domingo, 30 de setembro de 2012

A nova sede da Pequena Companhia de Teatro

 

“O problema da herança em vida é testemunhar o mau uso dos herdeiros”. Enquanto cunhava a frase, pensava no momento mais importante da minha carreira. A foto do prédio aí em cima é a nova sede da Pequena Companhia de Teatro. Em janeiro completo quarenta e cinco anos. Mais de vinte e cinco dedicados ao teatro. Com pouco menos dessa idade, meu pai chegava a Balsas, oriundo de Buenos Aires. De lá para cá ele soma mais de trinta e cinco anos de trabalho. Tenho outra frase que diz, “É uma relação de amor e ódio. Tudo o que tenho foi o teatro que me deu, porém, tudo o que não tenho também foi o teatro que me deu”. Agora, tenho tudo o que o teatro me deu, e o que o teatro não me deu, meu pai se encarregou de dar. Segundo ele, é de direito, por todos os anos dedicados de sacrifício e de trabalho. Papo para boi dormir. Minha contribuição para esse patrimônio soma alguns períodos na frente de um forno, uns dias atrás de uma plantadeira ou perseguindo uma colheitadeira, um frango vendido aqui, um boi perdido acolá (piada interna). Talvez, a principal contribuição tenha sido não consumir nada desse patrimônio nestes últimos dezessete anos vividos exclusivamente de teatro. Hoje, a recompensa, que, para mim, nada mais é do que o maior presente que um pai pode dar para um filho: a realização de um sonho. Apesar da jocosa frase que abre esta postagem, vejo no semblante do meu pai uma profunda e sincera alegria. Mesmo sabendo que, para ele, o melhor destino para o prédio seria uma bela pizzaria!

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Beckett? Artaud? Extracotidiano?


Quem sentencia a dor é o corpo. Quem relembra a dor é a facilidade da lembrança do corpo ou da mente. Construímos nosso registro a partir do que experienciamos e não dá para fugir disso. O que fazemos, executamos, não se inventa. Constrói-se a partir do nosso repertório. Ninguém inventa nada. O que apresentamos é o resultado de algo que ficou, plasmou-se em nós. Quando dos debates após as apresentações, ligo os pontos. Tudo faz um sentido enorme nas falas dos espectadores. O que eles decodificam é parte do que viveram e parte daquilo que expomos. A felicidade se reside nos pequenos momentos que percebo e me reconheço no outro.

domingo, 23 de setembro de 2012

Realidade & Ficção


Estou propenso a crer que a verdade do artista só se efetiva se falar daquilo que o sangra. Singrar por oceanos embevecidos da própria vida. O olhar exterior, analítico, diz sobre a coisa, mas não é a própria. Falar do que não nos toca pode ser útil, todavia, pouco crível. Essa reflexão surgiu com a montagem de Pai & Filho e, hoje, reverbera. Apesar da ficção, a obra se interliga nevralgicamente comigo. Em Velhos caem do céu como canivetes a sensação se assemelha. Seremos, nós, os narradores? Indagava Gilberto, no nosso último encontro. Suspeito que sim. Sempre (?). Mesmo sem querer admitir, para parecermos mais inventivos. Não falo de (auto) biografismos. Digo da sutil tessitura da escrita artística. Uma obra, mesmo que arrancada das mãos, guarda as digitais do autor. Depois da obra lançada, o artista pouco importa, contudo, engana-se o público ao acreditar na pureza da ficção? Sempre recusei a comparação entre vida e obra, por estar na ficção o fascínio da arte – apesar de a experiência artística sempre me oportunizar a chance de pensar sobre. Não devia tocar no assunto, pois carece de uma reflexão mais aguçada. Perdoem-me o hermetismo da abordagem, às vezes é inevitável... Reflexão em processo.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O fazer; o ver; o rever

Faço teatro. Fiz teatro. Vi e vejo espetáculos. Conheci e revejo pessoas. O teatro é espaço de encontro. E de reencontros. Nada de desencontros. Quem faz teatro nunca está só. Não há despedidas. Rever amigos que moram distantes de nós é privilégio de poucos. Sei que faço teatro porque revejo amigos em cena e fora dela, mas sempre gente de teatro. Incluo aí também os espectadores. Mesmo sendo poucos, essa "pouquidão" é efetiva e existe. Encontra-se espalhada pelo país, fora dele, e que nunca morre. A cada reencontro a certeza do que se faz. Nesses momentos sinto orgulho de mim. Momento meu em que o reconhecimento torna-se merecido. Mereço os encontros e reencontros que tenho, as pessoas que povoam minha vida. Este ano é particularmente significativo nesse aspecto. Circular é celebrar a vida.

domingo, 16 de setembro de 2012

4ª Jornada – Porto Velho/RO


Jornada de tiro curto. Três dias fora, e já estamos de volta. Mais tempo viajando que aproveitando a acolhedora capital rondoniense. Muitos realces para poucos dias. O Teatro 1, do SESC Esplanada, uma espécie de sala multiuso que comporta duzentas e cinquenta pessoas, foi generoso e abrigou em todas as escadas, no mínimo, outros quarenta espectadores.  O Palco Giratório nos oferece a experiência de casas lotadas, um perigo para quem deverá se readaptar às nossas fiéis plateias de quinze ou vinte pessoas (risos) – Pai & Filho vem aí com temporada regular em São Luís. Um público entusiasmado e franco. Assim como no Teatro Laura Alvim, no Rio, riram muito (?). Reações curiosas, que variam de plateia para plateia, apresentando uma oscilação assustadora. Inevitável refletir sobre a possibilidade de o espetáculo variar tanto quanto as plateias. Não percebo assim, mas estou atento. A apresentação foi sólida, desfrutada, e revelou alguns nuances no conflito/jogo/duelo entre as personagens que até então não haviam aparecido, auxiliando na robustez da cena. É intrigante perceber como, apesar do rigor formal, ainda é possível amadurecer e melhorar um espetáculo que passa das oitenta apresentações. O mimo da jornada ficou a cargo da Cia. de Teatro Mosaico, da qual faz parte o queridíssimo Sandro Lucose. Tivemos a oportunidade de ver Anjo Negro, de Nelson Rodrigues, que também circula pela Rede SESC de Difusão e Intercâmbio das Artes Cênicas. Um espetáculo corajoso e instigante. Tão bom quanto o espetáculo, a possibilidade de conversar-discutir-refletir-analisar a vida teatrista, em esbarradas curtas e informais, típicas de duas Cia. que se cruzam no pleno exercício do seu ofício. Alegrias múltiplas para dias contados. Continuo grato à sorte, eu, um incrédulo.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Velho jargão

Andaime Cia. de TeatroHá Teatro de Grupo aos borbotões. Estou conhecendo alguns tantos por causa da circulação de Pai & Filho. Cada um deles tem uma composição particular. Poucos se sustentam financeiramente com o teatro - somente e tão somente. Os que mantêm uma pesquisa permanente de linguagem e os que experimentam. Gosto de dizer que teatro é ofício, e que os artistas são profissionais como quaisquer outros quando se propõem a viver exclusivamente com a sua arte/ofício. Sindicalizar-se é dar a arte um outro status. Tenho um amigo que conseguia dividir o que era ofício e o que era arte, processo, projeto sério, que de fato queria fazer - isso nas artes visuais. O que se aproximaria disso nas artes cênicas, no teatro especificamente? Quando nos corrompemos? Acho que estou ficando doente.

domingo, 9 de setembro de 2012

Apressado come mais

Há muito tempo ultrapassei a metade da minha vida. Nem o mais otimista dos amigos, que olhasse meu corpo decrépito, poderia pressagiar minha chegada aos oitenta e oito anos, portanto, a descendente já me acompanha há quase uma década – se o otimista agora não sou eu, pretendendo galgar os setenta. No ponto em que me encontro, só consigo ruminar o que me falta fazer. Lembro-me de um poema que tratava do que  o poeta não fizera – já resignado. Diferentemente do poeta, minha anciã ansiedade me apresenta espaços, lapsos e promessas. Angustia-me o tempo, e minha pressa não contempla um centésimo dos desejos. Ainda não me tornei cantor de tango. Falta escrever o quíntuplo do que produzi até hoje. Não conheci Cuba. O que encenei é uma piada de mau gosto para a presunção de um ser que se autoproclama homem de teatro. Até que idade é possível ser um toureiro? Não vou falar de livros, morrerei sem ler noventa e nove por cento do que gostaria. Não corri da polícia, ou corri? Preciso urgentemente comer um foie gras. Nunca fui ao Louvre... Como alguém pode se satisfazer com um livro, um filho e uma árvore? Envelheço e mereço. Adoro o preço. A única desvantagem é a redução do tempo para realizar o que falta. Prometi para Katia não me vangloriar mais da minha vetustez. Depois desta crônica, pararei. Inocentemente, nunca percebi que, ao enaltecer a velhice, carregava minha companheira comigo: que mulher pode almejar isso? Como ela costuma dizer: velho é você, não me leve junto!

domingo, 2 de setembro de 2012

Olho no livro


Levei um soco da tese de doutorado do amigo Gilberto Freire de Santana. Injusto, pois eu já lera o escrito. Um soco. Literalmente. O livro caiu de cima da estante direto no meu olho. Inchou. O soco metafórico aconteceu bem antes, enquanto lia cada capítulo que o autor me mandava em doses homeopáticas. Dentre as coisas que mais gosto de fazer na vida estão: ler e pensar. Logo, o fato não passou despercebido. Fiquei me questionando: não estaria na hora de toda a literatura impressa do mundo se rebelar contra os homens? Se cada livro que você deixa, por anos, estacionado em uma prateleira, esperando uma leitura, se arremessasse ferozmente contra o seu corpo, talvez ele tivesse uma chance. Na primeira vez, poderia parecer acidente. Na segunda, você duvidaria. Na terceira, correria de casa assustado ou pararia para lhe dar a devida atenção. Não consigo mensurar o quanto a vida pode ser insuportável sem uma boa leitura. Por que o mundo se distancia do livro? Hoje sei quem são os culpados. Eles. Os livros! Sua passividade, paciência, perseverança. Eles esperam, e só. Deveriam se rebelar! Pular das estantes! Perseguir seus leitores! Uma revolução livreira! A antiga revolução silenciosa provocada pela abertura de um livro – revolução que tanto transformou este mundo – não funciona mais! Cabe aos livros arregimentar seus leitores na marra! Portanto, se você passar por uma estante repleta de publicações e permanecer imune, mantenha distância. Um livro pode querer a sua atenção, e a consequência pode ser um olho roxo.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Breviário

Sem computador, sem conexão, sem lenço, sem documentos, sem viagens e com um tempo imenso para elaborar projetos. Época de plantar, fazer a cama. A galáxia tem seu próprio ritmo. Eu tenho o meu. Tudo está se configurando para a continuidade de um projeto que se estabelece cotidianamente. Algumas coisas se recuperam, outras apodrecem. Gosto disso. Perceber que não somos capazes de dar conta de toda a demanda - entendam como a obrigatoriedade de produzir, sempre. Nada mata ninguém - nem a morte. Tudo é ilusão e invenção. Quanto ao teatro, ele existe por si só; ele se sustenta - contradizendo e contrariando os acadêmicos e intelectuais plantonistas. 
 
Hoje brindamos na nova sede. Amanhã, faremos a dança da chuva. Ela se presentificou pouco essa noite.
 
No próximo mês voltamos a circular com Pai & Filho. O ano está moroso, como os dias que se seguem. Na próxima semana uma postagem mais digna e consistente.

domingo, 26 de agosto de 2012

A difícil jornada


A dramaturgia é um exercício precioso para o encenador – quando é apenas exercício. Quando é ofício, aí complica. Escrever para encenar limita o autor e amarra o encenador. É uma peleja seca e sacra. O escritor precisa pensar no diretor. O diretor precisa ter coragem para aceitar o escritor – aguentando os desafios e provocações oferecidas pela escritura. Esquizofrenia pura. Eles querem o mesmo, porém, pensam diferente. Se um é anárquico o outro é austero. O dramaturgo radical precisa dar espaço para façanhas menos íngremes, sob pena de ver o responsável pela cena preso num beco sem saída. Contudo, um e outro, não podem se acovardar com marolas e devem ter a coragem de enfrentar o alto-mar. Se um é polêmico o outro é político. Quando o encenador grita o poeta deve ter a força para calar. Entre opostos e atravessados vão, um e outro, sem medo de ferir. Escrever e encenar. Verbos forjados em mim, separados. Juntos são mera consequência.  Confidências de um bardo. Afinal, vocês sabem, velhos caem do céu como canivetes e não há guarda-chuva ou estiagem capaz de pará-los.

sábado, 18 de agosto de 2012

Fim da 3ª Jornada


Belo Horizonte, 14 de agosto, 00:27 AM.
Em São Paulo, a última apresentação trouxe a agradável companhia da dulcíssima amiga Flávia Teixeira. Com ela, a abertura do debate – aqueles corriqueiros primeiros minutos de silêncio constrangedor, até que a confiança aparece e o espectador se derrama em análises, observações, comentários e revelações pessoais. Desmontagem finda e o papo com o querido Armando para tirar o atraso de alguns anos sem nos ver. Dia dos pais e outro Prato da Boa Lembrança. Manhã vinda, e Maria Estela, nosso anjo da guarda, nos alcança até o aeroporto. Já em Belo Horizonte, a recepção de Patrícia, almoço, mercado central (outro para nossa coleção), e a noite termina com um jantar inesquecível com a figuraça do Zé Carlos, tio de Jorge, prosador de primeira. Amanhã Pai & Filho e sua 84ª apresentação.

Brasília, 15 de agosto, 10:57 AM.

Uma plateia divina! Casa lotada, público generoso, atento, disposto – uma das melhores relações que o espetáculo teve com o espectador. Longo debate – todos eles são – e a dúvida: às vezes tenho a impressão de que o debate entedia o espectador, mas, como continuam ali, perguntando, não vejo razão para parar (risos). No dia, a montagem e o almoço formidável com Zé Carlos e Shirley, em uma tarde que pressagiava a bela noite por vir. No fim, outro prato, outro Chopp, outro papo, outra cama. Agora, no aeroporto de Brasília, à espera do embarque para São Luís.


São Luís, 18 de agosto, 10:48 PM.

A 3ª Jornada do Palco Giratório nos apresentou uma realidade muito diferente da nossa. Sessões esgotadas desde o início de mês em São Paulo, superlotação – com gente sentada no chão – em Belo Horizonte e mais de oitenta pessoas em Curitiba. Nos três casos, o espectador não fazia ideia de quem éramos. Como transformar a fruição de teatro em habito? Como desabitar a sala da TV? Como povoar as casas de espetáculos? Na discussão de ontem, com Katia, Jorge e André, a educação foi consenso. Contudo, ainda reflito sobre a qualidade do vem sendo produzido em nosso estado nas últimas décadas.  Creio que o bom espetáculo robustece o habito do espectador. Há quanto tempos não vemos uma peça arrebatadora? A peleja do artista deveria ser contra a mediocridade.

domingo, 12 de agosto de 2012

Terceira Jornada – Curitiba, São Paulo e BH


Curitiba, 08 de agosto, 23:35 PM.

Chegamos a Curitiba para o início da 3ª etapa do Palco Giratório. A cidade traz a inevitável lembrança das andanças pelas ruas com os queridos amigos d’A Máscara, quando nos apresentamos aqui com Deus Danado – duas apresentações e muitos frutos. Hoje, mercado, almoço, olimpíadas, descanso e uma reflexão: apesar de nascer em uma família peregrina – não só este é o primeiro nome da minha mãe, como aos dez anos saiamos de Buenos Aires para Balsas, no interior do Maranhão – noventa por cento de todas as viagens que fiz na vida (e foram muitas) foi o teatro que me proporcionou, ponto para o teatro. Amanhã, montagem, apresentação, debate e desmontagem.


Curitiba, 10 de agosto, 06:54 AM.

Dia corrido. Montagem um pouco mais complicada e demorada do que o previsto, compensada com uma apresentação redonda. Longo debate para temas curiosos: perfil dos idosos de hoje; corte e costura; referências a Tempo de Espera.  Comentários sobre a montagem de Aldo são recorrentes, trazendo um alerta: se a única referência maranhense continua sendo a de quarenta anos atrás, não deveríamos fazer uma avalição sobre a qualidade da nossa produção? Depois da desmontagem, o melhor do dia, Eisbein e Sub Osborne (joelho de porco, chucrute, salsicha e Chopp). Agora, no aeroporto, com pouquíssimas horas de sono, esperamos o voo para Sampa.


São Paulo, 11 de agosto, 00:16 AM.

Nada é tão ruim que não possa piorar. Dia confuso, com cancelamento de voo, atrasos, sono, longa espera por taxis e uma montagem mais complicada do que a anterior. Como hoje não teve espetáculo, o dia caótico prenuncia um excelente dia amanhã, quando da primeira apresentação de Pai & Filho no SESC Pinheiros. Dia salvo por um Zepelim – agradável pub na Vila Madalena. Vou dormir.


São Paulo, 12 de agosto, 14:09 PM.

E o excelente dia veio. Uma apresentação contundente em um espaço que favoreceu o desgaste e o envelhecimento da cena. Antes, uma passada no Mercado Municipal (tradicionais sanduiche de mortadela e bolinho de bacalhau), depois, o encontro com os queridos amigos d’A Outra – bom papo para matar a saudades. Hoje tem mais, última apresentação em São Paulo e, amanhã, BH. Notícias sobre o fim da jornada ficam para depois, porque hoje é meu dia de postar.

domingo, 5 de agosto de 2012

Cogito, ergo surto.


Em resposta à postagem sobre o Teatro Polidramático, Kil Abreu, amigo da companhia, disse: “Sinceramente, quando vejo o trabalho de vocês não penso que aquilo é uma “dramaturgia do ator”, ou dramaturgia do espaço ou etc. Penso que é um espetáculo de teatro feito com muito rigor (de atuação, e também no plano visual, etc.), que me traz uma série de questões na minha relação com o mundo. Esse rigor formal não é um valor em si, ele é parte da estrutura de pensamento do espetáculo, porque se traduz como forma e nós só podemos ler através da forma, não há saída. Então, uma parte boa do significado está nessa simetria rigorosa que o espetáculo tem, que não é apenas um atestado de rendimento técnico da Pequena companhia, senão vira formalismo. É condição para que possamos ler uma determinada fábula na visão de mundo de dois artistas, e esta visão de mundo se traduz melhor naquele arranjo formal, com aquelas características de composição.”

De fato. Contudo, o comentário aguçou minha análise e continuo refletindo a respeito. É a necessidade de entender, em melhores termos, a relação do nosso fazer com o espectador – aquele com quem compartimos a coautoria do nosso processo. Essa busca de clareza vem a reboque da nova montagem que começa a germinar. Tentando fazer a defesa do Teatro Polidramático para mim mesmo, pensava: se tomássemos uma das variáveis auxiliares do “poli-”, o cenário, e pegássemos dois atores escravos, vestidos de preto, invisíveis de representação, e se encarregassem da reprodução do movimento. Acompanhando apenas o desenvolvimento do cenário, sua movimentação e continuidade, teríamos dramaturgia? Não haveria uma construção temporal do dizer? Uma evolução do tempo-espaço dona de discurso, que não se bastaria em si, mas diria dessa fábula? Ela é auxiliar, não capital como a dramaturgia do ator do encenador ou do autor, que fundamenta a narrativa, mas está contida de significado sequencialmente ordenador dessa fábula, acho. É nessa perspectiva que vejo como os diferentes instrumentos dramatúrgicos congruem para o dito final. Mas, no fundo, acho que meu discurso busca apenas o reconhecimento dos diferentes instrumentos de significação que usamos para construir esse dizer – o que não deixa de ser uma grande bobagem porque eles nunca foram desconsiderados, nem por nós nem pelo público (risos). São só conjecturas que democratizo. Difícil é encontrar alguém interessado em lê-las (risos, de novo).

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Completude?

Há tempos que determino, sentencio minha permanência no teatro. Nasci com o cu para a lua e, a cada segundo de esperança de vida, a percepção de que nada é completo, e por tabela não nos completa, é definitivamente o que me toca profundamente. Essa instabilidade das emoções, dos conflitos é insuportavelmente prazeroso. Quando revolvo meus papeis, anotações, fotos, livros e textos, me exponho por completo: muita coisa ainda a fazer e nenhum obstáculo a não ser o tempo. Mas, sou forjado no planejamento estratégico e, como diz minha mãe, não há possibilidade de dar ponto sem nó. É que navegar em águas profundas exige ao menos um pouquinho de coragem... ou de insanidade. Esse teatro, não só me seduz, como também seduz meus horizontes. Há pureza somente nas ideias. Híbrido. Teatro de grupo pode ser cartesiano. Mas, o artista... esse possivelmente não.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Você sabia que...


... a Pequena Companhia de Teatro foi contemplada no Programa BNB de Cultura 2012? O projeto “A ótica da Pequena: 3 oficinas de formação” foi um dos três projetos maranhenses selecionados na categoria Artes Cênicas e reúne suas 03 principais atividades formativas. As oficinas “O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator”, “Do épico ao dramático: a transposição de gêneros como instrumento de confecção de dramaturgia” e “O que o meu corpo tem a dizer” serão ministradas em 2013 com o patrocínio do Banco do Nordeste. Além desse, o projeto “Xilogravura e o lambe-lambe no Turu”, de Cláudio Marconcine, também foi selecionado. Ao todo, apenas 13 projetos maranhenses foram contemplados.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Vamos fazer um filho

A leitura sempre me surpreenderá - qualquer que seja ela e possíveis signos utilizados. Ler é dar-se o direito de interpretar e dar sentido ao mundo. Tinha ressalvas com relação aos textos dramáticos e épicos para uma leitura. Enfadonha. Encontrei um motivo excelente para minha acertiva, nas palavras provenientes da boca de outrem. Rafael Martins, do Grupo Bagaceira de Teatro (CE): “Bem mais que representar, o ator contemporâneo precisa se sentir representado”. Bingo. Esta semana foi surpreendentemente produtiva. Sem televisão e sem internet, li dois livros e uma revista: Lesados e outras peças, de Rafael Martins (Edição do autor); Entre o chão e o tablado, de Lauande Aires (Edição do autor); e Subtexto, revista de teatro do Galpão Cine Horto (dez/2010/n. 07/MG). Percebo que cada vez mais me aproximo das dramaturgias (todas elas) produzidas na contemporaneidade pelo simples fato de dizerem algo que eu gostaria de ouvir, mesmo que seja o vazio, o desencontro, o estranhamento (falo tudo isso em função mais da forma do que do conteúdo), e que o teatro de grupo é, abissalmente, um lugar de pesquisa e de trabalho. Quem não tem nada a acrescentar, não acrescenta na mesma proporção de não contribui para a cena. É títere, somente. Se me atiram pedras, escreverei livros.

sábado, 21 de julho de 2012

São Luís não é Paris

Trôpego, torto e tonto.
Queria ter o entusiasmo de um Quaderna. Esforço-me. Busco no íntimo o alento para continuar insistindo, porém, às vezes, Sucupira me vence. Por que insistir, em um estado muito mais ignorante e miserável do que o de vinte anos atrás, quando iniciei minhas primeiras batalhas? Por que resistir, se a resistência exige um exercício aeróbico e a desistência tem o doce sabor da inércia? Sou um artista comprometido. Sempre fui. Por esse predicado acusam-me de ter nascido velho. Olho para o passado e vejo que velho fui. Sou. Se a luta fosse o elixir da vida eu rejuvenesceria a cada derrota e deixaria de ser um cavaleiro quixotesco, robustecendo minhas forças a cada tropeço, erguendo-me púbere para seguir em frente construindo realidades. Isso não acontece. Os moinhos continuam tão poderosos e intransponíveis quanto nunca, e o empenho não garante a última vitória. Trôpego, entre cascalhos, cascudos e cambas, arando vou. Obtuso, de novo? Faço teatro no Maranhão.

Prefiro mil palavras


Abuso. Bestialidade. Covardia. Demagogia. Escuridão. Fanatismo. Ganância. Humilhação. Ingratidão. Jogo. Litígio. Morte. Nada. Ostracismo. Perseguição. Poder. Queixa. Roubo. Safadeza. Tirania. Ultraje. Vergonha. Xenofobia. Zero.

X
Amizade. Bonança. Coragem. Dedicação. Esperança. Força. Grandeza. Honestidade. Imaginação. Justiça. Liberdade. Misericórdia. Nascimento. Orgasmo. Paixão. Querer. Razão. Simpatia. Trabalho. União. Vitória. Xodó. Zelo.

P.S.: Para saber mais, leia o texto Clausura, do livro Cinco Tempos em Cinco Textos, disponível para venda na vitrine deste blog.

domingo, 15 de julho de 2012

Aniversário Feliz!



A pequena companhia de teatro é acanhada na quantidade de membros: Katia-Katia, Chu, Cróvis e eu. Contudo, é viabilizada, em pensamento, prática, sonhos e cumplicidade, por nomes extraordinários. Colaboradores conscientes, cooperadores forçados, críticos atentos, financiadores discretos, amigos eternos, consultores de luxo, contribuintes inconscientes, comensais aplicados, ajudantes espontâneos, defensores ilustres, espectadores generosos. Meus nomes, para citar apenas alguns mais próximos ou com intervenções bem concretas, são: André, Morgana, Gilberto, Tony, César, Hamilton, Magal, Luciana, Norberto, Sandro, Lauande, Maria, Damásio, Isoneth, Sílvia, Deusamar, Fernando, Abimaelson, Didi, Lio, Jeyzon, Zilma, Erivelto, Remédios, Flávia, Ayrton, Josué, Noira, Pedro, Igor, Burbú, Manuel, Fábio... se continuasse, a lista se prolongaria por toda a postagem e ainda faltariam os escolhidos por meus pares. O diálogo com companhias como A Máscara, Santa Ignorância, Clowns, Cordão, A Outra, Tarará, Madalenas, etc. fortalece nosso discurso e reforça nossa prática. Sem falar na viabilização promovida por uma sopa de letrinhas: MINC, SESC, BNB, TAA, TUTTI-FRUTTI... Nomes, empresas, parceiros, pessoas, um emaranhado, uma rede tecida desordenadamente, uma lógica caótica de construção. Pessoas que, de alguma maneira, contribuem, mesmo sem saber, para que nossa arte se desenvolva. Para todos, citados ou não, meus agradecimentos. Por quê? Dia 11 de julho foi o aniversário desta pequena, sortuda e agradecida companhia de teatro .

P.S.: Se você é colaborador e se sente injustiçado, acrescente seu nome nos comentários como forma de repúdio!

sexta-feira, 13 de julho de 2012

A mão na massa

Montagem de Pai & Filho no Teatro Municipal Dr Altelino Afonso Costa em Paranavaí-PR / Junho/2012.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Público e privado

Acredito que o Estado tenha suas obrigações com a sociedade, com o trato e financiamento de questões que para mim são públicas, como a educação, as artes, a saúde, o transporte, a habitação. Na prática, meu trabalho é subsidiado pelo Estado e isso gera manifestações artísticas que são democratizadas através de apresentações gratuitas à comunidade. Contrário a isso está a iniciativa privada. Ainda tenho muitas ressalvas. Minha única experiência se resume ao Sesc, na perspectiva do Palco Giratório. Tenho outras experiências com recursos próprios, o que facilita a produção. Não há reservas quanto a isso. Existirá sempre um dilema nessa participação: até que ponto queremos ser orientados pelo Estado, por nossos próprios bolsos, ideias e vontades ou pela visão do capital? Nessas condições está o artista, sua criatividade e seu estômago. Qual é o ponto? Qual é a medida? Em crise, penso nas possibilidades da produção para por fim a projetos que começam a criar corpo em mim. Meu medo é que eles apodreçam em consonância com minha ideologia.

domingo, 8 de julho de 2012

Pai & Filho – Festivais e Mostras


Espetáculo dá nome a prato em festival

Hoje não vou cansar vocês com reflexões. Mando uma listinha com os vinte e três festivais e mostras de teatro que o espetáculo Pai & Filho já participou até aqui:

  • FestLuso 2011 – Festival de Teatro Lusófono, Teresina/PI
  • 7° Festival Palco Giratório Porto Alegre/RS
  • XVII FENTEPP – Festival Nacional de Teatro de Presidente Prudente/SP
  • II Mostra de Artes Aldeia Olhos D’água, Feira de Santana/BA
  • 53° FESTA – Festival Santista de Teatro/SP
  • Aldeia Caiuá – Mostra de Artes, Paranavaí/PR
  • XVII Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga/CE
  • 6° Festival Palco Giratório Recife/PE
  • Festival Palco Giratório Minas/MG
  • VI Festival Banco do Nordeste das Artes Cênicas, Fortaleza/CE
  • Festival Palco Giratório Fortaleza/CE
  • 18° Festival de Teatro do Rio/RJ
  • IV Festival Palco Giratório Jacarepaguá/RJ
  • 2° Festival Palco Giratório Curitiba/PR
  • VII Aldeia de Artes Povos da Floresta, Amapá/AP
  • Festival Agosto de Teatro, Natal/RN
  • Aldeia Palco Giratório Blumenau/SC
  • VI Semana do Teatro no Maranhão, São Luís/MA
  • 5ª Aldeia Palco Giratório Itajaí/SC
  • Festival Palco Giratório Cuiabá/MT
  • Aldeia Palco Giratório Tubarão/SC
  • Festival Palco Giratório São Paulo/SP
  • 5ª Mostra SESC Guajajara de Artes, São Luís/MA
 Se você ainda não viu Pai & Filho no festival da sua cidade mande o convite ou reclame para os organizadores!

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Somos únicos

Generalizar é mais prático. Dizer "a maioria" ou ainda "é exceção" dialoga muito com a facilidade em se encontrar arroz em feira. Seria senso comum? Dissenso formula mais, é mais conflituoso. Gosto dessa segmentação do pensamento: pensar distinto é formular com o outro além do senso comum, além do que se vê. Nada prático, mas não consigo perceber o público como uma massa homogênea, nem a obra de arte pensada para atingir (sic) esta ou aquela plateia/ nicho/segmento. Nosso pensamento, que se traveste de arte espetacular, é individualizado - mesmo coletiva. O sentido do coletivo é como se contribui, a partir do ser individual, a uma causa comum - no caso o teatro. Quando comentamos sobre a polifonia das dramaturgias dizemos que os indivíduos, em suas escritas, estão contribuindo com o todo. A plateia, mesmo não estando no processo - ainda não conseguimos fazer os ensaios abertos, mas há o propósito - faz parte da cena, pois reescreve, a partir do que é mostrado, seu próprio sentido. Alguém pode dormir, outro pode odiar, outro se emocionar, um outro jogar um tomate quase pobre ou meia maçã, não importa. A construção do pensamento é sempre ideológica.

domingo, 1 de julho de 2012

Viver de teatro, morrer de fome.

foto de André Lucap

Semana passada recebemos a querida visita dos Clowns de Shakespeare, que nos brindaram com o seu Ricardo III. Inevitavelmente, a passagem de um grupo como esse, desperta questionamentos que dificilmente se responderão em uma postagem. Quando olhamos para os Clowns, a relação de exceção à regra é inevitável. Depois de finalizada a segunda etapa do Palco Giratório, impressionou-me o pequeno número de companhias que garantem seu sustento através do teatro. Pensava ser uma realidade exclusivamente maranhense, contudo, foi difícil identificar grupos em que seus membros não dependessem de outras profissões para se sustentar. No mapeamento realizado pelo próprio Yamamoto no nordeste, em 2009, creio que apenas três companhias diziam se sustentar exclusivamente de teatro. É um sintoma nacional e só encontrará solução através de políticas públicas. Em longo prazo, o plano nacional de cultura é o caminho. Entretanto, a solução está em olhar o país como um todo e o cidadão como único. O teatro depende do cidadão. Este, sem educação e cultura, jamais poderá discernir entre Medeia & mídia, antissemita & cimento, anódina & adedonha, somático & sorumbático. É o cidadão que deve ser alimentado e não as estatísticas. Educação e cultura. Se o espectador não reconhecer no teatro a corporificação da sua própria história de nada servirão companhias vivendo de teatro para plateias vazias...

Você deve estar se perguntando por que reclamo tanto, se a Pequena vive ou sobrevive de teatro e Pai & Filho já passou dos seis mil espectadores – para um espetáculo que comporta em média cinquenta pessoas, não é pouca coisa. Não sei. Apenas mantenho o meu direito de questionar, me indignar e buscar caminhos para que o teatro conserve o seu poder transformador... Pensando bem, alguém pode me explicar por que reclamo tanto? Acho que minha ranhetice me diverte.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Há tempos

Pego-me pensando acerca da medida do tempo e a precariedade da vida. Assim, o primeiro interfere, sobremodo, na segunda. Dito isso, o direito de surfar por entre ondas de calor sobre uma prancha de gelo sólido e firme é bendito, como o fruto. A multiplicidade de se redefinir não nos torna superficiais, voláteis ou inconstantes. Faz parte do ser, de todas as influências que permitimos e outras tantas que atravessam o corpo sem pedir licença. Evidente que as escolhas são nossas - nem tanto, diriam alguns. Porém, nada está consumado a não ser a vontade de experimentar sempre, perceber até aonde o corpo vai e que além das nuvens tem um infinito a ser desvelado. Não que isso me assuste, tão pouco tenho o desejo de voar, ir para o espaço sideral. O que reflito é sobre a rigidez que nos condena a ficarmos ilhados em um tempo que não o de hoje. A perfeição só se estabelece no campo das ideias, e temos que conviver com nossos fracassos e os dos outros, com a inflexibilidade de conceitos e de relações, quaisquer que sejam elas. É insuportável morrer. Pior é não viver. Sinto-me assim. De posse desse pensamento quero curtir o tempo para que ele se consolide a meu favor; que o teatro que acredito possa ser aquele feito por mim; que meus beijos sejam beijos com sabor e sem; que os sexos sejam rijos, flácidos, tântricos; que os olhos possam descortinar o óbvio - sempre e quase sempre; que as plateias sejam mais do que cadeiras vermelhas, podendo ser de outras cores e sons - aplausos, vaias... Essa percepção daquilo que se solidifica em mim deve ser para reafirmar o ser que acredito. Quero estar aberto às estações num Estado que inexiste além de duas e me sufocar com um sorriso ardente nos lábios, mesmo que esse esconda a insatisfação das rugas nada tardias. 

domingo, 24 de junho de 2012

A realidade é pior que a queda


Se um ser de outra espécie caísse na terra e visse que os homens deixam suas sobras para que outros homens se alimentem delas, diria que a natureza da espécie humana é generosa. A verdade é que possuímos mais do que podemos usar, cozinhamos mais do que podemos comer, compramos mais do que podemos vestir... É o que responde o ser humano ao ser alado, em Velhos Caem do Céu como Canivetes. Somos uma espécie rara. Passamos da generosidade à violência em questão de segundos. Esse mesmo ser alado indaga nosso anti-herói quanto a sua falta de ideais. Nós, humanos que somos, sabemos muito bem que essa palavra deixou de existir, ficando para nós – agora artistas – o armazenamento museológico desse conceito. Não há por que lutar, há? O artista – que é humano, mas parece não ser deste planeta – vive entre a esperança e a desesperança. Acredita no homem, o vê padecer, e sofre por ele. Talvez somente uma estirpe de seres alados e sábios possam tomar conta do mundo e resolver o problema...  Se um ser pensante caísse na terra teríamos trabalho para explicar o que somos, no quê nos transformamos e como convivemos com isso.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Autoexílio

Entressafra e hiato são vocábulos presentes em minha vida, pois defini ciclos para ela. Assim, iniciam-se vários em vários momentos e começam outros em outros tantos... instantes. Meu processo criativo está escasso como absolutamente tudo. Lembro que esqueci outra palavra que repercute em mim: anestesia. Não que o exílio sirva para reflexão ou algo semelhante, é mero estado de não-estar-e-nada-fazer, sem preocupações com absolutamente nada. Formalizar palavras para uma postagem nunca foi tão desafiador. É que me sinto em férias pela primeira vez em 43 anos - acho que já me utilizei desse subterfúgio. Respirar e defecar são ações diárias que penso nesses tempos de distância do trabalho, do intelecto, dos pares. Desejo de pensar um pouco mais sobre minhas angústias de ator, mesmo sabendo que um joelho me sobra para fazer companhia a um diagnóstico que só se revela na segunda. Nem coragem (sic) para abrir uma garrafa de vinho tenho. Pensar em arte é perceber-me um tanto distante do tempo para compor pensamentos... e obras. Quase um diletante.

sábado, 16 de junho de 2012

Arte & perfumaria


A verdadeira arte não abre concessões. Não negocia. É intransigente. Para conseguir esse estágio de excelência é necessário um profissionalismo engajado. Disciplina, rigor, pontualidade, seriedade, comprometimento. Teoricamente, uma obra de arte deveria ser avaliada pelo seu resultado artístico e, em alguns casos, pelos caminhos até o parto. Infelizmente a realidade nem sempre é essa. Vinculado à arte, e em um círculo vicioso, estão os conchavos, as amizades, a competência das curadorias, as simpatias, as manipulações, os críticos e seus interesses, a mídia, os mecanismos de coação, os alinhamentos ideológicos, as gratidões, o policiamento comportamental, as negociatas, as relações de poder, os despropósitos dos que detêm esse poder, e nem sempre a projeção de uma obra está relacionada com a sua qualidade artística. Ontem, hoje e sempre. É um problema basilar. Origina-se na forma como nos relacionamos com a arte: nunca me interessou saber se Nelson Rodrigues era reacionário ou se Wilde um dândi. No momento da fruição isso não me preocupa. Não me importa saber se o autor é gente boa. Seja no teatro ou na literatura. Na música ou nas artes visuais. Estou cansando de ouvir elogios para os amigos e críticas para os desafetos. A arte exige e merece respeito. Respeitemos. Estou sendo obtuso?
Viva Dalton Trevisan!

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Palco Giratório – Fim da 2ª Jornada


Semanalmente mando um e-mail para os contatos da minha caixa postal divulgando a temática da semana. Com a maioria já me marcou como lixo eletrônico, meu esforço em ser duas vezes criativo (e-mail e postagem) tem sido em vão (risos). Mesmo assim, não me entrego. Estamos de volta a São Luís, depois da 2ª Jornada do projeto Palco Giratório. Paraná e Santa Catarina para um Pai & um Filho que completam seu passeio pela região sul do país. É a primeira região visitada na íntegra; estivemos nos três estados e ainda voltaremos em outra jornada para Curitiba – PR, Rio do Sul – SC, Chapecó – SC e Lages – SC. Da região nordeste ainda nos falta o Sergipe e a Paraíba, porém, ficaremos na vontade porque não temos previsão de visita. Da região sudeste falta apenas Minas Gerais, que visitaremos em agosto, só Belo Horizonte. Também estaremos em São Paulo, mas já o visitamos em duas ocasiões anteriores. Na região centro-oeste e na região norte ficarão as maiores vontades, pois da primeira só visitamos o Mato Grosso, e da segunda estivemos no Pará, Tocantins e Amapá – Rondônia nos espera em novembro. Goiás, Mato Grosso do Sul, Amazonas, Roraima e Acre completam a lista dos pouquíssimos estados que nos faltará visitar quando o ano acabar, além do Distrito Federal. Estar em todas as regiões do país com um espetáculo de teatro maranhense não é lá uma coisa corriqueira. Como diria o pai: Graças! ... ao Myriam Muniz 2010 e 2011, ao Palco Giratório e aos vinte festivais e mostras por onde o espetáculo Pai & Filho se apresentou até aqui. Vida longa é não morrer de véspera!

sexta-feira, 8 de junho de 2012

A palavra é arrogância

Mas, poderia ser também coragem, personalidade, orgulho. 
No teatro temos uma certa dificuldade em comentar os espetáculos dos outros por medo de magoá-los. Na vida, quando recebemos um elogio, comumente agradecemos com uma pitada de modéstia, como se fosse pecado ser valorizado. Tratamos alguns como coitados e não temos coragem de assumir o nosso teatro. Quando o fazemos, os outros é que se sentem despreparados e nos rotulam ou se distanciam. O que não sabem, os tolos, é que o que nos identifica é o orgulho que temos do teatro que queremos, e do resultado obtido, tanto em cena quanto na longevidade das encenações. Verbalizar nossa árdua tarefa em sermos felizes diariamente fazendo teatro, de forma profissional, e exigindo profissionalismo daqueles que se propõem a dialogar conosco é algo natural numa companhia que busca a excelência em suas produções. 

Sabemos o que queremos e por isso fazemos, e temos orgulho disso, e não nos cegamos. Ao contrário, estamos lúcidos o suficiente para nos mantermos íntegros, inteiros e generosos criativamente. 

segunda-feira, 4 de junho de 2012

2ªJornada

Após uma brevíssima pausa em São Luís, já iniciamos a segunda jornada da nossa circulação pelo projeto Palco Giratório patrocinado pelo SESC. Estamos em Blumenau – a Alemanha tropical – e a jornada prossegue pelas cidades catarinenses de Itajaí e Tubarão, e a paranaense Paranavaí. Quatro apresentações e uma oficina. Já somamos dezesseis estados visitados desde a estreia. Aqui, salsicha, chucrute, batata e o palco do teatro Carlos Gomes. Pai & Filho apresentado com boa dinâmica para um público receptivo e caloroso. O debate é sempre um momento à parte: perguntas, reflexões, elogios, e o relógio nos surpreende com a desmontagem por vir. Veio. Mais salsicha, mais batata, mais mostarda, um chope e hotel. Uma sensação de satisfação invade os quatro – deve ser o tamanho da cama que nos espera.

sábado, 26 de maio de 2012

O gênio detrás da máscara


Por detrás das nossas máscaras, que se expõem nas apresentações, nos debates, nas oficinas, nas entrevistas, nas postagens e fotos deste blog, há uma pessoa desprovida de vaidade artística, que pouco aparece, e que segura todas as nossas rebordoses com paciência de Jô. É membro fundador da pequena companhia de teatro, mesmo sem nunca ter pretendido pisar num palco. Uma figura que acredita mais que todos nós – muito antes do espetáculo Pai & Filho ser defendido no Palco Giratório ela já o dava por contemplado. Única mulher numa trinca de homens chatos, marrentos, maníacos, mimados e machistas – qualidades não necessariamente cabíveis aos três simultaneamente. Com serenidade, ela mata um leão, desossa a carne para o lanche e faz da pele um belíssimo casaco, sem desmanchar o penteado. Convivo com ela há dezesseis anos e jamais me negou uma resposta, mesmo que a pergunta laboral ocorresse na cama, às quatro da manhã, depois de já estar dormindo. Quando digo que o quadro da nossa companhia é um dos mais perfeitos é porque contém uma produtora competente. Sou suspeito para falar, mas falo porque, coincidentemente, estamos no Rio de Janeiro, cidade que viu esta pessoa crescer e onde se encontra parte da sua estimada família. É para isso, para que essa família possa sentir orgulho dessa mulher que põe nos trilhos esta pequena máquina de sonhos. Seu nome é Katia Lopes – como se vocês não soubessem (risos).

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Primeira bateria


Oh, que belos companheiros! Como brincam tão ligeiros. Se és covarde, saias da mesa, que a unidade é popular. Primeira bateria: companheiro, vira! Vira, vira, vira, virou!

E termina a primeira jornada do Palco Giratório do Sesc. Retorno a São Luís para uma semana numa cidade que está parada. Vamos engordar o coro dos grevistas, desfazer as malas, limpar a poeira, dormir, namorar, festejar, celebrar. 

Muitas inquietações, nenhuma dúvida, angústias anestesiadas. O tempo está ótimo para fecundar a terra. Pronto para o gozo.

domingo, 20 de maio de 2012

Oito estados, dezesseis cidades e uma certeza


O fim da primeira jornada pelo Palco Giratório se aproxima. O interior do Rio Grande do Sul deixou sua marca em nossos corações – o clima, a comida, a gentiliza das pessoas, as boas apresentações, os teatros. Em Cuiabá, o encontro com o amigo Sandro Lucose que nos levou ao Choppão: a inédita experiência de comer sopa até não poder mais. Feira de Santana foi a única baiana. Em Recife a hilária descoberta de André Macambira, e o Murilo nos apresenta um Brennand monumental e provocador. Vitória vem à mente no abraço de Jadna, Marcelo e Matheus e a possibilidade de mostrar Pai & Filho para amigos distantes. Em Jacarepaguá uma plateia surpreendentemente madura formada por alunos do ESEM. Macapá e o primeiro encontro com o gigante Amazonas – um rio que é um mar. Das Alagoas e de Fortaleza já falei antes, não com menor atenção. Oficinas, pensamentos, espetáculos, debates, detalhes. Detalhes muitos, que ficam. A caótica rotina de circular me seduz, me agrada, me encanta. Tudo é existência. Ermitão que sou, em viagem tudo muda. Me transformo sem querer me transformar. É desejo de ser. É o que sou. Artista. Um artista. Sou artista. É o que escrevo no meu check-in.

Montagem do cenário da peça Pai & Filho em Recife, Pernambuco. Projeto Palco Giratório 2012. Teatro Marco Camarotti - SESC Santo Amaro

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Tudo é novidade

Contrariando a máxima do eterno retorno, ultimamente tenho me encontrado em estado de novidade permanente: teatros, público, sentimentos de saudade, desejo, solidão, aeroportos, ritmo, comidas, ausência de determinados tipos de comida. 

Estou em contagem regressiva para retornar a São Luís e organizar determinadas coisas, tentar voltar a uma rotina mesmo sabendo que a duração é somente de 7 dias - pensei ser mais - para que retornemos aos ares em mais uma etapa do Palco Giratório.
Não há queixas, só constatação de questões que fluem a partir dessa distância do cotidiano, do conforto das escolhas diárias, mesmo sabendo que tudo não passa de pose e da ausência de sexo.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Ora, ora

“Arte minha, que está nos palcos,
 Santificai o meu nome.
 Venha a mim o vosso reino.
Seja feita a minha vontade
Assim na terra, como no céu.
O teatro meu de cada dia dai-vos hoje:
Celebrai as minhas virtudes,
Assim como tens ignorado meus truques
Em não cair na tentação e em livrar-me do mal.
Amém-me,
Uns e outros.”
Mantra do Antro de Egos. Conhecem?

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Rotina

Numa rotina é mister ser religioso: hora para dormir, comer, acordar, fazer atividade física, ler. Quando se viaja essa rotina inexiste: há uma outra dinâmica - além de mudança de fuso horário - que faz o organismo perder suas referências, o que conduz a uma alteração em seu funcionamento: intestino, sistema imunológico, fadiga, cansaço. 
Foto de Paulo Medeiros (aquecimento em Teotônio Vilela - AL)
A condução de nosso processo antes de irmos para a cena exige uma preparação de 2 horas, sendo que a primeira equivale a um alongamento sistematizado por Marcelo F., seguido de um aquecimento por contato, livre, verbalizando todo o texto do espetáculo. Esse aquecimento oscila entre movimentos aeróbios e anaeróbios. 

Com essa sistematização, queremos dar às apresentações um certo caráter de refinamento e apuro, para que a verdade e a organicidade sejam próximas, semelhantes, entre todas as apresentações. Depois desse processo temos o visagismo, a origem das personagens (15 minutos) e a espera por detrás da porta. 

Nas viagens iniciais da Pequena Companhia de Teatro através do Palco Giratório, percebemos que as apresentações têm oscilado muito nessa verdade, nessa organicidade. Nas duas últimas apresentações tenho buscado alterar esse aquecimento, acrescentando alguns exercícios anaeróbios ao final da série. Percebo, nessas circunstâncias atípicas, que o alongamento tão próximo assim das apresentações mais atrapalha que ajuda e acrescentando a minha virose, o resultado beira a catástrofe.

Muitos fatores alteram nossa performance, como o espaço, a entrada do público, a demora em começar a sessão e o ato de ressonar ou não antes da apresentações. 

As pistas estão à mostra. Exigem resposta.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Teatro brasileiro

Dormia. Enquanto dormia pensava. Estou em Cuiabá. Não no sonho, realmente estou na capital do Mato Grosso. Estamos. Na noite anterior haviamos visto o espetáculo Cabaré, da Cia. de Teatro Faces, de Primavera do Leste. Pensava na pluralidade e nas diferenças do nosso teatro. Do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul fazemos teatro de maneiras tão diversas e tão distantes que é difícil compreender e organizar tamanhas diferenças em um único país. Sem perceber, vemos espetáculos de outros estados com distanciamento e sem a menor sensação de pertencimento. Esse teatro é nosso, é brasileiro. O teatro feito no Pará ou no Paraná me pertence, é meu, diz do meu país, de um país continental que mal percebe a sua grandeza. É isso que estão lendo: ufanismo puro. Porém, na maioria das vezes, olhamos para muitas produções de outras regiões com desprezo, desdém e preconceito, obstruindo a possibilidade de compreender que fazem parte de nós, de um total brasileiro de somas, de um ser maior e antropologicamente construído de partes. É claro que não há uma unidade, nem deveria. Somos a somatória de nossas diferenças e não estamos imunes. Vemos o que somos, e se vemos com um olhar imperfeito, revelamos toda a nossa imperfeição.