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domingo, 10 de junho de 2018

Enquanto nós latimos, a caravana passa!


Nós, artistas, temos por hábito reclamar da gestão, e atribuímos grande porcentagem da nossa desdita à incompetência gerencial de toda e qualquer instituição, seja ela pública ou privada. Hoje tenho um fato que me permite fazer de advogado do diabo, e desenvolver uma análise que fará o contraponto a essa permanente vigilância, virando a metralhadora contra nós mesmos.

Embarco, neste exato momento, para Macapá. Ano passado participei do SESC Dramaturgias, como tanto tratei aqui; e qual foi a minha surpresa e alegria ao receber o convite para participar novamente este ano, agora com a oficina sobre a dramaturgia do ator? Mas, o maior espanto não veio com o convite, e sim, com a necessidade de mudança do formato anterior, pois os resultados atingidos no ano passado não alcançaram as expectativas.


Explico: em 2017 o projeto oferecia oficinas de dramaturgia com formato de 32h/aula, divididas em dois encontros, com um significativo tempo de estudos, maturação e produção entre um encontro e outro, iniciativa que me era muito cara, como destaquei aqui, aqui, aqui... Eis o meu assombro quando recebo a informação de que o formato agora obedeceria a carga horária de 20h, em um encontro único. Ao indagar os gestores sobre os motivos da mudança, recebo como resposta o argumento que é objeto da reflexão que hoje proponho: na maioria das oficinas ministradas se comprovou um esvaziamento significativo entre o primeiro encontro e o segundo.

Como? A instituição oferece maior carga horária, dois momentos para aperfeiçoamento da pesquisa, intervalo entre os encontros para desenvolvimento das práticas – aumentando despesas, exigindo grande empenho por parte dos idealizadores para sensibilizar os promotores – e a classe artística responde com evasão, desinteresse, desprestígio? Se fosse um caso isolado poderíamos atribuir o fato à qualidade profissional do oficineiro, mas, sendo a grande maioria, a teoria cai por terra antes mesmo de levantar voo.


E daí vem a provocação que hoje faço: é muito fácil reclamar, exigir, reivindicar; difícil é trabalhar, pesquisar, estudar, praticar. Como pode ser que percamos algo tão valioso por pura displicência nossa? Não é o primeiro projeto, edital, programa, fomento, que perdemos por falta de empenho, disposição, prontidão, assiduidade e, claro, reivindicação.

Como sempre dou a primeira cajadada em mim mesmo, me perguntem quantas oficinas do SESC Dramaturgias frequentei antes de ser convidado para participar do projeto como oficineiro? Nenhuma! Sempre tinha uma circulação, uma montagem, uma visita, um jantar, um jogo de botão. Será? Ou sou gênio demais, e não tenho nada para aprender com artistas que admiro como Fernando Lopes, Wilson Coelho, Vinícius Piedade, Pedro Vilela, Henrique Fontes, Altemar Di Monteiro, só para citar amigos? Entendem onde quero chegar? Quanto nós, artistas, somos responsáveis por nossa condição? Estou eximindo os gestores? Claro que não. Eles têm a obrigação de atender as demandas de uma classe, mas se a oferta não for absorvida, evidentemente que a reivindicação escancara sua esterilidade. 


Como no caso que hoje problematizo: quantas vezes reclamamos que as atividades formativas precisavam alargar a sua carga horária, pois as práticas recentes estavam mais para pequenas vivências que para oficinas propriamente ditas? Quantas discussões perpassaram o assunto nesta mesma sala onde agora escrevo, com atores das mais diversas funções do fazer teatral? E quando se disponibiliza uma atividade com carga horária que se equipara a de meia disciplina de qualquer curso superior – o que não é pouco para uma oficina – respondemos com evasão.   

A crítica à gestão, seja pública ou privada, essa vocês conhecem, e está em uma porcentagem significativa de tudo o que escrevo aqui. Hoje queria tentar fazer uma avaliação sobre as nossas responsabilidades. Alguém reclamou da mudança do formato do SESC Dramaturgias para uma carga horária menor? Alguém poderia reclamar, com a assiduidade que apresentamos? Enquanto não tivermos o entendimento da responsabilidade que uma reivindicação gera naquele que reivindica, continuaremos bradando indiscriminadamente, reivindicando o óbvio; e seremos tratados como bufões, arautos do caos, bocas-de-confusão.


Claro que, a partir da postagem, o artista absoluto saltará em defesa de si próprio, tentando virar a metralhadora novamente para o projeto ou a instituição, dizendo que blá-blá-blá. Pare! Que, neste caso específico, fica feio. Os fatos são irrefutáveis até para mim, defensor ardoroso do formato anterior, e crítico contumaz de tudo e de todos – os números inibiram a minha réplica quando se fez necessária.

domingo, 22 de abril de 2018

A poética da vadiagem


Estamos em Campo Grande. Fazendo o quê? Que bicho é esse que nos move, nos faz sair de casa, enfrentar o abismo, atravessar o país de norte a sul, de leste a oeste, claudicar nas vias tortuosas da geografia humana sem agarrar nada palpável, nada concreto, somente a memória sensória dos que nos abraçaram, dos que nos assistiram, dos que nos provocaram, dos que nos ensinaram? Que bicho é esse, alcunhado de teatro, que mesmo não nos deixando nada nos enriquece de tudo? Que bicho é esse, bicho?

Retumbo na cama, pós-espetáculo, e continuo remoendo e tentando aprender algo sobre o espetacular; esse momento que não é nada, mas que se arraigou em nós como se conseguisse ser tudo. Bichos de teatro são espécimes em extinção. Arvoram um momento único, mesmo na repetição infinda de sequenciais apresentações, e florescem a cada encontro como novos, contaminando a existência de outros seres, sem perceber que o contaminante teatro os carcome, sorrateiramente, a cada noite bem dormida. É nessa hora que se processa o milagre: dorme o ingênuo ator, o tolo encenador, e o sono é a terra insensata e infértil onde germina o teatro. É lá que se planta o desespero, o espanto, o assombro, e amanhecemos com uma vontade imensa de continuar avançando para lugar nenhum; pois nosso lugar é o todo, a totalidade, o nosso país.

“Batatinha quando nasce espalha a rama pelo chão”. Somos batatinhas. Já nos espalhamos por sessenta e nove cidades, e Dourados será a septuagésima; mas, ainda não entendemos por que fazemos isso. Servimos a um exército de desvairados que busca o diálogo presencial em um mundo de “reacionamentos” virtuais. Nova cidade e nova esperança de encontrar. Encontrar respostas. Encontrar abraços. Encontrar perguntas. Encontrar soldados. Encontrar pessoas, de carne e osso. O teatro é de carne e osso. E nossos ossos, atrofiados pela eterna vadiagem territorial que o teatro nos impõe, vão tentando se rearmar, récita a récita, para receber como paga final a dança de esqueletos chamada abraço.

Em poética dialética, um ser humano diz para um ser alado, – Ensina-me a voar; e segue argumentando que é para poder respirar. É para isso que vagamos Brasil afora, para poder respirar. É no voo do gigante pássaro de ferro que deixamos a terra que nos marcou e voamos para o sem-fim, respirar o ar do desconhecido, do novo, do desafio. Para continuar tentando descoser essa trama absurda de “não ter poder de escolher nossos governantes”, de “ditadores que pensam igual”, “de parecer uma segregação”; para gritar contra a desigualdade, o extremismo, a multifobia, o racismo; para não ficar “mudo e quieto como querem que permaneçamos”; para tentar descompassar essa folia polifônica de descalabros que o mundo se tornou – se você não entendeu as aspas é porque não estava em nenhuma das setenta e três tempestades de seres alados que aconteceram em todo o país desde 2013.

Deixaremos Campo Grande para trás, mas Campo Grande não nos deixa. Ele estará conosco em cada um dos 40 participantes da oficina, dos 336 espectadores, dos 70 alunos, dos 10 professores, dos queridos amigos do Grupo Casa que reflexionaram permanentemente conosco durante estes sete dias. O Programa Petrobras Distribuidora de Cultura apresenta Velhos caem do céu como canivetes, e nós tentamos representar nossos anseios, nossos medos, nossas faltas, nossas lutas. Malucos que somos, fazemos isso no tête-à-tête, na cara do espectador, para que ele possa esfregar na cara o tamanho da nossa inutilidade. Você teria coragem?

domingo, 15 de abril de 2018

Manual básico para errar o alvo


Aqui é diferente. Pensar na postagem de hoje sem ser redundante com tudo o que escrevi na postagem A política da preguiça será meu grande desafio, pois tudo o que vivemos em Primavera do Leste, dois anos atrás, dilata-se, em potência e qualidade na atualidade, e nos espanta.

Então, para não chover no molhado, assentarei meu raciocínio em um único ponto de apoio: a oficina de dramaturgia do ator que ministrei; sustentando a argumentação na significativa diferença de comparecimento, rendimento e compreensão, quando observada a adequação da clientela.

Nos plurais projetos, eventos ou programas onde sou requisitado para ministrar oficinas – e a propriedade da minha reflexão tenta se balizar nas experiências vividas em 27 cidades de 14 estados –, sempre nos deparamos, promotores e eu, com as agruras referentes à dificuldade em formar a turma em questão; e o principal desafio é adequar a clientela.

As consequências de não conseguir a clientela específica para uma oficina são sempre as mesmas: evasão, ininteligibilidade do conteúdo, nivelamento para baixo etc. No caso da nossa oficina sobre o Quadro de Antagônicos, o público-alvo são atores, alunos de teatro de curso técnico ou superior, artistas de teatro, encenadores e pesquisadores com interesse no desenvolvimento de dramaturgia a partir do ator. Quando essa observância consegue se efetivar, tudo flui com potência; e é aqui que entra a nossa experiência em Primavera do Leste, onde das vinte e cinco atrizes e atores que iniciaram a oficina, vinte e quatro concluíram. Aqui, a atenção para a formação da turma conseguiu dirimir praticamente todos as agruras do que falei acima: evasão praticamente inexistente, interlocução efetiva e aprofundamento substancial do conteúdo preconizado.  

Então, como conseguir esse resultado, sem ser excludente, garantindo a ocupação da totalidade das vagas oferecidas, e sem comprometer a oficina, tendo em vista que a não adequação da clientela exige uma adaptação inconveniente do conteúdo? Vivo esse conflito quando me deparo com um convite que me transforme em oficineiro, e vou tentando achar algumas pistas para solucionar essa problemática, através das minhas experiências recentes.

A primeira prática tem sido a de não limitar o número de inscritos ao número de vagas oferecidas. Temos estendido as inscrições a um número 30% maior que a oferta, pois o tamanho da diferença numérica entre inscrição e comparecimento no primeiro dia de oficina, em alguns casos, chega a ser um enigma indecifrável – o que faz uma pessoa se inscrever em uma oficina, ocupar a vaga de uma outra, e não comparecer?

Outra prática é a pessoalidade. Independentemente da extensão e alcance da divulgação do projeto que contempla a oficina, procuro encontrar nas cidades que visito, aquelas pessoas que imagino terem interesse na atividade, e tento convencê-las, particularmente, através de mensagem, e-mail, apelo, ultimato, chantagem – prática que você, leitora e leitor deste blog bem conhece –, do quão significativo pode ser para mim a sua presença para que a interlocução proposta pela atividade se estabeleça.

Também, a não limitação de vagas tem gerado o excedente necessário para que a própria oficina se encarregue de adequar a clientela, sem comprometer o preenchimento do número de vagas oferecidas. Ao ter mais inscritos, oportuniza-se que o interessado possa ter contato com o conteúdo e suas práticas, e decidir com maior propriedade se a atividade lhe é oportuna, fazendo com que sua possível desistência no primeiro dia (outra situação frequente) não seja uma evasão e sim um ajuste do público-alvo, pois esse desistente normalmente está contemplado no número excedente de inscrições.

São pequenos deslocamentos de práticas que venho observando na tentativa de tornar a oficina eficiente para o participante, para mim, e para quem contrata, lógico. Claro que Primavera do Leste não serve de parâmetro, pois a realidade que se vive aqui é inusitada – tão surpreendente que vou ofertar novamente o link que você desprezou acima, para que leia a postagem sobre –, mas esta nova experiência de conduzir atividades formativas pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura tem possibilitado novas percepções que fazem com que nos movimentemos no sentido de dar maior ressonância a toda e qualquer atividade da Pequena Companhia de Teatro que seja financiada com recursos públicos, mesmo que através de renúncia fiscal. Compromisso político de que não abrimos mão, mesmo quando o poder público abre mão do teatro de grupo.

domingo, 8 de abril de 2018

O teatro como mediador


O teatro não precisa de mediação. Ele é o mediador do humano com o mundo. Ele faz a mediação entre o espectador e o incompreensível universo que o entorna. É dele a responsabilidade de traduzir o ininteligível, de apresentar o espanto, de aflorar o entendimento. Se passarmos a construir cênicas que exijam a mediação de um programa, de um curador, de um crítico, de um debate, o que sobra para um reles mortal como eu, um humano que busca a mediação do teatro para tentar entender um mundo incompreensível? Como sobreviver sem a mediação do teatro para processar um mundo de radicalismos, fobias, racismos e arbitrariedades? O teatro precisa preservar seu poder de mediação, conduzir o acordo para a necessidade da diversidade.  O teatro precisa manter o atilamento que lhe é peculiar na árdua tarefa de desvendar o humano ser; esse lugar de conflitos, exageros, extremismos, abusos, intolerância e medo. Colocar o teatro em um lugar de expectativa, em um lugar de passividade, em um lugar de espera pela mediação para a sua fruição, é aniquilar sua principal característica, a presencialidade, o tête-à-tête com o espectador; a tradução eficaz do que o sujeito vê e o que o visto esconde. O teatro não muda o mundo; muda a leitura de mundo do espectador, e isso não pode acontecer se a relação entre o teatro e o espectador exige uma mediação.

Digo isto porque estamos em Alta Floresta, no Mato Grosso, lugar de humanos que vão ao teatro na busca de entender a humanidade. Durante os debates ao fim das três apresentações de Velhos caem do céu como canivetes – e nos mais de duzentos debates que fizemos nos últimos anos –, pude perceber isso com larga clareza. Os comentários, as reflexões, os apontamentos, tudo o que ouvimos reforça o poder de mediação que o teatro tem, a valia de ser o instrumento que favorece a compreensão das faltas, das falhas, das navalhas que cortam um país desgovernado. Se atravessarmos, obrigatoriamente, um intruso na compreensão do espectador, ele se sujeitará à opressão do conhecimento como instrumento de poder, subtraindo sua liberdade de escolhas, percepções, leituras, bricolagens.

Percebam que meu argumento vai contra a “obrigatoriedade” do mediador; põe o acento nas obras que exigem uma mediação. Então, por que e para que fazer um teatro que exija, necessariamente, ser mediado? Por que extrair do teatro seu discurso direto, que por si só, já é metafórico, poético, complexo? O que ganhamos complicando radicalmente o diálogo com o espectador? E pergunto isso desde um lugar de criação, em um grupo que tem por peculiaridade provocar a reflexão do público através de montagens complexas. Contudo, me preocuparia saber que nossos espetáculos exigem a explicação, a tradução, a mediação de outro instrumento que não a própria fruição da apresentação. Penso que esses instrumentos devem ser disponibilizados, favorecem a interlocução, mas a obra não pode ser hermética ao ponto desses mecanismos serem indispensáveis para o acesso, como já acontece em diversas experiências nas artes visuais. O que se ganha com isso? Sei o que perdemos. Quando vou ver uma peça que obriga uma mediação, seja ela qual for, me dá preguiça. Me sinto desprestigiado como espectador. Eu não preciso que ninguém me explique a obra. Eu quero errar à vontade, quero descobrir, quero brincar de entender; mas a obra precisa me dar esses caminhos, a obra precisa operar os códigos de linguagem que me permitam o acesso às camadas mais profundas, a obra precisa me dar as pistas para o meu trôpego caminho, não o mediador. Depois, o resultado disso se opera na minha cabeça das formas mais diversas, não necessariamente como o artista imagina, e muito menos como o mediador sugere. Digo, o quão complexa precisa ser uma peça de teatro para que o espectador não tenha condições de acessá-la sem uma mediação? Por quê? Para quê? Para quem?

Velhos caem do céu como canivetes tangencia esse tema, e circular pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura não deixa de ser uma oportunidade de fazer reverberar essas perguntas, e provocar as respostas. Estamos só no início da nossa jornada, e hoje partiremos para Primavera do Leste/MT, que receberá nossa oficina, outro intercâmbio, mais três apresentações e seus respectivos debates. Momentos do fórum permanente de reflexão que propomos para os nossos consortes de jornada e para você que acompanha a experiência, e as elucubrações provenientes desta. Qual será a próxima?

domingo, 1 de abril de 2018

Uma distribuidora de encontros e reencontros


Amanhã, mais precisamente às 6h da manhã, a Pequena Companhia de Teatro inicia mais um mergulho pela imensidão do território brasileiro, numa caminhada de interlocução permanente – principal motor de sobrevivência criativa para um grupo sediado num estado como o Maranhão, que tem o superpoder de tornar invisível o teatro de grupo. A jornada faz parte do Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, que patrocina a circulação de 57 grupos de teatro pelo país, durante os anos de 2018 e 2019.

Mantendo o nosso ideário de ocupação, a circulação que propusemos não se limita à estada na cidade durante os dias de apresentação e o perpasse das atividades complementares nos outros horários disponíveis. Passaremos uma semana em cada uma das cidades; sempre na perspectiva de estreitar o enlace com a comunidade, de entender a urbe e sua lógica teatral, de tentar estabelecer uma lógica de diálogo que justifique a nossa caída em Alta Floresta/MT, Primavera do Leste/MT, Dourados/MS e Campo Grande/MS.

Serão 12 apresentações de Velhos caem do céu como canivetes (3 por cidade), 12 debates após as apresentações, 4 oficinas sobre o Quadro de Antagônicos, 4 ações de formação de plateia em colégios das cidades, e 4 fóruns permanentes de reflexão, com os grupos Teatro Experimental, em Alta Floresta; Teatro Faces, em Primavera do Leste; Grupo Casa, em Campo Grande; e Cia. Theastai, em Dourados.

É na seleção das cidades por parte do Programa Petrobras Distribuidora de Cultura que concentro a reflexão de hoje: o conceito de aprofundamento, continuidade, estreitamento e entrelaço que adivinho no critério de seleção do edital. Das quatro cidades que visitaremos, duas fizeram parte da nossa circulação pelo mesmo programa, em 2016, com o espetáculo Pai & Filho e a nossa oficina de dramaturgia: Primavera do Leste e Campo Grande. Ou seja, as duas cidades, em um curto espaço de tempo, terão contato com todo o repertório recente, e toda a conceituação metodológica de um grupo de teatro do Maranhão, fato praticamente impossível de acontecer sem um olhar atento à qualidade de atravessamento que essa opção oferece para amenizar a fugacidade inevitável que toda circulação sutilmente esconde, e que tanto nos aflige.

No caso, não. Essas cidades ancorarão na vida da Pequena Companhia de Teatro. Os grupos de teatro que tiveram a oportunidade de passar diversas vezes pela mesma cidade sabem do que estou falando. É diferente. A relação é diferente. O olhar é diferente. O espectador vê o grupo de maneira diferente, tem a possibilidade de observar a trajetória, de estabelecer relações com o repertório, de dialogar com a cena com maior integridade; o teatrista tem contato com os métodos, tecnologias e conceito, pode cotejar obras e procedimentos, discutir caminhos; um sem-fim de sabores e digestões que um encontro não pode proporcionar, e que só se efetiva com a delícia do abraço de um REENCONTRO. Adivinho essa linha curatorial, e quero acreditar que acerto, pois a nossa alegria com toda a circulação é inenarrável, mas a satisfação de retornar se narra facilmente com o conceito, vida e sentimentos de um verbo: voltar.

A partir de amanhã, e pelos próximos 29 dias, alargaremos os números afetivos que arrolam a nossa existência. Ao término dessa jornada, serão 76 apresentações de Velhos caem do céu como canivetes, em 23 cidades de 14 estados; 31 turmas da oficina sobre o Quadro de Antagônicos, em 23 cidades de 11 estados; e, se os produtores locais botarem quente, conheceremos também o espectador de número 5.000 de Velhos caem do céu como canivetes – para uma peça apresentada preferencialmente com plateias reduzidas, é um número a ser comemorado e prepararemos algum tipo de surpresa para a felizarda ou felizardo. Aviso: repeti três vezes o nome do espetáculo porque, se você clicar no vermelhinho de cada um, terá contato com três críticas diferentes escritas sobre ele.

Claro que as outras reflexões que a iminência da viagem provocou, e as outras que a nossa circulação pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura ainda vai provocar, você acompanhará aqui. Todo domingo, após o término de cada uma das ocupações, você terá uma descrição e as respectivas elucubrações provocadas pela experiência – narrativa que você vem acompanhando desde o dia 28 de julho de 2009, primeira postagem deste blog.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Dramaturgia da escuta


Em 2018 a Pequena Companhia de Teatro estreia seu novo espetáculo – ainda sem título definido –, que parte do conto A outra morte, de Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo. A montagem tem sua feitura dramatúrgica a partir da Transposição de Gêneros, sistema de adaptação literária desenvolvido pela Pequena – sobre o qual verso muito neste blog –, e que tive a alegria de fazer reverberar no projeto SESC Dramaturgias, ano passado.

Essa dramaturgia está em processo. Iniciada dia 30 de dezembro de 2016, uma série de etapas foram cumpridas – entre pesquisa, transporte de gênero e dramaturgias superpostas – e chegamos ao momento mais prazerosos; quando o esqueleto dramatúrgico desenvolvido passa a ser oralizado, para que eu possa ajustar o texto, percebendo intenções, embocaduras, e ir polindo o dito com a melhor ferramenta: a fala do ator.

Normalmente, essa prática ficava a cargo dos atores do nosso grupo, e esporadicamente algum amigo mais próximo nos auxiliava com a leitura do texto em questão.

Nesta montagem, e sem programar formalmente essa proposta, passamos a convidar outras atrizes e outros atores para nos auxiliarem na empreitada, e começamos um delicioso exercício de encontros, escutas, conversas, reflexões; alargando mormente a extensão da função das leituras, e possibilitando um outro estado de percepção da feitura dos conflitos.

Para mim, o exercício da escuta, quando estou escrevendo um texto de teatro, é revelador. Fazer parte de um grupo traz esse privilégio para quem escreve, pois dispõe do profissionalismo dos seus pares para que a vocalização da escrita se efetive, e se possa entender – dramaturgo, encenador, atores, produtora – como as palavras vão sendo salivadas, mastigadas, saboreadas e engolidas, até que reste apenas o sumo do que precisa ser dito, e sua forma.      

Estender essa experiência a outras vozes, então? É tão provocador quanto ouvir um sonho de Katia. Na pluralidade de tons, entonações, intensões, opções, resmungos, sorrisos, a contextura da dramaturgia vai ganhando conflitos; nós, argumentos. A ideia impalpável e fria da personagem – que até então era apenas um monte de palavras agrupadas em papel – ganha a materialidade polifônica que uma personagem escrita precisa ter para que desafie o próximo leitor a aturar a sua sina, porque se uma personagem não captura pelo menos um leitor, está fadada a adormecer eternamente entre as capas de um livro, ou muito pior, na sóbria combinação de magias informáticas que transformam a mais complexa personagem em um gélido arquivo de texto.

A singular experiência agrupa outros exercícios tangenciais, mas nem por isso menos provocativos. Ao nos imaginar recebendo amigos na sede, para uma leitura, a ideia de criar ambiências para elas foi imediata; saudando a generosidade dos leitores com uma estética que dilua qualquer vestígio de tédio que o convite possa despertar no coitado. Essa decisão, meramente formal, foi gerando uma investigação que, mesmo não tendo o compromisso de dialogar com a nova encenação, acaba possibilitando o terreno fértil para a experimentação de materiais, luminosidades, formações, dimensionalidades, alargando a colheita criativa que a proposta de ler entre amigos fertiliza.

Outro exercício é a própria reflexão sobre o dito. Inevitavelmente, o diálogo reflexivo durante e após a leitura se estabelece organicamente, já que o leitor se depara com a curiosa possibilidade do entrar em contato antecipadamente com os dizeres de uma peça de teatro que verá no futuro, quando da sua estreia. Essa abertura de processo não formal alimenta as reflexões que a confecção da dramaturgia no estágio atual necessita, e consigo desenrolar pensamentos complexos com a simples observação da sábia amiga que sentencia: é isso.

Quem diria. Para um sujeito artista, rígido e estruturado como sou, os desenlaces que uma sugestão simples e despretensiosa como a de “dar uma lidinha no texto” são de uma potência desajustada. Devem ser sinais de novos tempos, agora, que cinquenta anos de rigor já se passaram, e surge um novo velho homem. Dadá me conserve assim.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Velhos em movimento


A urgência de encontrar pontes de diálogo, neste momento de aridez cultural forjada pela ausência de políticas públicas, promove um exercício criativo, provocando os grupos de teatro do país a saírem da caixinha e buscarem mecanismos de interlocução outros que os apresentados nos últimos anos.

Recentemente participei do seminário Conversas Teatro em Movimento, promovido pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, em São Paulo, onde foram anunciados os 57 espetáculos, dos 647 inscritos, que circularão pelo país com o patrocínio do programa, em 2018 – dentre eles, nosso Velhos caem do céu como canivetes. A notícia é requentada, mas a reflexão pretende munir-se de um anacrônico ineditismo para tentar enredar o leitor na teia de inutilidades que normalmente teço para manter-me fiel ao propósito de fazê-lo perder tempo.

O encontro promoveu a reunião de grande parte dos grupos de teatro do país que são referência para nós, seja pela produção artística, seja pelas formas organizacionais, seja pelos mecanismos de resistência desenvolvidos.



Como já confessei aqui, esse tipo de reunião me torna um vampiro. Quando me encontro entre colegas que celebram a mesma sorte de viver de teatro e padecem das mesmas agruras, passo a vampirizar cada reflexão, cada problematização; tento extrair de cada papo, de cada discussão, o máximo que minha burrice permite; procuro dialogar até que a síntese seja a mais razoável possível, sem perder de vista sua condição de nova tese. Um vampiro. Vampirizo meus pares sem pudor, na tentativa de extrair deles aquela singular sabedoria que só se revela num papo entre amigos.

Nesse tipo de seminário, reunião, palestra, colóquio, o que está posto formalmente sofre o desafio de conseguir superar em importância tudo aquilo que é dito nos bastidores, nas entrelinhas, nas camadas afetivas; fazendo-nos suspeitar que a relevância da ação esteja naquilo que aparentemente é a simples estrutura social que permite a sua viabilidade: o encontro. Não que o seminário em si não tenha valor, apenas pontuo valores diferentes. É como se a estrutura do pensamento apresentado formalmente nas mesas propostas só encontrasse tangibilidade nos sussurros da informalidade.

Suspeito que os promotores do evento tenham total consciência da importância do atravessamento entre o formal e o informal, e o quanto um retroalimenta o outro, com a especificidade que cada qual traz para a construção de um pensamento estruturante para o teatro de grupo do país.

Na busca de pistas visando encontrar alternativas para enfrentar o delicado momento vivido pelos grupos de teatro de pesquisa, me deparei com uma singela, óbvia, contudo potente: o rastro, a pegada, a marca. Toda pegada é uma pista do trajeto seguido por alguém. Ao deixarmos o nosso rastro de trabalho, de enfrentamento, de resistência, sem perceber estamos deixando pistas para que outros consigam superar obstáculos, experimentar alternativas, atrair outra sorte. Quando a Pequena Companhia de Teatro resiste, insiste e não desiste, está deixando uma pista, um rastro passível de se seguir para encarar situações similares, mesmo que por companhias diferentes. Da mesma forma, ao entender as pegadas deixadas por coletivos que observamos, nós também vamos reconduzindo trajetórias, suspeitando dos atalhos, atravessando pontes, ligando o tempestuoso presente ao futuro próspero.

Não existe um único encontro que não deixe em mim uma marca. Logo, meus queridos amigos vão deixando rastros das suas experiências, pegadas que posso seguir para amortizar o peso da existência. Por isso agradeço a cada um deles, meus contrafeitos mestres – como salientei no link que você não abriu e que elucida a conclusão desta postagem.

domingo, 8 de outubro de 2017

Por que escrever um texto de teatro?


Amanhã embarco para Teresina, finalizar minha participação no projeto SESC Dramaturgias, que me possibilitou exercitar um diálogo profícuo sobre o texto teatral e seus desenhos. Curiosamente, em 2017, me dedico à feitura do texto da nova montagem da Pequena Companhia de Teatro, que parte de um conto de Jorge Luis Borges intitulado A outra morte. Como minha escrita acontece concomitantemente ao atravessamento geográfico que o SESC me propôs, é natural que a nova dramaturgia venha contaminada de inúmeras problematizações que se agruparam no decorrer da vivência dialética provocada pela minha passagem por Caxias/MA, Vitória/ES, Maceió/AL e Teresina/PI.

O que é ser dramaturgo na contemporaneidade? O que compreende efetivamente essa função, quando descartamos as plurais dramaturgias atuais e nos concentramos no autor de textos teatrais – aquele maldito, anacrônico e solitário cidadão que senta em uma cadeira, diante de uma mesa, para escrever o que habita o palco, mesmo sem a certeza de que esse palco seja habitado por aquilo que ele escreve?

A minha particular condição me é favorável, pois, normalmente, o que escrevo vem sendo levado à cena por nosso grupo, e só escrevo pela necessidade de compor um dizer para esse fim; mas, como fica a vida do dramaturgo autônomo, aquele ser que não faz parte de um coletivo; aquele indivíduo que imagina poder construir um discurso com potência mínima que justifique a sua feitura e a travessia para a tridimensionalidade, independentemente de ter perspectivas de que isso aconteça?

O tema é delicado. Nas quatro cidades onde discutimos o assunto, durante meu perambular sesquiano, foi unânime a constatação da significativa diminuição do exercício da escrita para teatro; a redução de escritores que se dispõem a enfrentar o gênero dramático; a ausência de novos textos para possíveis montagens; a escassa produção literária do gênero. O que sim fica claro é o deslocamento do “modus operandi” dessa função, sua integração a um conceito maior de teatralidade, e suas flutuações de construção e estilo, com suas respectivas idiossincrasias; mas não é esse o foco desta postagem, e sim, a produção literária do gênero.

A quem serve, efetivamente, o texto de teatro isolado, escrito no gabinete, descolado do atravessamento cênico provocado por um grupo de teatro ou coletivo de artistas que o horizontalize? Será que ainda existe espaço para? Quais motivações ainda perduram para que um escritor pense em escrever para teatro? Sabemos que a finalidade de um texto teatral é o palco, e, naturalmente, o escritor desse gênero só encontrará sentido na sua produção se esta atingir esse fim. Então, que mecanismos a contemporaneidade oferece para que essa produção ainda faça sentido?

Como sempre consigo ser mais patético do que você imagina, vou me tomar como exemplo: um sujeito com parca produção dramatúrgica, que não tem isso como ofício, que não se alinha com a prática como mero exercício, e que nunca pensou em encenar os próprios textos – ressalvo que apesar da autoria das duas últimas dramaturgias da Pequena Companhia de Teatro, estas partiram de obras literárias já existentes, e coube a mim construir um dizer que, mesmo autônomo, se origina em outro suporte. Desde 2009 não escrevo um texto teatral que não esteja relacionado com algum tipo de encenação eminente, parceria pertinente, construção proeminente, ou pragmática contratação. Literariamente tenho até me dedicado a um romance em detrimento ao desejo de escrever para teatro (a perversidade do seu sorriso ao ler essa sentença escancara a sua sordidez, e posso até ouvir a sua sutil exclamação ao constatar minha pretensão: Você?!). O que motivou o arrefecimento da minha produção na última década, se em parte da década anterior produzi em média um texto por ano? (Como prometi, o tosco exemplo se ancora no patético proponente.)

Você deve ter percebido que hoje me dedico quase que exclusivamente a arguir, e penso que seja um sintoma do que está assentado. A contemporaneidade conseguiu esvaziar as motivações que justifiquem a dita dramaturgia convencional? Há redução de oferta, ou Caxias, Vitória, Maceió e Teresina são exceções que confirmam uma produção de textos teatrais prolífera, acentuada e relevante? Será sempre São Paulo o exemplo que vem à sua cabeça para fazer a réplica? Os grupos de teatro conseguirão oxigenar se alimentando apenas de narrativas próprias? A desnecessidade da escrita dramatúrgica pode apequenar a busca de conhecimento técnico e, com isso, reduzir a qualidade da produção? Ainda é possível qualificar um texto se está desconectado de um organismo teatral embrionário? O texto teatral descolado de uma montagem que o provoque ainda é necessário? É o crepúsculo do dramaturgo no seu sentido etimológico?

Claro que o cano das questões, com as críticas que se aderem, apontam diretamente para a minha cabeça, autor que estou de um texto teatral, transposto de um conto, construído dialogicamente, para ser montado pelo grupo de teatro do qual faço parte, e que há tempos não escreve sob outra condição. Logo, a provocação que lhe faço não é gratuita. Nunca foi. Pois, você, há anos, mesmo sem saber, vem servindo de cobaia, consultora, confidente, juiz, coautor, mártir, e espero que sua paciência e generosidade nos mantenha assim.  Portanto, me responda, ou me ajude a perguntar.

domingo, 10 de setembro de 2017

Besta é tu


Amanhã viajo para Teresina, facilitar uma oficina de escrita dramatúrgica pelo projeto SESC Dramaturgias, última cidade que visitarei este ano provocando dramaturgos, após ter passado por Caxias/MA, Vitória/ES e Maceió/AL, pelo mesmo projeto. Antes, já estive em Teresina para participar do NORTEA/Encontro de Pesquisadores do Nordeste, dentro do FestLuso; antes, pelo SESC Amazônia das Artes, com Velhos caem do céu como canivetes; antes, com Pai & Filho, pelo Myriam Muniz de Teatro; antes, para ver a estreia de “Quando as máquinas param”, do Harém; antes, com Deus Danado, participando de outra edição do FestLuso; antes, com “Ramandá e Rudá”, no Theatro 4 de Setembro; e antes, e antes, e antes de antes. Uma intrínseca relação com a cidade, construída através do teatro.

O teatro tem isso de admirável. Nos faz erguer pontes espontâneas onde nenhum outro instrumento de engenharia consegue erigir. Somos levados pela força do seu desacato, e vamos rompendo barreiras, ramificando sonhos, reconhecendo identidades, revendo amigos; porém, a principal virtude do seu vigor contraventor é nos fazer confrontar a estática, desafiar a inércia, combater a letargia, sempre na expectativa de um novo ou surpreendente porto – porque o novo pode vir da surpresa de nos levar novamente a um lugar querido.

Agora, pelo poder da palavra escrita, meu encontro com pessoas que desejam dialogar sobre formas, metodologias e ferramentas dramatológicas; sempre na torcida de construir novas pontes, fazer novos enlaces, tecer novas teias; pois, a mais potente prova da natureza profícua do teatro é que provavelmente não encontre nenhum amigo ou parceiro antigo participando da atividade. Claro que abraçarei todos nos momentos de folga, mas o teatro não só promove reencontros, como auspicia novos encontros, com pessoas que não se conhecem, mas se reúnem em torno de um objetivo comum, neste caso, escrever para teatro.

Se você tiver curiosidade, já versei muito sobre minha experiência nesta empreitada dramatúrgica, basta clicar aqui para aprofundar a leitura; mas um ponto que pouco abordei nas postagens anteriores diz respeito a esse frescor presente em cada encontro; essa curiosa química que faz com que diferentes se juntem para tratar de algo que os atrai. Logo, o teatro tem um poder de socialização incomum, promovido pelo tête-à-tête, pelo corpo-a-corpo, pelo enredamento de seres díspares em torno de desejos comuns.

Não fosse o teatro eu seria um anacoreta. O meu leque de relações sociais se resumiria a um entorno tão restrito que não sei se poderia ser enquadrado como um estado de sociabilidade. A reserva promovida pelo meu fastio em lidar com pessoas teria me transformado em um homem das cavernas – homem que minha querida amiga Tony Silva costuma contar que eu era quando nos conhecemos. O teatro socializando a besta, ou o besta. De besta, mesmo; metido, antipático, presunçoso, pernóstico, arrogante.

Ah, o teatro! Somente nesta ação, a oficina Do narrativo ao dramático: a transposição de gêneros como instrumento de confecção de dramaturgias, promovida pelo SESC, conheci mais de cinquenta pessoas; e dessas tantas com as quais mantive um intenso diálogo e frutuoso aprendizado, algumas reverberam até hoje; não mais no campo de um grupo de pessoas que participaram de uma atividade formativa, mas de companheiros de dúvidas, parceiros de conversas, colegas de ruína, consortes para a vida.

É o teatro aproximando as pessoas e nos lembrando que precisamos do contato presencial entre as gentes para que o próprio teatro sobreviva. Teresina, aqui vou eu!

domingo, 30 de julho de 2017

Afetos como antenas de comunicação


Desde ontem aportamos em Mossoró, após concluirmos a ocupação do Centro Cultural BNB de Fortaleza, durante as últimas duas semanas. A partir de agora cumpriremos uma jornada afetiva, que preambulei na postagem Antenas para os afetos e que agora desenvolvo. Estamos com a oficina sobre o  Quadro de Antagônicos, ontem e hoje; apresentaremos Velhos caem do céu como canivetes, na terça, 19h30, no Teatro Municipal Dix-Huit Rosado, e na quinta, 20h, nos apresentaremos em Natal, no barracão dos Clowns.
Como venho ressaltando em quase todas as últimas postagens deste blog, o futuro do teatro de grupo no país está fadado a retroceder trinta anos, capitaneado por um desmonte estrutural e um desmanche sistemático de tudo aquilo que o Ministério da Cultura se tornou na última década; obrigando os grupos a desenvolver estratégias outras para garantir a sua produção artística, fundamental para a sobrevivência do pensamento autônomo brasileiro.
Uma das apostas da Pequena Companhia de Teatro para confrontar essa perversa realidades são os afetos. Explico: nossa ocupação em Fortaleza foi patrocinada pelo BNB, por consequência, o maior custo de produção já está pago, que compreende o deslocamento da equipe e cenário, e na atual conjuntura, a possibilidade desse mesmo espetáculo se apresentar em Mossoró e Natal é mínima. Como temos uma enorme relação com essas cidades, e achamos fundamental que conheçam esse trabalho, resolvemos abrir mão de um cachê mínimo por apresentação e estender nossa jornada até as duas cidades, no peito e na raça, sabendo que, por logística de espaço e número de apresentações, não teremos nenhum tipo de retorno financeiro, a não ser para pagar os custos; vamos porque queremos que essas cidades vejam o espetáculo; faremos isso por afeto.
Da mesma maneira, e principalmente, quem nos recebe aporta com uma parcela incomensurável de afeto, concentrada na Cia. A Máscara de Teatro – com o apoio da prefeitura, e diversos outros parceiros –, em Mossoró, e nos Clowns de Shakespeare, Arlindo Bezerra e Chrystian Saboya, em Natal. Ou seja, uma soma de afetos provindos dos mais recônditos labirintos das nossas amizades possibilitará que as comunidades de Mossoró e Natal assistam a um espetáculo que não chegaria a elas se dependesse de políticas públicas para a circulação do pensamento dos grupos de teatro de pesquisa pelo país – instrumento basilar para a formação de cidadania e para a materialização identitária do ser brasileiro. 

São estratégias heterodoxas, táticas de guerrilha, maluquice de artista, nada ideal, nada leves, mas necessárias para confrontar uma realidade que busca aniquilar o nosso pensamento e as nossas ações. Enquanto um pensamento comum que contemple o teatro de grupo de todo o país não emergir, vamos executando pequena ações, trilhando novos caminhos, pensando em como marcar nossa realidade com a resistência que nos identifica; e o nosso primeiro e principal instrumento para isso é o afeto.
Ver o esforço descomunal da Cia. A Máscara de Teatro para que a empreitada seja possível faz valer cada gota de suor do nosso esforço e cada centavo perdido, pois é bom que se enfatize que tanto nós quanto cada um dos nossos parceiros nesta maluca campanha estão trabalhando praticamente de graça – e uso a Máscara como exemplo de todos os outros queridos amigos que tornaram viável a nossa ida. Fazemos porque acreditamos que o rastro deixado por nossas ações fertiliza o solo árido de hoje, preparando uma colheita digna para os que virão. 

São essas lógicas excêntricas que precisam ser praticadas pelos grupos do país na busca de formatar estratégias fora da curva, que possibilitem a nossa caminhada até atravessar o tenebroso inverno que o país vive. Os longos papos com o Nelson, do Pavilhão da Magnólia – grupo querido que não mediu esforços e nos brindou com um caminhão de afetividade em Fortaleza, tornando nossa estada viva e pulsante – convergiram para esse pensamento: precisamos uns dos outros, muito além das estruturas mercadológicas que o sistema tenta impor para um setor tão efêmero e imaterial quanto o teatro. 
Afetos. Antenas para os afetos. Vale a pena carregar o peso dos cases, enlonar o reboque e dirigir por horas a fio se nos recebem os braços abertos dos nossos queridos amigos. Vale o esforço, vale o cansaço, vale o foco na desambição; vale a pena saber que estamos fazendo a nossa parte, contribuindo com um grãozinho de areia para que este país seja um pouco menos capital e um pouco mais humano.

domingo, 16 de julho de 2017

Acordei de bom humor após sonhos intranquilos


Hoje faço um bate-e-volta para o Rio de Janeiro, participar de um debate sobre o SESC Dramaturgias, que será transmitido amanhã, às 14h30, por videoconferência para todo o país, pois na terça, bem cedinho, pego o volante da Pequena Móvel, e rumaremos para Fortaleza cumprir com a nossa agenda de ocupação do CCBNB destrinchada nesta postagem aqui.
Como vamos bater um papo sobre a experiência em participar do projeto a partir da oficina de escrita dramatúrgica que ministrei em Caxias/MA, Vitória/ES e Maceió/AL, antecipo o meu balanço para instrumentalizar os queridos leitores que por ventura vierem a acompanhar o debate em alguma das unidades regionais do SESC para onde a videoconferência será transmitida. 
Assentarei a provocação naquilo que motivou minha proposta para o SESC e que vem sendo discutida aqui no blog: o excesso de narrativização do teatro contemporâneo. Esse assunto pontuou permanentemente o diálogo com as pessoas que participaram das oficinas, e gerou uma inquietação quanto à necessidade de discutir o fato e entender o que esse sintoma da contemporaneidade tenta nos dizer. Como penso que será necessário me debruçar em outra postagem sobre o assunto após ruminar a colheita das réplicas e tréplicas que recebi, não aprofundarei esse mote hoje; todavia, o conteúdo da problematização está escondido na palavrinha que aparece em vermelho neste parágrafo, é só clicar para abrir a Caixa de Pandora.
Debruçar-me-ei sobre quatro pontos que considero cruciais na experiência vivida, dois negativos e dois positivos. Começarei pelos negativos, para dar tempo de diluir meu azedume, fazendo com que o ledor termine a leitura com uma imagem menos ranzinza deste ranheta contumaz que tanto reclama.
O primeiro ponto negativo é que meu Henrique é sem H... Era para ser uma piada; se você não riu, é a prova patente de que você é tão ranheta quanto eu. O segundo, e aqui ressalvo abordar o tema em termos gerais, não sendo generosos com as situações que fugiram à regra, percebi uma dificuldade do SESC em conseguir adequar a clientela da oficina para o recorte mais específico sugerido pela oferta, desnivelando a possibilidade de aproveitamento por parte das pessoas atendidas pela ação; fiquei com a sensação de que pessoas outras, que respondessem mais organicamente às especificidades, pudessem ter ficado de fora não por indiferença, por desaviso.
Já os pontos positivos foram apenas confirmados, pois haviam sido levantados como suspeitas em postagens anteriores que nem vou lincar, por saber que você não se dará o trabalho de clicar. O primeiro diz respeito ao cuidado do SESC em viabilizar uma carga horária significativa, 32h – tendo em vista que uma disciplina acadêmica gira entre 40 e 60 horas, disponibilizar uma atividade formativa com essa extensão comprova o compromisso do SESC com o aprofundamento do estudo das múltiplas dramaturgias postas hoje. Não é muito comum atividades formativas receberem essa atenção quanto ao tempo necessário para que uma facilitação seja realizada largamente, possibilitando ao participante um debruçar-se efetivo, contrapondo-se a certa superficialidade que permeia projetos que incluem formação, inclusive nossos.
A segunda, e que a edição deste ano traz como novidade, é a possibilidade de a oficina ser ministrada em dois momentos, com um intervalo de tempo importante entre os dois. Esse acertado formato possibilitou o confronto entre teoria e prática. Aquilo que fora postulado no primeiro encontro, recebera um outro momento para a verificação das postulações no tête-à-tête com o postulante, arremessando oficineiros e oficinados em um delicioso jogo dialético, repleto de comprovações, antíteses, problemas, réplicas, contradições, esclarecimentos, teses, tréplicas, abraçados pelo empenho na busca da síntese, tão esquecida nas tratativas dialéticas contemporâneas, principalmente virtuais.
No trinchinchim, minha experiência aponta para algo que vem sendo pontuado por onde passo, nas quase setenta cidades que visitei nos últimos anos com diversos projetos: o fato de o SESC ser um ocupador potente da lacuna que as políticas públicas culturais do país não conseguiram preencher, e que agora, na atual conjuntura política de desmonte e desmanche, será alargada até virar uma grande vala onde será sepultada a cultura brasileira.
São apenas umas pitadas de tempero que jogo por cima, para marinar o papo que acontecerá amanhã, e que você poderá acompanhar, se tiver disposição para dar um pulinho na unidade do SESC da cidade que você habita. Como frequentemente faço jejum, chegarei para o debate com fome, e espero que as questões levantadas por você, meu intrépido leitor fantasma, saciem este faminto prosador de inutilidades.