domingo, 27 de fevereiro de 2011

A ridícula perfeição

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Independentemente da metodologia aplicada, há uma região no ator onde parece ser impossível penetrar e é de onde saem os momentos mais sublimes. A quebra dessa impenetrabilidade, a busca da codificação para acionar esse universo, deverá ser o objetivo final de qualquer ator, encenador ou teórico de teatro. Alheio à “talentices”, esses momentos são frutos de treinamento, porém, é onde o treinamento chega de forma não consciente. É para esse efeito místico (quando místico quer dizer: onde há mistério ou razão incompreensível) do treinamento que nunca estamos atentos, concentrando sempre o foco no resultado concreto e palpável das aplicações diárias. Eis aí o erro. Muito do que se experimenta armazena-se e acumula-se no núcleo dessa esfera. Uso a palavra “plasmar” para representar essa assimilação. Uma percepção cinestésica, não racional. Propriocepção. O ator pleno será aquele que, de maneira conscientemente técnica, e utilizando-se do corpo total, transite por esses momentos sublimes de acordo com a necessidade do seu ofício. É apenas uma impressão; aquela de quando vemos uma cena tão intensa e temos a sensação de que jamais conseguirá se repetir. Impressão. De fato sabemos que se repete e se supera.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Ser ou estar?


Gilberto F., certa vez, disse que Graça F. não era atriz. Ela meio que se emputeceu e enviou, pelos Correios, o currículo para ele. 

Eu sei que sou ator porque tenho o registro na minha carteira de trabalho. Eu sei que não estou atuando porque estamos em entressafra. Nesse meio tempo, o que um ator faz? 

Eu me masturbo mentalmente sobre processos e sobre coisas. Imagino como será nossa circulação pelo Norte e pelo Nordeste. Faço musculação e não como porcarias. Executo projetos pendentes. Conto as horas para mudar-me para São Luís. Penso no amor tardio de quem me espera. 

Hoje pensei um pouco sobre a impossibilidade de bater cartão, diariamente, para fazer teatro, como fazem os professores, médicos e outros profissionais dignos de terem uma carga horária de trabalho definida. Existe algo estranho nesse aspecto. A arte de atuar não deveria ser profissão. Não se encaixa. Não temos hora para trabalho, não temos salário fixo. Assim, fica uma certa angústia de nunca estar preenchido. Pensei também que não morreremos porque a nossa arte vai viver. Não preciso mais me preocupar com minha saúde física e mental, nem com filhos, nem com árvores. A arte deverá suprir todas as minhas falhas trágicas de ser humano que sou.

E por fim, tem um amigo meu, Jairo M. que diz que, enquanto evangélico, não pode falar de outra coisa a não ser do que ele está preenchido, isto é, de Deus, de amor, de cristianismo, de caridade. Isso é uma verdade. Uma outra verdade, e a descobri há algum tempo, é que a gente só fala daquilo que nos falta. Excesso e falta. 

Quero continuar a ser um fosso sem fundo e jamais me esgotar. E como Walt W. eu canto o corpo elétrico


domingo, 20 de fevereiro de 2011

Ter ou não ter...

É uma relação de amor e ódio. Tudo o que tenho foi o teatro que me deu. Porém, tudo o que não tenho também foi o teatro que não me deu. O que não tenho? Sossego. A paz do alienado. A doce miséria de que não tem o que pensar. Piscina. Dente de ouro. Estoque de Moet Chandon. Sonhos. O teatro transforma tudo em uma dura realidade e amplia com lente de aumento todas as imperfeições da vida. Jatinho para ir comprar “yerba” mate. Lava-louças. Descompromisso com o que me cerca. Queria poder acordar sem me preocupar com meu entorno, com a vida de quem não vive, com a fome. Uma biblioteca maior. Fim de semana na Sicília. Quarto de hóspedes. Paciência. Quero sanar as chagas hoje. O teatro me roubou todo o tempo de espera e não me conformo com os remédios de amanhã. Canivete suíço. Quadra de Squash. Preocupação com a aparência. Medo da velhice. Carnaval, pré-carnaval, carnaval fora de época, pós-carnaval... uma jornada sem atropelos: nascimento, reprodução e morte. O que tenho? Isso é tema para outra postagem. Quanto à piscina? Confesso que não gosto muito de água.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

E como vai o seu saco?

[Pausa para uma lembrança]


Hoje está um saco! Qual o caminho tortuoso que não devo percorrer? Se estava no caminho certo, e isso não é bom pois acomoda, por que insistir no errado para não me acomodar? Quando é que eu vou crescer? Não sei de quase nada e as teorias continuam muito chatas.


[Pausa para um desabafo anterior à lembrança]


Quanto ao teatro, quero o lugar nenhum. 
Minha tristeza é só minha.
Produzir/dirigir/atuar.
Morrer de fome e só.
A morte nunca chegará.
Quero dormir um sono intranquilo, sempre. 
Sempre e sempre.
E os corpos?
E o meu corpo?
Talvez eu esteja ficando velho e desejosos do vazio.
Meus espetáculos-solo não diziam nada.
Nada não é o nada, é a potência do tudo.
Um cigarro e uma cerveja


[Pausa para um descarrego]


Amanhã, dia bom. Verei o que fazer. Quanto a mim, digo que o ser ainda vale à pena. Que tal a mim? E o mundo? E depois? Só quero fazer teatro.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Existem dias...

que a gente não pensa em quase nada. Funciona como sinal de internet ou de operadora de celular. Minha conexão vai para o espaço quase sempre às quintas-feiras - e não é história de trancoso. É facto.

Fui a Açailândia anteontem e ontem para assistir a dois espetáculos e filmar um, fazendo parte do I Festival de Teatro da cidade, realizado pelo Grupo Cordão de Teatro (Açailândia-MA) e a Santa Ignorância Cia. das Artes (São Luís-MA). A proposta é ótima. Gosto do dinamismo de grupos que insistem em fazer, mesmo com a ausência dos Governos, lembrando que estamos em um estado dos Sarney e que o Bulcão (vitalício secretário de cultura) só enxerga Manifestações das Culturas Populares (nem sei bem ao certo o que vem a ser isso. Só quero alfinetar, nada mais). O primeiro deles foi "Que trem é esse?" e "O miolo da estória". Caso queiram saber mais dos espetáculos, é só clicar nas imagens abaixo. Há sinopse. 

Lauande Aires faz o Miolo (quase que integralmente), treinou conosco dia desses, em conjunto com Marcelo F., Jorge C. e Cláudio M. O treinamento foi tema de uma outra postagem. Quer saber mais, clique aqui.

Minha versão sobre o fato é que o ator ainda é muito subjetivo em expressar suas sensações, e como trabalhamos com níveis de energia e somos sempre diferentes com o passar do tempo, não dá para comparar sensações, atribuir sentenças como se fossem verdades num universo que é volatilizado permanentemente. O treinamento funcionou para que Marcelo F. pudesse identificar uma melhor equalização para um público que está por vir na nossa circulação com o espetáculo Pai & Filho.
Cláudio M. + Jorge C. + Lauande A. (foto de Marcelo F.)

As percepções são múltiplas. O conteúdo é o mesmo, mas a compreensão o que o corpo exige e sonega, é diversa nos seres. Falta-nos um treinamento diário que justifique nossas escolhas quanto aos antagônicos (quer saber mais sobre os antagônicos, clique aqui). Meu desejo é utilizar essas formações para brincar, jogar um pouco com o quadro, me familiarizar mais com os antagônicos no corpo. Nosso processo de treinamento sempre esteve atrelado a alguma montagem. Assim, estávamos mais focados em construir uma personagem, outro direcionamento. Quando não se tem esse compromisso, a possibilidade de jogar é ampliada. Vou me divertir muito com essas formações. Sentir-me-ei como pinto na merda!

Adeus Ford Ka


Teresina, Bacabal, Pai & Filho, 2005, Canoa Quebrada, Festluso, Cinco Tempos em Cinco Textos, São Bento, Circulação, Medeia, Guajajara, Tibau, Quinta Cultural, Santa Inês, Balsas, Oficina, Fest em cena, Literatura Viva, 2010, Mossoró, BNB de Cultura, Riachão, Ciclo de Leituras, O Acompanhamento, Debate, 2009, Imperatriz, Estreia, Semana do Teatro no Maranhão, 2008, Natal, Myriam Muniz, São José de Ribamar, Fortaleza, 2007, Barreirinhas, Auto da Liberdade, Feira do Livro, 2004, Deus Danado, Entrelaços, 2011, São Luís, Semana Imperatrizense de Teatro, 2006, montagem, travessa da Trindade.



O futuro proprietário do HPS 3277 levará consigo parte da história da pequena companhia de teatro.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Sob os olhos de Kafka

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A experiência de adaptar Kafka para o teatro coincidiu com a publicação da minha dramaturgia reunida e o surgimento deste blog. Um ano para assumir que escrevo. Sob o olhar impiedoso de Kafka – e tantos outros fantasmas que me açoitam – escrevo porque preciso. Sempre foi assim. Desde o quinto poema anterior ao do dia vinte e nove de junho de mil novecentos e oitenta e seis – primeiro manuscrito meu que possui data de referência – escrevo pela necessidade de espantar as agruras que me cercam. Doloroso, sempre. Um exercício permanente que mistura angústia, incompreensão, nostalgia, revolta e sofrimento. Prazeroso, nunca. Meu prazer está no efêmero, no que ninguém atrapa. O peso do olhar desses monstros transforma meu exercício em detalhe mal concluído, em lente desfocada; uma nota em desafino solta num canto mudo. Penso cada palavra por mim escrita como um natimorto. Nasce morta. Ceifada pelos grandes escritores que sorvi durante a vida: com eles, para que escrever? Ubiratan Teixeira chamou minha tese de “esperta defensiva”. Talvez seja. Em defesa da literatura.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O teatro ou o jogo das ilusões


Joga bilhar. Religiosamente ao acordar, olha-se no  espelho. Observa  se  apareceu alguma espinha. Olha nos olhos  de  cor  escura. Procura  alguém. Tenta encontrar a personagem ideal para  aquele dia. Encontra com a mesma facilidade de sempre. É perfeito em tudo que faz. Sai. 

Joga bilhar. Religiosamente ao acordar, olha-se no  espelho. Conta  as rugas que persistem em não aparecer. Olha nos olhos  de  cor clara,  buscando  forças  para  conseguir viver. Pensa  em todas  as tentativas  fracassadas  que  teve. Vislumbra  outra  possibilidade, sorri e sai para mais um dia de estafante trabalho.

Joga bilhar. Ao levantar não vai ao espelho. Sai com a  cara que só ele tem. Sai sem personagem alguma.

Joga bilhar. Acorda e não se observa no espelho. Naquele dia surge  uma  ruga que não é notada. Não percebe que envelheceu e sai feliz para o trabalho.

Jogam bilhar. À noite se encontram no  salão  para  jogar. Jogam  lado a lado, mas não se conhecem. São parceiros  naquela  noite, mas não se conhecem. Simultaneamente vão ao banheiro, urinam no chão, defecam  na latrina, vomitam nos pés. Percebem o que tinham comido no almoço:  arroz, feijão e carne. Vão à pia, lavam as mãos.  Observam o espelho à frente. Enxergam-se como verdadeiramente são.  Espantam-se com  as "caras limpas" do espelho. Gritam. O espelho se  quebra. Como que  unidos  por  um único impulso, descem ao chão catando os cacos espalhados por toda a extensão do banheiro. Ferem-se. Sangram. Tudo fica  vermelho: paredes, braços, roupas. Tocam-se e não se sentem. Cacos por todo o chão. Desistem de recolher todos eles. Levantam-se e saem do banheiro, do salão, levando para casa os cacos que cataram.

No dia seguinte, juntam os cacos para comporem o espelho. E conseguem. Olham. Em cada mosaico a imagem é composta.  Ficam  felizes com  o que veem, apagando das mentes as imagens que anteriormente  se formaram nos espelhos de suas vidas.

Mal sabiam eles que as que viam eram  trocadas. A partir de então, ao amanhecer, viam um a imagem do outro. 

No passar de três dias deixam de jogar bilhar. 

Quarto dia. No necrotério local, dois corpos lado a lado, sem uma gota de sangue. Ninguém reclama os corpos. Causa desconhecida. Sem parentes, são enterrados como indigentes. Ninguém os acompanhou no enterro. O coveiro cava a cova de ambos, lado a lado.  Os  corpos descem. A terra é jogada. São consumidos, devorados pelos vermes.

Cemitério clandestino. Tiveram que exumá-los. Estavam totalmente decompostos. Só restavam os ossos e os cacos do espelho que ambos tinham engolido. 

Se alguém juntasse os cacos, veria que as imagens continuavam lá, como que vivas, sem rugas, sem espinhas,  com  olhos claros,  escuros.  Ninguém o fez. Foram novamente enterrados,  sem os cacos que  foram recolhidos e logo  em seguida  jogados fora. Só então morreram.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Resultado


Segue a relação dos premiados na nossa promoção. Cada contemplado receberá gratuitamente um exemplar do livro Cinco Tempos em Cinco Textos.

Categoria Comentários:

Xico Cruz
Cairo Morais
Hamilton Oliveira
Elizandra Rocha
Flávia Teixeira

Da categoria Novos Seguidores ainda restam três exemplares em disputa. Os já contemplados são:

Quadrilha Saia Rodada
A Tramando Teatro
Elizandra Rocha (de novo)

Boa leitura!

domingo, 30 de janeiro de 2011

Dúvidas, dívidas e devaneios.

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Durante os próximos três dias faremos uma simulação da oficina “O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator” que aplicaremos na circulação do espetáculo Pai & Filho pelo Norte e Nordeste do Brasil.



A ideia é reproduzir as condições que a companhia poderá encontrar durante a jornada. Trabalharemos em um pequeno espaço que o ator e amigo Lauande Aires dispõe em sua residência. Seremos nós três (CM, JC e MF) e ele.
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A perspectiva dessa atividade me provoca alguns questionamentos quanto à importância desses mecanismos de diálogo entre fazedores como fórum de intercâmbio de experiências: nossa prática terá alguma importância para pessoas que não sejam membros da companhia?
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Quando sugeri a oficina para o projeto pensava que sim. Agora, como tudo na minha vida, não sei. Penso que se ao menos conseguirmos demonstrar como acontecem as formações das personagens no processo de construção da pequena já estaremos auxiliando os operadores a gerar uma relação de causa e efeito – tendo em vista que os participantes terão contato como a obra (espetáculo) e seus mecanismos de construção (oficina). Mas o motivo da postagem é levantar a questão para futuras reflexões: temos algo essencialmente relevante para repassar?

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

E mesmo sendo um to(lo)do, sou em partes

Quando um ator alcança sua plenitude em estado de representação? Individualmente, tem papeis que me satisfazem, verdadeiramente. Diretor satisfeito e público convencido, também fortalecem a primeira acertiva, mesmo sabendo que existem verdades e verdades, perspectivas e perspectivas. Sei de toda essa história que fazem com que a gente nunca tenha uma crença sólida e profunda sobre algo. Sempre tem os senões. 
Ciclos como a vida, os papeis atribuídos pelo diretor têm princípio e fim, quando termina-se, definitivamente, a carreira da peça, do espetáculo. Alguma coisa fica com o ator e com seu público. Dia desses, no supermercado, um empacotador lembrou de Urubus e Pérolas. Eu me lembro dos espetáculos que fiz. Não sei a data de nascimento de minha mãe e nem o de falecimento de meu pai. Se pensarmos em níveis de importância, o espectador deverá ser uma espécie de termômetro para a insatisfação. Não a ausência dele, mas sim a sua presença consistente. Espectadores e espectadores. Quero ter os meus. Quero ter a todos eles como amigos, que são convidados a entrar em minha casa, a sentarem no chão e conversar sobre a vida. Quero essas pessoas completas para que juntos, possamos nos sentir incompletas gentes, em um espaço que jamais vai ser preenchido. Vazios não são faltas. Não faltam espectadores, mas sim espectadores. Teatro existe, o que não existe é teatro. 

E assim, um tolo escreve em partes.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Vale prêmio

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Passamos de oitenta seguidores! Vamos comemorar com prêmios: os próximos cinco comentários receberão gratuitamente um exemplar do livro Cinco Tempos em Cinco Textos (à venda na livrarias Poeme-se, Tambores e Leiamundo), lançado pela pequena editora de livros no último dia sete. Detalhe: os comentários não poderão ser referentes a este post. Deverão ser pertinentes a temas de postagens anteriores – como prova de que alguém lê – não se esquecendo de registrar o endereço de correspondência para o envio do livro. Nosso sistema permite acessar comentários por ordem cronológica, independentemente de em que postagem for feito o comentário.

Também receberão livros as próximas seis pessoas que se tornarem seguidores, levando o blog à incrível marca de noventa pessoas amigas que clicaram em “seguir” por compromisso e nunca mais apareceram!

É a pequena companhia de teatro fortalecendo seus laços internéticos e seu compromisso com a democratização desta opereta meia boca.

P. S.: Palavras do autor

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A improvisação: método e instrumento

Tendo o teatro o caráter do efêmero, e o drama grego equivaler à ação, é sensato crer que “o drama é a única forma mediante a qual podemos utilizar plenamente o homem na exploração de si mesmo, dentro do contexto de uma situação viva, e a experiência mais profícua dessa experiência deverá ser realizada através da improvisação”[1].

Lembremo-nos aqui que “a commedia dell’arte eleva a improvisação à categoria do artístico”[2], pois que “em oposição ao teatro literário, os cômicos dell’arte, do ofício, sustentavam que o autor é o ator”[3]. Então, em um dado momento, temos um ator, que é encenador e autor, de forma concomitante.

FO (2004) recupera, inclusive, a informação de derrubada da quarta parede pela dell’arte, quando diz: “Pois bem: a idéia de derrubar a quarta parede já obcecava os cômicos dell’arte[4]. E isso é importante na medida em que, quanto mais o ator se aproxima do público, mais terá a improvisação como instrumento.

Mesmo enquanto método, a improvisação serve para auxiliar na reconstrução da fabulação, anterior ao tempo da narrativa da peça “para investigar ações que o personagem não vive na peça (...) além de ajudar a localizar ações, intenções e subtextos”[5].

Quando o espetáculo estreia, e imagina-se que o encenador esteja satisfeito com o resultado, e os atores já com suas personagens modelares e compostas, a improvisação não deixa de ter espaço, principalmente em se tratando da importância que os espectadores têm no ato da encenação. E é esse espectador que vai alterar a ordem do espetáculo, mesmo que ele opte pelo silêncio. Ele, com sua intuição determinará o seu envolvimento.

O ator, incorporado com a necessidade de sentenciar indelevelmente o teatro enquanto efêmero, potencializando o tempo do agora, do é, será generoso se utilizar-se de sua intuição.

Entretanto, se colocarmos o espectador-atuante no mesmo nível de importância para a improvisação, há de continuar a sua eficácia: “Tudo isso aumenta o desconforto do ator, constrangido a ficar em guarda, vigiado por todos os lados ao mesmo tempo, acuado a descoberto”[6].

A beleza do teatro é a celebração entre atores e público. Ambos devem se dar esse direito.

[1] HODGSON, J. & RICHARDS, E., apud JANUZELLI, Antonio. A aprendizagem do ator. São Paulo: Ática, 1992. p. 63.
[2] CHACRA, Sandra. Op. cit. p. 225.
[3] Ibidem.
[4] FO, Dario. Manual mínimo do ator. São Paulo: Senac São Paulo, 2004. p. 120.
[5] BARBOSA, Zé Adão, CARMONA, Daniela. Op. cit. p. 96.
[6] ASLAN, Odette. Op. cit. p. 183.

domingo, 16 de janeiro de 2011

A estética do feio – primeiras impressões

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O belo é esteticamente óbvio. Adoro o feio. O assimétrico. Toda forma disforme é absolutamente perfeita na sua desordem caótica. O feio instiga com maior vigor do que a passividade do belo. O feio acorda. O belo adormece. Somos conduzidos a ver de maneira padronizada. Nosso olhar viciado é escravo da simetria, da perfeição. Imperfeito. Feio é o que se é. O que somos. Como somos. Cromossomos. Nossa feiúra brilha quando não é camuflada com a maquiagem opaca do belo. Quando a cortina se abre, beleza demais enjoa – a cortina se fecha e o feio ainda pede reflexões. O trabalho da pequena favorece a aceitação do feio e não cai no equívoco de tentar torná-lo belo. Falo do feio como adjetivo positivo: a estética do feio substituindo a cosmética do belo.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Flecha e as tragédias do ser

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O jornal O Estado do Maranhão publicou um comentário de André Lisboa sobre o livro Cinco Tempos em Cinco Textos, dramaturgia reunida de Marcelo Flecha, lançado dia 07 de janeiro na Oficina Escola. Para acessá-lo clique no diário do André ou na foto abaixo. Para adquirir o livro, envie um e-mail para contato@pequenacompanhiadeteatro.com. .

Chuva, suor e vinho

O melhor leitor do nosso lançamento foi Ubiratan Teixeira. Suas palavras descrevem o que foi a noite:


“Lançamento de livro, para mim, é algo semelhante ao ritual promovido pela parturiente até meados dos anos 50 do século passado reunindo em torno de sua cama os parentes e as pessoas gradas para apresentar seu pimpolho quando servia um cálice de vinho moscatel.

Nos lançamentos de livros, muitos vão para filar o grogue e o dicumê, outros para se exibirem diante das câmeras de televisão e microfones das raras emissoras de raio, um razoável número dos presentes comprará a obra considerando que é chique ficar na fila do autógrafo, mas raros a lerão.

Não sou fanzoca de lançamentos por essas e outras circunstâncias: o rango é péssimo e as presenças geralmente azedas e depois, conhecendo meu povo como conheço, mesmo havendo exceções excepcionais, sei quem produz o quê e por que.

Conhecendo o trabalho de ourivesaria que Marcelo Flecha desenvolve no teatro, encarei o temporal que desabava sobre a cidade na noite e na hora do lançamento deste precioso “Cinco Tempos em Cinco Textos” e me dei infinitamente gratificado por lá ter ido. O ambiente era saudável e descontraído, tudo informal, lá estavam as pessoas despidas dos preconceitos e dos gestos mesquinhos, gente que fala minha própria língua; pessoas com o olhar saudável sobre nosso mundo, velhos parceiros que não via fazia largos tempos, antigos “amores” encastoados nos meus sentimentos mais nobres, imagine o leitor aquela zona sem atropelos!

Boaes, Mariano, Dyl Pires, Gilson Cesar, Jeane, Lúcia, todas as lúcias, todos os souzas, e pedros e glórias, dezenas de nomes e rostos amigos que não os via desde o século passado, abraços autenticamente fraternos, apertos de mãos sem nojo, nada daquelas palmadinhas despidas de calor & vida nas nossas costas e mãos molengas e sem tato; e, sem falar no autor, figura imprescindível, também essa criatura que está se tornando tão especial para a história cultural do Maranhão, que é Bruno Azevêdo me obsequiando de cara com o que presumo ser sua última produção literária, o romance fastifud “O Monstro Souza" (Pitomba, São Luís/2010, próximo capítulo do meu Hoje é dia de...).

“Cinco Tempos em Cinco Textos” desmente o que o autor andou falando, já em esperta defensiva, em uma entrevista que o próprio concedera ao nosso assanhado editor do Alternativo, de que depois de ícones como Brecht, Shakespeare, O’Neil, Ibsen era temeridade encarar o gênero: se seguisse esse raciocínio a dramaturgia mundial não teria hoje esses personalíssimos (re)criadores e outra centena deles, considerando que já havia acontecido os gregos Sófocles, Eurípedes e Aristófanes. Os cinco textos de Marcelo Flecha incluídos nesse volume seriam assinados por qualquer um desses “tolos” que fizeram – e fazem – a história do teatro planetário, Artaud (criador da Crueldade, onde não havia nenhuma distância entre ator e platéia – mais ou menos aquilo mostrado na noite de lançamento), Ionesco, Beckett, Genet, Stoppard: autores incluídos na categoria de criadores que aceitavam o princípio defendido por Grotowski pra quem cenários, figurinos e luzes são apenas armadilhas desnecessárias ao significado central que o teatro pode gerar.

Marcelo Flecha completou seu ciclo; pertence à família: pode permanecer sem susto.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Deixe que digam, que pensem, que falem - 7


Roberta Gomes/IMirante comenta sobre o lançamento do livro de Marcelo Flecha. Para acessar o portal e ler a matéria, clique aqui.

Abaixo, a íntegra dela.

Cinco textos em Cinco tempos é lançado hoje, 
por Marcelo Flecha

Considerando-se até pretencioso e com um certo medo do registro, o dramaturgo Marcelo Flecha, da Pequena Companhia de Teatro, enfrenta esses sentimentos e lança o seu primeiro livro: "Cinco tempos em Cinco textos". A publicação, fruto de um projeto aprovado pelo Prêmio BNB de Cultura 2010, reúne os cinco textos teatrais de Marcelo, produzidos de 2003 a 2009.

"Distorções de um dia interminável", Memórias de um mau-caráter", "Dois", "Privada" e "Clausura" mostram algumas reflexões do dramaturgo ao longo desses seis anos. "Apenas um texto desses cinco já foi encenado [Memórias de um mau-caráter]. Os outros são inéditos.[...] Como ator e diretor, sempre gostei do efêmero, daquilo que fica no imaginário, no momento, na lembrança. Sempre tive muito medo do registro. Quando o projeto foi aprovado que resolvi reler os textos", revela Marcelo Flecha.

Para o dramaturgo, o ato de publicar é um ato de pretensão. "Diante de tantos escritores clássicos e magnifícios, você publicar alguma coisa é muito pretencioso", afirma. Sobre estar com os livros nas mãos, vendo a sua obra publicada, ele comenta. "É muito doloroso, mas vale pelo processo de contribuição para a sociedade. Com o livro, estamos ajudando a democratizar o conhecimento". Dos livros impressos, 500 exemplares serão distribuídos gratuitamente.

E para quem nunca leu um texto teatral, Flecha aconselha. "Acho interessante que esse leitor não tenha medo da construção literária do teatro. É diferente, mas é bom para conhecer essa dinâmica. Vale experimentar pelo menos uma obra!".

O lançamento de "Cinco tempos em Cinco textos" será lançado nesta sexta-feira (7), às 19h, na Ofina Escola, na Praia Grande (em frente ao Terminal da Integração). E quem estiver presente terá a oportunidade de rever cenários das peças "O Acompanhamento", "Entre Laços" e "Pai e Filho", ouvir leituras de "Dois", com Jorge Choairy e Marconcine", além de degustar queijos e vinhos. "Queria isso, um lançamento informal, livre para receber contribuições artísticas e sem mesa de autógrafos!", completa Marcelo Flecha.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O ator, esse ser invertebrado

O trabalho de composição do ator, numa perspectiva da representação preconizada pela antropologia teatral, implica a plena convicção, para o ator, do tipo de teatro que se quer fazer levando em consideração, principalmente, todo o processo, e não tanto o resultado final, que certamente será consequência do traçado escolhido.

Então, o itinerário será importante porque ele é o aprendizado do ator, e como cada ser é único — e na contemporaneidade há uma multiplicidade de sentires, de culturas, quer ocidentais quer orientais, um turbilhão de informações —, o ator-compositor deverá exigir-se um rigor a partir do seu olhar, já que esse processo de trabalho, de treinamento, é individual, mesmo que em dado momento seja significativo a participação de outros atores, numa perspectiva de construção coletiva, de partilha e envolvimento — de acordo com cada projeto de montagem.


Quando esse posicionamento se estabelece, o ator percebe que não está só. Mesmo com informações provenientes de seu ser, ele tem interferência do espaço que o cerca, dos atores que estarão envolvidos com ele, com seu encenador, com o público. Essa percepção recupera a ideia de energia. Se o ator não perceber que absolutamente tudo interfere no seu processo, na qualidade de energia que desprende e manipula, e não ter rigor com o seu fazer, certamente não haverá verdade, tão pouco vida em sua cena.

Independente das matrizes que utilizar, de jogos teatrais ou técnicas, as energias e o rigor devem ser considerados em todo o treinamento. O debruçar-se sobre ele é que dará um retorno acerca dos procedimentos adequados ou não ao que se pretende, já que hoje não se aceita mais uma única verdade, mas sim as verdades possíveis de serem observadas, de serem aferidas.

A composição do ator e o procedimento adotado para a composição de uma partitura, possibilita um aprimoramento do conhecimento do próprio corpo do ator, seus limites, flexibilidade, massa, seu grau de concentração e envolvimento a partir da generosidade criativa disponibilizada; reconhecimento de sua capacidade em organizar conceitos e formular hipóteses; analisar o seu próprio fazer, dialogando consigo e com o outro; trilhar uma alternativa de processo do início ao final dele, analisando-o à luz das teorias teatrais existentes.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Um rascunho, um esboço, um vazio

Eu sou ator. Escrevi um texto teatral (não há drama; não há essa intenção). É o segundo, acho. Compartilho.


O ASNO, A CARROÇA E O LONGE

Personagens:

Homem
Mulher
O tempo

O tempo: Se me tens como inimigo, perceberás que a guerra estabelecida não será por mim instituída. Digladiar é para os fortes, assim como a morte está para os fracos filhos de Eva.

Mulher: Tomas a mim, mortal insepulta, como todas de minha espécie. Para de sussurrar a decomposição de si por sobre aqueles que jamais, jamais serão seus aliados.

Homem: Amigo, pousa sobre mim a sua mão. Faça-se aliado dos que buscam a esperança abissal de um esquálido aspargo cultivando em terra infértil. Mate a seiva fácil.

O tempo: Abraço o sim tanto quanto o não é rejeitado. Se calo é porque a sujeição vem funérea e natimorta passível de devorar, incomensuravelmente, o livro das horas. Negue-se à escrita e feneça.

Mulher: Não concebo a guerra de nervos nem a paz coloquial de fétida boca indigesta. Degluto a saliva no vento e giro ponteiros neutralizados pela dor de um hiato submisso.

Homem: Sinto-me confuso entre a retidão da linfa que se mostra e o sangue que ferve em seu esconderijo labiríntico. Minha angústia, mulher, é perceber-me no tempo.

O tempo: Apaguem as lembranças, desacreditem nas projeções, parem de respirar e sintam a fortaleza e a agonia dos ponteiros. Entreguem o pó ao vento e a carne, putrefata, aos vermes. Não tenho domínio de mim.

Mulher: Sou, enfim, liberta de ti. Devoram sofregamente minha seiva e repercute, em mim, a troca natural das cinzas e do pó. Diluo-o no outro que me consome.

Homem: Quero refletir o que fui, debruçar sobre ti as agruras do mundo, sentir a carícia tempestuosa do vento e ver, reflexo no espelho, os olhos da multidão perdida em vasto tempo; sentencio-me em tuas linhas meu encanto.

Fim

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Prêmio SATED


A pequena companhia de teatro foi a grande vencedora do Prêmio SATED – MA de Artes Cênicas 2010. Das oito indicações que recebeu ganhou os prêmios de Melhor Figurino, Melhor Cenário, Melhor Ator (Cláudio Marconcine), Melhor Produção, Melhor Direção e Melhor Espetáculo. Na ocasião, o diretor Marcelo Flecha anunciou o embrião da próxima montagem: "Velhos Caem do Céu como Canivetes" – inspirada no conto "Un Señor Muy Viejo com Unas Alas Enormes", de Gabriel García Márques – além de divulgar o lançamento da sua dramaturgia reunida que ocorrerá nesta sexta na Oficina Escola, em São Luís.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Eu, eu mesmo...

A improvisação, quer como espaço mental, método ou instrumento, reforça a ideia de efêmero existente no teatro enquanto teatro-vida. E a esse teatro é impossível dissociar o ator-encenador, enquanto artista responsável pela estética proposta e o espectador-atuante, num espaço teatral diferente dos teatros com palco italiano, em que as sensações são os detonadores da espontaneidade, que por conseqüência, leitmotiv para a improvisação. 


O homem, com suas inquietações, não poderá obter respostas, se não percorrer um caminho, tendo condições ou não, de consegui-las, pois o importante, para diminuir as inquietações, é caminhar, puro e simplesmente; movimentar-se. Seu duplo será eficaz nessa procura, nesse processo. É ele quem refletirá suas angústias, o provocador de atitudes, mesmo que elas sejam a recusa, o desvio do olhar. Não há condições, na contemporaneidade, de desistir do outro, pois que, desistir do outro é desistir de si. 

O teatro-vida precisa do espectador, mas não aquele que, vicariamente, se realiza através da catarse. E esse processo é, também, referenciado no ator. Então, na mudança de postura e de atitude frente às inquietações é que se fará um espetáculo teatral de ator, em que o espaço teatral aciona o espectador-atuante para viver.

Hoje, no teatro que faço, incorporo isso. E isso é bom, mesmo eu não sendo um cristão.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Livro (-me)

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O convite
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Chegou. O livro Cinco Tempos em Cinco Textos está na minha mão. Agora deu. Fu#@u. Dia sete de janeiro vamos fazer o lançamento na Oficina Escola – aquele prédio da Praia Grande onde aconteceu o Salão de Artes. A ideia é passar uma noite agradável com amigos, tentando entender o que é esse momento de publicar uma obra. Vamos nos divertir vendo Jorge e Cláudio ler um dos textos, fazer os convidados participar de intervenções urbanas, tocar, cantar, tomar um vinho, comer um queijo. Nada de mesa para autógrafos ou discursos. Vamos celebrar. Quem receber o convite impresso terá direito a um exemplar do livro. Quem não receber vai comprar e ajudar um autor a não morrer de fome. Até lá vou ficar jogando algumas informações por aqui. Acompanhem.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Reconhecimento, fama e fortuna

Ser artista. Dizer-se um requer certo estofo. Eu cá sempre tenho minhas dúvidas sobre ser artista, sobre o que produzo ter qualidade, sobre estar satisfeito com tudo o que me cerca e me alimenta. Existem duas referências possíveis para que eu me questione ou não: o que vem de dentro e o que vem de fora. Quando alguém diz que gostou do meu trabalho, preciso crer, inicialmente, que essa pessoa está sendo sincera. Acredito na humanidade, mas dizem que pessoas adoram mentir, fazer fita. Quanto sinto uma satisfação ela é sempre sensorial, e mesmo que haja interferências externas, sou eu e meu universo que dizem que estou bem. Sempre é muito pessoal. Já ouvi muita coisa e algumas delas mexem um pouco comigo, fazem com que eu aguce algumas partes adormecidas ou esquecidas, como a necessidade de reconhecimento e do vil metal.

Nunca saberei se estou no caminho ideal. Posso saber se o que faço me satisfaz e seduz, as motivações de continuar ou alterar o ritmo do caminhar. Tudo continua muito subjetivo; as interferências são sempre diferentes, e as conclusões serão sempre passíveis de amparo.

Eu sou um tolo, e já me convenci disso. Gosto de sê-lo. Assim, posso falar besteiras, ser ridicularizado, perdoarem-me por dizer/fazer tolices. 

O homem comum fala, o sábio escuta, o tolo discute, já dizia um provérbio oriental. 

Sou ocidental. Das duas, uma: ou sou homem comum, ou sábio. Com medo de errar, vou ficar com a segunda opção.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Diários, semanários, mensários, anuários...

por Kafka
por Kafka
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Como Brecht e Cairo, há alguns anos trabalho com diários. Utilizo este instrumento para pautar minhas ações. Toda atividade artística é acompanhada por apontamentos, relações, observações, rotinas – manuscritos que geram um banco de dados para posterior consulta. Entre esses escritos é inevitável que escapem alguns pensamentos... Colhi três que aqui transcrevo:

“... Poupo meus não filhos do conflito com o paterno, com a fúria do ser descendente. Poupo meus não filhos da dor de nunca se ser sem ser imagem e semelhança. Poupo meus não filhos de terem que se esquivar de si na busca da perfeição prometida. Poupo meus não filhos de viver.”

“... Entre lados estou seco. Paredes de solidão. Só batem à porta os deuses. Os semideuses invadem as moradas dos mortais fazendo a festa dos pecadores. Solitário, esfrego minhas mãos à espera. Gotas pingam em gotas. Entre elas as luzes se entendem. Eu não entendo. Desvio a vela e sopro para outro norte mais desnorteado do que outrora. Desapareço de mim e fim. O fim é. Na esfera do absoluto tudo está contido. Em mim, o ser, não é.”

“... Ultimamente tenho a impressão de que todas as retas estão tortas. Minha visão entrega sinuosidade em qualquer estrutura linear. Vejo as curvas tortuosas de toda régua construída para alinhar. As linhas dos cadernos parecem leitos de rios onde minha caneta navega tentando não colidir com as margens...”

Dias
08 de novembro e 12 de dezembro transcrevi outros. E assim vão passando os dias, os meses, os anos... dia 07 de janeiro se aproxima... aguardem novidades... e não guardem segredos.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O artista, os editais, a estabilidade, a efemeridade e o teatro

Lesados, do Grupo Bagaceira

Somos um grupo que adora editais. Nada mais democrático para distribuir recursos e bens, principalmente quando acreditamos que a cultura deve ser subsidiada pelos entes públicos.

Somos um grupo que aprova projetos em editais e ao mesmo tempo, um grupo que não aprova projetos em editais. É que editais dão em árvore. Nossas angústias, idem.

Comumente, Marcelo F. tem encaminhado mensagens pela internet me dando conta dos projetos encaminhados e não aprovados pela Pequena Companhia de Teatro. Eu estou indo morar em São Luís no próximo ano. Do que viver?

Meu pensamento...

[agora estou me viciando. Quando não estou pensando em nada, fico contando mentalmente. Reflexo da academia, dizem]

...não dá para pensar em viver só de editais, isso seria uma espécie de estabilidade que não deveriam provocar, pois eles são públicos, e não de poucos. Como funcionalismo público, um acomodar-se sem igual. Teatro na adversidade... morrerei de fome... não será a primeira vez; possivelmente nem a última.

Minha realidade diz que o teatro me faz vivo, e comungo de um sacrifício incondicional sobre esse labor. Um vigor é perceptível quando a maré sobe, quando o mar fica revolto. A gente não dorme. Sinto-me vivo... em cena.

Faz tempo que não atuo... sinto-me morto.

domingo, 12 de dezembro de 2010

... de véspera!

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Permitam-me outra liberdade poética. É que amanhã, definitivamente, o livro estará a caminho da impressão. O dia que antecede um dia como esse foi descrito por mim outrora:
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“Hoje o dia não tem número. É incontável. O tempo existiu sem matemáticas conferências. Apenas um dia passou. Eu passei com ele. Estou, um dia, envelhecido. Um “um” não numérico. Um “um” abstrato, onomatopeico, fechado em tempo. Incontestável. Setas, no relógio sem ponteiro, mostram que sobrevivi. Vivi sem saber que vivia. Revivi sem antecedentes. Desviei dos pormenores para pôr menores atos sobre a mesa. Degustei cada um deles sem me engasgar e digeri ações inesperadas. O homem – posto no tempo oposto à sua ruína – correr a favor do tempo. O fim do dia salva. Outros dias virão e se encaixarão no calendário e somar-se-ão aos outros e, contados, engordarão os séculos: mas este permanecerá suspenso no tempo à espera. O dia anterior ao fracasso é sempre um bom dia. O melhor dia.”