domingo, 21 de novembro de 2010

O papel das cores em Pai & Filho

Com a pausa nas apresentações, aproveito para me deter sobre o papel das cores em Pai & Filho. É claro que se sabe que nada em cena é gratuito. Mas, no caso das cores, às vezes pode parecer aleatório.Como nenhum comentário ainda foi relacionado a esse tema, e como já temos uma trajetória considerável, me adianto à leitura dos que virão e digo: duas cores se destacam entre a predominância pastel da crueza que acompanha as últimas encenações da pequena – o azul e o vinho. Que azul? No início do espetáculo, quando as personagens ainda não entraram em casa, a relação com o mundo exterior se dá na cor azul: a luz, a porta e as camisas das personagens. O desaparecimento do azul – lembrando que a porta cai, a luz azul some e as camisas são retiradas e penduradas do lado de trás do porta-objetos, escondidas do olhar do espectador – subtrai do filho a referência de mundo e a possibilidade de liberdade. Esta cor só aparecerá novamente no tecido azul, quando o filho compara o pai a um mapa-múndi. Já a cor vinho, predominante no interior da casa a partir dos cubos, da toalha de mesa e da cor da linha que coze as camisetas debaixo, é a cor da nobreza, da aristocracia, puída e desgastada pela decadência desse pai que já foi próspero, mas ainda preserva a dignidade da pose.
Somam-se a essas cores, a paz, no tecido branco estendido pelo pai no único momento de trégua, o tecido preto que enterra o filho quando o pai cobre-o com o peso de ser sua única esperança, o amarelosolarpoente que ilumina o filho quando ascende a vela para escrever e a cor natural do cru, que reforça nossa proposta de deixar para o ator e o espectador o desafio de transformar os objetos com aparente crueza em elementos vivos em cena. Mas isso já se refere também à manufatura, tema de uma próxima postagem. A obra não se explica, eu sei, mas o estudo e o processo de construção da cena podem ser úteis para um leitor mais curioso, sem contar que preciso alimentar este faminto blog.
Próximos títulos:
O papel da reciclagem na pequena companhia de teatro
O papel da manufatura em Pai & Filho
O papel do cru na pequena companhia de teatro
O papel da manipulação do cenário em Pai & Filho

3 comentários:

Jorge Choairy disse...

Cor.Ação
coberto de
Cor.Agem.

Bravo!

diariodoandre.com disse...

Aguado com ansiedade os próximos.

diariodoandre.com disse...

Aguardo. hehe