o menoscabo da cultura ao fundi-la com o turismo, por parte do governo estadual. A ideia de política pública cultural é uma nebulosa fantasia, e nós, artistas, continuamos pautados pelo calendário festivo de Carnaval, São João, férias, Pátria, Natal e Réveillon.
Um grupo de teatro como o nosso – que tem como objetivo a pesquisa, o desenvolvimento de linguagem, a revisão histórica, a contestação da realidade atual, a reivindicação de uma sociedade mais justa e equilibrada – ao encontrar-se incrustado no cerne de um ambiente tão inóspito para o desenvolvimento sociopolítico-cultural, despedaça-se na tentativa de manter-se erguido, atuante e contundente na reivindicação dos direitos dos pequenos, dos menores, dos sem voz, como demostrado nos nossos dois últimos espetáculo, ao visitar temas como poder e miséria.
Enquanto os poderes municipal, estadual e federal constituídos não conseguem enxergar o nosso fazer como instrumento importante para a consolidação de uma sociedade mais empoderada, é a circulação do nosso pensamento pelo país nossa principal força motora, comprovada com a extensão do nosso circuito nesses dez anos de viagens, intercâmbios, aplausos, vivências, quilômetros, plateias e bagagens. Os projetos que celebram os dez anos da Pequena Companhia de Teatro são exemplos manifestos do aqui posto.

 

 

sábado, 11 de junho de 2016

Que lugar o teatro ocupa em sua vida?


A Pequena Companhia de Teatro abriu as portas da sua sede há mais de três anos. De lá para cá, foram ofertados, gratuitamente, diversos espetáculos, oficinas, palestras, seminários, encontros, reuniões, lançamentos, jantares. Por aqui passaram, aproximadamente, mil e quinhentas pessoas. Recebemos artistas dos mais diversos lugares do Brasil, primordialmente para visitas, e todos, sem exceção, ficaram encantados com as condições de trabalho, a beleza do espaço, a riqueza de detalhes que favorecem o fazer teatral, o conforto oferecido para cada espectador que aqui se aprochega.
Contudo, o curioso, é que há conhecidos íntimos – aqueles que cordialmente chamamos de amigos – que não conhecem nossa sede, nunca assistiram a uma das cinquenta apresentações de espetáculos teatrais que aqui aconteceram, e sequer conhecem o endereço. Minha bajulação incessante para conseguir a atenção de alguns beira a humilhação, portanto, nem o argumento da desinformação, nem a desconfiança qualitativa valem para justificar a ausência de interesse, a não ser que seja da turma do “não vi, não gosto”.

Não. O que faço aqui não é um reproche. Apenas indago: qual o lugar que o teatro ocupa na sua vida? Se o caríssimo leitor, que acusa o golpe semanal de ler esta postagem, puder se perguntar, avaliando as consequências da resposta para o fazer teatral maranhense, estará nos auxiliando no diagnóstico do nosso espectador assíduo e do nosso conhecido íntimo.
O país vive um momento obscuro, e todos nós, que fazemos teatro há mais de vinte anos, sabemos no que tudo isso vai dar. Nesse quadro, se a tragédia se confirmar, o único esteio que permanece é o elemento basilar do teatro: o espectador. Mas, como continuar erguendo a utópica torre de papéis se a sustentação é frágil a ponto de não atingir aquele que seria o primeiro a fundamentar nosso propósito?
Provocando a discussão, refletindo, indagando: qual o lugar que o teatro ocupa na sua vida? Sim, a pergunta é sobre o teatro, e não sobre a arte. A música você pode ouvir em casa, o livro, lê-lo no ônibus, o quadro pode estar na sua parede, mas, o teatro, precisa de você, ali, frente a frente, para poder existir.
Sou da opinião de que o público que se tornou cúmplice da nossa empreitada na última década é a coisa mais preciosa e inimaginável que um grupo de teatro pode conquistar; basta fazer um pequeno retrocesso no tempo, como escrevi outrora aqui. Entretanto, é necessário diagnosticar as condições em que se estabelece a relação entre teatro e espectador para que, passada outra década, nossa surpresa seja ainda maior.
Porém, e principalmente, é preciso estar em permanente estado de autocrítica. E é o que aqui também agora faço. Para nós, que fazemos um teatro mais reflexivo, com um diálogo menor com o mercado, a chave inicial que se apresenta é a de extrapolar os limites do conhecido íntimo, do artista, do apreciador de arte, do professor, do aluno.  Estender nosso alcance ao cidadão plural, aquele que está no ônibus, no consultório, na feira, no bairro, na padaria.
De que maneira fazer isso é que são elas, ele, tu, eu, vós, nós. Enquanto isso, se você não gosta tanto de teatro, venha pelo menos conhecer o jardim, e o jardineiro.
 

sábado, 28 de maio de 2016

Sobre cultura, ministério, leis e artistas milionários


Tenho ouvido tanta necedade a respeito de cultura, ministério, arte, Lei Rouanet e artistas milionários, que chego a pensar em me tornar homem-arte, e passar a explodir com cultura e informação os ingênuos ou energúmenos que propagam disparates ao léu, sem medir as consequências.
 
Recentemente retornamos da 1ª etapa do projeto SESC Amazônia das Artes, onde visitamos algumas capitais de estados da Amazônia Legal – Palmas/TO, Porto Velho/RO, Boa Vista/RR e Rio Branco/AC – e em agosto concluiremos a circulação de Velhos caem do céu como canivetes pelos outros estados da região amazônica – Manaus/AM, Belém/PA, Macapá/AP, Cuiabá/TO e Teresina, no Piauí, que, apesar de não fazer parte da região, é convidado por apresentar condições socioeconômicas parecidas.
 
 
"É a arte que nos ensina que não é necessário ter para ser, e que todo poder sucumbe perante uma forte onda de esclarecimento."

 
Só quem passa por uma experiência similar a essa pode entender o significado de “custo amazônico”, e a importância do conceito de Amazônia Legal para tentar minimizar esse custo tão oprimente para os moradores da região, pois permanecem distantes dos recursos públicos para desenvolver qualquer tipo de atividade, incluindo as ligadas à cultura e arte. O projeto do SESC é inovador, por entender esse custo e tentar diminuir as desigualdades de distribuição artística na região, e favorecer a viabilização financeira do artista amazônico.
 
Por consequência, ao conhecer e reconhecer o Brasil, depois de ter circulado pelo país inteiro durante vinte anos, concluo que comentários sobre artistas ricos só podem sair da boca de pessoas prostradas frete à TV e suas novelas, a imaginar que artista é todo sujeito que aparece na sua frente à noite, na telinha, e desconhecem profundamente seu país, onde 99% dos artistas são massacrados pela escassez de recurso para poder produzir sua arte com dignidade.
 

O Brasil é desigual por natureza, e o que o Ministério da Cultura tentou fazer nos últimos anos foi minimizar essas desigualdades, e, ainda assim, não chegou nem perto dessa tarefa na região que aqui coloco como exemplo. A penúria financeira em que vivemos – sim, primeira pessoa do plural, porque o Maranhão faz parte da Amazônia Legal – é digna de uma revolução, e a resistência artístico-cultural é digna de elogio, e não de achincalhes. A prova de que somos uma região suprimida pela invisibilidade, é o fato de, para os detratores, sermos todos ricos.
 
Esse tipo de comentário, no ouvido de um cidadão minimamente sério, soa como um chiste equivocado, uma anedota nefasta, uma piada de mau gosto. Qualquer cidadão ligado ao fazer cultural da sua cidade conhece as dificuldades em que se encontram seus artistas, as lutas, as frustrações, mas, principalmente, a permanente resistência. É a arte que nos ensina que não é necessário ter para ser, e que todo poder sucumbe perante uma forte onda de esclarecimento.
 
Ou seja, o valor que sobra para a arte não compromete a saúde do cidadão, não desfalca a educação do aluno, não abala a segurança do país; o valor historicamente destinado à cultura não passa daquela velha e famigerada esmola, aquela moedinha que você joga no nosso chapéu depois de lhe dedicarmos duas longas e prazerosas horas do nosso ofício. Não, a arte não vai falir o país. Não, 0,38% do orçamento não vai comprometer o estado. Não, 90% das pessoas que aparecem na TV não são artistas, como já falei aqui. Não. Não. Não. Pare de ser ingênuo ou mal-intencionado. A cultura não precisa disso. Ela já tem moinhos suficientes que enfrentar, para andar se preocupando com a sua desinformação.

sábado, 21 de maio de 2016

Vagabundo, com muito orgulho!

Para a sociedade em geral, desde o primeiro dia em que resolvi viver de teatro, sou um vagabundo. Isso nunca me incomodou, nem deveria, pois decidi abraçar minha profissão, artista, por saber que vivia em uma sociedade conservadora, preconceituosa, desinformada, machista, retrógrada, e por compreender que, através do teatro, eu poderia auxiliar a reverter essa situação, contestando, instigando, questionando, transgredindo, esclarecendo, atuando.
Com o hodierno acaloramento do debate político, essas pechas – vagabundo, viado, maconheiro – ressurgem das trevas, e o artista volta a ser sinônimo de boa-vida, borra-botas, marginal. Confesso que isso não me destempera. Acredito na opção que fiz. Nestes quase trinta anos de arte, são inúmeras as pessoas que, através da minha prática, da minha ética, da busca dialética, da minha cara patética, mudaram de opinião, e, em vez de me injuriar, passaram a compreender que, aquilo que parecia vadiagem, era apenas uma forma diferente de vida, fora da curva, além do óbvio. Ganhei o respeito de muitos, tantos, que eu não poderia quantificar, superando a mais otimista expectativa. Fui muito além do que eu poderia imaginar, e qualquer um que tenha começado a fazer teatro trinta anos atrás, no interior do Maranhão, sabe do que estou falando.
Tenho uma frase que diz: reconhecimento não se busca, se espera. Pois eu nunca esperei ter sequer o reconhecimento dos meus pares, imagine da família, da sociedade, do mercado, do careta. Claro que falta muito, e sinto pena por não ter conseguido ainda fazer com que esses, que enxergam apenas o caminho, não tenham almejado levantar a vista para ver o horizonte. O meu trabalho consiste nisso. É nisso que acredito, é por isso que luto; para construir uma sociedade mais justa, menos reacionária, mais democrática, mais esclarecida.
Compreendo que o momento atual é de confronto, mas acredito que a grande maioria dos que enxergam a arte como uma brincadeira supérflua fazem isso por ignorância. Aqueles que entendem assim, que somos vagabundos, ainda não conseguem olhar além, e encontram-se encerrados, presos, sufocados dentro de um capô de Fusca. Se eu conseguisse chegar a eles com minha arte, sei que um diálogo se abriria. Se eu conseguisse chegar a eles com o argumento da minha opção de vida, tenho certeza que outras pessoas passariam a engordar o coro dos descontentes – digo "grande maioria" porque no mundo sempre há um lugarzinho para um canalha, e esse é outro tipo de gente.
Acredito nisso. Acredito tão profundamente no poder do teatro, da arte, que chego a me surpreender com minha própria tolerância. E penso além. Sempre pensei.  Como vagabundo sempre estive à margem, e a ideia dessa marginalidade sempre me foi cara. O trabalho é uma invenção. Fico com a primeira definição do Houaiss para vagabundo: “que ou quem leva vida errante, perambula, vagueia, vagabundeia”. É o que faço, vagar pelo país levanto o teatro que acredito para todo e qualquer público que queira refletir, discutir e transformar com a gente.
Agora, se você não aceita o argumento, se não lhe interessa dialogar, ou me chama de vagabundo por mera preguiça intelectual, nesse caso, não se preocupe, eu não faço teatro para você.

sábado, 30 de abril de 2016

Caminhando



No próximo domingo faremos a primeira apresentação de Velhos caem do céu como canivetes pelo projeto SESC Amazônia das Artes, aqui em São Luís, na sede da Pequena Companhia de Teatro, com entrada franca.
A partir daí iniciaremos uma nova caminhada, por toda a Amazônia Legal e o Piauí, em duas etapas, sendo a primeira Palmas/TO, Ji Paraná/RO, Boa Vista/RR e Rio Branco/AC, de 11 a 19 de maio.
O que move um grupo de teatro é o caminhar. Um caminhar no espaço, mas também no tempo. Assim como a Pequena Companha de Teatro tem caminhado por todo o Brasil, levando seu repertório para os mais diversos públicos, caminhou também no tempo que compreende uma década, para entender que suas conquistas são frutos desses dois deslocamentos – o temporal e o espacial.
A pulsação do viajar desorganiza, tira o artista da zona de conforto, desburocratiza, rompe as estruturas, subverte a lógica, nos surpreende com o caos. Por mais precavido que o coletivo seja, é na viagem que se revelam as rusgas, as falhas, os perrengues, as mágoas; trazendo para a berlinda tudo aquilo que o conforto do lar camufla.
Também com a viagem vem a partilha, o tratar generoso, a comunhão do olhar sobre o problema exposto, as soluções escalafobéticas, a certeza de que se está no caminho certo, quando esse caminho nos leva para aquele ponto do planeta em que só o teatro nos faria chegar. Aquele lugar onde o público, que não faz a menor ideia de quem você seja, lhe mostra a importância do que você faz, provando que, no teatro, caminhar é fazer.
Caminhar é fazer escolhas, buscar rumos, trajetos, destinos, encontrar bifurcações, rodar em círculos, passar do ponto, errar a rota, descarrilar, mas manter-se em deslocamento, sempre, para sentir-se vivo, mesmo quando a inércia, essa sedutora contumaz, oferece o acachapante conforto da quietude, nos convencendo de que não adianta mais tentar avançar.
Como diria o poeta Antonio Machado: “Caminante, son tus huellas el camino, y nada más; caminante, no hay camino, se hace camino al andar. Al andar se hace camino, y al volver la vista atrás se ve la senda que nunca se ha de volver a pisar. Caminante no hay camino, sino estelas en la mar.” Caminhemos!
 

sábado, 2 de abril de 2016

Teatro para tempos de crise


Semana passada estive em Mossoró palestrando sobre gestão teatral e as estratégias necessárias para encarar tempos de crise, um encontro informal e caloroso com as queridas companhias A Máscara e Pão Doce. O objetivo era tratar a ideia de crise no sentido amplo, abordando crises financeiras, de relacionamento, de gestão, de identidade, etc. Aqui concentrarei minha atenção na dita crise econômica que tanto espaventa.
Nunca me agradou a mistura entre arte e mercado, roda de negócios, comercialização, metas, coaching, produto, lucro, e toda a parafernália mercadológica que é apresentada como obrigatória para o sucesso de uma companhia teatral. Costumo tratar esses mandamentos de maneira distanciada e informal, para não me descobrir, no futuro, um tecnocrata das artes, pançudo e mal pago. Contudo, entendo que vivemos em um mundo onde a indiferença a esses fatores pode ser assustadoramente nociva para o futuro de uma companhia que sobrevive exclusivamente de teatro, como é o caso da Pequena Companhia.
Em tempos difíceis, o que diferencia o teatro de pesquisa de todas as outras atividades do mundo, é que ele sempre esteve e estará em crise econômica. Ele não sabe o que é vida além da permanente dificuldade de sobreviver do seu fazer, portanto, permanece também imune às subidas e descidas de dólar, bolsa, produto interno bruto, taxa de juros etc. O que rege a vida teatral é a subida e descida do pano.
Essa condição deve servir para fortalece uma visão estratégia do grupo de teatro, e tentar perceber a trajetória a longo prazo, arremessar o pensamento ao futuro, imaginar os quadros mais negativos possíveis, e usar a criatividade artística como instrumento gerador de soluções além do óbvio.
Não existe uma regra; penso que cada coletivo deve fazer um diagnóstico preciso da sua situação e, a partir daí, elencar as mais estapafúrdias ideias que dialoguem com seus desejos e dizeres, para formar um banco de possibilidades a serem avaliadas, estudadas, testadas e aplicadas em tempos progressivos e momentos cruciais.
Quando digo estapafúrdias não brinco: de que maneira o espetáculo Velhos caem do céu como canivetes pode ensinar o público chinês a falar português? Em que tipo de leilão pode se leiloar o cenário do espetáculo que já morreu? Como invadir, com um espetáculo, um festival de teatro que não fomos selecionados? Como convencer o mercado a não tratar a arte como mercadoria?
A ideia parte do mesmo princípio que uso para conceber uma nova encenação; pensar além do óbvio, não temer o ridículo, não desistir prematuramente, assustar-se com a própria ideia, evitar o engessamento, sacudir a certeza, respeitar o desalento, resistir. Claro que tudo isso quase nunca dá certo, entretanto, como não cobro pelo conselho, tampouco pago pelo fracasso.

domingo, 13 de março de 2016

O que você está fazendo com a sua vida?


Contam que o Rei Alexandre, ao ser inquirido pelo filósofo Aristóteles com a pergunta “– O que queres ser quando crescer?”, teria respondido, num rompante premonitório, “– Quero ser Grande!”. Claro que a anedota foi inventada por mim, e o trocadilho infame é mero preâmbulo para dar consistência histórica à tese que a seguir desenvolvo, pois depende da sua atenção para que não se torne lixo eletrônico.
A grande pergunta da vida é: o que você quer ser quando crescer? Agora, o caro leitor, pensa-me caçoador, mas não brinco; a mais importante resposta que um ser vivente deve se responder antes de morrer é: o que é mesmo que eu quero ser? A resposta a essa pergunta pode ser dada na infância, na juventude. Contudo, a grande maioria das pessoas só consegue respondê-la na maturidade e outras, passam a vida sem encontrar a resposta.
A fortuna contida nessa resposta, quando elucidada a tempo de poder prosseguir por um resquício de vida, consolida o foco de toda uma conduta e, concomitantemente, aguça a construção de um futuro para essa vida, a partir de ações presentes capitaneadas pela objetividade oferecida pela resposta.
Para dar generalidade à tese, usarei como exemplo uma vida qualquer: a minha. Quando consegui responder que queria ser um encenador, fazer teatro, ser um homem de teatro – isso aconteceu no século passado –, antepararam-se, na minha trajetória, toda sorte de enlaces que desviariam minha caminhada e afetariam o futuro, que é meu presente hoje.
Ao recusar os vários convites para ser diretor do Teatro Arthur Azevedo (não se espantem, o primeiro ocorreu há mais de uma década), se aparentemente eu desprezava uma oportunidade única, o envolvimento com essa jornada me levaria, no mínimo, três ou quatro anos de serviço público e, consequentemente, amortizaria a atenção dada ao que considerava o principal projeto da minha vida, e que hoje atende pela alcunha de Pequena Companhia de Teatro.
Ao responder à pergunta do milhão, também respondia que não desejava ser funcionário público. As coisas são excludentes? Não. Contudo, temos de convir que a divisão de foco e atenção tendem a modorrar uma ou outra opção, alargando o tempo necessário para a conquista dos dois objetivos. Ao responder à pergunta a tempo, eu concentrei esforços, e jamais me afligiram o músico que não fui, o jogador que ficou, o chef que não cozinhou, o poeta que não publicou, o motorista de ônibus que não dirigiu – sim, na infância, quando inquirido com a peremptória pergunta, eu respondia: Quero ser jogador de futebol e motorista de ônibus.
Toda essa pluralidade, contida em qualquer ser humano inquieto, permaneceu e foi exercitada como instrumento de aperfeiçoamento do meu oficio – ser encenador –, mesmo as atividades que aparentemente não tivessem maior relação, como o motorista que sou nas viagens da Pequena Companhia de Teatro pelo país afora. Entretanto, não absorveram maior tempo que o necessário a qualquer atividade paralela, imprescindível para a distração, o entretenimento, o relaxamento.
Ao me apresentar como cobaia, ofereço uma alternativa de reflexão sobre o quanto o permanente titubeio pode ser lesivo para a nossa passagem pela vida, tendo em conta que o que fazemos é mero passatempo de existência, até chegar o momento de poder responder à segunda e derradeira pergunta mais importante: o que fiz da minha vida?

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Pequena seleção de atores para treinamento


 
Finalizado o recesso da Pequena Companhia de Teatro, que no meu caso também se estendeu ao excêntrico exercício de escrever para ninguém, retomo as postagens regulares, certo de que não fizeram a menor falta, contudo, satisfeito por saber que, também, não me resultou agônica a abstinência de pensar em um assunto, abonar sua relevância, refletir sobre, provocar uma escrita, desenvolver a escritura, corrigir sua ortografia e publicar o conteúdo – calvário criativo da postagem que você lê, finge que lê, ou ignora.
Para abrir os trabalhos, eis a logomarca comemorativa dos dez anos de fundação da Pequena Companhia de Teatro, assinada pelo autor da logo original, Cláudio Marconcine. Uma imagem que pretende fazer você lembrar que durante a última década fizemos teatro ininterruptamente, ou seja, dez anos em que, se alguém não viu teatro, foi porque não quis.
Em 2016 nossas ações pretendem intercalar-se entre São Luís e o mundo – onde mundo é um futuro incerto de desejos, esperanças, torcidas, almejos, devaneios e fabulações. Já certas, a nossa circulação através do Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, pelo Centro-oeste, com Pai & Filho, e a circulação através do SESC Amazônia das Artes, pelo Norte, com Velhos caem do céu como canivetes. Para o Nordeste, Sudeste e Sul temos sete meses livres, alguém se habilita?
Nossas ações em São Luís pretendem concentrar-se nas práticas ordinárias (apresentações, debates, oficinas, seminários, recepções etc.), com uma ação inédita: a abertura do nosso treinamento para os pares interessados. A ideia é convidar amigos que queiram treinar conosco, uma vez por semana, durante ciclos bimestrais ou trimestrais. O convite será informal, não abriremos inscrições, portanto, se tiver interesse em emprestar o seu tempo, avise.
A iniciativa vem de encontro a um desejo antigo nosso de conseguir manter aplicação regular do Quadro de Antagônicos, independentemente dos processos de montagens, fato sempre relegado por mostragens, viagens e vagabundagens. Entretanto, com a facilidade de ter espaço físico próprio, a protelação não convence mais nem o maior amante do ócio – eu.
O principal objetivo da empreitada, além de treinar os atores da companhia, é experimentar nosso procedimento metodológico em outros corpos, e assim poder aprofundar a problematização de uma técnica que, apesar de ser aplicada há mais de uma década, se mostra aberta, inconclusa, flutuante, argilosa, tênue, como imagino deva ser a vida de qualquer experiência que tenha como foco o desenvolvimento de um ator pleno.
Como não sou dado a grandes entusiasmos, confio nos atores da Pequena como dínamo de vontade, além de torcer para que aqueles que queiram se aproximar somem mais desejo do que minha inclinação à desistência, pois, para convencer-me de que algo é melhor que a inércia é preciso muita disposição.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Quem é você?

Não sou homem de listas, pedidos, desejos, promessas. Faço o que está ao meu alcance para que minha vida seja tão boa quanto o meu esforço para que a vida dos outros seja. Não consigo imaginar o bem-estar se não for coletivo. Os outros são outros eus, e meus eus são tão plurais que confundiriam meus pedidos. Uma virada de ano não dá conta da histórica desigualdade que nos constituiu como sociedade, portanto, em vez de dar pulinhos sobre as ondas, dou meus pulos para fazer do teatro o instrumento de transformação que sonhei quando ainda não fazia promessas para um ano novo – como disse, não sou homem afeito a essas práticas. Principio insistindo em não abandonar a utopia — um ser humano que acredita no poder de algo tão inútil como o teatro, ou é um tolo, ou um idealista, que, contemporaneamente, significam a mesma coisa. Abraçado a essa égide, vou imaginando um mundo melhor enquanto reparo pequenas fissuras, porque um mundo se constitui de partes pequenas, e se deixo que a parte que me cabe roa, não posso exigir o melhor através do reparo dos outros. Entretanto, sabedor de que tudo é pouco quando os excluídos são tantos, desabito o utópico desejo para habitar a realidade, e mergulho na análise dos pequenos atos, aqueles que corrompem, transformam, denigrem, enriquecem, destoem, melhoram. Qual humano me tocou ser? O foragido? O mesquinho? O mártir? O clandestino? O corrupto? O exilado? O invejoso? O ser simbólico é a essência do ser real. Qual é o meu traje? Que papel me fora outorgado pela imagem que criei de mim? É a partir dessa imagem que se constitui a relação com o entorno, e não se espera honestidade do corrupto, lealdade do infiel, clausura do mundano. O que o mundo espera de mim enquanto me pavoneio sobre o quanto eu ajudo a melhorá-lo? Tocou-me o papel do insignificante, do invisível. É desse lugar que tento mudar o mundo. É da impotência dessa condição que enfrento todos os moinhos. É desse abismo que sonho construir um mundo melhor para todos. É dessa miserável situação que violento a minha vaidade ao prever que o próximo ano será tão igual quanto todos, se minha inércia não se quebrar em benefício do todo. 

sábado, 12 de dezembro de 2015

Cansei de ser enganado


Estou cansado de ver artistas abrindo concessão por tudo: dinheiro, religião, crítica, opressão. Uso hoje o dinheiro como objeto de provocação. Estou cansado de assistir a obras que não são o que seriam, porque a redução de custos comprimiu a arte a ponto de mutilá-la. O cenário não cabe no orçamento? Faço de um barbante meu castelo. Não dá para pagar a banda inteira? Vou de voz e violão. A grana não cobre a contratação de luz? Faço da minha incandescência uma soturna escuridão. Artistas vão de multimídia a monobloco em fração de segundos para adaptar conceitos, sem se ater aos efeitos, que na maioria das vezes se tornam defeitos. Estou cansado da argumentação etimológica, com palavras de ordem – pós, contemporaneidade, processo, efemeridade, flexibilidade –, para camuflar a óbvia necessidade de faturar. Estou cansado de ouvir a frase “artista tem que sobreviver” como argumento para estuprar a arte, o pensamento, a paixão, a víscera, a vocação. Estou cansado de ouvir a explicação do artista me dizendo como é a apresentação original, o quão genial é a obra pressuposta, enquanto eu vejo o Frankenstein que ele criou para poder chegar até aqui apertando o orçamento. Estou cansado de que mintam na minha cara sem pudor, estou cansado da conivência do espectador, estou cansado da ausência de fervor. Estou cansado de ficar em casa com medo do que vou encarar no teatro, no museu, na praça. Onde foram parar as deliciosas frases “botei do meu bolso”, “gastei tudo o que eu tinha”, “tomei prejuízo”, para explicar a odisseia que foi conseguir trazer essa obra magnífica a um estado tão periférico como o Maranhão? Estou cansado de boas ideias e péssima execução. Estou cansado de ser condescendente para não magoar o amigo, de ser hipócrita para não parecer sempre crítico, de ser taxado por não comungar com a mediocridade, de ser o excêntrico porque não engulo qualquer coisa. Estou cansado da ideia de que qualquer coisa é melhor que nada, quando o nada é bem melhor do que qualquer coisa. Estou cansado de levar gato por lebre, apesar de preferir gatos. Não aleije sua obra, não flexibilize em demasia, não venda seu rigor, não comprometa seu dizer, não subestime o espectador. Recentemente vivemos uma situação similar, onde precisamos ajustar nossa montagem a um projeto de circulação, e o norte do país verá Velhos caem do céu como canivetes sem um centímetro de prejuízo em relação ao espectador que assiste o espetáculo em nossa sede; não fosse assim, não veria. Portanto, não me venham com arengas.

sábado, 5 de dezembro de 2015

A Pequena na Amazônia Legal


A última apresentação do ano de Velhos caem do céu como canivetes, a quadragésima, encerrando a programação de artes cênicas da 10ª Aldeia SESC Guajajara de Artes, culminou com o anúncio da seleção do espetáculo para participar do projeto SESC Amazônia da Artes, em 2016, anúncio feito pela querida Isoneth Almeida antes do início do espetáculo. Serão dez apresentações por todos os estados da região Norte, além de Mato Grosso, Piauí e Maranhão.

Com o anúncio, no ano em que a Pequena Companhia de Teatro completa dez anos, teremos nosso repertório circulando por duas regiões completas do nosso país – Pai & Filho circulará pela região Centro-Oeste, pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura. Nossa luta será para estender a comemoração para todas as regiões, e ainda dependemos de algumas respostas, sortes, confirmações, mandingas, resultados e cruzamento de dedos.

Os dois projetos vão nos proporcionar a possibilidade de atingirmos alguns dos poucos estados que faltam para a Pequena Companhia de Teatro ter circulado por todos os estados brasileiros com seus espetáculos, façanha que para uma companhia de teatro de pesquisa maranhense é quase uma odisseia.

Como os estados do Amazonas, Roraima e Acre, estão incluídos na nossa circulação pelo Amazônia da Artes, e Mato Grosso do Sul e Goiás estão incluídos na circulação pelo programa da BR Distribuidora, apenas o estado de Sergipe e o Distrito Federal não terão recebido espetáculos da Pequena, pelo menos até o fim desta postagem. Não sei o que isso quer dizer, mas sei dizer que isso não é pouco.

Contudo, o que diferencia o projeto Amazônia das Artes, é a possibilidade de diálogo com uma região que, apesar de ser tão próxima do Maranhão, não se apresenta elucidada por nós como deveria. A potência criativa que emana do discernimento das diversas realidades da região, suas delícias e agruras – como nossa querida leitora Maria Rita, do Amazonas, destacou ao comentar aqui – alargará o nosso entendimento sobre um fazer teatral nacional, como outrora comentei na postagem Teatro brasileiro.

O ano do aniversário ainda nem começou e já temos motivos de sobra para comemorar, e celebrar fazendo teatro é a nossa prioridade: juntem-se a nós, Sergipe e Brasília!

domingo, 29 de novembro de 2015

Pequena aldeia


Apesar de abrir as portas da sua sede em 2013, o ano de 2015 está oferecendo uma experiência inédita para a Pequena Companhia de Teatro: a de abrir a casa para outros grupos se apresentarem – experiência iniciada no dia 31 de outubro, com o espetáculo “Para uma avenca partindo”, de Josué Redentor.

Agora, durante a 10ª Aldeia Sesc Guajajara de Artes, nossa sede está sendo ocupada com diversas atividades: ontem as palestras “Ser indígena hoje em contexto urbano, desafios e resistência” e “Ocupa árvore”; amanhã o lançamento da revista “Palavra”, às 19h, e “Para uma avenca partindo”, às 20h30; terça o espetáculo “A escrita do Deus”, às 19h; e quarta “Velhos caem do céu como canivetes”, às 19h.

Essas experiências embrionárias servirão para fazer uma avaliação detalhada, e definirmos os rumos que tomaremos em 2016 no que se refere à cessão do nosso espaço para atividades outras que não aquelas desenvolvidas pela Pequena Companhia de Teatro.
"O fato, como tudo o que se refere ao universo teatral, me faz refletir, indagar, arguir, questionar, e escrever para você, meu discreto confidente."  
Nós quatro, membros da companhia, temos a certeza de que não queremos que nossa sede se torne uma casa de aluguel, e que, como várias experiências que conhecemos, tenhamos limitado nosso desenvolvimento artístico por comprometermos nosso espaço de trabalho com pautas, locações, agenda, calendário.

Daí em diante ainda não definimos que tipo de regimento ordenará essa demanda, portanto, enquanto a discussão interna se desenvolve, empresto minhas impressões e reflexões iniciais a este blog, instrumento onde despejo minhas opiniões, surtos, desatinos, problematizações e devaneios.

Penso que o ideal seria que tivéssemos muita vontade de abrir nossas portas para outras produções, mas que nossa própria produção fosse tão intensa – com temporadas regulares de espetáculos, oficinas, vivências, treinamentos, processos, seminários – que se encarregaria de atrapalhar essa vontade, e só disponibilizaríamos as fendas que surgissem na agenda durante o ano. Seria o melhor dos mundos, tendo em vista que tanto trabalho nos tornaria abastados, e eu esbanjaria dinheiro para minimizar minha dificuldade em lidar com ele.

 
Não sendo essa a realidade – e creio que jamais será, mesmo fazendo um  esforço para me livrar da pecha de pessimista contumaz –, acredito que a linha curatorial da cessão do nosso espaço deveria obedecer critérios que identificassem o diálogo entre o nosso fazer e a produção que se apresentasse aqui; dessa forma, ofereceríamos ao nosso espectador um recorte específico de produção teatral (ou musical, literária etc.), focalizado na pesquisa, no desenvolvimento de pensamento, na valorização da arte como instrumento provocador.

A única certeza que me impregna é que essa disponibilização deveria ser secundária. Durante sete anos sonhamos com a possibilidade de ter uma sede para conquistarmos independência criativa, autonomia espacial, alargamento técnico, desopressão financeira. Esse foi, é, e deveria continuar sendo o nosso foco – você, leitor tenaz que chegou até este ponto da postagem, não sabe a satisfação que dá ter o espaço que se quer para se produzir o que quer que seja sem a pressão de ter que produzir dinheiro para pagar o aluguel.

Como sempre digo, somos privilegiados, e temos que ter o cuidado para que nosso privilégio não se torne uma prisão pautada pelos outros, como quando precisávamos pedir para poder experimentar, pedir para poder ensaiar, pedir para poder apresentar – condição que durante sete anos vivemos e que, sabemos, não queremos iterar.