quinta-feira, 28 de abril de 2011

Profissionalização, profissionalismo e ofício


Não reclamo. Só analiso.

Se eu vivo de teatro? Fiquei quase dois dias nos aeroportos do país, mais um bocado dentro de um ônibus para ganhar R$ 300,00.

Twitter, projetos, Facebook, Blog, Youtube, e ainda está por vir a página e a sede da Pequena. 

Pensar em pagar sindicato e militar na categoria.

Meus tempos de prazer com o teatro vai sumir. Prenuncio dias de trabalho braçal que requererão sacrifício de um tempo que deveria ser de puro ócio.

Voltar no tempo é desistir da profissionalização que boa parte da humanidade julga necessária. Eu sempre odiei o trabalho enquanto mecanismo de produção.

Na ausência do ócio, fico aqui levantando questões sem pertinência para o fazer teatral que tanto amo. Refletir requer espaço e tempo. Sinto-me vazio de sentidos hoje. 

E para alegrar o ambiente, uma dica de site. Clique aqui.

Música, literatura, teatro e outros bichos


A ocasião não poderia ser melhor. O lançamento em Imperatriz do livro “Cinco Tempos em Cinco Textos” – dramaturgia reunida de Marcelo Flecha coincidirá com a realização do Ciclo de leituras dramáticas do autor, projeto que está acontecendo desde o dia 24 de abril no Teatro Ferreira Gullar.


Marcelo Flecha receberá o público para um brinde à sua estreia literária dia 30 de abril (sábado) a partir das 20h no Boteco do Frei.


A atmosfera da noite de autógrafos terá Jorge Choairy assumindo seu papel de Dj, Cláudio Marconcine seu lado performer e André Lucap empunhando seu violão. A Marcelo caberá provocar intervenções artísticas com quem apareça por lá no decorrer da noite.
Para encerrar as atividades do lançamento, o autor participará do seminário “O teatro contemporâneo e suas vertentes” que acontecerá dia 1º de maio (domingo) às 19h após a leitura do texto “Dois” no Teatro Ferreira Gullar, como parte da programação do ciclo de leituras dramáticas.

domingo, 24 de abril de 2011

Fim de FESTA

Como o sinal da internet não chegava ao quarto, não foi possível fazer o diário do Festival Santista de Teatro, como sempre fazermos neste blog. Então me dedico agora a trazer uma retrospectiva das nossas experiências por lá. O festival é promovido por um conjunto de artistas que, com muita garra, procuram realizar o evento, e manifesto aqui a importância da iniciativa e a compreensão quanto às dificuldades. A opinião que coloco a seguir é a título de colaboração e sugestão para o evento.O festival, assim como todos os festivais de que Pai & Filho participou até aqui, arcou com nossas despesas de transporte aéreo, transporte de carga, hospedagem, alimentação e cachê. Quanto à estrutura logística, confesso que fiquei um pouco decepcionado. A alimentação foi ruim e a hospedagem regular. Penso que não é de bom tom para um festival nacional continuar a hospedar seus participantes em alojamento, mesmo que este, assim como o de Guaramiranga, seja um espaço de retiro espiritual e de agradável permanência. Caso seja mantido deveriam ser melhoradas as instalações procurando aumentar o conforto. O deslocamento interno foi problemático, mesmo no dia da nossa apresentação, mas, sempre que acionada, a comissão manifestou-se eficiente, principalmente durante a montagem no Teatro Guarany (lindo), quando o espetáculo ameaçava ficar comprometido por falta do fechamento da caixa cênica. Tudo foi resolvido com competência.

O festival promoveu as Mostras Adulto, de Rua, Infantil e Paralela, além de diversas atividades outras. Durante a nossa permanência, conseguimos assistir a dois espetáculos adultos, um infantil e participar da mesa redonda “O impacto de grandes festivais na cultura local e na formação de público”, o que não me permite fazer uma avaliação quanto as mostras, mas posso destacar que Pai & Filho foi o único espetáculo fora de São Paulo da Mostra Adulto.

Destaco a mesa redonda e o sempre agradável encontro com o querido Marcelo Bones que esteve como curador da Mostra de Rua. Muito agradável também o quintal da Pagu, ponto de encontro noturno de todo o evento. Nossa montagem foi em palco italiano e o espetáculo adaptou-se bem. Boa apresentação, limpa, mas um pouco fria – a chegada definitiva de Cláudio em maio faz-se necessária.
O debate foi polêmico e um pouco tumultuado. O formato adotado pela curadoria da Mostra Adulto não me agradou. Diferentemente do que ouvi quanto a Mostra de Rua – onde o foco era estabelecer uma conversa sobre o processo de montagem – aqui o foco era realizar juízo de valor quanto às obras, criticando veemente algumas, inclusive a nossa, gerando uma reação natural daqueles que não concordavam com os pareceres, tornando o debate um tanto quanto agressivo. Penso que o teatro evoluiu, e esse formato ficou nos anos 80, envelhecido. Nossa experiência vem mostrando que o diálogo entre os diferentes fazeres tem sido o foco da grande maioria dos debates em festivais atuais e deverá permanecer assim para o amadurecimento do teatro contemporâneo.

No mais, a pequena continua se divertindo com o seu fazer e a experiência é sempre positiva. Como sempre, rimos muito!

sábado, 23 de abril de 2011

Piada interna

Cada efeito bonito que produzimos nos cria um inimigo; 
para ser popular, a pessoa precisa ser uma mediocridade. 
(Oscar Wilde)

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Ciclo de leituras dramáticas Marcelo Flecha


Cairo Morais, Kely Oliveira, Karla Nascimento, Clarícia Dallo, Michel da Costa e Thercyo Ishiai farão leituras dramáticas dos textos Clausura, Dois, Privada e Distorções de um dia interminável, em Imperatriz-MA, no Teatro Ferreira Gullar, no período de 24/04 a 04/05/2011, sempre às 18h10, com entrada gratuita.

Esta ação faz parte do projeto "Processo colaborativo na construção de um espetáculo para as ruas", viabilizado com recursos do Programa BNB/BNDES de Cultura.

Os textos se encaixam perfeitamente em propostas de leituras dramáticas, já que eles não foram montados, são desconhecidos (mesmo publicados em antologia), de autor da contemporaneidade, passíveis de irem à cena e discutidos. 

Para quem se sentia temeroso em escrever, publicar e montar textos de sua autoria, agora com esse ciclo de leituras todos os tabus/mitos/pregas se foram. Basta abrir um sorriso largo e perceber que a funcionalidade da vida não requer tanto assim de nós mesmos.


sábado, 9 de abril de 2011

Balanço de Aniversário

A contar com a realização da VI Semana de Teatro no Maranhão (torcemos para isso) e a perspectiva de aprovação de Pai & Filho para integrar a mostra, o 53° Festival Santista de Teatro – FESTA será a sexta mostra ou festival que o espetáculo participa desde sua estreia. Todas as inscrições que encaminhamos foram aceitas e ainda recebemos uma sondagem extra-oficial do FIAC – Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia. FENTEPP, FNT, Agosto e Guajajara foram experiências que nos fizeram refletir muito aqui no blog, é só clicar em festivais e mostras para ler mais. Ainda não atacamos os grandes: FIT, FILO, POA etc. Tudo a seu tempo. Curitiba só vale a pena se for na mostra oficial, que é selecionada através de curadoria e não de inscrições. O FRINGE, mostra paralela do Festival de Teatro de Curitiba, por não ter mais nenhum tipo de seleção e aceitar todo e qualquer espetáculo que se inscreva, acabou se tornando um depósito descontrolado de todos os grupos do Brasil dispostos a pagar uma fortuna para se apresentar e disputar um espectador a tapa. Somam-se a essas participações os dois Prêmios Myriam Muniz que o espetáculo recebeu, para montagem, em 2010 e para circulação em 2011. No Prêmio SATED, melhor figurino, cenário, ator, produção, direção e espetáculo. São Luís, Imperatriz, Balsas, Riachão, Timon, Santa Inês, Guaramiranga, Presidente Prudente, Natal, Belém, Marabá, Araguaina, Palmas, Teresina, Parnaíba, Fortaleza, Sobral e Mossoró são alguns dos nossos destinos. Para um filho que completa um ano de vida hoje, não temos do que reclamar. Parabéns ao Pai ao Filho e ao Espírito Santo, Amém.

domingo, 3 de abril de 2011

O papel da reciclagem na pequena companhia


A utilização de materiais recicláveis pela pequena na construção dos seus espetáculos se confunde com uma consciência intuitiva e remete a meados da década de noventa na cidade de Balsas – quando o ecologicamente correto não era moda nem chato a ponto de fazer-nos urinar no chuveiro. Falo de um Santo Inquérito construído com caixas de tomate.

O desafio está na escolha dos materiais e no diálogo destes com o que se quer dizer.

Uma nova possibilidade de montagem, e lá está Jorge trazendo um monte de plásticos azuis que Didi – seu pai – jogara fora, lá está Katia a observar o lixo alheio, cá estou alerta ao entulho que me rodeia. Cláudio, como ainda está longe, é café com leite. Não é um pensamento visual, nem uma definição da encenação a partir da estética, apenas estamos atentos aos materiais do nosso entorno, imaginando que, em algum momento, podem servir. Depois, no processo de construção da encenação, enquanto o dizer se estabelece em sala de ensaio, esses materiais começam a reaparecer – imageticamente. Se algum deles dialoga com o que estamos buscando, vai sendo incorporado. Na maioria das vezes, temos mais entulho do que cenários, mas vale a pena. Entre banners velhos, bobinas gráficas descartadas, disquetes de computador (lembram?), rolhas, madeiras de todos os tipos, papelão em tubos, em folhas, CDs, telhas, sempre aparece aquele material que completará o dizer dos atores em cena. Paralelamente, a percepção do desperdício gerado pelo consumo. Assim, a partir da destruição, construímos. No caso atual, “Velhos Caem do Céu como Canivetes”. Entulho cairá na mesma intensidade.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

O que penso sobre o teatro contemporâneo

Teatro contemporâneo é o teatro feito na contemporaneidade, hoje e em qualquer lugar do mundo. É como história: uma se vive e outra se conta.

Diferentemente da historicização estética das artes, que ilustra bem as diferentes épocas da história antiga e moderna, as inquietações dos artistas envolvidos e o contexto da sociedade existente no momento, o teatro produzido hoje não reflete uma estética definida, mesmo porque, a efemeridade do teatro difere das outras artes, que têm como sustentar-se no tempo: um livro impresso, uma tela pintada, uma escultura preservada.

O fazer teatral era focado especificamente no texto. Era ele quem conduzia a encenação. Com isso, o texto tinha definição temporal, classificável. O teatro, enquanto encenação, pode até ter classificação, mas não se restringe ao/no tempo.

Hans Thies Lehmann, teórico alemão, foi o responsável por cunhar o termo pós-dramático para o teatro. Essa ruptura se deu dentro na dramaturgia textual a partir de Beckett, dramaturgo irlandês. Com isso, as possibilidades de um teatro focado mais especificamente na encenação e não no texto se expandiu. Deu lugar a outras dramaturgias que não a do autor, como a do ator, da cenografia, da iluminação, do figurino.

Nessa perspectiva penso que o teatro contemporâneo, então, deveria mostrar os conflitos do homem e da sociedade contemporânea num universo em que o texto dramático não existiria mais, não fosse mais possível montar com ele, dada a urgência de outras questões que o texto literário não fosse mais capaz de dar conta. Porém, essa ruptura é ineficaz quando percebemos que o teatro, hoje, a partir desse distanciamento do texto dramático, passou a ser múltiplo em demasia. Muita informação, muito signo. Isso em teoria, pois na prática, o que ocorre, é uma repetição de práticas antigas. Sugere-me que o homem de hoje não se apercebeu da real dimensão do teatro pós-texto literário-dramático.

Inevitável dizer que por essas multiplicidade de possibilidades, o jargão “vários teatros possíveis” existe para dar sustentação a uma prática ineficaz e ineficiente do teatro que se faz hoje, mas que é datado no passado. Por hoje nada diz, nada sugere, nada propõe.

Tenho visto menos de teatro do que deveria. Tenho gostado pouco do teatro visto.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Pequena Festa



O espetáculo Pai & Filho foi selecionado para a mostra oficial do 53º FESTA – Festival Santista de Teatro, que será realizado entre os dias 15 e 23 de abril, em Santos, no litoral de São Paulo.

O festival é o mais antigo em atividade no Brasil. Criado em 1958, por Patrícia Galvão, a Pagu, o FESTA colocou Santos na vanguarda do teatro nacional. O tema desta edição, “Respeitável Público”, foi escolhido para enfatizar a interação popular com as produções teatrais selecionadas. “Queremos que o público santista e da região venha ao FESTA, que sinta o festival como seu, identificando-se com o que queremos acrescentar à cidade”, diz o coordenador geral do FESTA 53, Leandro Taveira. Mostras paralelas, exposições, mesas-redondas e oficinas gratuitas também farão parte da programação, entre outras ações para envolver o público.

Portanto, a pequena companhia de teatro está no FESTA e de festa, com a oportunidade de apresentar Pai & Filho em outra mostra nacional e poder continuar dialogando com a produção de outros estados do país. O ano promete!

P.S.: A companhia parabeniza a iniciativa da promoção Pague Quanto Quiser.

domingo, 27 de março de 2011

Artistas em decomposição

Não tenho problemas com o envelhecimento. Fui jogador de futebol, soube o que é ser velho aos 27 anos. Assim, sei lidar com fim de carreira, vetustez precoce, restrições psicomotoras, desprezo dos habilitados – coisinhas como a dificuldade de coçar as costas naquela interseção entre a mão esquerda e a direita. Cláudio tem tratado do assunto do ponto de vista do ator e suas limitações físicas aqui e em outras postagens que o caro leitor poderá pacientemente procurar. Eu sempre apostei no cérebro sem lembrar que também envelhece. As personagens do texto “Dois”, publicado recentemente, defendem a hipótese no trecho abaixo: HOMEM – Devíamos ter nos dedicado ao cérebro. MULHER – Como? HOMEM – Intelecto, pensadores não envelhecem... MULHER – Faz sentido. HOMEM – Claro que faz! MULHER – Um intelectual de oitenta anos é um homem respeitado... HOMEM – ... uma atriz de sessenta é uma velha em fim de carreira! Na posição de encenador – apesar de conduzir as encenações fisicamente – sempre me imaginei resguardado e propenso à longevidade, pelo fato da atividade estar relacionada ao exercício intelectual. Porém, quantos espetáculos totalmente envelhecidos estreiam anualmente, independentemente da idade cronológica do encenador? Ou seja, caros atores, de fato, a velhice é absurdamente democrática e não poupa ninguém. O que nos cabe apenas é saber envelhecer... ou esperar pela dádiva – o exemplo do kazuo Ohno serve para nos confortar, física e intelectualmente (risos).

quinta-feira, 24 de março de 2011

A inutilidade da vida

Foto de Igor Ruben

Ao teatro poderia ser atribuído um certo desejo de morte. Pulverizar o tempo, negar o espaço. Limbo, lugar de desapego e desamparo. Existe o outro, mas é você quem determina essa distância, esse limite. Teatro, dizem, é geografia de partilha. Sei disso. Porém, a sensação do espírito é outra, não posso negar. 

Quando o espetáculo se encerra, a energia, inevitavelmente, será modulada para baixo. É sempre assim. Não há glamour nenhum em perceber-se esquálido e fétido depois de um dia de trabalho. Tudo é igual depois de um banho. Aliás, quase tudo. Há satisfação também na morte em vida que se processa cotidianamente.

Facebook

Agora, a Pequena Companhia de Teatro está no Facebook. Para adicionar, clique aqui.
Esperamos estar construindo uma rede de informação com amigos, parceiros, colaboradores e público. Agora só falta o nosso sítio.

terça-feira, 22 de março de 2011

Canal de vídeos no YouTube

A Pequena Companhia de Teatro está com um canal de vídeos no YouTube. Para acessá-lo, clique aqui.

Estaremos, durante o ano de 2011, postando o material em vídeo existente em acervo e os registros que ainda estão por vir. Este é o canal!

domingo, 20 de março de 2011

Rumo certo

.
Santa Inês. Belém e Marabá. Parnaíba. Araguaína e Palmas. Fortaleza, Sobral, Mossoró e Natal. Timon e Teresina. Doze cidades, dois atores, uma produtora, um diretor e, agora, una Fiesta. Pai & Filho está prestes a cair na estrada para executar o projeto de circulação contemplado com o Prêmio Myriam Muniz 2010.
.

Circular com um espetáculo é o desejo final de qualquer companhia, e, por consequência, de qualquer artista de teatro. No meu caso – já tive oportunidade de circular os quatro cantos do país – a novidade será a independência no transporte de carga. Nosso veículo transportará os quatro membros da companhia e os cenários, gerando uma praticidade que até agora nunca experimentei. Só a tranquilidade de não ter que torcer para que o cenário chegue a tempo já é uma vitória. Lembro de uma apresentação do balé “Terra Basilis”, em Brasília, quando dois caminhões tombaram na estrada, um de cenários, vindo de São Luís, e outro de iluminação vindo de São Paulo. Eu era o responsável pela montagem – imaginem a aflição – mas tudo correu bem. Agora, como estamos acoplando um reboque ao carro, esperamos menos sobressaltos.


Fico torcendo para que a felicidade dos meus pares seja tão intensa quanto a minha: viajar, montar, apresentar, oferecer oficinas, debater, desmontar, jantar, rir, dormir, acordar, dirigir, é tudo o que quero(emos). Nossa sorte é refém do nosso trabalho. Nosso trabalho é refém do nosso desejo. Nosso desejo é refém da sorte.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Sic

Gilberto F., vulgo "gordo", dia desses, perguntou sobre minha querela (sic) com a academia. Eu não me lembro o que disse a ele assim de pronto, mas analiso rasteiramente, e gosto de dizer isto, que a academia é um espaço privilegiado de discussão. Não que eu me excite com referenciais teóricos, mas a prática deve ser analisada às vistas deles. É que assim a angústia é minimizada e a identificação - dizem necessária para que a gente se encaixe ou se negue a fazê-lo - inevitavelmente, se efetiva.

Eu tenho algumas inquietações e uma delas é o que motiva a não sustentação do teatro per si (sic) enquanto campo de pesquisa para a academia. Acho tão estranho isso.... é como se a gente não se entendesse, e que o teatro fosse tão inócuo a ponto de não ser esclarecedor em sua essência (sic).

Teatro é vida que pulsa dentro e fora das áreas de encenação. Mesmo com o corpo andante parado, inerte, o fogo incendeia o corpo pensante.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Twitter

A Pequena Companhia de Teatro agora está no Twitter. Diariamente estaremos postando alguma notícia relacionada à cultura (principalmente teatro), aos afazeres da Companhia e de seus membros. Quem quiser nos seguir e ser seguido, é só assoviar: Pequena C. de Teatro (PequenaCTeatro).
Ele vai funcionar como se fosse um diário para quando estivermos em viagem, principalmente na circulação Norte/Nordeste que se avizinha e em possíveis festivais, já que poderemos postar por celular. 

domingo, 13 de março de 2011

Grotowski à milanesa

.
Blog é que nem tamagotchi, se não alimentar morre. E não adianta encher ele de porcarias, uma alimentação saudável é fundamental para o seu desenvolvimento. O nosso tem alimentação balanceada à base de teatro, apesar de pensar neste espaço sem engessamento ou receita. Não necessariamente falamos de teatro. E sempre falamos. É que a arte está em tudo o que nos cerca e o teatro é o liquidificador desse entorno, por isso, gerar restrições num blog sobre teatro seria indigesto. Normalmente este faminto blog recebe comida duas vezes por semana – eu disse normalmente. Às quinta é Cláudio que o alimenta e aos domingos eu. As guloseimas ficam a cargo dos comentários de amigos que insistem em permanecer fiéis ao compromisso de não me largar sozinho aqui – neste caso falo por mim, apesar de não crer que Cláudio se farte sozinho. Sobre Jorge e Katia já falei antes aqui. Para mim, alimentar este blog tem sido um exercício extremamente conflituoso. Uma reeducação alimentar que depende de disciplina, paciência e dedicação, apesar de nem sempre termos o que pôr na mesa. Às vezes a congestão vem com a leitura do texto que escrevi na semana anterior. Principalmente se, pretensioso, quero preparar algum banquete. Quando tempero com umas pitadas de humor, quase sempre fico rindo sozinho. É que, como gourmet, sou melhor escritor e, como escritor, sou melhor gourmet. Hoje, por exemplo, a comida está ralada... Desempenho melhor papel como leitor e comensal.
.

sábado, 12 de março de 2011

O dom de me iludir

Sempre me dou o direito de experienciar situações, quaisquer que sejam elas. Ainda tenho a capacidade de me surpreender.

Túmulo do casal Brecht-Weil no cemitério Dorotheestadt de Berlim

Faço teatro, e acredito que preciso ver outros atuando também. Aqui em Imperatriz é quase impraticável. Anteontem eu soube de um grupo evangélico (sic)  que há 10 anos se apresenta com esse espetáculo teatral. Decidi prestigiar... filantropia... Acabei dentro de um culto, e tudo era irritantemente evangélico, com o objetivo de catequisar, converter, demonizar. Fiquei até o final para ver até onde eu suportaria. A proposta, segundo eles mesmos, era brechtiana. Havia demônio, Cristo, prostituta, drogada (só fumava maconha, a coitada... o demônio liberou um pouco de heroína na veia, mas não me convenceu), um evangélico questionável, uma mendiga e um casal que se dizia briguento. A direção era do ator que interpretava o demônio. Um problema recorrente a do diretor que atua. Brecht se contorceu no túmulo. Eu me retorci no banco. O ator/diretor parou o espetáculo e fez um aparte, confessando emocionado ter-se convertido  de sua homossexualidade.

Resumo da ópera: morar em Imperatriz equivale a um purgatório sem fim, onde você pode ver as pessoas calmamente se utilizarem das artes equivocadamente. 

sexta-feira, 4 de março de 2011

O corpo que se esgota

Devemos esgotar o corpo como referência para a cena. Ao menos o corpo físico do ator. O tempo se encarrega de fazer com que ele perca a flexibilidade, a ligeireza, o frescor, as pregas do cu. O teatro não se esgota com o tempo. Se altera. O ator também deve fazer isso. Viver é fazer múltiplas escolhas, e não uma única. Assim, as verdades são criadas e postas para o diálogo com outras tantas. Da mesma forma que existem muitas verdades, existem muitos teatros, e devem discutir os seus fazeres tanto para afirmar quanto para negar, ou poluir, ou assassinar regras. 

Arte de Ana Holck

Houve um tempo em que eu condenava. Agora, me penitencio. O amanhã não existe até que se principie. 

domingo, 27 de fevereiro de 2011

A ridícula perfeição

.
Independentemente da metodologia aplicada, há uma região no ator onde parece ser impossível penetrar e é de onde saem os momentos mais sublimes. A quebra dessa impenetrabilidade, a busca da codificação para acionar esse universo, deverá ser o objetivo final de qualquer ator, encenador ou teórico de teatro. Alheio à “talentices”, esses momentos são frutos de treinamento, porém, é onde o treinamento chega de forma não consciente. É para esse efeito místico (quando místico quer dizer: onde há mistério ou razão incompreensível) do treinamento que nunca estamos atentos, concentrando sempre o foco no resultado concreto e palpável das aplicações diárias. Eis aí o erro. Muito do que se experimenta armazena-se e acumula-se no núcleo dessa esfera. Uso a palavra “plasmar” para representar essa assimilação. Uma percepção cinestésica, não racional. Propriocepção. O ator pleno será aquele que, de maneira conscientemente técnica, e utilizando-se do corpo total, transite por esses momentos sublimes de acordo com a necessidade do seu ofício. É apenas uma impressão; aquela de quando vemos uma cena tão intensa e temos a sensação de que jamais conseguirá se repetir. Impressão. De fato sabemos que se repete e se supera.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Ser ou estar?


Gilberto F., certa vez, disse que Graça F. não era atriz. Ela meio que se emputeceu e enviou, pelos Correios, o currículo para ele. 

Eu sei que sou ator porque tenho o registro na minha carteira de trabalho. Eu sei que não estou atuando porque estamos em entressafra. Nesse meio tempo, o que um ator faz? 

Eu me masturbo mentalmente sobre processos e sobre coisas. Imagino como será nossa circulação pelo Norte e pelo Nordeste. Faço musculação e não como porcarias. Executo projetos pendentes. Conto as horas para mudar-me para São Luís. Penso no amor tardio de quem me espera. 

Hoje pensei um pouco sobre a impossibilidade de bater cartão, diariamente, para fazer teatro, como fazem os professores, médicos e outros profissionais dignos de terem uma carga horária de trabalho definida. Existe algo estranho nesse aspecto. A arte de atuar não deveria ser profissão. Não se encaixa. Não temos hora para trabalho, não temos salário fixo. Assim, fica uma certa angústia de nunca estar preenchido. Pensei também que não morreremos porque a nossa arte vai viver. Não preciso mais me preocupar com minha saúde física e mental, nem com filhos, nem com árvores. A arte deverá suprir todas as minhas falhas trágicas de ser humano que sou.

E por fim, tem um amigo meu, Jairo M. que diz que, enquanto evangélico, não pode falar de outra coisa a não ser do que ele está preenchido, isto é, de Deus, de amor, de cristianismo, de caridade. Isso é uma verdade. Uma outra verdade, e a descobri há algum tempo, é que a gente só fala daquilo que nos falta. Excesso e falta. 

Quero continuar a ser um fosso sem fundo e jamais me esgotar. E como Walt W. eu canto o corpo elétrico


domingo, 20 de fevereiro de 2011

Ter ou não ter...

É uma relação de amor e ódio. Tudo o que tenho foi o teatro que me deu. Porém, tudo o que não tenho também foi o teatro que não me deu. O que não tenho? Sossego. A paz do alienado. A doce miséria de que não tem o que pensar. Piscina. Dente de ouro. Estoque de Moet Chandon. Sonhos. O teatro transforma tudo em uma dura realidade e amplia com lente de aumento todas as imperfeições da vida. Jatinho para ir comprar “yerba” mate. Lava-louças. Descompromisso com o que me cerca. Queria poder acordar sem me preocupar com meu entorno, com a vida de quem não vive, com a fome. Uma biblioteca maior. Fim de semana na Sicília. Quarto de hóspedes. Paciência. Quero sanar as chagas hoje. O teatro me roubou todo o tempo de espera e não me conformo com os remédios de amanhã. Canivete suíço. Quadra de Squash. Preocupação com a aparência. Medo da velhice. Carnaval, pré-carnaval, carnaval fora de época, pós-carnaval... uma jornada sem atropelos: nascimento, reprodução e morte. O que tenho? Isso é tema para outra postagem. Quanto à piscina? Confesso que não gosto muito de água.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

E como vai o seu saco?

[Pausa para uma lembrança]


Hoje está um saco! Qual o caminho tortuoso que não devo percorrer? Se estava no caminho certo, e isso não é bom pois acomoda, por que insistir no errado para não me acomodar? Quando é que eu vou crescer? Não sei de quase nada e as teorias continuam muito chatas.


[Pausa para um desabafo anterior à lembrança]


Quanto ao teatro, quero o lugar nenhum. 
Minha tristeza é só minha.
Produzir/dirigir/atuar.
Morrer de fome e só.
A morte nunca chegará.
Quero dormir um sono intranquilo, sempre. 
Sempre e sempre.
E os corpos?
E o meu corpo?
Talvez eu esteja ficando velho e desejosos do vazio.
Meus espetáculos-solo não diziam nada.
Nada não é o nada, é a potência do tudo.
Um cigarro e uma cerveja


[Pausa para um descarrego]


Amanhã, dia bom. Verei o que fazer. Quanto a mim, digo que o ser ainda vale à pena. Que tal a mim? E o mundo? E depois? Só quero fazer teatro.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Existem dias...

que a gente não pensa em quase nada. Funciona como sinal de internet ou de operadora de celular. Minha conexão vai para o espaço quase sempre às quintas-feiras - e não é história de trancoso. É facto.

Fui a Açailândia anteontem e ontem para assistir a dois espetáculos e filmar um, fazendo parte do I Festival de Teatro da cidade, realizado pelo Grupo Cordão de Teatro (Açailândia-MA) e a Santa Ignorância Cia. das Artes (São Luís-MA). A proposta é ótima. Gosto do dinamismo de grupos que insistem em fazer, mesmo com a ausência dos Governos, lembrando que estamos em um estado dos Sarney e que o Bulcão (vitalício secretário de cultura) só enxerga Manifestações das Culturas Populares (nem sei bem ao certo o que vem a ser isso. Só quero alfinetar, nada mais). O primeiro deles foi "Que trem é esse?" e "O miolo da estória". Caso queiram saber mais dos espetáculos, é só clicar nas imagens abaixo. Há sinopse. 

Lauande Aires faz o Miolo (quase que integralmente), treinou conosco dia desses, em conjunto com Marcelo F., Jorge C. e Cláudio M. O treinamento foi tema de uma outra postagem. Quer saber mais, clique aqui.

Minha versão sobre o fato é que o ator ainda é muito subjetivo em expressar suas sensações, e como trabalhamos com níveis de energia e somos sempre diferentes com o passar do tempo, não dá para comparar sensações, atribuir sentenças como se fossem verdades num universo que é volatilizado permanentemente. O treinamento funcionou para que Marcelo F. pudesse identificar uma melhor equalização para um público que está por vir na nossa circulação com o espetáculo Pai & Filho.
Cláudio M. + Jorge C. + Lauande A. (foto de Marcelo F.)

As percepções são múltiplas. O conteúdo é o mesmo, mas a compreensão o que o corpo exige e sonega, é diversa nos seres. Falta-nos um treinamento diário que justifique nossas escolhas quanto aos antagônicos (quer saber mais sobre os antagônicos, clique aqui). Meu desejo é utilizar essas formações para brincar, jogar um pouco com o quadro, me familiarizar mais com os antagônicos no corpo. Nosso processo de treinamento sempre esteve atrelado a alguma montagem. Assim, estávamos mais focados em construir uma personagem, outro direcionamento. Quando não se tem esse compromisso, a possibilidade de jogar é ampliada. Vou me divertir muito com essas formações. Sentir-me-ei como pinto na merda!

Adeus Ford Ka


Teresina, Bacabal, Pai & Filho, 2005, Canoa Quebrada, Festluso, Cinco Tempos em Cinco Textos, São Bento, Circulação, Medeia, Guajajara, Tibau, Quinta Cultural, Santa Inês, Balsas, Oficina, Fest em cena, Literatura Viva, 2010, Mossoró, BNB de Cultura, Riachão, Ciclo de Leituras, O Acompanhamento, Debate, 2009, Imperatriz, Estreia, Semana do Teatro no Maranhão, 2008, Natal, Myriam Muniz, São José de Ribamar, Fortaleza, 2007, Barreirinhas, Auto da Liberdade, Feira do Livro, 2004, Deus Danado, Entrelaços, 2011, São Luís, Semana Imperatrizense de Teatro, 2006, montagem, travessa da Trindade.



O futuro proprietário do HPS 3277 levará consigo parte da história da pequena companhia de teatro.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Sob os olhos de Kafka

.
A experiência de adaptar Kafka para o teatro coincidiu com a publicação da minha dramaturgia reunida e o surgimento deste blog. Um ano para assumir que escrevo. Sob o olhar impiedoso de Kafka – e tantos outros fantasmas que me açoitam – escrevo porque preciso. Sempre foi assim. Desde o quinto poema anterior ao do dia vinte e nove de junho de mil novecentos e oitenta e seis – primeiro manuscrito meu que possui data de referência – escrevo pela necessidade de espantar as agruras que me cercam. Doloroso, sempre. Um exercício permanente que mistura angústia, incompreensão, nostalgia, revolta e sofrimento. Prazeroso, nunca. Meu prazer está no efêmero, no que ninguém atrapa. O peso do olhar desses monstros transforma meu exercício em detalhe mal concluído, em lente desfocada; uma nota em desafino solta num canto mudo. Penso cada palavra por mim escrita como um natimorto. Nasce morta. Ceifada pelos grandes escritores que sorvi durante a vida: com eles, para que escrever? Ubiratan Teixeira chamou minha tese de “esperta defensiva”. Talvez seja. Em defesa da literatura.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O teatro ou o jogo das ilusões


Joga bilhar. Religiosamente ao acordar, olha-se no  espelho. Observa  se  apareceu alguma espinha. Olha nos olhos  de  cor  escura. Procura  alguém. Tenta encontrar a personagem ideal para  aquele dia. Encontra com a mesma facilidade de sempre. É perfeito em tudo que faz. Sai. 

Joga bilhar. Religiosamente ao acordar, olha-se no  espelho. Conta  as rugas que persistem em não aparecer. Olha nos olhos  de  cor clara,  buscando  forças  para  conseguir viver. Pensa  em todas  as tentativas  fracassadas  que  teve. Vislumbra  outra  possibilidade, sorri e sai para mais um dia de estafante trabalho.

Joga bilhar. Ao levantar não vai ao espelho. Sai com a  cara que só ele tem. Sai sem personagem alguma.

Joga bilhar. Acorda e não se observa no espelho. Naquele dia surge  uma  ruga que não é notada. Não percebe que envelheceu e sai feliz para o trabalho.

Jogam bilhar. À noite se encontram no  salão  para  jogar. Jogam  lado a lado, mas não se conhecem. São parceiros  naquela  noite, mas não se conhecem. Simultaneamente vão ao banheiro, urinam no chão, defecam  na latrina, vomitam nos pés. Percebem o que tinham comido no almoço:  arroz, feijão e carne. Vão à pia, lavam as mãos.  Observam o espelho à frente. Enxergam-se como verdadeiramente são.  Espantam-se com  as "caras limpas" do espelho. Gritam. O espelho se  quebra. Como que  unidos  por  um único impulso, descem ao chão catando os cacos espalhados por toda a extensão do banheiro. Ferem-se. Sangram. Tudo fica  vermelho: paredes, braços, roupas. Tocam-se e não se sentem. Cacos por todo o chão. Desistem de recolher todos eles. Levantam-se e saem do banheiro, do salão, levando para casa os cacos que cataram.

No dia seguinte, juntam os cacos para comporem o espelho. E conseguem. Olham. Em cada mosaico a imagem é composta.  Ficam  felizes com  o que veem, apagando das mentes as imagens que anteriormente  se formaram nos espelhos de suas vidas.

Mal sabiam eles que as que viam eram  trocadas. A partir de então, ao amanhecer, viam um a imagem do outro. 

No passar de três dias deixam de jogar bilhar. 

Quarto dia. No necrotério local, dois corpos lado a lado, sem uma gota de sangue. Ninguém reclama os corpos. Causa desconhecida. Sem parentes, são enterrados como indigentes. Ninguém os acompanhou no enterro. O coveiro cava a cova de ambos, lado a lado.  Os  corpos descem. A terra é jogada. São consumidos, devorados pelos vermes.

Cemitério clandestino. Tiveram que exumá-los. Estavam totalmente decompostos. Só restavam os ossos e os cacos do espelho que ambos tinham engolido. 

Se alguém juntasse os cacos, veria que as imagens continuavam lá, como que vivas, sem rugas, sem espinhas,  com  olhos claros,  escuros.  Ninguém o fez. Foram novamente enterrados,  sem os cacos que  foram recolhidos e logo  em seguida  jogados fora. Só então morreram.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Resultado


Segue a relação dos premiados na nossa promoção. Cada contemplado receberá gratuitamente um exemplar do livro Cinco Tempos em Cinco Textos.

Categoria Comentários:

Xico Cruz
Cairo Morais
Hamilton Oliveira
Elizandra Rocha
Flávia Teixeira

Da categoria Novos Seguidores ainda restam três exemplares em disputa. Os já contemplados são:

Quadrilha Saia Rodada
A Tramando Teatro
Elizandra Rocha (de novo)

Boa leitura!

domingo, 30 de janeiro de 2011

Dúvidas, dívidas e devaneios.

.
Durante os próximos três dias faremos uma simulação da oficina “O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator” que aplicaremos na circulação do espetáculo Pai & Filho pelo Norte e Nordeste do Brasil.



A ideia é reproduzir as condições que a companhia poderá encontrar durante a jornada. Trabalharemos em um pequeno espaço que o ator e amigo Lauande Aires dispõe em sua residência. Seremos nós três (CM, JC e MF) e ele.
.

A perspectiva dessa atividade me provoca alguns questionamentos quanto à importância desses mecanismos de diálogo entre fazedores como fórum de intercâmbio de experiências: nossa prática terá alguma importância para pessoas que não sejam membros da companhia?
.

Quando sugeri a oficina para o projeto pensava que sim. Agora, como tudo na minha vida, não sei. Penso que se ao menos conseguirmos demonstrar como acontecem as formações das personagens no processo de construção da pequena já estaremos auxiliando os operadores a gerar uma relação de causa e efeito – tendo em vista que os participantes terão contato como a obra (espetáculo) e seus mecanismos de construção (oficina). Mas o motivo da postagem é levantar a questão para futuras reflexões: temos algo essencialmente relevante para repassar?

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

E mesmo sendo um to(lo)do, sou em partes

Quando um ator alcança sua plenitude em estado de representação? Individualmente, tem papeis que me satisfazem, verdadeiramente. Diretor satisfeito e público convencido, também fortalecem a primeira acertiva, mesmo sabendo que existem verdades e verdades, perspectivas e perspectivas. Sei de toda essa história que fazem com que a gente nunca tenha uma crença sólida e profunda sobre algo. Sempre tem os senões. 
Ciclos como a vida, os papeis atribuídos pelo diretor têm princípio e fim, quando termina-se, definitivamente, a carreira da peça, do espetáculo. Alguma coisa fica com o ator e com seu público. Dia desses, no supermercado, um empacotador lembrou de Urubus e Pérolas. Eu me lembro dos espetáculos que fiz. Não sei a data de nascimento de minha mãe e nem o de falecimento de meu pai. Se pensarmos em níveis de importância, o espectador deverá ser uma espécie de termômetro para a insatisfação. Não a ausência dele, mas sim a sua presença consistente. Espectadores e espectadores. Quero ter os meus. Quero ter a todos eles como amigos, que são convidados a entrar em minha casa, a sentarem no chão e conversar sobre a vida. Quero essas pessoas completas para que juntos, possamos nos sentir incompletas gentes, em um espaço que jamais vai ser preenchido. Vazios não são faltas. Não faltam espectadores, mas sim espectadores. Teatro existe, o que não existe é teatro. 

E assim, um tolo escreve em partes.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Vale prêmio

.
.
Passamos de oitenta seguidores! Vamos comemorar com prêmios: os próximos cinco comentários receberão gratuitamente um exemplar do livro Cinco Tempos em Cinco Textos (à venda na livrarias Poeme-se, Tambores e Leiamundo), lançado pela pequena editora de livros no último dia sete. Detalhe: os comentários não poderão ser referentes a este post. Deverão ser pertinentes a temas de postagens anteriores – como prova de que alguém lê – não se esquecendo de registrar o endereço de correspondência para o envio do livro. Nosso sistema permite acessar comentários por ordem cronológica, independentemente de em que postagem for feito o comentário.

Também receberão livros as próximas seis pessoas que se tornarem seguidores, levando o blog à incrível marca de noventa pessoas amigas que clicaram em “seguir” por compromisso e nunca mais apareceram!

É a pequena companhia de teatro fortalecendo seus laços internéticos e seu compromisso com a democratização desta opereta meia boca.

P. S.: Palavras do autor

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A improvisação: método e instrumento

Tendo o teatro o caráter do efêmero, e o drama grego equivaler à ação, é sensato crer que “o drama é a única forma mediante a qual podemos utilizar plenamente o homem na exploração de si mesmo, dentro do contexto de uma situação viva, e a experiência mais profícua dessa experiência deverá ser realizada através da improvisação”[1].

Lembremo-nos aqui que “a commedia dell’arte eleva a improvisação à categoria do artístico”[2], pois que “em oposição ao teatro literário, os cômicos dell’arte, do ofício, sustentavam que o autor é o ator”[3]. Então, em um dado momento, temos um ator, que é encenador e autor, de forma concomitante.

FO (2004) recupera, inclusive, a informação de derrubada da quarta parede pela dell’arte, quando diz: “Pois bem: a idéia de derrubar a quarta parede já obcecava os cômicos dell’arte[4]. E isso é importante na medida em que, quanto mais o ator se aproxima do público, mais terá a improvisação como instrumento.

Mesmo enquanto método, a improvisação serve para auxiliar na reconstrução da fabulação, anterior ao tempo da narrativa da peça “para investigar ações que o personagem não vive na peça (...) além de ajudar a localizar ações, intenções e subtextos”[5].

Quando o espetáculo estreia, e imagina-se que o encenador esteja satisfeito com o resultado, e os atores já com suas personagens modelares e compostas, a improvisação não deixa de ter espaço, principalmente em se tratando da importância que os espectadores têm no ato da encenação. E é esse espectador que vai alterar a ordem do espetáculo, mesmo que ele opte pelo silêncio. Ele, com sua intuição determinará o seu envolvimento.

O ator, incorporado com a necessidade de sentenciar indelevelmente o teatro enquanto efêmero, potencializando o tempo do agora, do é, será generoso se utilizar-se de sua intuição.

Entretanto, se colocarmos o espectador-atuante no mesmo nível de importância para a improvisação, há de continuar a sua eficácia: “Tudo isso aumenta o desconforto do ator, constrangido a ficar em guarda, vigiado por todos os lados ao mesmo tempo, acuado a descoberto”[6].

A beleza do teatro é a celebração entre atores e público. Ambos devem se dar esse direito.

[1] HODGSON, J. & RICHARDS, E., apud JANUZELLI, Antonio. A aprendizagem do ator. São Paulo: Ática, 1992. p. 63.
[2] CHACRA, Sandra. Op. cit. p. 225.
[3] Ibidem.
[4] FO, Dario. Manual mínimo do ator. São Paulo: Senac São Paulo, 2004. p. 120.
[5] BARBOSA, Zé Adão, CARMONA, Daniela. Op. cit. p. 96.
[6] ASLAN, Odette. Op. cit. p. 183.