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domingo, 17 de julho de 2016

Teatro em movimento – a roda da fartura


Hoje encerramos o projeto Pai & Filho, pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, que buscou ocupar, com o maior número de atividades possíveis (apresentações, debates, oficinas e um fórum permanente de reflexão com um grupo de teatro convidado), o Centro-Oeste do Brasil (as cidades de Primavera do Leste/MT, Campo Grande/MS e Goiânia/GO), região menos atingida pelas circulações da Pequena Companhia de Teatro até aqui, pois só Cuiabá havia nos recebido, em 2012.
É o teatro que nos move, literalmente. Nos movimentamos durante uma década, em todas as direções; seguimos por via terrestre, aérea, fluvial; de carro próprio, de avião, de van, de balsa, de ônibus, de camionete, de carroça (sim, nossos cenários já viajaram de carroça algumas vezes), e colhemos os frutos desse trânsito no olhar de cada espectador, de cada garçom, de cada companheiro de luta, de cada cidadão.
Plateia em Campo Grande
Na região central não foi diferente. O Centro-Oeste se apresentou como um outro Brasil, dos muitos Brasis distintos que carregamos na nossa memória, basilar para a composição deste país plural, heterogêneo, multicultural, ambíguo, desigual; carregado de tanta potência e desperdiçado por tanta incompetência – política, pois a soma desses muitos Brasis demonstra que um poder não é capaz de aniquilar a soma das vontades de uma nação.
Aqui, goianienses, primaverenses, campo-grandenses nos ensinaram que Panelinha, Mojica de Pintado e Sobá são manjares incomuns, que toda cidade tem os taxistas que merece, que árvore dá sombra, que teatro pode ser um belo programa de fim de semana, que existe um maranhense em cada esquina, que o valor de um real varia; e nos relembraram que toda plateia merece apreço, seja de vinte ou de duzentas pessoas, pois, sempre haverá um espectador atento ao trabalho de uma companhia de teatro compromissada com a reflexão sobre o nosso país.   
Oficina em Primavera do Leste
É impossível não pensar nas pessoas que encontramos pelo caminho; nos produtores, assistentes, atores, diretores, assessores, amigas,  recepcionistas, alunos, técnicos, tradutores; nos grupos Faces Jovem, Anthropos, e Mercado Cênico a materializar a importância da troca de experiências; na quantidade de gente que resolveu dedicar sua vida ao teatro e seu entorno, e no quanto essa escolha pesa, para bem ou para mal.
O país só será nosso quando nos apropriarmos dele na sua totalidade. É o que tentamos fazer quando circulamos. Nos apropriar de cada sabor, de cada costume, de cada gesto, de cada dificuldade, de cada paisagem, de cada distância; nos sentirmos donos de cada parte que forma esse todo chamado Brasil.
Espetáculo em Goiânia
Quando parados, aprisionados na nossa aldeia, não conseguimos mensurar o quão importante é viajar, conhecer, entender, refletir; e chegamos a duvidar do poder que o teatro tem de provocar a reflexão das pessoas, de abrandar convicções cristalizadas, de dar concretude ao pensamento crítico, de abrir o diálogo, de redefinir parâmetros para a vida. O teatro é importante para vocês, para nós.
Hoje falo na terceira pessoa do plural, pois, se bem sabemos que como grupo somos a soma das nossas particularidades, como indivíduos somos a comunhão da nossa mais profunda intimidade, mesmo sem ter a menor consciência disso. E que venha a segunda etapa do SESC Amazônia das Artes!

domingo, 3 de julho de 2016

A política da preguiça



Em 2012, durante a nossa circulação pelo Palco Giratório, assistimos ao espetáculo Cabaré, do Teatro Faces, de Primavera do Leste/MT, e debatemos com eles a encenação – prática do projeto de circulação do SESC após as apresentações. Na ocasião, também encontrávamos o querido amigo Sandro Lucose, elo entre a longínqua apresentação e a nossa proposta de ocupar o município mato-grossense com todas as nossas atividades durante a semana que hoje se encerra.
O teatro tem dessas coisas: um espetáculo, uma conversa, um amigo em comum, um contato feito cinco anos atrás, reverberam nas trajetórias dos grupos e possibilitam encontros inesperados como o que estamos vivendo aqui, graças ao patrocínio da Petrobras, através do Programa Petrobras Distribuidora de Cultura.


Quando a Pequena Companhia de Teatro pensou o termo Teatralidades foi na perspectiva de extrapolar a ideia de circulação e tentar estabelecer um conceito de permanência, convivência, entrançamento e intercâmbio com a comunidade que nos hospeda, e o primeiro passo dessa ideia encontrou eco em 2015, quando da ocupação do Centro Cultural Banco do Nordeste, em Sousa.

Agora, com o auspício da Petrobras, a experiência se estende a outras três cidades brasileiras, quando nos instalamos durante uma semana no município e tentamos entender ao máximo sua gente, as agruras, desejos, conquistas e frustrações.
Claro que nossa observação está relacionada principalmente à forma como o teatro está capilarizado na comunidade, de que maneira está inserido no cotidiano da cidade, como se confrontam a obrigação do poder público de construir cidadania e a necessidade de responder ao mercado; tentar entender em qual pé está assentada a relação teatro & cidadão.
O que se vive aqui em Primavera é uma experiência incomum. Escola de teatro, grupos, centro cultural, secretário da área teatral com profundo conhecimento teórico e prático, alunos de teatro com bolsa de estudo, professores de teatro oriundos da escola contratados para lecionar, crianças brincando de teatro, artistas vivendo de teatro, teatro em árvore, teatro em caminhão cegonha, teatro de sombra, teatro na praça, teatro de graça; e o mais surpreendente, tudo isso em um município de pouco mais de cinquenta mil habitantes.
Claro que a primeira pergunta que emerge dessa pancada criativa é: como isso é possível? Um diagnóstico mais aprofundado exigiria muito mais do que uma semana, porém, a primeira resposta que encabeça todas as outras é: vontade política. Vontade política de abraçar boas ideias. Vontade política de identificar e apoiar projetos interessantes. Vontade política de criar condições para o desenvolvimento das artes. Vontade política de contratar seu secretariado por mérito. Vontade política de não se tornar um refém do voto. Vontade política de desenvolver uma gestão programada para todo o mandato, e não para o último ano. Vontade política de ser um servidor; ressalvando que, para servir, precisa-se de vontade – infausto paradoxo.
Em resumo, não há nada mais nocivo para a sociedade do que ver seus gestores alastrando sua melancólica falta de vontade e sua aguda preguiça intelectual.
 

sábado, 30 de abril de 2016

Caminhando



No próximo domingo faremos a primeira apresentação de Velhos caem do céu como canivetes pelo projeto SESC Amazônia das Artes, aqui em São Luís, na sede da Pequena Companhia de Teatro, com entrada franca.
A partir daí iniciaremos uma nova caminhada, por toda a Amazônia Legal e o Piauí, em duas etapas, sendo a primeira Palmas/TO, Ji Paraná/RO, Boa Vista/RR e Rio Branco/AC, de 11 a 19 de maio.
O que move um grupo de teatro é o caminhar. Um caminhar no espaço, mas também no tempo. Assim como a Pequena Companha de Teatro tem caminhado por todo o Brasil, levando seu repertório para os mais diversos públicos, caminhou também no tempo que compreende uma década, para entender que suas conquistas são frutos desses dois deslocamentos – o temporal e o espacial.
A pulsação do viajar desorganiza, tira o artista da zona de conforto, desburocratiza, rompe as estruturas, subverte a lógica, nos surpreende com o caos. Por mais precavido que o coletivo seja, é na viagem que se revelam as rusgas, as falhas, os perrengues, as mágoas; trazendo para a berlinda tudo aquilo que o conforto do lar camufla.
Também com a viagem vem a partilha, o tratar generoso, a comunhão do olhar sobre o problema exposto, as soluções escalafobéticas, a certeza de que se está no caminho certo, quando esse caminho nos leva para aquele ponto do planeta em que só o teatro nos faria chegar. Aquele lugar onde o público, que não faz a menor ideia de quem você seja, lhe mostra a importância do que você faz, provando que, no teatro, caminhar é fazer.
Caminhar é fazer escolhas, buscar rumos, trajetos, destinos, encontrar bifurcações, rodar em círculos, passar do ponto, errar a rota, descarrilar, mas manter-se em deslocamento, sempre, para sentir-se vivo, mesmo quando a inércia, essa sedutora contumaz, oferece o acachapante conforto da quietude, nos convencendo de que não adianta mais tentar avançar.
Como diria o poeta Antonio Machado: “Caminante, son tus huellas el camino, y nada más; caminante, no hay camino, se hace camino al andar. Al andar se hace camino, y al volver la vista atrás se ve la senda que nunca se ha de volver a pisar. Caminante no hay camino, sino estelas en la mar.” Caminhemos!
 

domingo, 15 de novembro de 2015

Asas sobre o exílio, em forma e pensamento

Fotos de Ayrton Valle
Por Kil Abreu*, em São Luís. 

Ao assistir ao espetáculo da maranhense Pequena Companhia de Teatro e ao olhar o entorno onde ela se inspira, a impressão imediata é a de que a escolha dos materiais e as operações de linguagem sobre eles como que criam um parangolé dramático talhado à medida pra vesti-los. O conto de Gabriel Garcia Marquez (Um senhor muito velho com suas asas enormes) oferece o tecido, a matéria primeira, mas a montagem é fruto de motivos, modelos e técnicas intuídas pelo próprio grupo, de modo que mesmo estando lá, e bem assimilada, a narrativa original dá lugar a uma obra nova, em boa medida autônoma quanto aos seus argumentos.

O ser alado que cai no terreiro, um anjo velho (mas imprestável para a metafísica), é parente mais novo do faquir de Kafka (Um artista da fome), e dele empresta senão o mesmo destino ao menos a trajetória. Como aquele, é criatura marcada por uma diferença fundamental, fora do raio da compreensão ordinária (as asas, a origem ignorada, a sobrevivência na contingência).

Na versão do encenador Marcelo Flecha esta incongruência viva é acolhida por um miserável, um catador de lixo. E daqui desdobra-se já o procedimento fundamental que dá ossatura à dramaturgia: o anjo, que no conto do autor colombiano não diz palavra, aqui não só faz as réplicas ao outro como também cria o espaço para um diálogo político-existencial capaz de instaurar questões novas e de fazer as aproximações que o grupo quer explorar tendo como medida sua própria realidade.


“E a consciência destes seres exilados, quando trágica, tem a ver com o atravessamento da liberdade pela certeza da finitude tanto quanto pela certeza sobre uma vida insuficiente”

Ao ceticismo e pessimismo de quem a seiva das idealizações diante do mundo parece ter sido toda extraída correspondem as provocações do outro, expressas em uma espécie de fé paradoxal – porque instaurada não através da crença ou do dogma, mas através da dúvida e de perguntas sobre o sentido do existir. Então, de García Márquez a Kafka e de Kafka ao próprio grupo os caminhos tendem a encurtar-se. É que em qualquer caso o que margeia, acidentalmente ou não, todas estas narrativas – inclusive a atual, proposta pela Pequena Companhia – é a discussão da liberdade como lugar problemático para onde convergem os enfrentamentos entre miséria e transcendência, entre rotina e maravilhamento (para lembrar a ótima expressão citada pela Beth Néspoli), entre enquadramento e possibilidades de criação.

Os pontos de vista das personagens, por opostos que pareçam, se afunilam e se irmanam em uma condição semelhante. Esta condição é a do exilado (a própria diferença, na própria história ou no próprio lugar). E a consciência destes seres exilados, quando trágica, tem a ver com o atravessamento da liberdade pela certeza da finitude tanto quanto pela certeza sobre uma vida insuficiente. Consciência do abandono de Deus tanto quanto da instalação de um mal terreno, que parece injusto e irrevogável. Por isso a perspectiva de pertencimento é inócua, não faz diferença ao homem que não sonha.

Partindo deste plano de pensamento, tão irrevogavelmente niilista do início ao fim, a Pequena Companhia o desenvolve, no entanto, através de uma dialética bem sustentada e cheia de nuances. E faz dela o campo, o solo fértil para um teatro provocativo. A colheita é de qualidade. A dramaturgia alinhavada por Marcelo Flecha traz um jogo cuidadoso e fundo entre as réplicas. Cuidadoso no aspecto que mais interessa a uma arte da síntese como o teatro: o diálogo entre os personagens não deixa sobras, tudo se aproveita. É ótimo alicerce para a cena. As falas são inteligentes não porque complexas, mas porque na aparente objetividade conseguem instaurar questões que permanecem astuciosamente abertas, à espera das nossas (plateia) colaborações íntimas para que se arredondem. Ao mesmo tempo trazem o desacordo necessário para fazer com que as posições em jogo se movimentem de um ponto a outro, no sentido da argumentação. O resultado é tão bom que o contraste fica evidente nos poucos momentos em que uma ou outra ideia parece fugir ao universo das personagens, expressando a voz do autor lateralmente ao conflito que está em andamento.


No plano visual do espetáculo luz, cenário e atuações ordenam-se em um mesmo movimento orgânico.  Sob o argumento de que o agora catador de latinhas tenha sido em algum momento da vida um artista plástico cria-se não só o espaço para a discussão sobre a natureza e função da arte como também uma ambientação em que os objetos são tão úteis quanto altamente simbólicos.  E assim o plano particular da fábula faz a liga com o contexto social e estético em que ela é agora atualizada. Por exemplo, há uma significativa instalação com latas de Guaraná Jesus fazendo as vezes da coluna central de sustentação do casebre; crucifixos estilizados servem de lenha em um fogareiro no qual não há chamas, só luz. São desdobramentos do plano cenográfico que cavam aqui e ali aberturas para novos sentidos, a refazerem os significados do texto de García Márquez, colocando-o a serviço de imaginário e circunstâncias locais.

O quadro plástico se completa no trabalho dos atores (Jorge Choairy e Claudio Marconcine). É quando se pode colocar em perspectiva a história recente do grupo e dizer que esta montagem de agora reafirma, com excelência, o rigor já apontado em Pai e filho, o espetáculo anterior. São atuações ‘construtivas’, decididamente erguidas no trabalho minucioso da estilização dos gestos e das vozes, por fora de qualquer concepção maneirista. Sem se deixar afundar no formalismo, a criação dos dois intérpretes inventa humanidades complexas, em composições bem cortadas, postas a serviço de uma dinâmica viva em sons, ritmos e deslocamentos que se totalizam em um conjunto límpido quanto aos sentidos.

Se cruzarmos obra e contexto a impressão que se tem – após observar minimamente as circunstâncias possíveis para o fazer teatral em São Luis do Maranhão – é de que a Pequena Companhia vem traçando uma trajetória por fora da ordem dada. A tomar por este Velhos caem do céu como canivetes, trata-se de um milagre criativo, o que certamente não dispensa o trabalho e o esforço, visíveis na fatura final do espetáculo. É um trabalho maduro quanto ao resultado artístico tanto quanto no equilíbrio justo, difícil de alcançar, entre forma e pensamento. De alguma maneira o grupo corrige com potência, nos seus modos próprios, as condições nem sempre favoráveis para que se mantenha de pé um teatro vivo.
 
*Jornalista, crítico e pesquisador do teatro pós-graduado em Artes pela Universidade de São Paulo (USP). Foi crítico do jornal Folha de S.Paulo e da revista Bravo! Dirigiu o Departamento de Teatros da Secretaria Municipal de Cultura/SP (2003/2004), onde gerenciou alguns dos principais programas artísticos da cidade, como o Formação de Público e o Programa Municipal de Fomento ao Teatro. Foi curador dos festivais de Curitiba, Recife e Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto. Por dez anos foi professor e coordenador pedagógico da Escola Livre de Teatro de Santo André e por oito jurado do Prêmio Shell/SP. É membro da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), curador no Centro Cultural São Paulo, e colaborador do Teatrojornal.  Mantém estudos sobre dramaturgia e teatro brasileiro contemporâneo.

sábado, 5 de setembro de 2015

Pequena Distribuidora de Cultura


A Pequena Companhia de Teatro foi contemplada no Programa Petrobras Distribuidora de Cultura 2015/2016. Em sua quarta edição o programa contemplou 83 projetos, sendo 67 na categoria adulto e 16 na categoria infanto-juvenil, que circularão por 119 municípios dos 26 estados e do Distrito Federal. Os selecionados são provenientes de 20 estados brasileiros e é a primeira vez que um espetáculo teatral adulto maranhense participa deste programa.

O espetáculo selecionado foi Pai & Filho, que acaba de retornar de uma ocupação no Centro Cultural BNB, em Sousa, na Paraíba. Pelo programa de circulação da Petrobras o espetáculo circulará pelas cidades de Primavera do Leste/MT, Campo Grande/MS e Goiânia/GO, realizando 9 apresentações e 9 debates. Ao fim dessa circulação, o espetáculo terá visitado 62 cidades de 22 estados, com 145 apresentações Brasil afora.

Além do espetáculo, a Pequena Companhia de Teatro ofertará a oficina Do épico ao dramático: a transposição de gênero como instrumento de confecção de dramaturgia, atividade formativa já realizada em 10 cidades de 9 estados. A oficina democratiza os mecanismos de construção dos textos teatrais da Pequena Companhia de Teatro quando o ponto de partida são textos oriundos de outros gêneros literários.

Também acontecerão três encontros como grupos de teatro de cada uma das cidades, para intercâmbio de experiências e pesquisa. A inovação proposta pela Pequena Companhia de Teatro é que o grupo convidado participe, não só dos momentos reservados para a reflexão, mas de toda a estada na cidade, acompanhando oficina, montagem, preparação dos atores, ensaio, desmontagem, apresentações, debates, alargando o tempo de intercâmbio entre os grupos.

A jornada acontecerá em julho de 2016, mês em que a Pequena Companhia de Teatro completará dez anos de estrada. Até lá esperamos encher este blog de novidades e engordar a celebração deste decênio de existência.

terça-feira, 30 de junho de 2015

A Pequena na Paraíba


 “Teatralidades: A Pequena Companhia de Teatro ocupa Sousa”, projeto de ocupação do Centro Cultural BNB – Sousa, na Paraíba, tem o patrocínio exclusivo do Banco do Nordeste do Brasil, através da Seleção de Projetos Culturais BNB 2014, edital viabilizado com recursos de incentivo fiscal, via Lei Rouanet.


A ocupação acontecerá de 01 a 17 de agosto, e contará com coquetel  de abertura, lançamento de livro, apresentações teatrais, debates, oficinas para atores, não atores e escritores, leituras dramáticas e intercâmbio entre a Pequena Companhia de Teatro e um grupo de teatro local.


Serão dois dias de viagem dos quatro membros da Pequena Companhia de Teatro, para percorrer os 1.161 Km que separam São Luís de Sousa, realizados de carro e reboque próprios, nos dias 01 e 02/08, com preferência para deslocamento diurno de 8h por dia.


O coquetel de lançamento do projeto e do livro “Cinco Tempos em Cinco Textos”, dramaturgia reunida de Marcelo Flecha, acontecerá no dia 04/08, e contará ainda com a leitura dramática do texto “Dois”, que, além dos atores Jorge Choairy e Cláudio Marconcine, contará com a colaboração inusitada de Katia Lopes na leitura das rubricas.


Dada as pequenas dimensões do palco do CCBNB, o espetáculo escolhido para a temporada, por sofrer menor prejuízo cênico na compressão da sua espacialidade, será Pai & Filho, com oito apresentações, nos dias 05, 06, 07, 08, 12, 13, 14 e 15/08, sempre às 20h.


Os debates, como de costume, acontecerão logo após as apresentações, e concentrarão seu foco na discussão da encenação e dos procedimentos metodológicos da Pequena Companhia de Teatro.


Apesar do curto espaço de tempo da ocupação, serão ministradas quatro oficinas, sendo, “O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator” (05, 06 e 07/08) e “Do épico ao dramático: a transposição de gênero como instrumento de confecção de dramaturgia” (11 e 12/08), ministradas por Marcelo Flecha, e “O quê o meu corpo tem a dizer?” (13, 14 e 15/08), ministrada por Cláudio Marconcine.


Também acontecerá um intercâmbio entre a Pequena Companhia de Teatro e uma companhia de teatro local, que, ao participar da oficina “Leituras Dramáticas: o quê, como e por quê?”, facilitada por Cláudio Marconcine, será a responsável pela leitura dramática realizada no dia 11/08, como resultado de conclusão do intercâmbio e da oficina.


O retorno do coletivo será dia 16 e 17/08, quando iniciará as atividades de manutenção da sede da Pequena Companhia de Teatro, programadas para acontecer no último quadrimestre de 2015.

domingo, 17 de maio de 2015

Você sabia que...


... o espetáculo Velhos caem do céu como canivetes foi selecionado para a Mostra Internacional de Teatro Paraíba Encena 2015? Foram mais de quinhentos inscritos para um recorte de oito espetáculos internacionais, oito nacionais e oito paraibanos. A curadoria dos espetáculos ficou a cargo de Valmir Santos e Marcelo Bones que indicaram a Pequena Companhia de Teatro como uma das oito representantes nacionais. Será a oitava mostra de teatro que o espetáculo participa, sendo a primeira internacional. Desde sua estreia, a encenação realizou trinta e quatro apresentações e esteve em sete cidades de três estados brasileiros. A Paraíba é um dos sete estados que a Pequena Companhia de Teatro ainda não visitou com seu repertório, e 2015 oferece essa oportunidade em dose dupla: Pai & Filho estará em Sousa/PB realizando projeto de ocupação do Centro Cultural BNB e, agora, essa agradável notícia. Aqui nossa gratidão ao MITpb-2015 pela oportunidade.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Novo eco


Velhos Caem do Céu Como Canivetes, espetáculo de excessos e de difícil assimilação
Por Alexandre Mate

Drummond manifesta em seu belo poema O Lutador que haveria palavras dentro dele buscando canal: prontas para explodir. Criadores teatrais — como vulcões em estados próximos à erupção —, aliado às palavras, teriam, além destas, imagens, deslocamentos e desenhos no espaço cênico, efeitos de diversas naturezas, músicas e sonoridades em momentos distintos... A linguagem teatral é complexa e a eclosão de seu fenômeno ocorre durante o espetáculo. Antes e depois disso, o que se tem são idealizações e tentativas de explicitação.

A Pequena Companhia de Teatro, de São Luís (MA), e cujo trabalho anterior foi o pungente Pai e Filho, apresentou seu último trabalho no Teatro do Sesi, de Piracicaba (SP), durante a nona edição do Fentepira. A obra, toma como referência um conto de Gabriel García Márquez que, de modo bastante sucinto, apresenta os diálogos entre um anjo “caído” e um homem apartado do mundo. Tal situação, característica dos embates e choques entre seres de contextos absolutamente distintos, tem como cenário uma paisagem devastada (repleta de lixo reaproveitado e transformado em “obras de arte”) e lotada de objetos heteróclitos.

Feito máquinas, as duas personagens falam sem pausa e de modo ininterrupto. Sem pausa, e como condenado ao movimento constante, o ser que habita a paisagem catastrófica, parece um descendente de Sísifo (ele não descansa nunca, e parece condenado aos movimentos sem sentido).

Sem tempo para a reflexão do espectador, os efeitos se somam e vêm aos borbotões. Gilberto Gil lembra em versos de música famosa algo como em um copo vazio haveria uma plenitude de ar. Velhos Caem... precisaria, talvez, a partir de tal preceito, conferir tempo para que o público (razão de ser do espetáculo) pudesse decodificar a pluralidade de tantos símbolos.

Portanto, pausas e ralentamentos quanto ao discurso excessivo (texto, adereços, movimentações...) tenderiam a ajudar na fruição de pequenas belezas não percebidas pelo excesso.

*Velhos Caem do Céu Como Canivetes foi apresentado no domingo, dentro da mostra oficial do 9º Fentepira

domingo, 19 de outubro de 2014

Marginal


Margem. Sempre estive à margem. Minha opção marginal — sobre o que eu iria fazer para o resto da vida, a forma como iria me relacionar socialmente, as opções de pensamento — sempre me conduziram para a margem. Teatro, reflexão, discrição, nunca serão centrais no mundo ocidental, portanto, a vida tem me guiado para a margem, de onde se enxerga o mundo de outra forma. Fora do centro continuo andando, e a margem me guia para fora da periferia. O teatro, per se, já é marginal. Na sociedade contemporânea, entre as artes, jamais poderíamos colocá-lo no centro. Música e cinema são as linguagens que ocupam a centralidade do interesse popular. Nossa opção de teatro acentua essa marginalidade, quando acredita nessa linguagem como instrumento de reflexão e transformação social. Por isso, quando ouço — Matem o marginal!, sinto-me na guilhotina. Quando fundamos a Pequena Companhia de Teatro, sabíamos do lugar periférico que ocuparíamos no interesse da sociedade, e nossas ações não buscaram atingir o centro, e sim, trazer esse espectador para experimentar o olhar periférico; um olhar diferente do olhar que costuma ser centralizado no teatro: a diversão, o entretenimento, a glamourização, o riso fácil, a pasteurização do pensamento, e os diversos clichês temáticos. É o que somos. Marginais. Misturo o número da 1ª pessoa propositadamente, porque o que fazemos reflete no que penso, e o que penso encontra eco no que fazemos. Fragmento o discurso desta postagem propositivamente, para gerar no leitor um incômodo marginal. Um convite a sair do óbvio, à mudança do olhar, a romper com a norma, a sair da zona de conforto. Uma música dissonante, um espetáculo hermético, um livro de três mil páginas, um filme em preto e branco, arrisque-se. Venha para a margem. Seja marginal.
 
P.S.: A propósito, amanhã tem Pai & Filho. Última apresentação antes da Mostra SESC Cariri de Cultura. Sua chance de iniciar o exercício.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Você sabia que...


... o espetáculo Velhos caem do céu como canivete foi selecionado para o 9º FENTEPIRA – Festival Nacional de Teatro de Piracicaba? A curadoria ficou a cargo do ator e diretor Roberto Rosa, que selecionou o espetáculo maranhense dentre as 346 peças inscritas, de 89 cidades e 17 estados. A apresentação acontecerá no dia 22/11, no Teatro Municipal de Piracicaba. Para ver detalhes da programação do FENTEPIRA, clique aqui. Recentemente o espetáculo Pai & Filho foi confirmado na XVI  Mostra SESC Cariri de Cultura. As datas das apresentações serão no dia 11/11, as 19h, no Centro Cultural Banco do Nordeste, na cidade de Juazeiro do Norte, e no dia 12/11, as 21h, no Teatro Adalberto Vamozi-Sesc Crato.
 
 

domingo, 21 de setembro de 2014

Gabo no palco


Especial para o Jornal da Paraíba
Por Tiago Germano
13/09/2014

Na quinta-feira, o JORNAL DA PARAÍBA assistiu à montagem de Velhos Caem do Céu Como Canivetes, espetáculo da Pequena Companhia de Teatro, de São Luís do Maranhão. O espetáculo tem direção de Marcelo Flecha e é livremente adaptado do conto ‘Um senhor muito velho com umas asas enormes’, de Gabriel García Márquez, escritor que morreu no mês de abril.

Na peça, um misterioso Ser Alado cai no quintal de um Ser Humano, um catador de lixo que se instrui lendo os livros que encontra entre os resíduos deixados pelas outras pessoas. Impressiona a atuação de Jorge Choairy e sobretudo de Cláudio Marconcine, que se transfigura no papel deste Ser Humano, um homem que abandona as artes plásticas e vive na miséria, cercado pelas invenções engenhosamente inúteis que passa a produzir.

O desempenho corporal dos atores é fruto de uma metodologia desenvolvida pelo grupo chamada de Quadro de Antagônicos, no qual a oposição física entre os atores vai definindo, lendo e regendo as partituras físicas de cada um. O cenário, produzido artesanalmente, pelos próprios integrantes da companhia, é dominado por uma torre erguida no centro por latinhas do Guaraná Jesus.

Astier Basílio
Especial para o Correio da Paraíba
13/09/2014

 
Um ser humano confinado em um lugar ermo, revirando o lixo. Despenca em seu quintal um ser alado. É em torno deste episódio, e de seus desdobramentos, que se desenvolve o espetáculo Velhos Caem do Céu como Canivetes, montagem da Pequena Companhia de Teatro, do Maranhão, apresentada quinta no Festival Nordestino de Teatro, em Guaramiranga. No cenário, uma imensa torre composta por latinhas de guaraná Jesus foi um dos pontos de discussão entre os debatedores. “Eu não consigo ver o lixo aí tal o nível de organização da cena”, pontuou Makários Maia, encenador do Rio Grande do Norte e convidado como debatedor do evento. Numa discussão filosófica, o ser humano e o ser alado falam sobre fé. “Você não coloca a dúvida em cena, mas a descrença”, avaliou Makários. “É um espetáculo de perspectiva niilista”, observou Wilson Coelho, tradutor, diretor e dramaturgo do Espírito Santo, também integrante da banca de debatedores. Além do embate sobre a existência, numa encenação que conciliou tanto o corpo dos atores, trazendo-os dilatados, a montagem, numa composição repleta de objetos que mais parecem instalações, assume uma exuberância e a linguagem também é evidenciada como falência da comunicação – a torre de latinhas é evocada como um símbolo da Torre de Babel, de onde decorreu o castigo divino na multiplicação das línguas para impossibilitar, pela incomunicação, a chegada dos humanos aos céus.


quarta-feira, 14 de maio de 2014

Maio e junho de 2014


MAIO

Dias 02 e 07, das 14 às 17h - O quê o meu corpo tem a dizer? (oficina).
Dia 05, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
Dias 08 e 09,  das 08 às 12h - Do épico ao dramático: a transposição de gênero como instrumento de confecção de dramaturgia (oficina).
Dia 12, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
Dias 17 e 18,  das 14 às 18h - Do épico ao dramático: a transposição de gênero como instrumento de confecção de dramaturgia (oficina).
Dia 19, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
Dias 20, 21 e 22, das 19 às 22h - O quê o meu corpo tem a dizer? (oficina).
Dias 21, 23 e 28, das 14 às 17h - O quê o meu corpo tem a dizer? (oficina).
Dias 24 e 25,  das 14 às 18h - Do épico ao dramático: a transposição de gênero como instrumento de confecção de dramaturgia (oficina).
Dia 26, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
Dias 27, 28 e 29, das 08 às 12h - O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator (oficina).
Dias 27, 29 e 30, das 14 às 18h - O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator (oficina).


JUNHO

Dia 02, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
Dias 03, 04 e 05, das 18h30 às 22h30 -  O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator (oficina).
Dias 07 e 08, das 14 às 18h30 - O quê o meu corpo tem a dizer? (oficina).
Dia 09, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).


IMPORTANTE:
Toda a programação ocorrerá na sede da Pequena Companhia de Teatro 
(Rua do Giz, 295, Centro Histórico).
A lotação está restrita a 45 (quarenta e cinco) lugares.
As atividades são gratuitas.
Para agendamento de grupos, gentileza entrar em contato antecipadamente.
Os interessados nas oficinas devem se inscrever antecipadamente aqui.
As dúvidas devem ser sanadas através dos contatos: pequenacompanhiadeteatro@hotmail.com / (98) 3232-6054 / 8133-2172 / 8771-7085.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Abril de 2014



  • Dias 04 e 05, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes - 9ª Semana do Teatro no Maranhão (espetáculo teatral).
  • Dia 07, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
  • Dias 08, 09 e 10 - O quê o meu corpo tem a dizer? (oficina).
  • Dia 14, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
  • Dia 15 - Do épico ao dramático: a transposição de gênero como instrumento de confecção de dramaturgia (oficina).
  • Dia 21, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
  • Dias 22, 23 e 24 - O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator (oficina).
  • Dia 28, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
  • Dias 29 e 30 - O quê o meu corpo tem a dizer? (oficina).

IMPORTANTE:
  1. Toda a programação ocorrerá na sede da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, 295, Centro Histórico).
  2. A lotação está restrita a 50 (cinquenta) lugares.
  3. As atividades são gratuitas.
  4. Para agendamento de grupos, gentileza entrar em contato antecipadamente.
  5. Os interessados nas oficinas devem se inscrever antecipadamente aqui.
  6. As dúvidas devem ser sanadas através dos contatos: pequenacompanhiadeteatro@hotmail.com / (98) 3232-6054 / 8133-2172 / 8771-7085.

Como se inscrever?

A Pequena Companhia de Teatro está abrindo inscrições gratuitas para as suas oficinas de formação - uma das ações do projeto Teatralidades - graças ao Prêmio Myriam Muniz de Teatro da Funarte/Minc/Governo Federal, bem como do Programa BNB/BNDES de Cultura.


Serão 3 (três) oficinas, distribuídas em 12 (doze) turmas, em diferentes dias e horários, nos meses de abril, maio e junho, dentro da primeira etapa do projeto Teatralidades. Depois da Copa divulgaremos a segunda etapa.
 
Oficina A: Do épico ao dramático: a transposição de gênero como instrumento de confecção de dramaturgia (8h)
Oficina B: O quê o meu corpo tem a dizer? (9h)
Oficina C: O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator (12h)
 

As inscrições deverão ser feitas, gratuitamente, através do preenchimento de um formulário que se encontra aqui. É importante colocar a disponibilidade de tempo para que os horários das turmas sejam confirmados. Assim, teremos oficinas acontecendo nos 03 (três) turnos, a depender a sua escolha.

Paralelo às oficinas de formação, nesta primeira etapa, também estaremos desenvolvendo: Apresentação do espetáculo Velhos caem do céu como canivetes, às segundas-feiras, às 19h e Leituras dramáticas com companhias de teatro residentes em São Luís, na última quinta-feira de cada mês (menos no mês da Copa), às 19h.

Na segunda etapa tem mais!

Qualquer dúvida, entre em contato:
(98) 3232-6054 / 8133-2172 / 8771-7085


domingo, 1 de dezembro de 2013

Não, querido, não se voa colocando aspas no verbo "voar"

Fotos de Ayrton Valle
Crítica de Igor Nascimento
 
Convém-se que a Tragédia é a derrota do Homem diante da vontade divina. Não se luta contra o que foi preestabelecido pelos “Céus”.  Por mais cruel que o destino possa parecer, o Homem é regido por estas convenções de ordem divina e/ou social e deve respeitá-las. O ato que vai de encontro àquilo que lhe foi conferido pelos deuses ou/e pela sociedade culminará em um terrível fim. Seu caráter transgressor, que parecia sua maior qualidade, será o responsável por sua queda. Mesmo arrependido, continuará caindo até se chocar contra um sólido fundo trágico...
 
Nós, do lado de cá, sentindo terror e piedade, nos purgamos daquele defeito de caráter que parecia tentador em um primeiro momento, pois deu ao Herói toda glória que possuía; mas, depois, tornou-se indigesto, daí a purgação. Essa é a catarse, grosseiramente resumida e efetivamente útil quando se trata de adaptar o sujeito às convenções:
 
 “Aristóteles formulou um poderosíssimo sistema purgatório, cuja finalidade é eliminar tudo que não seja comumente aceito, legalmente aceito, inclusive a revolução, antes que aconteça. O seu Sistema aparece dissimulado na TV, no cine, nos circos e nos teatros. Mas a sua essência não se modifica. Trata-se de frear o indivíduo, de adaptá-lo ao que pré-existe.” (BOAL, 1931).
 
Em Velhos Caem do Céu como Canivetes, da Pequena Companhia de Teatro, temos uma montagem que vai de encontro a todo esse sistema coercitivo que é denunciado por Augusto Boal em Teatro do Oprimido. A Tragédia é posta ao avesso. O que sim vemos é um drama com ares trágicos, ou, uma “antitragédia”. Já explico...


O “Ser Alado” (Jorge Choairy) desce na Terra e encontra o “Ser Humano” (Claúdio Marconcine). Quando as luzes acendem, o cenário é um ambiente caótico, onde tudo parece desconexo. A unidade desses objetos em desordem se dá na movimentação do Ser Humano: sua rotina, aparentemente, é pôr tudo em ordem para, depois, tudo desfazer. Aquele terreno é um produto de suas ações sob a natureza. Não temos uma ligação com a ação-texto. Não se opta por um texto dito com nuances bem definidas. Parece que tudo que se fala é amortizado por esta natureza solidificada pelos elementos dispostos em cena e pelas ações-físicas que fazem com que os personagens interajam com os objetos e entre si. Seus corpos são anormais. O andar, a postura e a voz fogem do corpo cotidiano. O contraponto é este: um corpo fora do padrão executando ações que revelam um determinado padrão (determinado): o Extracotidiano Vs Cotidiano vivendo num espaço mínimo. No primeiro encontro entre os dois personagens esse jogo logo se revela: o estranhamento causado pela insólita visita não se dá pelo encanto, ou pela admiração de ver um ser de asas. É, antes, um “que diabo é isso...”.
 
Ambos são apresentados. Conhecem-se. Interpelam-se. Coabitam. Convivem. O Ser Alado tem uma missão: fazer com que o Ser Humano acredite em algo para além daquele plano terreno (questão que fica em aberto), mas, em suma, significa que ele quer persuadir o homem a se mover, evoluir, a sair dali, daquele jogo repetitivo. O Ser Humano, contudo, é imóvel. Ele se atém às necessidades da vida. Luta, mesmo que de forma parcimoniosa, contra fome e contra a sede. Ao mesmo tempo, ele cria engenhocas para passar o tempo, inventando outras necessidades - necessidades fabricadas - como a de ficar tonto através de um pequeno aparelho feito com a peça central de um ventilador de teto. O Ser Alado tenta se adaptar, construir uma rotina dentro daquele plano, enquanto “convence”, inutilmente o Ser Humano a se mover. Seu gesto, que antes se baseava na ação de mexer os ombros, repelindo as asas, acaba ganhando os ares daquela rotina. Ele, inclusive, testa a máquina de ficar tonto e se mostra curioso em relação às engenhocas produzidas pelo Outro, como o Manifesto à Eletricidade. Há uma mudança em seu corpo e a dramaturgia do ator ganha um significado na trama e conta algo também. 
 
Os dois planos: o que está dentro (a realidade) e o que está fora (o além) se confrontam através dos corpos dos dois atores encerrados naquele universo retratado, cenograficamente, com materiais retirados do lixo.
 
Ao final, o Ser Alado desiste. Voltaria para o lugar de onde veio, mas eis que vem o golpe da outra dramaturgia, aquela, do velho dramaturgo, aqui, Marcelo Flecha: o Ser Humano mata o Ser Alado com uma cacetada! O elemento textual decisivo se revela através de uma didascalia, provavelmente: Ser Humano defere uma boa e segura bordoada no Ser Alado, matando-o (sic). A grande catástrofe é um ato físico. Novamente o corpo e o movimento. Aqui, finalmente, o orgânico, o indeterminado, o transcendente se junta ao material, ao concreto, ao plano terreno prático, rotineiro, que fará do Ser Alado a refeição, a galinha do Almoço - o resto é para Janta.


Onde está a tragédia? Ou a “antitragédia”, como disse antes?  Como um Sistema Coercitivo, como alude Augusto Boal, a catarse visa purgar o homem de algum defeito que não é adequado para o Sistema. Normalmente, representado por um oráculo ou pelos deuses, esse Sistema se apresenta com ares superiores, com as pompas do Além e do Supremo. Em Velhos Caem do Céu como Canivetes, essa lógica se inverte. Lá, a realidade pré-estabelecida é a miséria, é a fome, é a vida do homem presa a uma rotina que gira em torno do material, do imediato, do mecânico.  Não há um “fora”, um “macrocosmo”, aquilo é o tudo. Nesse novo sistema entra o Ser Alado pretendendo a mudança. As asas significam a possibilidade do livre deslocamento. Não há revolução sem movimento. E é aqui que o Ser Alado sofre o grande golpe trágico, não dado pelos deuses ou pelo Estado, mas por um simples mortal e cidadão comum. O fim: a morte. As luzes: vermelhas. O que era para ser purgação se torna refluxo. Volta para as tripas, ou seja, para o chão do corpo, para o jogo maçante das necessidades diárias.
 
O Destino é, nesse caso, a sobrevivência. Na tragédia, tudo volta a ser como antes através do terror e da piedade que sentimos pelo herói - basta não seguirmos o seu exemplo e não achar precioso o seu defeito (Hamartia), afora isso, tudo está perfeito. No quadro dramático “antitrágico” de Velhos Caem do Chão como Canivetes tudo volta a ser como era antes, ou seja: terror e piedade; pois, apesar da refeição garantida, outros dias de míngua e desumanidade hão de continuar. Sentimos terror da miséria e piedade daqueles que vivem nessas situações, tais sentimentos estão em nosso cotidiano - basta assistir aos jornais e ver que embrulho isso dá. O que há de ser “purgado” aqui é a nossa ingênua crença de que isso, um dia, pode ser mudado, ou seja, que um dia a pobreza ganhará asas e sairá voando de nossa realidade.
 
“É pensando que a porta é alta que batemos nossa cabeça na parede”