Retornei
hoje de Mossoró, após assistir a estreia da Viagem aos Campos de Alfenim,
espetáculo da querida Cia. A Máscara de Teatro. Como sempre, qualquer movimento
que altere minha rotina provoca reflexões, que direi encontrar, prestigiar e
conversar com amigos tão queridos. Há algum tempo decidi abandonar a
condescendência. Como espectador, não serei mais aquele que pondera, que
analisa, que justifica o injustificável. Quero ser arrebatado. Seja pela
temática, pela estética, pelo desempenho, pela totalidade, ou até mesmo pela
amizade, mas quero ser arrebatado. Quero ser removido do patético lugar que
ocupo no mundo, e ser chacoalhado, seja por um beijo heroico, por um chute no
traseiro, por um chiste embaraçoso ou pela inesperada despretensão de quem
aponta na galinha e acerta o pavão. Desisto de buscar explicações ou elucubrar
justificativas para tentar gostar daquilo que não gostei. Como espectador, não
quero mais completar o trabalho do artista. Não quero remediar a ausência de
potência de uma obra com um argumento intelectualmente preciso que cumpra
apenas o papel de amenizar meu constrangimento com o insossado sabor do que vi.
Não quero mais conviver com a dificuldade de admitir que não gostei. Não quero
mais provar do meu próprio engodo reflexivo para amenizar minha culpa cristã
por não ter gostado de um espetáculo. Deixo a razão para a ciência. Pela arte,
quero ser arrebatado. Por que estou falando tudo isso? Anteontem, depois de um
bom tempo, voltei a me emocionar ao ver um espetáculo. Não sei porque, nem me
interessa, mas agradeço.
domingo, 30 de março de 2014
sexta-feira, 21 de março de 2014
Abril de 2014
- Dias 04 e 05, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes - 9ª Semana do Teatro no Maranhão (espetáculo teatral).
- Dia 07, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
- Dias 08, 09 e 10 - O quê o meu corpo tem a dizer? (oficina).
- Dia 14, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
- Dia 15 - Do épico ao dramático: a transposição de gênero como instrumento de confecção de dramaturgia (oficina).
- Dia 21, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
- Dias 22, 23 e 24 - O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator (oficina).
- Dia 28, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
- Dias 29 e 30 - O quê o meu corpo tem a dizer? (oficina).
IMPORTANTE:
- Toda a programação ocorrerá na sede da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, 295, Centro Histórico).
- A lotação está restrita a 50 (cinquenta) lugares.
- As atividades são gratuitas.
- Para agendamento de grupos, gentileza entrar em contato antecipadamente.
- Os interessados nas oficinas devem se inscrever antecipadamente aqui.
- As dúvidas devem ser sanadas através dos contatos: pequenacompanhiadeteatro@hotmail.com / (98) 3232-6054 / 8133-2172 / 8771-7085.
Como se inscrever?
A Pequena Companhia de Teatro está abrindo inscrições gratuitas para as suas oficinas de formação - uma das ações do projeto Teatralidades - graças ao Prêmio Myriam Muniz de Teatro da Funarte/Minc/Governo Federal, bem como do Programa BNB/BNDES de Cultura.
Serão 3 (três) oficinas, distribuídas em 12 (doze) turmas, em diferentes dias e horários, nos meses de abril, maio e junho, dentro da primeira etapa do projeto Teatralidades. Depois da Copa divulgaremos a segunda etapa.
Oficina A: Do épico ao dramático: a transposição de gênero como instrumento de confecção de dramaturgia (8h)
Oficina B: O quê o meu corpo tem a dizer? (9h)
Oficina C: O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator (12h)
Oficina C: O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator (12h)
As inscrições deverão ser feitas, gratuitamente, através do preenchimento de um formulário que se encontra aqui. É importante colocar a disponibilidade de tempo para que os horários das turmas sejam confirmados. Assim, teremos oficinas acontecendo nos 03 (três) turnos, a depender a sua escolha.
Paralelo às oficinas de formação, nesta primeira etapa, também estaremos desenvolvendo: Apresentação do espetáculo Velhos caem do céu como canivetes, às segundas-feiras, às 19h e Leituras dramáticas com companhias de teatro residentes em São Luís, na última quinta-feira de cada mês (menos no mês da Copa), às 19h.
Na segunda etapa tem mais!
Qualquer dúvida, entre em contato:
(98) 3232-6054 / 8133-2172 / 8771-7085
quarta-feira, 19 de março de 2014
Segunda-feira
Dia
07 de abril de 2014 começa a temporada regular de Velhos caem do céu como canivetes pelo projeto Teatralidades, contemplado com o Prêmio FUNARTE de Teatro
Myriam Muniz. Isso. É uma segunda-feira. Durante as próximas dez segundas-feiras
você terá a oportunidade de assistir ao novo espetáculo da Pequena Companhia de
Teatro. Aproveite. Lembre que Pai & Filho já fez cento e nove apresentações
e você ainda não viu. Não vá, depois, se arrepender e ficar nos inquirindo:
quando é que vocês vão apresentar Velhos caem do céu como canivetes de novo?
Você tem dez chances, até dia 09 de junho. — Ah!, mas eu queria ver Pai & Filho!
Espere até o segundo semestre, por enquanto, Velhos Caem do Céu como Canivetes
é o que tem, pra segunda. Por que segunda-feira? Porque qualquer dia da semana
é uma excelente desculpa para não ir ao teatro. Terça não dá, é ímpar. Quarta é
ruim, meio de semana, futebol. Quinta é véspera de fim de semana, contramão
para teatro. Sexta é dia de balada. Sábado, rebolada. Domingo, praia. Segunda,
ressaca. Como veem, qualquer dia é ruim se o programa for teatro, portanto, por
que não na segunda? Detalhe: TODAS AS APRESENTAÇÕES SERÃO GRATUITAS. Bastará
chegar na sede da Pequena Companhia de Teatro no dia de cada apresentação e
pegar seu ingresso na hora. O espetáculo começará impreterivelmente às 19h. A
partir deste projeto voltaremos com a nossa política iniciada com O Acompanhamento
de começarmos as apresentações pontualmente. Não haverá tolerância. Por quê?
Acreditamos que é uma maneira de contribuir com a formação de uma plateia mais
atenta e delicada. O endereço você já sabe: Rua do Giz (Vinte e Oito de Julho),
295, Praia Grande. Então, vamos ao teatro?
domingo, 9 de março de 2014
De volta ao trabalho
Hoje é meu último
dia de férias. Foram quatro meses e meio de ócio, com duas pequenas
interrupções, uma em dezembro, para as apresentações de Velhos caem do céu como canivetes em Imperatriz, e outra em janeiro, para uma apresentação na Conexão
Teatro. A extensão das férias foi diretamente proporcional ao ano de 2013, um
ano intenso, violento e duro. Durante as férias voltei a dormir até uma da
tarde – qualidade que pensava haver perdido e creditava à idade, quando o verdadeiro agente fora a exaustão –, fizemos, Katia e eu, algumas viagens, escrevi para vocês com
certa regularidade, ordenei e faxinei casa, atelier, teatro (ainda me devo o bendito
escritório/recepção), atualizei leituras, escrituras; um quadrimestre sabático.
Amanhã faremos
nossa primeira reunião do ano e as novidades são muitas. O projeto
Teatralidades, que recebeu o Prêmio FUNARTE de Teatro Myriam Muniz 2013,
oferece muitas novidades para a rotina da Pequena Companhia de Teatro e, por
consequência, para seus aficionados. O projeto prevê oito leituras dramáticas,
e convidaremos companhias de teatro locais para realizarem-nas aqui na sede,
momento de intercâmbio importante para nós, depois de passarmos os últimos anos
um pouco distantes por exigência da agenda externa dos nossos espetáculos e oficinas.
Outra atividade que servirá para oxigenar e emaranhar nossas relações artístico-afetivas
será os dois seminários previstos – fóruns para discussões sobre teatro de
grupo, crítica teatral e formação de plateia. Exercício experimentado em 2006
com O Acompanhamento, a Pequena Companhia voltará com temporada regular dos
seus espetáculos na sede, hora de poder ver e rever "Pai & Filho" e "Velhos
caem do céu como canivetes", além do espetáculo-solo de Cláudio, ainda por estrear
– na sede da Pequena Companhia de Teatro haverá uma apresentação teatral por
semana, esteja você ou não. Quer atividades de formação? Também tem. Tanto pelo
Teatralidades quanto pelo projeto A ótica da Pequena, patrocinado pelo Programa
BNB de Cultura. Ministraremos as oficinas O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator, Do épico ao dramático: a transposição de gênero como instrumento de confecção de dramaturgia; O quê o meu corpo tem a dizer, e O elemento e a cena.
Essas
muitas ações têm por objetivo aumentar a integração da Pequena Companhia de
Teatro com a sua comunidade, consolidar nossa sede como espaço de aprimoramento
teatral e estimular o diálogo entre nós e os outros. Pertencimento. Um emaranhado de atividades para acentuar o enredamento da Pequena Companhia de Teatro com a cidade. Um ano assim exige um
descanso preventivo.
sábado, 1 de março de 2014
Uma pergunta
Quem acompanha o
nosso blog sabe que frequentemente estamos publicando artigos sobre o Quadro de Antagônicos, que é o principal instrumento da nossa metodologia de trabalho, e
sobre o qual tentamos teorizar a mais de uma dezena de anos. Contudo, alguns
episódios recentes me trazem à reflexão que desenvolvo hoje e que espero me
ajudem a aprofundar. O Prof. Ms. Abimaelson Santos publicou sua tese de
mestrado onde um dos exemplos elucidários do seu objeto de estudo é a
metodologia supracitada. A revista DRAO, publicada recentemente, contém um
artigo de minha autoria que trata da mesma. De férias no Rio dei uma entrevista
para a atriz Carlla Amorim para seu pré-projeto de mestrado que visa um
aprofundamento mais intenso sobre o Quadro de Antagônicos. Esses três acontecimentos
que muito nos honram, e nos levam a acreditar que o nosso fazer contribui para
a análise dos caminhos percorridos pela investigação teatral maranhense, também
me fazem indagar sobre o alcance e eficiência da teoria na busca de reproduzir
uma prática. O que desenvolvo agora tem muito a ver com minha experiência
primordial de leitura de livro técnico-teórico, narrada aqui. É possível
descrever literalmente uma prática e dar cabo da captura do objeto, seus
objetivos, metodologia e problemas? Sempre que li livros técnico-teóricos sem o auxílio
de um mediador – mestre, autor, pesquisador, prático etc. – fiquei com a sensação
de não chegar nem perto do postulado experimentado por seu criador quando do
desenvolvimento de uma teoria a partir de uma experimentação prática. Entendem
o que quero dizer? Na verdade, o que faço não é refletir, e sim, perguntar. A
escrita pedagógica é capaz de traduzir um gesto, um aceno, um suspiro? Sei que
a literatura consegue, e me delicio a cada descrição desenvolvida por cada um
dos escritores que construíram meu imaginário literário, entretanto, pergunto:
a escritura técnica pode dar cabo da análise objetiva de um objeto carregado de
subjetividade como a arte? Continuo a semear indagações. Teoria e prática, eis
a questão – uma dentre tantas que perturbam meu juízo.
sábado, 15 de fevereiro de 2014
Artistice
Uma coisa é ser artista, outra coisa é
fazer artistices. Chamo de artistices aquelas ações que tem por objetivo
demostrar uma atividade artística, mas, na verdade, não passam de meras jogadas
de estilo, palavras de efeito, ações para a construção de um mito pessoal, como
se isso fosse possível. São atitudes autopromocionais, estudadas com o mero
propósito de chamar a atenção para o agente artístico, o indivíduo operante, a
persona. Sabemos que persona deriva do latim persõna e que significa a máscara de ator, o papel atribuído a essa
máscara, blábláblá, contudo, em castelhano – possuindo a mesma derivação do
latim –, persona quer dizer pessoa. Simples assim. É o que a contemporaneidade
tenta fazer: tornar a pessoa a própria obra de arte, e, com isso, reduzir o
tema. Imaginem
um cabôco entrando em várias casas de pessoas desconhecidas, sem pedir licença,
sentando-se, tomando café com elas e saindo, sem dizer palavra – a la Teorema, de Pasolini. Seria massa,
não? Não. Seria uma artistice. Pensem no irmão desse cabôco postando um peido e
sendo banido do mundo virtual pelo teor fétido do seu conteúdo. Seria uma
atitude revolucionária, não? Não. Seria artisticie. E o cunhado do cabôco chacoalhado
guizos nos guetos? Artistice. Tem artistice demais circulando por aí. As redes sociais
cumprem uma fundamental função para o amadurecimento social do nosso tempo (?),
contudo, são também uma fábrica incomensurável de artistices. Não falo de alta e
baixa cultura, não falo de produção artística medíocre, não falo do lugar da
arte no mundo atual, falo de artistice. De usar o subterfúgio artístico como
mero pretexto para aparecer. Utilizar o instrumento artístico para ganhar
visibilidade, fama, celebração – mesmo que seja apenas entre os pares de uma
mesma corriola. Escrever um romance, montar um espetáculo, compor uma sinfonia,
fazer um filme, leva tempo, pesquisa, trabalho. Tirar as calças no meio da rua,
não. O mais curioso é que o esvaziamento do discurso contemporâneo apresenta um
sem-fim de seguidores fiéis para cada artistice plantada na contramão da arte.
Blábláblá. Tudo artistice. O pior é que, de vez em quando, eu faço as minha
também. Cada corriola tem as artistices que merece.
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
O aprisionamento da pesquisa
Sempre que surge
um tema, recebo dezenas de nenhuns pedidos para escrever sobre. Desta
feita é quanto a mensuração de valor e qualificação da pesquisa teatral realizada
fora da universidade. Para o Houaiss pesquisa é um conjunto de atividades que
têm por finalidade a descoberta de novos conhecimentos no domínio científico
literário, artístico etc. A apropriação indébita dessa palavra por parte da
academia gerou uma cruel ditadura que parece preconizar que uma pesquisa só tem
valor investigativo se referendada por alguma universidade. Não estou aqui a
satanizar a pesquisa acadêmica, até porque ela possui um prestigio que fala per se. O meu bedelho meto-o na defesa
das pesquisas realizadas fora da órbita universitária, região que compreende o
resto do mundo. A defesa ocorre no intuito de incitar a prática, porque sem o
endosso canônico, percebo que artistas depreciam suas investigações ou correm
em busca de um aval cientificista – se advogo em causa própria é por não ter
visto outros muitos advogando por nós. A maioria dos fazedores teatrais desenvolve
pesquisa de campo, ou bibliográfica, ou empírica, ou laboratorial, ou descritiva,
ou experimental, mesmo que, às vezes, ela não tenha a menor noção disso; porque
arte não é ciência, mesmo que tentem enquadrá-la com tal. Essa vantagem faz da
arte a única atividade humana capaz de desconstruir as rígidas estruturas
formais e possibilitar um leque de caminhos outros na abordagem de uma
investigação. Você pode pesquisar teatro a partir do seu corpo ou pode fazer do
desprezo pelo seu corpo um objeto de pesquisa. O que digo é que a liberdade artística
pode ser tão fértil quanto a metodologia acadêmica. Digamos que um grupo de
teatro trabalhe décadas na busca de conhecimentos que auxiliem os seus membros
no domínio de uma técnica que possibilite o acesso a uma representação orgânica,
e logre seu objetivo. Essa pesquisa não é mais importante para o teatro que a
teorização sobre a influência de Bach no trabalho de Brecht? Respeitar a
pesquisa fora da universidade não subtrai valor à pesquisa acadêmica. Apenas
reconhece esforços no desenvolvimento de tecnologias teatrais em todos os âmbitos
possíveis, e a sala de ensaio é um dos espaços mais fecundos para a
pesquisa teatral. Digo, o desenvolvimento de qualquer conhecimento teatral
depende da harmonia entre o que se investiga no campus e o que se experimenta
no mundo.
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
Uma observação
Releio um livro por necessidade. Gosto de livros técnicos. Reassisto a um filme porque alguns me emocionam (o cinema como um todo). Revejo espetáculos teatrais por dois motivos: um deles é assisti-los até compreendê-los. O outro, é se o espaço em que eles são mostrados se altera: caixa cênica, espaço alternativo, rua. Isso, obviamente, quando tenho essa possibilidade.
Nestes dias consegui reassistir a dois espetáculo em São Luís. Um deles por ambos os motivos; o outro, somente por um. Fui surpreendido pelo óbvio: se comparadas, as apresentações, dos mesmos espetáculos, são diferentes.
Recuperei o que Marcelo F. sempre fala nos debates da Pequena Companhia: apresentamos o mesmo espetáculo em qualquer lugar que a gente possa ir. Iluminação, partitura corporal e vocal, cenografia, maquiagem... rigor.
Quando isso não ocorre, a apresentação fica comprometida. Todo o trabalho que a montagem exigiu com o objetivo do público compreender e decodificar os signos, fica nebuloso.
Recupero aqui o nível de exigência e comprometimento que temos com a nossa arte: Temos a obrigação de assumir um pretenso profissionalismo e apresentar em qualquer espaço inadequado ou com o mesmo espírito só nos apresentarmos em condições adequadas para a fruição de nossa obra?
Como espectador, quero ver e compreender aquilo para o qual a arte fora elaborada. Como artista, quero que meu trabalho seja respeitado.
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
Entre luz e sombra
Em ritmo de
férias acentuam-se os devaneios cotidianos que eu, presunçosamente, costumo
catalogar, ora como pequenos ensaios, ora como croniquetas, ora como micro
teses. Aproveito a Conexão Teatro para lembrar de uma perturbadora pergunta
lançada em uma demonstração técnica que assisti na década passada e que fora
oportunizada novamente no evento supracitado: quem são os seus mestres? Sempre
tive inveja daqueles que têm a oportunidade de citar e enaltecer seus mestres.
Artisticamente, fui nascido e criado em Balsas, no interior do Maranhão, na
década de 80. Época sem internet, cidade sem livraria, sem universidade, sem
teatro, sem cinema, sem arte – salvo a tímida resistência de manifestações
culturais como o Reisado. Não tive mestres de teatro, e tive todos os que
precisei. Aprendemos juntos, uns com os outros, o que ninguém sabia. Nesse
caso, seriam meus mestres os livros? Se fossem, por consequência, poderia citar
seus autores como tais, e eu teria o privilégio de ter mestres como Kantor,
Barba, Grotowski, Artaud, mas não. Os ensinamentos que esses livros preconizavam
não foram assimilados por mim como esses autores postularam. Eram apenas as
tortas e trôpegas leituras que minha ignorância possibilitava fazer,
desvirtuando totalmente seus objetos, objetivos e metodologias, contudo, era o
que havia. As raras obras chegavam na mala de um primo, nos braços de um amigo,
ou transviadas do seu caminho original e tratadas por nós como relíquias
contrabandeadas de um mundo dito civilizado, ao qual não tínhamos acesso. Quando
chegavam às nossas mãos obras como El Teatro de La Muerte, Hacia um Teatro Pobre,
El Teatro y su Doble – todas versões castelhanas – um oásis parecia
apresentar-se à nossa frente. Porém, o oásis era seco. Não havia mentor, um
mestre que mediasse a leitura facilitando a compreensão dos dizeres. Tudo era
um entender sem entender direito. Um estupro à teoria. Crueldade para nós era
não haver universidade na cidade. Teatro pobre, para nós, era fazer teatro em
uma cidade sem livrarias. Teatro da morte era sonhar em viver de teatro e saber
que se morreria de fome. Oficina era a marcenaria do meu pai. Laboratório era o
que se levava para a cena, e quem padecia com a experimentação era o
espectador. Quando migrei para São Luís, mais de uma década havia caído desde o
teatro de colégio, passando pelo teatro amador até receber minha primeira
proposta profissional. O desastre já estava feito. Eu havia forjado uma maneira de
lidar com o teatro, modelado um jeito de encenar, de fazer teatro; um jeito tosco,
porém, autônomo – no melhor e pior sentido da palavra. Quando surgiu a
oportunidade de conhecer meus novos mestres, eles me foram apresentados como pares,
pelo simples fato de eu viver do ofício. Esse fator fizera com que as relações
se estabelecessem horizontalmente. Quando digo que o mestre generoso é um
eterno aprendiz, é porque a generosidade e humildade dos meus mestres me
impediram de tratá-los como tal. Portanto, se eu tivesse que responder à
pergunta eu diria, dissimulando certo constrangimento: meus mestres são os meus
pares. Com eles aprendi tudo o que sei e aprendo tudo o que não sei.
Companheiros, amigos, parceiros, irmão de arte. Atores, pesquisadores, diretores,
produtores, dramaturgos, cenógrafos, iluminadores, teatrólogos, figurinistas,
críticos, sonoplastas. Foi cada orientação generosa, cada papo interminável,
cada imersão filosófica, cada crítica aguda, cada palestra oficina fórum ou
acalorado debate que formaram o artista que sou. Sempre vampirizei meus
achegados. Chupei cada gota de sangue no afã de suprir esse vazio deixado pela
falta de uma formação com mentores. Penso que o vazio permanecerá. Uma eterna
sensação de acefalia. Não me orgulho disso. Mas agradeço a cada um dos meus contrafeitos
mestres que amenizam essa falta.
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
Ecos espontâneos continuam caindo...
Forte. Denso.
Altamente reflexivo. Texto ótimo. Direção bem pensada. Cenografia (cenário e
iluminação) trabalhada na sua essência, de forma que vocês podem apresentar em
qualquer tipo de espaço. Atores com talento e técnica. Trabalho de corpo ótimo,
mantendo a expressividade durante todo o espetáculo. Todo espetáculo e atores
com embasamento teórico sobre o processo e “produto cultural”. Parabéns pela
escolha desse tema através de Gabriel. Parabéns pelo trabalho.
Thyago Cordeiro
O texto de
Marcelo Flecha no espetáculo "Velhos caem do céu como canivetes" me
remeteu muito ao niilismo de Beckett, ao angustiante discurso "não resta
nada a fazer" a este estado de sobreviventes que o homem contemporâneo
está fadado como afirma o filósofo Giorgio Agamben, ou também como Pál Perbart
diz que "estamos todos reduzidos ao sobrevivencialismo biológico. E estamos
todos à mercê da gestão biopolítica, cultuando formas de vida de baixa
intensidade, submetidos à mera hipnose, mesmo quando essa anestesia sensorial é
travestida de hiper excitação. É a existência de Cyber Zumbis". Um
espetáculo para refletir ... (busca o sentido do existir)
Cássia Pires
domingo, 12 de janeiro de 2014
Você sabia que...
... o espetáculo
"Velhos caem do céu como canivetes" será apresentado novamente nesta quarta, dia
15/01, às 20h, na sede da Pequena Companhia de Teatro? A apresentação faz parte
da programação da Conexão Teatro, promovida pelo bailarino Erivelto Viana, que
apresenta uma plataforma para articulação entre fazer e pensar teatro no
Maranhão e sua conexão com o Brasil. O projeto ocorre entre os dias 13 e 25 de
janeiro, e é o terceiro encontro de artes (festivais, mostras etc.) em que o
espetáculo "Velhos caem do céu como canivetes" participa, apesar da sua recente
estreia. A entrada é gratuita, os ingressos limitados (50 lugares), e serão distribuídos
uma hora antes do início do espetáculo, na sede da Pequena Companhia de Teatro,
que fica na Rua do Giz (Vinte Oito de Julho), 295, na Praia Grande, centro de
São Luís. A participação interrompe as férias da Pequena Companhia de Teatro,
que participa da ação gratuitamente, por conhecer a escassez de recursos do
projeto e acreditar na importância deste tipo de iniciativa para o desenvolvimento
do fazer teatral maranhense. Como o recesso da Pequena Companhia de Teatro se
estenderá até meados de março, esta é uma oportunidade imprevista de ver o
espetáculo que recentemente ganhou o V Prêmio SATED-MA de Artes Cênicas, nas categorias
de Melhor Ator, Melhor Diretor e Melhor Espetáculo. Confira a fortuna critica
do espetáculo aqui e compareça!
domingo, 5 de janeiro de 2014
Retrospectiva 2013
O ano mal
começava e a reforma da não sonhada sede – não tão precisa nem tão grande –
intoxicava meu juízo com palavras como empreita, cimento, cal e a nova
realidade que esse fato apresentaria ao nosso coletivo. Toda mudança é uma
mudança. Mudamos. Estávamos no final de março e o dia 1° de abril se avizinhava
com a promessa do início do processo de montagem de Velhos caem do céu como
canivetes. Toda promessa é uma mentira enquanto o pagamento não a confirme. No
dia da mentira, iniciávamos os ensaios. Promessa salvaguardada por um fato: a
Pequena Companhia de Teatro não dependia mais de locar espaços para ensaios e
apresentações. A montagem fora o principal desafio do ano e absorvera nossas
maiores energias. Pessoalmente, credito a esta montagem nosso maior desafio
criativo. Estreava em outubro, depois de seis meses de preparação. São Luís,
Caxias, Balsas, Fortaleza dos Nogueiras e Imperatriz formaram o circuito da
temporada de estreia estadual, com catorze apresentações e generosas críticas.
Felizes por propiciarmos um espaço para a reflexão, avalio que acentuamos nossa
condição de agente provocador no cenário artístico regional. Enquanto isso, Pai
& Filho alargava sua trajetória circulando pelo interior de São Paulo,
garças ao projeto Viagem Teatral, do SESI. A oportunidade de estar um dia no
interior de São Paulo, com Pai & Filho, e outro no interior do Maranhão,
com Velhos caem do céu como canivetes, aguçou a nossa percepção quanto à
condição de miséria plena que assola nosso estado. Toda experiência artística é
uma experiência de vida, e vivemos menos quando nos escondemos dentro do nosso gueto.
Para mal ou para bem, o teatro é a nossa âncora e a nossa seta. O oxigênio
sempre necessário veio com a participação no projeto Troca-troca no Nordeste,
experiência de intercambio entre coletivos, promovido pela querida e parceira A
Outra Companhia de Teatro, e a participação no 8° FENTEPIRA, na 8ª Aldeia SESC
Guajajara de Artes e na Semana de Artes de Balsas. Um 2013 já agônico ainda
guardaria uma surpresa: o resultado do Prêmio FUNARTE de Teatro Myriam Muniz
nos contemplava com a possibilidade de manter nosso projeto de ocupação da sede
para 2014, com o projeto Teatralidades. Temporadas do repertório, oficinas,
fóruns e leituras dramáticas serão algumas das atividades oferecidas gratuitamente
no ano que vem. Quando tudo parecia no fim, eis que o fim chega. A Pequena Companhia de Teatro encerrava o ano
com Velhos caem do céu como canivetes sendo o principal destaque no V Prêmio
SATED-MA de Artes Cênica, com os prêmios de Melhor Ator (Jorge Choairy), Melhor
Direção e Melhor Espetáculo. Melhor impossível. Um 2013 para não esquecer.
Claro que esqueço de muita coisa. É para isso que escrevo. Para realçar a
falta. domingo, 29 de dezembro de 2013
Estado de atenção
Como membro
da Pequena Companhia de Teatro, estou sempre a matutar sobre as maneiras de exceder
as fronteiras da província. A incredulidade gerada pelo fato de nossa Cia.
ser sediada no estado mais pobre da federação brasileira se apresenta como uma
das principais barreiras para a nacionalização das nossas
ações – fator fundamental para a sustentabilidade do nosso grupo. Nos últimos
anos participamos de festivais pelo Brasil afora, circulamos através de
projetos nacionais, ganhamos prêmios federais, contudo, não estamos integrados
ao país; estamos encerrados em um estado de miséria, atraso, descaso, descuido
e desatenção. Certamente, ninguém se lembra de nós. A referência não se
estabelece, por maior qualidade que você imprima à sua obra. A pergunta mais
recorrente será: que aporte pode dar ao nosso projeto uma Cia. vinda de um
estado desses? Ouvimos isso com frequência em nossas viagens: da surpresa com a
qualidade artística das nossas atividades por sermos do Maranhão. Mas a
surpresa não serve, porque vem posterior ao fato. Preconceito? Não, realidade. Sem
o estofo de um estado produtor, com políticas culturais eficientes, uma
produção contundente e gestores públicos sérios, não será possível se integrar
ao Brasil, estar presente no inconsciente coletivo dos atores que comandam os
destinos culturais deste país (mote para uma reflexão futura). O curador, o
parecerista, o crítico, o conselheiro, o produtor, o selecionador, jamais
atribuirá um valor prévio endossado pelo entorno produtivo e criativo do nosso
estado; nos olhará sempre
com desconfiança e indagará: do-ma-ra-nhão? Soma-se
ao fato, a incapacidade “lobística” dos membros da Pequena Companhia de Teatro.
Fora do nosso estado, temos algumas poucas e sinceras amizades que nos auxiliam
na oxigenação do nosso fazer, porém, não temos a habilidade necessária para a
articulação. Falando em primeira pessoa do singular, escolhi a arte por
acreditar que estaria isento de certos males que assolam o mundo, dentre eles,
a influência, a negociata, os interesses, a adulação. Ledo engano. Como todos,
o meio artístico é habitado por humanos e, como tais, dedicam-se aos conchavos,
acertos e toda sorte de idiossincrasias que extrapolam o interesse artístico e
que não fazem parte da minha formação. Não é a regra, nem a exceção. Careço
desse tipo de habilidade e o meu estomago não digere qualquer situação que não
seja espontânea, orgânica ou fortuita. Pois é, um romântico. Em minha defesa
posso dizer que comecei fazendo teatro amador nos anos 80, no interior do
Maranhão. Apesar de a miséria ser a mesma, o espírito era diferente. As coisas
eram simples, bonitas e honestas. Hoje,
creio ser a obra de arte o que menos importa. Não é a exceção, nem a regra.
domingo, 15 de dezembro de 2013
Os números não vendem
Enquanto
aguardamos o encerramento da estreia estadual de Velhos caem do céu como
canivetes, que acontecerá nesta terça (18h30 e 20h30) e quarta (19h), em Imperatriz
(Teatro Ferreira Gullar), faço um exercício matemático e apresento os números de Pai & Filho, após o encerrarmos do
projeto Viagem Teatral, do SESI, que visitou as cidades de São Bernardo do
Campo, Botucatu, Rio Claro, Franca, Marília, Piracicaba e Campinas, no estado
de São Paulo.
O espetáculo
sustenta 3 anos e 8 meses de trajetória desde sua estreia em abril de
2010. Prêmio FUNARTE de Teatro Myriam Muniz 2009 e 2010, Palco Giratório 2012/SESC
e Viagem Teatral 2013/SESI. Foram 109 apresentações e seus respectivos debates para
um público de 8.001 pessoas. 56 cidades visitadas de 19 estados brasileiros – MA,
PI, CE, RN, PE, AL, BA, AP, PA, TO, MT, ES, RJ, SP, RS, SC, PR, MG, RO. Estados
como Alagoas (4 cidades), São Paulo (10 cidades), Santa Catarina (7 cidades) e
Rio Grande do Sul (5 cidades) foram percorridos com maior intensidade e
profundidade, além do Maranhão (8 cidades), claro. Atenção produtores de
plantão: ainda faltam Amazonas, Sergipe, Paraíba, Goiás, Mato Grosso do Sul,
Roraima, Acre e o Distrito Federal. Participamos de 30 festivais ou mostras de
teatro. Atenção curadores de plantão: ainda faltam um monte! O espetáculo se
apresentou em 44 teatros e 17 espaços alternativos e 97 récitas foram
gratuitas. Em 2014 Pai & Filho retornará à sua terra natal e fará temporada
regular na sede da Pequena Companhia de Teatro para que o espectador ludovicense
possa prestigiá-lo – das 109 apresentações, apenas 5 aconteceram em São
Luís. As apresentações farão parte da programação do projeto TETRALIDADES,
Prêmio Myriam Muniz 2013, que contempla temporada regular do repertório,
oficinas, leituras dramáticas, fóruns etc. O que me leva à indagação final: não
fosse a trajetória nacional de Pai & Filho, haveriam 8.001 espectadores em
São Luís dispostos a assisti-lo ou o espetáculo morreria na estreia? Respondam durante
as apresentações que faremos em 2014.
domingo, 1 de dezembro de 2013
Não, querido, não se voa colocando aspas no verbo "voar"
| Fotos de Ayrton Valle |
Crítica de Igor Nascimento
Convém-se que
a Tragédia é a derrota do Homem diante da vontade divina. Não se luta contra o
que foi preestabelecido pelos “Céus”.
Por mais cruel que o destino possa parecer, o Homem é regido por estas
convenções de ordem divina e/ou social e deve respeitá-las. O ato que vai de
encontro àquilo que lhe foi conferido pelos deuses ou/e pela sociedade
culminará em um terrível fim. Seu caráter transgressor, que parecia sua maior
qualidade, será o responsável por sua queda. Mesmo arrependido, continuará
caindo até se chocar contra um sólido fundo trágico...
Nós, do lado
de cá, sentindo terror e piedade, nos purgamos daquele defeito de caráter que
parecia tentador em um primeiro momento, pois deu ao Herói toda glória que
possuía; mas, depois, tornou-se indigesto, daí a purgação. Essa é a catarse,
grosseiramente resumida e efetivamente útil quando se trata de adaptar o
sujeito às convenções:
Em Velhos
Caem do Céu como Canivetes, da Pequena Companhia de Teatro, temos uma montagem que
vai de encontro a todo esse sistema coercitivo que é denunciado por Augusto
Boal em Teatro do Oprimido. A Tragédia é posta ao avesso. O que sim vemos é um
drama com ares trágicos, ou, uma “antitragédia”. Já explico...
O “Ser Alado”
(Jorge Choairy) desce na Terra e encontra o “Ser Humano” (Claúdio Marconcine).
Quando as luzes acendem, o cenário é um ambiente caótico, onde tudo parece
desconexo. A unidade desses objetos em desordem se dá na movimentação do Ser
Humano: sua rotina, aparentemente, é pôr tudo em ordem para, depois, tudo
desfazer. Aquele terreno é um produto de suas ações sob a natureza. Não temos
uma ligação com a ação-texto. Não se opta por um texto dito com nuances bem
definidas. Parece que tudo que se fala é amortizado por esta natureza
solidificada pelos elementos dispostos em cena e pelas ações-físicas que
fazem com que os personagens interajam com os objetos e entre si. Seus corpos
são anormais. O andar, a postura e a voz fogem do corpo cotidiano. O
contraponto é este: um corpo fora do padrão executando ações que revelam um
determinado padrão (determinado): o Extracotidiano Vs Cotidiano vivendo num
espaço mínimo. No primeiro encontro entre os dois personagens esse jogo logo se
revela: o estranhamento causado pela insólita visita não se dá pelo encanto, ou
pela admiração de ver um ser de asas. É, antes, um “que diabo é isso...”.
Ambos são
apresentados. Conhecem-se. Interpelam-se. Coabitam. Convivem. O Ser Alado tem
uma missão: fazer com que o Ser Humano acredite em algo para além daquele plano
terreno (questão que fica em aberto), mas, em suma, significa que ele quer
persuadir o homem a se mover, evoluir, a sair dali, daquele jogo repetitivo. O
Ser Humano, contudo, é imóvel. Ele se atém às necessidades da vida. Luta, mesmo
que de forma parcimoniosa, contra fome e contra a sede. Ao mesmo tempo, ele
cria engenhocas para passar o tempo, inventando outras necessidades - necessidades
fabricadas - como a de ficar tonto através de um pequeno aparelho feito com a
peça central de um ventilador de teto. O Ser Alado tenta se adaptar, construir
uma rotina dentro daquele plano, enquanto “convence”, inutilmente o Ser Humano
a se mover. Seu gesto, que antes se baseava na ação de mexer os ombros,
repelindo as asas, acaba ganhando os ares daquela rotina. Ele, inclusive, testa
a máquina de ficar tonto e se mostra curioso em relação às engenhocas
produzidas pelo Outro, como o Manifesto à Eletricidade. Há uma mudança em seu
corpo e a dramaturgia do ator ganha um significado na trama e conta algo
também.
Os dois
planos: o que está dentro (a realidade) e o que está fora (o além) se
confrontam através dos corpos dos dois atores encerrados naquele universo
retratado, cenograficamente, com materiais retirados do lixo.
Ao final, o
Ser Alado desiste. Voltaria para o lugar de onde veio, mas eis que vem o golpe
da outra dramaturgia, aquela, do velho dramaturgo, aqui, Marcelo Flecha: o Ser
Humano mata o Ser Alado com uma cacetada! O elemento textual decisivo se revela
através de uma didascalia, provavelmente: Ser Humano defere uma boa e segura
bordoada no Ser Alado, matando-o (sic). A grande catástrofe é um ato físico.
Novamente o corpo e o movimento. Aqui, finalmente, o orgânico, o indeterminado,
o transcendente se junta ao material, ao concreto, ao plano terreno prático,
rotineiro, que fará do Ser Alado a refeição, a galinha do Almoço - o resto é
para Janta.
Onde está a
tragédia? Ou a “antitragédia”, como disse antes? Como um Sistema Coercitivo, como alude
Augusto Boal, a catarse visa purgar o homem de algum defeito que não é adequado
para o Sistema. Normalmente, representado por um oráculo ou pelos deuses, esse
Sistema se apresenta com ares superiores, com as pompas do Além e do Supremo.
Em Velhos Caem do Céu como Canivetes, essa lógica se inverte. Lá, a realidade
pré-estabelecida é a miséria, é a fome, é a vida do homem presa a uma rotina
que gira em torno do material, do imediato, do mecânico. Não há um “fora”, um “macrocosmo”, aquilo é o
tudo. Nesse novo sistema entra o Ser Alado pretendendo a mudança. As asas
significam a possibilidade do livre deslocamento. Não há revolução sem
movimento. E é aqui que o Ser Alado sofre o grande golpe trágico, não dado
pelos deuses ou pelo Estado, mas por um simples mortal e cidadão comum. O fim:
a morte. As luzes: vermelhas. O que era para ser purgação se torna refluxo.
Volta para as tripas, ou seja, para o chão do corpo, para o jogo maçante das
necessidades diárias.
O Destino é,
nesse caso, a sobrevivência. Na tragédia, tudo volta a ser como antes através
do terror e da piedade que sentimos pelo herói - basta não seguirmos o seu
exemplo e não achar precioso o seu defeito (Hamartia), afora isso, tudo está
perfeito. No quadro dramático “antitrágico” de Velhos Caem do Chão como
Canivetes tudo volta a ser como era antes, ou seja: terror e piedade; pois,
apesar da refeição garantida, outros dias de míngua e desumanidade hão de
continuar. Sentimos terror da miséria e piedade daqueles que vivem nessas
situações, tais sentimentos estão em nosso cotidiano - basta assistir aos
jornais e ver que embrulho isso dá. O que há de ser “purgado” aqui é a nossa
ingênua crença de que isso, um dia, pode ser mudado, ou seja, que um dia a
pobreza ganhará asas e sairá voando de nossa realidade.
“É pensando
que a porta é alta que batemos nossa cabeça na parede”
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
Um outra experiência
![]() |
| Bate-papo na sede d'A Outra... (SSA-BA) |
Faço
parte da Pequena Companhia de Teatro há 4-5 anos. Preconizamos o
Quadro de Antagônicos como ferramenta de preparação para o ator, e
é ele que norteia a pesquisa que fazemos. Somos um grupo de teatro
que pesquisa, e os espetáculos são o resultado disso.
Sentencio
que, gente de teatro se conhece, se entende, se reencontra, se
celebra e se constrói, juntos, a identidade do teatro na
contemporaneidade; múltiplos teatros, formas de fazer, maneiras de
articular. Quando nos profissionalizamos, acabamos por nos distanciar
de algumas práticas por questões financeiras e de agenda.
Articulação, debates e partilhas deixaram de existir em detrimento
de montagens, de circulação, de apresentações, do ofício. Nossas
ações se colam e se plastificam através de editais – públicos
ou privados. Se fugirmos disso, seremos sentenciados ao fracasso, à
mudez dos palcos, à surdez das plateias. Teatro de grupo, hoje,
existe pelo querer fazer e pela busca incessante de recursos que
esses editais disponibilizam.
Assim,
tivemos a oportunidade de conhecer A Outra Companhia de Teatro a
ponto de criar vínculos, estreitar relações. Crescemos e
produzimos conhecimento a partir do diálogo. Em Salvador não foi
diferente. A oportunidade de reencontro para compartilhar o nosso
fazer, conjugado ao fazer dos outros, recupera o entendimento que
tenho do corpo formalizado que temos a partir dos nossos processos. É
nessa perspectiva que o corpo precisa de outras alternativas e
possibilidades para se desconstruir e se ressignificar
permanentemente. O corpo deve se arriscar a encontrar outros
percursos além do que segue confiante.
O
projeto aprovado pela A Outra Companhia de Teatro, o Troca-troca
Nordeste, através do Programa BNB/BNDES de Cultura, possibilitou a
privilegiados grupos de teatro sediados na região Nordeste do Brasil
um espaço de mostragem de suas técnicas/formas e modos de fazer;
partilha de processos de organização; formação em outros
procedimentos que não os habituais utilizados pelas
companhias/grupos de teatro participantes.
Sou
daqueles que, movidos pela urgência das coisas, contamina e deixa-se
contaminar. É que a entrega é pré-requisito para a aceitação,
compreensão e diálogo com outros fazeres e outros pares.
Secularmente estamos ilhados pelo fracasso das conquistas; é que no
Maranhão a riqueza é para poucos e as desventuras para os que
sobram – e esses são muitos. Há um exílio forçado pela
conjuntura político-financeira que é quebrada com ações de
generosidade e troca entre gentes que se afinam – um exemplo é a
proposta d’A Outra...
Um
discurso recorrente é que as dificuldades encontradas para a
manutenção das atividades de um grupo são semelhantes quer de um
existente em São Paulo, quer de um das Alagoas. Não deixa de ser
verdade, mas as maneiras de driblar essas armadilhas são inúmeras e
fenomenalmente diferentes. São esses diálogos que dão lampejos de
sensatez para situações típicas de um grupo de teatro que ama o
que se faz e busca imprimir sua identidade nos espetáculos que monta
e apresenta. Mas, objetivamente, a troca, a compra, a observação, o
diálogo, ele é referenciado comumente quando se tem um foco
específico para tal, e aqui não pertine em se tratando da Pequena
Companhia de Teatro, mas sim do ator que se fez presente. A escolha
de meu nome pelos meus pares (Katia Lopes, Jorge Choairy e Marcelo
Flecha) se deu pela minha afetiva aproximação com a mímica
corporal dramática, de Etienne Decroux, que dialoga com a proposta
de formação da etapa na qual eu participaria (biomecânica de
Meyerhold), e também por estar em processo de pesquisa para a
montagem de um espetáculo-solo para as ruas.
Minha
compreensão acerca das influências sofridas são mais amplificadas,
e assim, tudo o que fazemos ou deixamos de fazer influi e influencia
nas nossas vidas e na vida da comunidade. Presença ou ausência
repercutem, sempre. Enquanto ator, quando em processo, as informações
e transformações pela qual o corpo passou, vai reverberar na
composição, na cena. O senso comum não conseguirá identificar,
mas a plateia especializada, certamente o fará. Conseguirá perceber
na ação da personagem, a formação do ator, as influências que
sofreu durante sua jornada, que não se esgota, mesmo com a chegada
da “indesejada das gentes”.
Meu
corpo recupera o que minha memória acata. Quando não, os espasmos
incompreensíveis podem dar sustentação a uma ação cênica. Não
sei, mas está aí; apareceu, mas não sei sua gênese – e
funciona. O que fica tem autoridade para tal. O que quer ir, a gente
deixa o vento levar. Assim são as coisas.
domingo, 24 de novembro de 2013
Velhos caem, nós também.
| Plateia em Balsas |
A proposta de
interiorização das ações da Pequena Companhia de Teatro no estado do Maranhão
existe desde sua origem, e sempre representou um posicionamento político. De
2005 para cá, O Acompanhamento, Entre Laços, Pai & Filho, Velhos caem do
céu como canivetes, e ainda, Medéia e Deus Danado – espetáculos da eterna
parceira, Cia A Máscara de Teatro –, tiveram passagem por cidades do interior,
assim como oficinas, performances literárias, lançamento de livros,
participação em fóruns, palestras, debates, organização de mostras de teatro; tudo com a convicção de estar
contribuindo de alguma maneira para o desenvolvimento sociopolítico-cultural do
estado mais pobre da federação brasileira, e sensibilizando o poder publico
municipal para a importância dessas ações. Balsas, Imperatriz, Bacabal, Caxias,
Santa Inês, Riachão, São José de Ribamar, Timon, São Bento, Fortaleza dos Nogueiras,
Itapecuru-mirim. Mais de cinquenta apresentações de espetáculos, todas
gratuitas (não podemos pretender que comunidades que não te acesso a teatro
tenham a sensibilidade e predisposição de pagar por ele nas pouquíssimas vezes
em que a oportunidade aparece), e seus respectivos debates. e, em todos, o
reconhecimento e a cobrança dos espectadores quanto à importância dessas
iniciativas.
| Oficina em Caxias |
Nessa trajetória conseguimos
sensibilizar o poder publico municipal? Não. Todos os projetos de circulação
realizados pela Pequena Companhia de Teatro foram patrocinados pelo Governo
Federal ou pelo SESC, com o apoio cultural local de pizzarias, amigos,
universidades, parentes, colégios, restaurantes, ou a intervenção de amigos-secretários
de cultura/presidentes de fundações. Nas poucas ocasiões em que as prefeituras
se sensibilizaram com nossas ações, o apoio cultural se restringiu a uma
hospedagem aqui, uma refeição acolá, mas jamais qualquer prefeitura maranhense
desembolsou um centavo com qualquer despesa mais significativa. Depois de oito
anos de ações ininterruptas, nunca recebemos por parte de nenhuma prefeitura o
convite espontâneo para a realização de algum tipo de atividade cultural que demandasse
do município o desembolso de recursos para pagamento de cachê, transporte de
cenário e equipe, compra de livros etc. – nosso último projeto já distribuiu gratuitamente
mais de cinquenta livros. O que sim vimos foi o quanto as prefeituras buscam
capitalizar politicamente nossas ações. Nosso único retorno vem sempre do
público. Nos depoimentos constantes, cortantes e emocionados dos espectadores
que reforçam a importância dessas ações. Será suficiente? Com um
diagnóstico desses fica muito difícil convencer os pares quanto à efetiva necessidade da interiorização, porque o reconhecimento merecido vem de quem
frui, mas nunca vem de quem deveria ajudar a pagar a conta com políticas
públicas culturais efetivas que desvinculassem suas ações do óbvio e árido calendário
carnaval-São João-verão-pátria-natal-férias. Sou do interior do estado. Depois
de vinte e tantos anos de labuta, nada mudou. O público merece nosso esforço,
só não sei se a ranhetice da velhice que se assoma respeitará nossa vontade.
| Debate em Fortaleza dos Nogueiras |
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
Em cena
Li, dia desses, uma matéria que tratava sobre um bate-boca na plateia de uma apresentação teatral do Marco Nanini. Noutro, vi uma tratando acerca de celulares atendidos em plateias de teatro.
Ator não é mentiroso e as pessoas confundem. Manifestação artística é uma coisa. Vida real é outra. Lembro-me de dois casos, sendo que um eu presenciei e outro ouvi dizer: dois atores pararam o espetáculo. Um deles desistiu da apresentação não se sentindo capaz de continuar. O outro, para calar a boca dos que insistentemente atrapalhavam a cena.
Na Pequena Companhia de Teatro já tivemos duas situações em que o corpo reagiu às demandas da cena: em Pai & Filho, a porta caiu sobre mim por causa da ruptura parcial dos ligamentos do joelho direito no aquecimento (o diagnóstico só veio posteriormente), e a perfuração da membrana que protege o tímpano da orelha esquerda de Jorge C. em Velhos Caem do Céu como Canivetes.
A partir dessa última, eu e Jorge C. começamos a brincar o que faria com que a gente interrompesse a apresentação, o que seria profissional ou suicídio diante de determinadas situações, como por exemplo, jogarem um tomate sobre nossas cabeças, falta de energia elétrica...
Esse limite não é determinado pelos cânones. Assim, imagino que o ator seja sacrificado por tomar a iniciativa da contenda entre o planejado e o imprevisto. Depois, vira história.
terça-feira, 19 de novembro de 2013
Ecos espontâneos – Balsas/MA
| Imagem da oficina em Caxias |
Cheguei há pouco da apresentação teatral “Velhos caem do céu como canivetes”, no auditório do Colégio São Pio X. Numa produção de Kátia Lopes, Atuação de Jorge Choairy e Cláudio Marconcine, encenação, figurino, cenário, iluminação e texto de Marcelo Flecha, a peça traz reflexões, entre tantas, sobre um “eu” ao mesmo tempo coletivo que, apesar de limitado fisicamente por uma situação determinista e... de resistente ao diferente, é ao mesmo tempo exótico, fluido e rende-se aos “estados de coisa” que permeiam a nossa vida; à realização onírica de nossos desejos, enfim, sobre um chão ou céu movediço em que pisamos ou onde voamos. O diálogo, de cunho filosófico, reflete uma profunda preocupação com o homem e com a crise moral e social dos tempos atuais, certamente ocasionada pelas diferenças sociais, pelas mudanças de tempo e pelos tempos de mudança, e satiriza este homem moderno, que se afoga num consumismo desenfreado. A mim, encantou-me mais o fato de a peça ter recuperado a metáfora da Torre de Babel, da criação e da difusão das línguas no mundo, com que sempre trabalho com meus alunos, e a ênfase na relação existente entre a linguagem, a cultura e o pensamento. A Secretaria Municipal de Cultura está de parabéns pela valorização desta modalidade de espetáculo público, o teatro, trabalho artístico criado para instruir sobre certos princípios, valores, e que realmente geram o crescimento intelectual dos jovens.
Maria Célia Dias de Castro
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
Esqueci
![]() |
| Foto de Ayrton Valle |
Estamos circulando com o novo espetáculo "Velhos caem do céu como canivetes", dentro da temporada de estreia, patrocinado pelo Governo Federal, através do Prêmio Myriam Muniz de Teatro, que agrega as cidades de São Luís, Caxias, Balsas, Fortaleza dos Nogueiras e Imperatriz na circulação pelo interior do Maranhão, depois de termos viajado o Brasil inteiro com Pai & Filho pelo SESC (Palco Giratório/2012) e SESI (Viagem Teatral/2013). Lugares diferentes, dificuldades diferentes, prazeres diferentes. Inegável a sensação de conforto dos hotéis existentes no Sudeste, seus teatros equipados, suas plateias atentas e especializadas. Inegável o contraste com o interior de nosso estado. Recupero um dos objetivos primeiros da Pequena Companhia de Teatro que é a interiorização de nossas produções: poucas pessoas, poucos recursos financeiros, iluminação artesanal, cenário passível de montar em espaços alternativos e a certeza da qualidade da obra. O contraste das acomodações e da recepção do público por vezes provoca um ruido no ser humano que, com alguma idade nas costas, começa a se perceber desejoso de um certo conforto, um certo reconhecimento. Proporcionalmente às conquistas, aumenta-se o nível de exigência. Assim, os objetivos primeiros ficam carecendo de reflexão e análise. Gosto da ideia da mutação, da mudança, da falha, da queda, do precipício.
Ano que vem, teremos o conforto do nosso lar como abrigo, já que estaremos com nosso repertório em cartaz, na sede na Pequena, resultado de mais um Prêmio Myriam Muniz de Teatro da FUNARTE/MINC. Antevejo os rumores desejosos de outras viagens. É que somos assim, eternos insatisfeitos.
Assinar:
Postagens (Atom)








