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domingo, 23 de abril de 2017

A Pequena no SESC Dramaturgias

 
Amanhã parto para Caxias/MA. Fui convidado para participar do SESC Dramaturgias, um dos principais projetos de pensamento e difusão das plurais dramaturgias pesquisadas atualmente. Visitarei ainda neste primeiro semestre as cidades de Vitória/ES e Maceió/AL, com a oficina Do narrativo ao dramático: a transposição de gêneros como instrumento de confecção de dramaturgia, metodologia criada pela Pequena Companhia de Teatro para a produção de dramaturgia quando o conteúdo de dizeres para a encenação teatral encontra-se disponível em um texto que não é do gênero dramático, seja ele de qualquer outro gênero literário ou textual.   
O projeto me é caro, pois, ao expandir o conceito de dramaturgia, vai de encontro ao pensamento do Teatro Polidramático que a Pequena vem desenvolvendo há alguns anos, e que se sustenta na ideia de que todo aquele organismo cênico que for capaz de construir uma narrativa poderá ser instrumento de dramaturgia, seja ela basilar ou estruturalmente auxiliar a uma dramaturgia principal.
O diferencial expressivo deste projeto em relação a outros que a Pequena Companhia participou ou promoveu, é se tratar de uma atividade formativa com carga horária extensa, de 32 horas/aula. Esse alargamento do tempo de troca retumbará significativamente no aprofundamento de todo e qualquer conteúdo que os diferentes artistas convidados do SESC Dramaturgias proponham, possibilitando uma colheita muito mais pujante que a conseguida com atividades de menor carga horária. Ainda, o participante que se propõe ao intercâmbio, tem a oportunidade de acentuar o estudo e intensificar a prática metodológica da vez, confrontando experiências anteriores e expandindo sua vivência.
Outra virtude é que o projeto prevê dois encontros de 16h, com um intervalo de várias semanas entre um e outro. Essa ideia me é singularmente provocativa, pois promove um tempo de maturação do conteúdo e de prática real para o artista que participa da oficina, oferecendo o tempo e a empiria necessária para os contraditos, as ressalvas, as antíteses; colocando o facilitador frente a frente com possíveis falências reveladas no encontro anterior – diferentemente de  atividades de tiro único, quando o participante fica sem a possibilidade de esclarecer dúvidas provocadas pela tentativa de aplicar o conteúdo sem o acompanhamento necessário de que o preconiza. O conceito exige robustez do oficineiro, sendo que é confrontado com qualquer descaminho que suas proposições não tenham previsto, possibilitando a permanente revisão, tão necessária para a plena consolidação de qualquer postulação.
O SESC Dramaturgias foca investigação em escrita dramatúrgica, dramaturgia do ator, da dança, do circo, da iluminação, afora leituras em cena; e o convite que me foi feito concentrará seu conteúdo na escrita dramatúrgica através da transposição de gêneros literários, experiência que alguns leitores deste blog já vivenciaram em diferentes momentos do nosso calendário de atividades formativas. O que diferirá de experiências anteriores – além do tempo que oportunizará um aprofundamento muito mais significativo – é que somo à atividade a provocação/problematização que tenho feito em palestras e convites para conversas e mesas redondas, assentada na postagem recente que fiz aqui, sobre o excesso de narrativização do teatro contemporâneo.
Como primeiro maranhense a participar do projeto como facilitador, em todos esses anos de SESC Dramaturgias, entendo que o diálogo fortalecerá a capilarização de uma série de escritas cênicas que estão sendo desenvolvidas no Maranhão, e que, por periféricas geograficamente, não conseguem transpor as barreiras impostas pelas regiões detentoras da agenda cultural do país – repare você, arguciosa leitora, astuto leitor, que falo apenas de agenda cultural, pois, a cultura brasileira é tão plural e rica que não admite centros. Mais uma vez o SESC assume um papel capital em favor da descentralização do pensamento, da democratização dos múltiplos fazeres, do intercâmbio nacional e do abrandamento dos eixos hegemônicos.
Claro que o que aqui escrevo são meras impressões do porvir, porque amanhã apenas inicio minha jornada de encontros, aprendizados, desafios, provocações, registros, conversas, trocas, revezes, discussões e estudos. A única certeza é que você poderá acompanhar o desenvolvimento da empreitada no mesmo endereço de sempre – um blog que acumula 541 textos, 1.309 comentários e 7 anos de extensa inutilidade.

domingo, 14 de maio de 2017

Caneta e papel: a resistência da escrita

Na última quinta-feira encerramos o 1º encontro do SESC Dramaturgias, em Maceió/AL, depois de ter passado por Caxias/MA e Vitória/ES. Foram 16h de atividade em cada uma das cidades, instrumentalizando o participante para a produção de escrita dramatúrgica, a partir da profunda análise de gêneros literários, do mergulho nas características do gênero dramático, da democratização do processo de transposição de gêneros da Pequena Companhia de Teatro, e da problematização sobre a preponderância da narrativização no teatro contemporâneo.
Coincidentemente, já havia passado com espetáculos e oficinas nas três cidades que visitei; isso me proporcionou o confronto das realidades, produções e problemas, em um intervalo aproximado de cinco anos, com exceção de Caxias, que visitei com maior frequência. É difícil não observar que, pese aos esforços pontuais de iniciativas que resistem, os problemas perduram, e meia década depois, assim como a realidade ludovicense, não posso afirmar que houve avanços significativos entre o que havia e o que hoje está posto. Nas discussões que perpassaram todas as horas de atividade, foram recorrentes as queixas quanto à minguada produção teatral, a desestruturação de políticas públicas culturais, a dificuldade de conseguir financiamento artístico, a carência de oferta de atividades formativas, e a recorrência de se enxergar o SESC como um ator importante mas não suficiente para sanar as demandas emergenciais de uma classe teatral que tende a definhar ainda mais com a nova ordem estabelecida nacionalmente no que se refere a arte: o desmonte.
Ainda assim, foi gratificante perceber que os que ali estavam para dialogar, cerca de cinquenta dedicados interlocutores, conservavam a força oriunda da resistência cultural – condição presente no DNA de qualquer artista que seja forjado em um país que desconsidera, permanentemente, o poder de transformação sociopolítica da cultura. Esses queridos companheiros de jornada dramatúrgica mantiveram acesa a chama do diálogo, e provocaram seus conhecimentos, ao permitir-se horas de intenso estudo, sem negligenciar o necessário estado de atenção frente ao mundo que nos cerca.
Após esse nosso primeiro momento, onde foram facilitadas as informações e técnicas necessárias para o avanço da atividade, todos os participantes encontram-se agora no processo de escritura de uma peça teatral a partir de uma obra de outro gênero literário; e a oficina pretende que, ao fim, todos os participantes tenham desenvolvido um texto de curta, média ou longa extensão. No decorrer dessa produção, vou acompanhando virtualmente o desenvolvimento de cada um dos projetos dramatúrgicos, verificando os caminhos e os descaminhos que se apresentarem durante a trajetória. Isso continuará até o nosso próximo encontro, pois, como versei aqui, o SESC Dramaturgias prevê o retorno do oficineiro à cidade visitada. Sendo assim, outras 16h, nos três municípios, pretendem possibilitar a prática com a presença do facilitador, onde acompanharei a feitura e finalização de cada um dos textos, dirimindo ruídos que tenham perdurando durante o primeiro encontro.
O projeto terá sequência nesta segunda-feira, quando parto para Caxias/MA, primeira cidade que visitei com a oficina de escrita dramatúrgica. Com a metade que me cabe do SESC Dramaturgias concluído, posso dizer que toda ação de cunho formativo tem marcante repercussão na comunidade artística onde é realizada, pois aciona dizeres e desejos muitas vezes escondidos em lugares recônditos da alma humana, e que, quando provocados, se apresentam com a potência, prontidão e espanto matriciais para a criação artística. Tomara que tudo seja, permaneça, aconteça, recomece, resista...  

domingo, 10 de junho de 2018

Enquanto nós latimos, a caravana passa!


Nós, artistas, temos por hábito reclamar da gestão, e atribuímos grande porcentagem da nossa desdita à incompetência gerencial de toda e qualquer instituição, seja ela pública ou privada. Hoje tenho um fato que me permite fazer de advogado do diabo, e desenvolver uma análise que fará o contraponto a essa permanente vigilância, virando a metralhadora contra nós mesmos.

Embarco, neste exato momento, para Macapá. Ano passado participei do SESC Dramaturgias, como tanto tratei aqui; e qual foi a minha surpresa e alegria ao receber o convite para participar novamente este ano, agora com a oficina sobre a dramaturgia do ator? Mas, o maior espanto não veio com o convite, e sim, com a necessidade de mudança do formato anterior, pois os resultados atingidos no ano passado não alcançaram as expectativas.


Explico: em 2017 o projeto oferecia oficinas de dramaturgia com formato de 32h/aula, divididas em dois encontros, com um significativo tempo de estudos, maturação e produção entre um encontro e outro, iniciativa que me era muito cara, como destaquei aqui, aqui, aqui... Eis o meu assombro quando recebo a informação de que o formato agora obedeceria a carga horária de 20h, em um encontro único. Ao indagar os gestores sobre os motivos da mudança, recebo como resposta o argumento que é objeto da reflexão que hoje proponho: na maioria das oficinas ministradas se comprovou um esvaziamento significativo entre o primeiro encontro e o segundo.

Como? A instituição oferece maior carga horária, dois momentos para aperfeiçoamento da pesquisa, intervalo entre os encontros para desenvolvimento das práticas – aumentando despesas, exigindo grande empenho por parte dos idealizadores para sensibilizar os promotores – e a classe artística responde com evasão, desinteresse, desprestígio? Se fosse um caso isolado poderíamos atribuir o fato à qualidade profissional do oficineiro, mas, sendo a grande maioria, a teoria cai por terra antes mesmo de levantar voo.


E daí vem a provocação que hoje faço: é muito fácil reclamar, exigir, reivindicar; difícil é trabalhar, pesquisar, estudar, praticar. Como pode ser que percamos algo tão valioso por pura displicência nossa? Não é o primeiro projeto, edital, programa, fomento, que perdemos por falta de empenho, disposição, prontidão, assiduidade e, claro, reivindicação.

Como sempre dou a primeira cajadada em mim mesmo, me perguntem quantas oficinas do SESC Dramaturgias frequentei antes de ser convidado para participar do projeto como oficineiro? Nenhuma! Sempre tinha uma circulação, uma montagem, uma visita, um jantar, um jogo de botão. Será? Ou sou gênio demais, e não tenho nada para aprender com artistas que admiro como Fernando Lopes, Wilson Coelho, Vinícius Piedade, Pedro Vilela, Henrique Fontes, Altemar Di Monteiro, só para citar amigos? Entendem onde quero chegar? Quanto nós, artistas, somos responsáveis por nossa condição? Estou eximindo os gestores? Claro que não. Eles têm a obrigação de atender as demandas de uma classe, mas se a oferta não for absorvida, evidentemente que a reivindicação escancara sua esterilidade. 


Como no caso que hoje problematizo: quantas vezes reclamamos que as atividades formativas precisavam alargar a sua carga horária, pois as práticas recentes estavam mais para pequenas vivências que para oficinas propriamente ditas? Quantas discussões perpassaram o assunto nesta mesma sala onde agora escrevo, com atores das mais diversas funções do fazer teatral? E quando se disponibiliza uma atividade com carga horária que se equipara a de meia disciplina de qualquer curso superior – o que não é pouco para uma oficina – respondemos com evasão.   

A crítica à gestão, seja pública ou privada, essa vocês conhecem, e está em uma porcentagem significativa de tudo o que escrevo aqui. Hoje queria tentar fazer uma avaliação sobre as nossas responsabilidades. Alguém reclamou da mudança do formato do SESC Dramaturgias para uma carga horária menor? Alguém poderia reclamar, com a assiduidade que apresentamos? Enquanto não tivermos o entendimento da responsabilidade que uma reivindicação gera naquele que reivindica, continuaremos bradando indiscriminadamente, reivindicando o óbvio; e seremos tratados como bufões, arautos do caos, bocas-de-confusão.


Claro que, a partir da postagem, o artista absoluto saltará em defesa de si próprio, tentando virar a metralhadora novamente para o projeto ou a instituição, dizendo que blá-blá-blá. Pare! Que, neste caso específico, fica feio. Os fatos são irrefutáveis até para mim, defensor ardoroso do formato anterior, e crítico contumaz de tudo e de todos – os números inibiram a minha réplica quando se fez necessária.

domingo, 16 de julho de 2017

Acordei de bom humor após sonhos intranquilos


Hoje faço um bate-e-volta para o Rio de Janeiro, participar de um debate sobre o SESC Dramaturgias, que será transmitido amanhã, às 14h30, por videoconferência para todo o país, pois na terça, bem cedinho, pego o volante da Pequena Móvel, e rumaremos para Fortaleza cumprir com a nossa agenda de ocupação do CCBNB destrinchada nesta postagem aqui.
Como vamos bater um papo sobre a experiência em participar do projeto a partir da oficina de escrita dramatúrgica que ministrei em Caxias/MA, Vitória/ES e Maceió/AL, antecipo o meu balanço para instrumentalizar os queridos leitores que por ventura vierem a acompanhar o debate em alguma das unidades regionais do SESC para onde a videoconferência será transmitida. 
Assentarei a provocação naquilo que motivou minha proposta para o SESC e que vem sendo discutida aqui no blog: o excesso de narrativização do teatro contemporâneo. Esse assunto pontuou permanentemente o diálogo com as pessoas que participaram das oficinas, e gerou uma inquietação quanto à necessidade de discutir o fato e entender o que esse sintoma da contemporaneidade tenta nos dizer. Como penso que será necessário me debruçar em outra postagem sobre o assunto após ruminar a colheita das réplicas e tréplicas que recebi, não aprofundarei esse mote hoje; todavia, o conteúdo da problematização está escondido na palavrinha que aparece em vermelho neste parágrafo, é só clicar para abrir a Caixa de Pandora.
Debruçar-me-ei sobre quatro pontos que considero cruciais na experiência vivida, dois negativos e dois positivos. Começarei pelos negativos, para dar tempo de diluir meu azedume, fazendo com que o ledor termine a leitura com uma imagem menos ranzinza deste ranheta contumaz que tanto reclama.
O primeiro ponto negativo é que meu Henrique é sem H... Era para ser uma piada; se você não riu, é a prova patente de que você é tão ranheta quanto eu. O segundo, e aqui ressalvo abordar o tema em termos gerais, não sendo generosos com as situações que fugiram à regra, percebi uma dificuldade do SESC em conseguir adequar a clientela da oficina para o recorte mais específico sugerido pela oferta, desnivelando a possibilidade de aproveitamento por parte das pessoas atendidas pela ação; fiquei com a sensação de que pessoas outras, que respondessem mais organicamente às especificidades, pudessem ter ficado de fora não por indiferença, por desaviso.
Já os pontos positivos foram apenas confirmados, pois haviam sido levantados como suspeitas em postagens anteriores que nem vou lincar, por saber que você não se dará o trabalho de clicar. O primeiro diz respeito ao cuidado do SESC em viabilizar uma carga horária significativa, 32h – tendo em vista que uma disciplina acadêmica gira entre 40 e 60 horas, disponibilizar uma atividade formativa com essa extensão comprova o compromisso do SESC com o aprofundamento do estudo das múltiplas dramaturgias postas hoje. Não é muito comum atividades formativas receberem essa atenção quanto ao tempo necessário para que uma facilitação seja realizada largamente, possibilitando ao participante um debruçar-se efetivo, contrapondo-se a certa superficialidade que permeia projetos que incluem formação, inclusive nossos.
A segunda, e que a edição deste ano traz como novidade, é a possibilidade de a oficina ser ministrada em dois momentos, com um intervalo de tempo importante entre os dois. Esse acertado formato possibilitou o confronto entre teoria e prática. Aquilo que fora postulado no primeiro encontro, recebera um outro momento para a verificação das postulações no tête-à-tête com o postulante, arremessando oficineiros e oficinados em um delicioso jogo dialético, repleto de comprovações, antíteses, problemas, réplicas, contradições, esclarecimentos, teses, tréplicas, abraçados pelo empenho na busca da síntese, tão esquecida nas tratativas dialéticas contemporâneas, principalmente virtuais.
No trinchinchim, minha experiência aponta para algo que vem sendo pontuado por onde passo, nas quase setenta cidades que visitei nos últimos anos com diversos projetos: o fato de o SESC ser um ocupador potente da lacuna que as políticas públicas culturais do país não conseguiram preencher, e que agora, na atual conjuntura política de desmonte e desmanche, será alargada até virar uma grande vala onde será sepultada a cultura brasileira.
São apenas umas pitadas de tempero que jogo por cima, para marinar o papo que acontecerá amanhã, e que você poderá acompanhar, se tiver disposição para dar um pulinho na unidade do SESC da cidade que você habita. Como frequentemente faço jejum, chegarei para o debate com fome, e espero que as questões levantadas por você, meu intrépido leitor fantasma, saciem este faminto prosador de inutilidades.  

sábado, 29 de abril de 2017

Ilhas de encontros em um mar de desencontros

 
O primeiro encontro de 16h com os participantes do SESC Dramaturgias em Caxias/MA – serão dois, conforme expliquei aqui – encerrou na quinta, e enquanto me preparo para seguir viagem rumo a Vitória/ES e Maceió/AL, depois de amanhã, repasso na cabeça as marcas deixadas pela experiência e as indagações provindas dessa jornada.  
Toda atividade formativa, seja oficina, curso, vivência, imersão, minicurso, workshop (sic), propõe um repasse de práticas, teorizações, metodologias, experimentos, postulações e pulsações de alguém que se pressupõe cumprir os pré-requisitos para atender as demandas da clientela que o espera – aplicado vertical ou horizontalmente, dependendo da proposta do facilitador –, e as consequências dessa natural troca são avaliadas de diversas maneiras pela comunidade que o recebe; no decorrer da atividade, em bate-papos informais ou na cordial conversa de encerramento, mas, principalmente, depois da partida do dito cujo; quando a volta à rotina da classe artística local faz com que se efetive, no tête-à-tête, a real e implacável avaliação do bardo. Porém, raramente temos acesso aos resultados, transformações, devaneios, daquele que promove o repasse, e quando existem, ficam confinados em formais relatórios de conclusão, arquivados nos anais da desmemoria.


Por esse motivo me proponho a mostrar o outro lado, e revelar o que se passa pela cabeça daquele que vai e carrega consigo as marcas da experiência, a carga do forasteiro, o desafio de ter invadido uma realidade que não é a sua e ser o ilustre desconhecido apresentado por algumas laudas de currículo.
A primeira sensação que me toma é a de que todo encontro é uma ilha em um oceano de desencontros. Toda atividade formativa, quando realizada fora da comunidade onde o ministrante atua – e já passei por essa situação inúmeras vezes –, expressa em sua gênese a minúscula probabilidade de que esse encontro se repita, e esse que vai, carrega sempre consigo o desejo de retornar e a certeza da improbabilidade.
Essa é a marca inaugural deixada em mim com a primeira experiência no SESC Dramaturgias. Como o projeto agora propõe o retorno do ministrante, depois de mais ou menos um mês, para um novo encontro de 16h, a sensação da partida foi particularmente diferente de todos os experimentos formativos que me propus realizar durante os últimos vinte anos. Poder retornar, prontamente, para perceber ruídos, poder acompanhar se efetivamente se verifica alguma contribuição significativa na formação do participante, poder receber impressões presenciais dos problemas, me fez transitar pelos 362km que separam Caxias de São Luís, com um singelo contentamento substituindo a escamoteada angústia, pois sei que voltarei.
Aquele olhar de dúvida que não percebi terá uma segunda chance. Aquela certeza de entendimento que se esvai em uma prática mais aprofundada terá uma segunda chance. Aquela confidência de incompreensão que foi calada terá uma segunda chance. Aquela atenção que não dei, por descuido, terá uma segunda chance.
Claro que muitas vezes retornei à mesma cidade depois de visitá-la com algum projeto artístico, e criei laços profundos que se sustentam até hoje – inclusive em Caxias, onde apresentamos os dois últimos espetáculos da Pequena Companhia de Teatro –, mas em todos esses casos as motivações do retorno foram fortuitas, afetivas, desavisadas. Aqui, não. O projeto tem o cuidado formal e a delicadeza de garantir esse privilégio para oficinados e oficineiros, sem que eles tenham que contar com a sorte de que esse oceano de desencontros se abra para que passe um novo encontro.
Começou agora. Mas, a primeira marca já está cravada na pele deste pelejador teatral, forjado a cada encontro, a cada abraço, a cada papo, a cada troca, a cada partida, a cada retorno... Agradeço ao SESC por essa singela marca. E para os vinte e quatro consortes que participaram da oficina, e tanto discutiram sobre gêneros literários, perdoem o excesso de lirismo que tomou conta desta narrativa. Nos vemos em breve!

domingo, 11 de junho de 2017

Teatro de grupo, IDH e um país desgovernado


Semana passada encerrei minha participação no SESC Dramaturgias, nas cidades de Caxias/MA, Vitória/ES e Maceió/AL, com uma oficina de escrita dramatúrgica, sobre a qual versei muito por aqui. Foram dois meses, entre idas e vindas, e cento e duas horas de atividade, onde facilitei a forma de adaptação aplicada pela Pequena Companhia de Teatro nos seus últimos dois espetáculos, e no próximo, que está em gestação.
Coincidentemente o projeto me levou para as Alagoas, e não menos coincidiu a conversa com um amigo sobre os índices de desenvolvimento humano do país. Dando uma pesquisada virtual, qual foi a nossa surpresa – leia um texto sobre ironia aqui – ao constatarmos que Maranhão, Piauí, Pará e Alagoas encabeçam o ranque dos piores IDHs brasileiros. A conversa nada teria de singular, não fosse o momento de reflexão em que me encontro e a dificuldade do país de se encontrar.
Como um grupo de teatro maranhense – que decidiu atuar em um país que sinaliza com o desmanche da cultura como estratégia de progresso – sobreviverá nos próximos anos estando na periferia do desenvolvimento humano, na vanguarda do atraso, no fim da fila na lembrança dos eixos hegemônicos que controlam a cultura do país?
Esse é o desafio atual da Pequena Companhia de Teatro, que atende pelo apodo de visão estratégica – a ser desenvolvida na busca de opções além do óbvio, fora da curva; alternativas que atravessem os mecanismos da nossa expertise e desemboquem em soluções menos ortodoxas.
Até aqui, a sensação é a de que são apenas palavras bonitas. Um indivíduo, um corpo, uma célula, não sobrevive sem o seu entorno, por mais visão estratégica que tente desenvolver. Qualquer lógica individual sempre será moldada, afetada ou massacrada pelo coletivo, pelo país que habita, pelo sistema que a governa, pela esfera onde circula. É impossível ser criativo se o modelo de gestão entende a cultura como mercado enquanto o criador entende como instrumento de transformação sócio-político-cultural a longo prazo.
Uma diretriz nossa, que norteou a trajetória da Pequena desde sua fundação, foi a de entender o grupo inserido na produção do país, extrapolando as fronteiras da província, pois a interlocução apenas com o nosso estado não seria suficiente para garantir a nossa sustentabilidade criativa, financeira e dialógica. É essa certeza que acentua o nosso desafio quando entendemos que estamos inseridos em um estado de origem pouco acessado como referência de produção teatral, reflexo naturalmente do contexto social que indica o índice que mencionei acima.
Essa triste realidade é comprovada pela nossa própria trajetória, quando fomos o primeiro grupo maranhense a participar de diversos projetos, chamamentos, festivais e editais – inclusive agora, quando finalizo o SESC Dramaturgias como o primeiro maranhense a participar do projeto como facilitador –, fato que devia nos orgulhar, mas que na verdade aponta para a dificuldade de penetração da produção teatral e do pensamento artístico maranhense na cena brasileira.
Exponho essa condição por saber que há inúmeros grupos de teatro pelo país tentando resolver a mesma equação e achando ser o único que está pensando nisso. O que talvez difira da nossa condição seja a posição que ocupa o estado desses grupos no ranque do IDH. Quando o índice de desenvolvimento humano é tão precário, a possibilidade de um olhar mais atento, mais inteligente, mais delicado para com as artes é quase inexistente, pois, as prioridades se acavalam galopantes diante da nossa miséria. Por consequência, conseguir os holofotes do Brasil além de degolas, lagoas, capitanias hereditárias e bumba-meu-boi é uma tarefa hercúlea.
O problemático é saber que dependemos disso. A Pequena Companhia de Teatro não sobrevive sem o Brasil, e o Brasil de hoje está encarregado de exterminar a Pequena Companhia de Teatro e todo e qualquer grupo de teatro do país. O que dá maior ou menor resistência a esses grupos é o índice de desenvolvimento humano do estado de origem. As dificuldades são as mesmas, mas um coletivo que opera em um estado mais desenvolvido e, por consequência, com maior poder hegemônico, naturalmente estará mais próximo do foco daquele holofote, sobrando para nós a penumbra, e a esperança de que os responsáveis pela direção do olhar o ajustem para a sombra, como aconteceu na última década.
Nada trago de novo que não haja vivido nestes quase trinta anos de fazer teatral. A diferença é que durante essas três décadas transitei pela impossibilidade de viver de teatro, pela esperança de que fosse possível, até desembarca na realidade de viver do ofício sem a necessidade de forjar outro ofício complementar que legitimasse o primeiro. Agora, enquanto espremo meu juízo na busca de alternativas estratégias, fórmulas escalafobéticas, mirabolâncias engenhóticas, suspeito ter caído no conto do vigário. Os onze anos de trajetória ininterrupta da Pequena Companhia de Teatro se contrapõem a essa suspeita.

domingo, 8 de outubro de 2017

Por que escrever um texto de teatro?


Amanhã embarco para Teresina, finalizar minha participação no projeto SESC Dramaturgias, que me possibilitou exercitar um diálogo profícuo sobre o texto teatral e seus desenhos. Curiosamente, em 2017, me dedico à feitura do texto da nova montagem da Pequena Companhia de Teatro, que parte de um conto de Jorge Luis Borges intitulado A outra morte. Como minha escrita acontece concomitantemente ao atravessamento geográfico que o SESC me propôs, é natural que a nova dramaturgia venha contaminada de inúmeras problematizações que se agruparam no decorrer da vivência dialética provocada pela minha passagem por Caxias/MA, Vitória/ES, Maceió/AL e Teresina/PI.

O que é ser dramaturgo na contemporaneidade? O que compreende efetivamente essa função, quando descartamos as plurais dramaturgias atuais e nos concentramos no autor de textos teatrais – aquele maldito, anacrônico e solitário cidadão que senta em uma cadeira, diante de uma mesa, para escrever o que habita o palco, mesmo sem a certeza de que esse palco seja habitado por aquilo que ele escreve?

A minha particular condição me é favorável, pois, normalmente, o que escrevo vem sendo levado à cena por nosso grupo, e só escrevo pela necessidade de compor um dizer para esse fim; mas, como fica a vida do dramaturgo autônomo, aquele ser que não faz parte de um coletivo; aquele indivíduo que imagina poder construir um discurso com potência mínima que justifique a sua feitura e a travessia para a tridimensionalidade, independentemente de ter perspectivas de que isso aconteça?

O tema é delicado. Nas quatro cidades onde discutimos o assunto, durante meu perambular sesquiano, foi unânime a constatação da significativa diminuição do exercício da escrita para teatro; a redução de escritores que se dispõem a enfrentar o gênero dramático; a ausência de novos textos para possíveis montagens; a escassa produção literária do gênero. O que sim fica claro é o deslocamento do “modus operandi” dessa função, sua integração a um conceito maior de teatralidade, e suas flutuações de construção e estilo, com suas respectivas idiossincrasias; mas não é esse o foco desta postagem, e sim, a produção literária do gênero.

A quem serve, efetivamente, o texto de teatro isolado, escrito no gabinete, descolado do atravessamento cênico provocado por um grupo de teatro ou coletivo de artistas que o horizontalize? Será que ainda existe espaço para? Quais motivações ainda perduram para que um escritor pense em escrever para teatro? Sabemos que a finalidade de um texto teatral é o palco, e, naturalmente, o escritor desse gênero só encontrará sentido na sua produção se esta atingir esse fim. Então, que mecanismos a contemporaneidade oferece para que essa produção ainda faça sentido?

Como sempre consigo ser mais patético do que você imagina, vou me tomar como exemplo: um sujeito com parca produção dramatúrgica, que não tem isso como ofício, que não se alinha com a prática como mero exercício, e que nunca pensou em encenar os próprios textos – ressalvo que apesar da autoria das duas últimas dramaturgias da Pequena Companhia de Teatro, estas partiram de obras literárias já existentes, e coube a mim construir um dizer que, mesmo autônomo, se origina em outro suporte. Desde 2009 não escrevo um texto teatral que não esteja relacionado com algum tipo de encenação eminente, parceria pertinente, construção proeminente, ou pragmática contratação. Literariamente tenho até me dedicado a um romance em detrimento ao desejo de escrever para teatro (a perversidade do seu sorriso ao ler essa sentença escancara a sua sordidez, e posso até ouvir a sua sutil exclamação ao constatar minha pretensão: Você?!). O que motivou o arrefecimento da minha produção na última década, se em parte da década anterior produzi em média um texto por ano? (Como prometi, o tosco exemplo se ancora no patético proponente.)

Você deve ter percebido que hoje me dedico quase que exclusivamente a arguir, e penso que seja um sintoma do que está assentado. A contemporaneidade conseguiu esvaziar as motivações que justifiquem a dita dramaturgia convencional? Há redução de oferta, ou Caxias, Vitória, Maceió e Teresina são exceções que confirmam uma produção de textos teatrais prolífera, acentuada e relevante? Será sempre São Paulo o exemplo que vem à sua cabeça para fazer a réplica? Os grupos de teatro conseguirão oxigenar se alimentando apenas de narrativas próprias? A desnecessidade da escrita dramatúrgica pode apequenar a busca de conhecimento técnico e, com isso, reduzir a qualidade da produção? Ainda é possível qualificar um texto se está desconectado de um organismo teatral embrionário? O texto teatral descolado de uma montagem que o provoque ainda é necessário? É o crepúsculo do dramaturgo no seu sentido etimológico?

Claro que o cano das questões, com as críticas que se aderem, apontam diretamente para a minha cabeça, autor que estou de um texto teatral, transposto de um conto, construído dialogicamente, para ser montado pelo grupo de teatro do qual faço parte, e que há tempos não escreve sob outra condição. Logo, a provocação que lhe faço não é gratuita. Nunca foi. Pois, você, há anos, mesmo sem saber, vem servindo de cobaia, consultora, confidente, juiz, coautor, mártir, e espero que sua paciência e generosidade nos mantenha assim.  Portanto, me responda, ou me ajude a perguntar.

domingo, 10 de setembro de 2017

Besta é tu


Amanhã viajo para Teresina, facilitar uma oficina de escrita dramatúrgica pelo projeto SESC Dramaturgias, última cidade que visitarei este ano provocando dramaturgos, após ter passado por Caxias/MA, Vitória/ES e Maceió/AL, pelo mesmo projeto. Antes, já estive em Teresina para participar do NORTEA/Encontro de Pesquisadores do Nordeste, dentro do FestLuso; antes, pelo SESC Amazônia das Artes, com Velhos caem do céu como canivetes; antes, com Pai & Filho, pelo Myriam Muniz de Teatro; antes, para ver a estreia de “Quando as máquinas param”, do Harém; antes, com Deus Danado, participando de outra edição do FestLuso; antes, com “Ramandá e Rudá”, no Theatro 4 de Setembro; e antes, e antes, e antes de antes. Uma intrínseca relação com a cidade, construída através do teatro.

O teatro tem isso de admirável. Nos faz erguer pontes espontâneas onde nenhum outro instrumento de engenharia consegue erigir. Somos levados pela força do seu desacato, e vamos rompendo barreiras, ramificando sonhos, reconhecendo identidades, revendo amigos; porém, a principal virtude do seu vigor contraventor é nos fazer confrontar a estática, desafiar a inércia, combater a letargia, sempre na expectativa de um novo ou surpreendente porto – porque o novo pode vir da surpresa de nos levar novamente a um lugar querido.

Agora, pelo poder da palavra escrita, meu encontro com pessoas que desejam dialogar sobre formas, metodologias e ferramentas dramatológicas; sempre na torcida de construir novas pontes, fazer novos enlaces, tecer novas teias; pois, a mais potente prova da natureza profícua do teatro é que provavelmente não encontre nenhum amigo ou parceiro antigo participando da atividade. Claro que abraçarei todos nos momentos de folga, mas o teatro não só promove reencontros, como auspicia novos encontros, com pessoas que não se conhecem, mas se reúnem em torno de um objetivo comum, neste caso, escrever para teatro.

Se você tiver curiosidade, já versei muito sobre minha experiência nesta empreitada dramatúrgica, basta clicar aqui para aprofundar a leitura; mas um ponto que pouco abordei nas postagens anteriores diz respeito a esse frescor presente em cada encontro; essa curiosa química que faz com que diferentes se juntem para tratar de algo que os atrai. Logo, o teatro tem um poder de socialização incomum, promovido pelo tête-à-tête, pelo corpo-a-corpo, pelo enredamento de seres díspares em torno de desejos comuns.

Não fosse o teatro eu seria um anacoreta. O meu leque de relações sociais se resumiria a um entorno tão restrito que não sei se poderia ser enquadrado como um estado de sociabilidade. A reserva promovida pelo meu fastio em lidar com pessoas teria me transformado em um homem das cavernas – homem que minha querida amiga Tony Silva costuma contar que eu era quando nos conhecemos. O teatro socializando a besta, ou o besta. De besta, mesmo; metido, antipático, presunçoso, pernóstico, arrogante.

Ah, o teatro! Somente nesta ação, a oficina Do narrativo ao dramático: a transposição de gêneros como instrumento de confecção de dramaturgias, promovida pelo SESC, conheci mais de cinquenta pessoas; e dessas tantas com as quais mantive um intenso diálogo e frutuoso aprendizado, algumas reverberam até hoje; não mais no campo de um grupo de pessoas que participaram de uma atividade formativa, mas de companheiros de dúvidas, parceiros de conversas, colegas de ruína, consortes para a vida.

É o teatro aproximando as pessoas e nos lembrando que precisamos do contato presencial entre as gentes para que o próprio teatro sobreviva. Teresina, aqui vou eu!

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Dramaturgia da escuta


Em 2018 a Pequena Companhia de Teatro estreia seu novo espetáculo – ainda sem título definido –, que parte do conto A outra morte, de Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo. A montagem tem sua feitura dramatúrgica a partir da Transposição de Gêneros, sistema de adaptação literária desenvolvido pela Pequena – sobre o qual verso muito neste blog –, e que tive a alegria de fazer reverberar no projeto SESC Dramaturgias, ano passado.

Essa dramaturgia está em processo. Iniciada dia 30 de dezembro de 2016, uma série de etapas foram cumpridas – entre pesquisa, transporte de gênero e dramaturgias superpostas – e chegamos ao momento mais prazerosos; quando o esqueleto dramatúrgico desenvolvido passa a ser oralizado, para que eu possa ajustar o texto, percebendo intenções, embocaduras, e ir polindo o dito com a melhor ferramenta: a fala do ator.

Normalmente, essa prática ficava a cargo dos atores do nosso grupo, e esporadicamente algum amigo mais próximo nos auxiliava com a leitura do texto em questão.

Nesta montagem, e sem programar formalmente essa proposta, passamos a convidar outras atrizes e outros atores para nos auxiliarem na empreitada, e começamos um delicioso exercício de encontros, escutas, conversas, reflexões; alargando mormente a extensão da função das leituras, e possibilitando um outro estado de percepção da feitura dos conflitos.

Para mim, o exercício da escuta, quando estou escrevendo um texto de teatro, é revelador. Fazer parte de um grupo traz esse privilégio para quem escreve, pois dispõe do profissionalismo dos seus pares para que a vocalização da escrita se efetive, e se possa entender – dramaturgo, encenador, atores, produtora – como as palavras vão sendo salivadas, mastigadas, saboreadas e engolidas, até que reste apenas o sumo do que precisa ser dito, e sua forma.      

Estender essa experiência a outras vozes, então? É tão provocador quanto ouvir um sonho de Katia. Na pluralidade de tons, entonações, intensões, opções, resmungos, sorrisos, a contextura da dramaturgia vai ganhando conflitos; nós, argumentos. A ideia impalpável e fria da personagem – que até então era apenas um monte de palavras agrupadas em papel – ganha a materialidade polifônica que uma personagem escrita precisa ter para que desafie o próximo leitor a aturar a sua sina, porque se uma personagem não captura pelo menos um leitor, está fadada a adormecer eternamente entre as capas de um livro, ou muito pior, na sóbria combinação de magias informáticas que transformam a mais complexa personagem em um gélido arquivo de texto.

A singular experiência agrupa outros exercícios tangenciais, mas nem por isso menos provocativos. Ao nos imaginar recebendo amigos na sede, para uma leitura, a ideia de criar ambiências para elas foi imediata; saudando a generosidade dos leitores com uma estética que dilua qualquer vestígio de tédio que o convite possa despertar no coitado. Essa decisão, meramente formal, foi gerando uma investigação que, mesmo não tendo o compromisso de dialogar com a nova encenação, acaba possibilitando o terreno fértil para a experimentação de materiais, luminosidades, formações, dimensionalidades, alargando a colheita criativa que a proposta de ler entre amigos fertiliza.

Outro exercício é a própria reflexão sobre o dito. Inevitavelmente, o diálogo reflexivo durante e após a leitura se estabelece organicamente, já que o leitor se depara com a curiosa possibilidade do entrar em contato antecipadamente com os dizeres de uma peça de teatro que verá no futuro, quando da sua estreia. Essa abertura de processo não formal alimenta as reflexões que a confecção da dramaturgia no estágio atual necessita, e consigo desenrolar pensamentos complexos com a simples observação da sábia amiga que sentencia: é isso.

Quem diria. Para um sujeito artista, rígido e estruturado como sou, os desenlaces que uma sugestão simples e despretensiosa como a de “dar uma lidinha no texto” são de uma potência desajustada. Devem ser sinais de novos tempos, agora, que cinquenta anos de rigor já se passaram, e surge um novo velho homem. Dadá me conserve assim.

domingo, 7 de maio de 2017

Dram Act Urge


Queria ter a clareza das grandes certezas: a morte, a vida, o sabor irretocável do presunto cru. Queria o amigo da sentença absoluta; queria saber sem duvidar; queria que alguém me dissesse, com absoluta certeza, quem nasceu primeiro, se o ovo ou a galinha; alguém que sentenciasse o sexo dos anjos; queria a resposta para a pergunta de alguns anos atrás: com quantos paus se faz uma canoa? Mas não. Tudo na vida é dúvida, incerteza, cambaleio, titubeio.
Sempre que embarco em uma jornada dialética como a que me propuseram para estes dias, com o SESC Dramaturgias, me deparo com a fragilidade das minhas certezas, com a pretensão dos meus saberes, com o embaraço dos meus pavoneios, com a vaidade camuflada e suas idiossincrasias. Como sou encenador por ofício, as poucas certezas que carrego estão relacionadas a essa prática, o mais é penumbra, desassossego.
Essa sensação faz como que a exposição provocada por uma atividade formativa faça emergir um torvelinho de inquietações que servem para temperar o pensamento, conduzir o procedimento, equilibrar o diálogo, domar os excessos e transformar o encontro em troca e o exercício em aprendizado.
O tempo que me trouxe até estas paragens – longos anos em busca de um fazer teatral honesto e orgânico – me fez constatar o quanto o conhecimento pode ser um perigoso instrumento de poder, e como esse poder é muitas vezes utilizado como mecanismo de opressão. Minha luta sempre se estabeleceu na tentativa de jamais cortejar esse poder, nem ciceronear aqueles que entendem o conhecimento como propriedade. Se a alma não é generosa, a exploração que o poder pode provocar é nefasta.
Por isso a experiência artística é tão provocadora. Os enlaces que ocorrem em uma oficina de cunho artístico como a que estou facilitando vão muito além das estruturas formais organizadas, e transitam por um ambiente muito mais amável, franco, desafiador, gerando o terreno oportuno para a troca desinteressada, o fortalecimento do diálogo, a amabilidade dos pares; diluindo graciosamente todas as dúvidas que apresentei no prólogo, e reforçando a suspeita de que este é o lugar onde eu deveria estar hoje, ontem, e onde se apresente a oportunidade de desenvolver uma boa conversa.
Já ministrei oficinas em 27 cidade de 14 estados, acredite. E em todos esses encontros a sensação primária de abismo perdurou pelo tempo que separa o convite do encontro. Quando o encontro acontece, emerge o cálido palpite de estarmos, juntos, construindo algo novo, fora da curva; provocando as estruturas, transformando o inequívoco, idealizando um mundo novo, outro, que o da realidade que hoje nos oprime e aflige – principalmente quando o presente do país que habitamos é tão dilacerantemente medonho. Uma personagem de um texto de Wilson Coêlho – querido amigo que este projeto possibilitou reencontrar –, cujo título roubei para titular esta postagem, diz; “me parece que os equívocos somente existem para os idealistas”. Talvez eu esteja totalmente equivocado, idealista que sou, e nossas ações, encontros, discussões, não reponham uma única mordida deste abocanhado Brasil. Mas, pelo menos, tenho o privilégio de saber que os equívocos existem – parafraseando a personagem Dram –, e que de tanto errar, quem sabe um dia, possamos acertar a mão e construir um lugar ideal. São só dúvidas, suspeitas, palpites, desejos.  A única certeza que perdura, encontro a encontro, é a de que sempre aprendi mais do que ensinei.