domingo, 15 de abril de 2018

Manual básico para errar o alvo


Aqui é diferente. Pensar na postagem de hoje sem ser redundante com tudo o que escrevi na postagem A política da preguiça será meu grande desafio, pois tudo o que vivemos em Primavera do Leste, dois anos atrás, dilata-se, em potência e qualidade na atualidade, e nos espanta.

Então, para não chover no molhado, assentarei meu raciocínio em um único ponto de apoio: a oficina de dramaturgia do ator que ministrei; sustentando a argumentação na significativa diferença de comparecimento, rendimento e compreensão, quando observada a adequação da clientela.

Nos plurais projetos, eventos ou programas onde sou requisitado para ministrar oficinas – e a propriedade da minha reflexão tenta se balizar nas experiências vividas em 27 cidades de 14 estados –, sempre nos deparamos, promotores e eu, com as agruras referentes à dificuldade em formar a turma em questão; e o principal desafio é adequar a clientela.

As consequências de não conseguir a clientela específica para uma oficina são sempre as mesmas: evasão, ininteligibilidade do conteúdo, nivelamento para baixo etc. No caso da nossa oficina sobre o Quadro de Antagônicos, o público-alvo são atores, alunos de teatro de curso técnico ou superior, artistas de teatro, encenadores e pesquisadores com interesse no desenvolvimento de dramaturgia a partir do ator. Quando essa observância consegue se efetivar, tudo flui com potência; e é aqui que entra a nossa experiência em Primavera do Leste, onde das vinte e cinco atrizes e atores que iniciaram a oficina, vinte e quatro concluíram. Aqui, a atenção para a formação da turma conseguiu dirimir praticamente todos as agruras do que falei acima: evasão praticamente inexistente, interlocução efetiva e aprofundamento substancial do conteúdo preconizado.  

Então, como conseguir esse resultado, sem ser excludente, garantindo a ocupação da totalidade das vagas oferecidas, e sem comprometer a oficina, tendo em vista que a não adequação da clientela exige uma adaptação inconveniente do conteúdo? Vivo esse conflito quando me deparo com um convite que me transforme em oficineiro, e vou tentando achar algumas pistas para solucionar essa problemática, através das minhas experiências recentes.

A primeira prática tem sido a de não limitar o número de inscritos ao número de vagas oferecidas. Temos estendido as inscrições a um número 30% maior que a oferta, pois o tamanho da diferença numérica entre inscrição e comparecimento no primeiro dia de oficina, em alguns casos, chega a ser um enigma indecifrável – o que faz uma pessoa se inscrever em uma oficina, ocupar a vaga de uma outra, e não comparecer?

Outra prática é a pessoalidade. Independentemente da extensão e alcance da divulgação do projeto que contempla a oficina, procuro encontrar nas cidades que visito, aquelas pessoas que imagino terem interesse na atividade, e tento convencê-las, particularmente, através de mensagem, e-mail, apelo, ultimato, chantagem – prática que você, leitora e leitor deste blog bem conhece –, do quão significativo pode ser para mim a sua presença para que a interlocução proposta pela atividade se estabeleça.

Também, a não limitação de vagas tem gerado o excedente necessário para que a própria oficina se encarregue de adequar a clientela, sem comprometer o preenchimento do número de vagas oferecidas. Ao ter mais inscritos, oportuniza-se que o interessado possa ter contato com o conteúdo e suas práticas, e decidir com maior propriedade se a atividade lhe é oportuna, fazendo com que sua possível desistência no primeiro dia (outra situação frequente) não seja uma evasão e sim um ajuste do público-alvo, pois esse desistente normalmente está contemplado no número excedente de inscrições.

São pequenos deslocamentos de práticas que venho observando na tentativa de tornar a oficina eficiente para o participante, para mim, e para quem contrata, lógico. Claro que Primavera do Leste não serve de parâmetro, pois a realidade que se vive aqui é inusitada – tão surpreendente que vou ofertar novamente o link que você desprezou acima, para que leia a postagem sobre –, mas esta nova experiência de conduzir atividades formativas pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura tem possibilitado novas percepções que fazem com que nos movimentemos no sentido de dar maior ressonância a toda e qualquer atividade da Pequena Companhia de Teatro que seja financiada com recursos públicos, mesmo que através de renúncia fiscal. Compromisso político de que não abrimos mão, mesmo quando o poder público abre mão do teatro de grupo.

4 comentários:

Andre disse...

Adorei o texto, será inútil para mim. Por meio dele errarei à vontade! Brincadeira me ajudou msm ;)

dahora disse...

É isso, sua tática é boa, claro que o processo natural vai fazer com que filtre quem realmente quer aprender, ja diz o ditado " quantidade não e qualidade" .

Brena Maria disse...

Amei o texto! Abriu o a meus olhos e me servirá em um futuro não tão distante.

Marcelo Flecha disse...

Aproveitem! A ideia de interlocução é exatamente essa! Ainda bem que a reflexão serviu para alguma coisa!