domingo, 5 de dezembro de 2010

O Papel do cru na pequena companhia de teatro


“...Cru. A encenação deve conter a crueza do ser. O não cozido. O natural, sem precisar ser naturalista. O rude, porém, espontâneo. O ser, só. Uma estética sem temperos ou preparos excessivos que cozinhem o ator deixando-o pronto para a degustação. Encenação indigerível, não degustável para aqueles que perderam o contato com o inigualável sabor do cru. Arte vendida em lata tem data de validade. Vence. Apodrece. A encenação pronta para o consumo padece.”

Este fragmento do Manifesto Danado, escrito para a estreia do espetáculo Deus Danado em Mossoró, sintetiza o conceito da crueza. Quando a pequena fala em cru, quer dizer da não diluição das percepções. Não falamos apenas da estética, falamos da encenação como um todo. De não facilitar para o espectador. Os materiais trabalhados e a crueza do acabamento reforçam isso. Exige do espectador uma disposição para a leitura. Uma disposição para a compreensão além do óbvio. Quando Deusdete Dias, membro da Nação Acadêmica De Artes (N. A. D. A.), pergunta sobre os livros de Pai & Filho toca no ponto. O papelão está aparente, cru, tosco. É o trabalho do ator e a disposição do espectador que transformam aquele amontoado de papelão em elementos vivos da narrativa. Já a crueza da representação dos atores escapa ao naturalismo. Exige do espectador um olhar não televisivo. As personagens nunca são aquelas do cotidiano. São seres ampliados, cuja lente de aumento revela as imperfeições, não só da alma, mas do corpo. Em outro fragmento o manifesto diz: “... Evitemos o desperdício do tempo alheio com obviedades, com composições televisivas, com burocracia cênica.” Evitemos. Ofereçamos ao espectador um novo desafio a cada encenação. Não deixemos que a “zona de conforto”, de que tanto fogem os artistas, caia no colo do espectador, aquele que é o destino final da arte, queiramos ou não.

4 comentários:

Leônidas Portela disse...

Esse blog ta tudo de bom, estou gostando muito.

Marcelo Flecha disse...

E é bom saber que você está do outro lado, apareça.

XICO CRUZ disse...

Oi amigo Marcelo, obrigado pela conversa, foi das 4 da tarde até 3 da manha, nem mereço tanto de sua companhia. Conversar contigo é uma imensa aprendizagem. Beijo.

Marcelo Flecha disse...

Foi ótimo! Só me pareceu que matamos vocês de fome rsrsrsr! Espero que se repita. Beijo. (estou seguindo seu conselho rsrsrsr)