sábado, 21 de maio de 2016

Vagabundo, com muito orgulho!

Para a sociedade em geral, desde o primeiro dia em que resolvi viver de teatro, sou um vagabundo. Isso nunca me incomodou, nem deveria, pois decidi abraçar minha profissão, artista, por saber que vivia em uma sociedade conservadora, preconceituosa, desinformada, machista, retrógrada, e por compreender que, através do teatro, eu poderia auxiliar a reverter essa situação, contestando, instigando, questionando, transgredindo, esclarecendo, atuando.
Com o hodierno acaloramento do debate político, essas pechas – vagabundo, viado, maconheiro – ressurgem das trevas, e o artista volta a ser sinônimo de boa-vida, borra-botas, marginal. Confesso que isso não me destempera. Acredito na opção que fiz. Nestes quase trinta anos de arte, são inúmeras as pessoas que, através da minha prática, da minha ética, da busca dialética, da minha cara patética, mudaram de opinião, e, em vez de me injuriar, passaram a compreender que, aquilo que parecia vadiagem, era apenas uma forma diferente de vida, fora da curva, além do óbvio. Ganhei o respeito de muitos, tantos, que eu não poderia quantificar, superando a mais otimista expectativa. Fui muito além do que eu poderia imaginar, e qualquer um que tenha começado a fazer teatro trinta anos atrás, no interior do Maranhão, sabe do que estou falando.
Tenho uma frase que diz: reconhecimento não se busca, se espera. Pois eu nunca esperei ter sequer o reconhecimento dos meus pares, imagine da família, da sociedade, do mercado, do careta. Claro que falta muito, e sinto pena por não ter conseguido ainda fazer com que esses, que enxergam apenas o caminho, não tenham almejado levantar a vista para ver o horizonte. O meu trabalho consiste nisso. É nisso que acredito, é por isso que luto; para construir uma sociedade mais justa, menos reacionária, mais democrática, mais esclarecida.
Compreendo que o momento atual é de confronto, mas acredito que a grande maioria dos que enxergam a arte como uma brincadeira supérflua fazem isso por ignorância. Aqueles que entendem assim, que somos vagabundos, ainda não conseguem olhar além, e encontram-se encerrados, presos, sufocados dentro de um capô de Fusca. Se eu conseguisse chegar a eles com minha arte, sei que um diálogo se abriria. Se eu conseguisse chegar a eles com o argumento da minha opção de vida, tenho certeza que outras pessoas passariam a engordar o coro dos descontentes – digo "grande maioria" porque no mundo sempre há um lugarzinho para um canalha, e esse é outro tipo de gente.
Acredito nisso. Acredito tão profundamente no poder do teatro, da arte, que chego a me surpreender com minha própria tolerância. E penso além. Sempre pensei.  Como vagabundo sempre estive à margem, e a ideia dessa marginalidade sempre me foi cara. O trabalho é uma invenção. Fico com a primeira definição do Houaiss para vagabundo: “que ou quem leva vida errante, perambula, vagueia, vagabundeia”. É o que faço, vagar pelo país levanto o teatro que acredito para todo e qualquer público que queira refletir, discutir e transformar com a gente.
Agora, se você não aceita o argumento, se não lhe interessa dialogar, ou me chama de vagabundo por mera preguiça intelectual, nesse caso, não se preocupe, eu não faço teatro para você.

13 comentários:

Luciana Duarte disse...

Ótima vadiagem! Esrever assim num domingo é coisa de vagabundo-mor! Kkkkk.Vou ali vagabundar!

Luciana Duarte disse...

Ótima vadiagem! Esrever assim num domingo é coisa de vagabundo-mor! Kkkkk.Vou ali vagabundar!

Desertos disse...

Querido companheiro de vagabundice! É isso!!!!!

Marcelo Flecha disse...

Salve, Luciana e Flávia! Queridas companheiras de vagabundice! Ainda pretendo colocar vocês duas em cena juntas, um dia!

JeyzonLeonardo disse...

Pra quem vaga um mundo inteiro de bagagens. Histórias para todas as vidas.
Grato pelo lanche dominical.

Marcelo Flecha disse...

Meu lanche por um leitor atento! Obrigado, Jeyzon, por não me deixar falando sozinho!

JeyzonLeonardo disse...

Euvi#

JeyzonLeonardo disse...

Euvi#

Bárbara Paiva disse...

Lindo e emocionante ler o seu relato sobre esse momento que estamos vivendo. Ainda assim me pego entristecida, decepcionada, dentre outros tantos adjetivos para me exemplificar no meio dessa sociedade, que ao invés de progredir, ir adiante, "ver o horizonte", regride, retrocede, cerra os olhos diante de tamanhas atrocidades.
Apesar de tudo me vejo forte, segura da minha vagabundice!
Sejamos fortes vagabundos, vagabundos atuantes, vagabundos com voz altiva!
Sejamos vagabundos!!!
P.S: Obrigada pela vagabundagem!

Cia. Pão Doce de Teatro disse...

Uma boa leitura... de vagabundo para vagabundos...
E assim seguimos, vadios num mundo torto, tentando endireitar com a nossa vagabundagem o que acreditam não ter jeito.

Marcelo Flecha disse...

Bárbara, e toda a Pão Doce, somos muito mais fortes do que todo o discurso de ódio do planeta, avancemos!!

TonySilvaAtriz disse...

Eu prefiro um vagabundo que trabalha para tornar o cidadãos sensíveis e pensantes do que um politico crápula que pensa que não trabalhamos. jUNTO-ME AO VAGABUNDO-MOR,engrossando fileiras.PRESENTE.

Marcelo Flecha disse...

Tony Silva! Matriarca da vadiagem!!!