domingo, 26 de agosto de 2012

A difícil jornada


A dramaturgia é um exercício precioso para o encenador – quando é apenas exercício. Quando é ofício, aí complica. Escrever para encenar limita o autor e amarra o encenador. É uma peleja seca e sacra. O escritor precisa pensar no diretor. O diretor precisa ter coragem para aceitar o escritor – aguentando os desafios e provocações oferecidas pela escritura. Esquizofrenia pura. Eles querem o mesmo, porém, pensam diferente. Se um é anárquico o outro é austero. O dramaturgo radical precisa dar espaço para façanhas menos íngremes, sob pena de ver o responsável pela cena preso num beco sem saída. Contudo, um e outro, não podem se acovardar com marolas e devem ter a coragem de enfrentar o alto-mar. Se um é polêmico o outro é político. Quando o encenador grita o poeta deve ter a força para calar. Entre opostos e atravessados vão, um e outro, sem medo de ferir. Escrever e encenar. Verbos forjados em mim, separados. Juntos são mera consequência.  Confidências de um bardo. Afinal, vocês sabem, velhos caem do céu como canivetes e não há guarda-chuva ou estiagem capaz de pará-los.

sábado, 18 de agosto de 2012

Fim da 3ª Jornada


Belo Horizonte, 14 de agosto, 00:27 AM.
Em São Paulo, a última apresentação trouxe a agradável companhia da dulcíssima amiga Flávia Teixeira. Com ela, a abertura do debate – aqueles corriqueiros primeiros minutos de silêncio constrangedor, até que a confiança aparece e o espectador se derrama em análises, observações, comentários e revelações pessoais. Desmontagem finda e o papo com o querido Armando para tirar o atraso de alguns anos sem nos ver. Dia dos pais e outro Prato da Boa Lembrança. Manhã vinda, e Maria Estela, nosso anjo da guarda, nos alcança até o aeroporto. Já em Belo Horizonte, a recepção de Patrícia, almoço, mercado central (outro para nossa coleção), e a noite termina com um jantar inesquecível com a figuraça do Zé Carlos, tio de Jorge, prosador de primeira. Amanhã Pai & Filho e sua 84ª apresentação.

Brasília, 15 de agosto, 10:57 AM.

Uma plateia divina! Casa lotada, público generoso, atento, disposto – uma das melhores relações que o espetáculo teve com o espectador. Longo debate – todos eles são – e a dúvida: às vezes tenho a impressão de que o debate entedia o espectador, mas, como continuam ali, perguntando, não vejo razão para parar (risos). No dia, a montagem e o almoço formidável com Zé Carlos e Shirley, em uma tarde que pressagiava a bela noite por vir. No fim, outro prato, outro Chopp, outro papo, outra cama. Agora, no aeroporto de Brasília, à espera do embarque para São Luís.


São Luís, 18 de agosto, 10:48 PM.

A 3ª Jornada do Palco Giratório nos apresentou uma realidade muito diferente da nossa. Sessões esgotadas desde o início de mês em São Paulo, superlotação – com gente sentada no chão – em Belo Horizonte e mais de oitenta pessoas em Curitiba. Nos três casos, o espectador não fazia ideia de quem éramos. Como transformar a fruição de teatro em habito? Como desabitar a sala da TV? Como povoar as casas de espetáculos? Na discussão de ontem, com Katia, Jorge e André, a educação foi consenso. Contudo, ainda reflito sobre a qualidade do vem sendo produzido em nosso estado nas últimas décadas.  Creio que o bom espetáculo robustece o habito do espectador. Há quanto tempos não vemos uma peça arrebatadora? A peleja do artista deveria ser contra a mediocridade.

domingo, 12 de agosto de 2012

Terceira Jornada – Curitiba, São Paulo e BH


Curitiba, 08 de agosto, 23:35 PM.

Chegamos a Curitiba para o início da 3ª etapa do Palco Giratório. A cidade traz a inevitável lembrança das andanças pelas ruas com os queridos amigos d’A Máscara, quando nos apresentamos aqui com Deus Danado – duas apresentações e muitos frutos. Hoje, mercado, almoço, olimpíadas, descanso e uma reflexão: apesar de nascer em uma família peregrina – não só este é o primeiro nome da minha mãe, como aos dez anos saiamos de Buenos Aires para Balsas, no interior do Maranhão – noventa por cento de todas as viagens que fiz na vida (e foram muitas) foi o teatro que me proporcionou, ponto para o teatro. Amanhã, montagem, apresentação, debate e desmontagem.


Curitiba, 10 de agosto, 06:54 AM.

Dia corrido. Montagem um pouco mais complicada e demorada do que o previsto, compensada com uma apresentação redonda. Longo debate para temas curiosos: perfil dos idosos de hoje; corte e costura; referências a Tempo de Espera.  Comentários sobre a montagem de Aldo são recorrentes, trazendo um alerta: se a única referência maranhense continua sendo a de quarenta anos atrás, não deveríamos fazer uma avalição sobre a qualidade da nossa produção? Depois da desmontagem, o melhor do dia, Eisbein e Sub Osborne (joelho de porco, chucrute, salsicha e Chopp). Agora, no aeroporto, com pouquíssimas horas de sono, esperamos o voo para Sampa.


São Paulo, 11 de agosto, 00:16 AM.

Nada é tão ruim que não possa piorar. Dia confuso, com cancelamento de voo, atrasos, sono, longa espera por taxis e uma montagem mais complicada do que a anterior. Como hoje não teve espetáculo, o dia caótico prenuncia um excelente dia amanhã, quando da primeira apresentação de Pai & Filho no SESC Pinheiros. Dia salvo por um Zepelim – agradável pub na Vila Madalena. Vou dormir.


São Paulo, 12 de agosto, 14:09 PM.

E o excelente dia veio. Uma apresentação contundente em um espaço que favoreceu o desgaste e o envelhecimento da cena. Antes, uma passada no Mercado Municipal (tradicionais sanduiche de mortadela e bolinho de bacalhau), depois, o encontro com os queridos amigos d’A Outra – bom papo para matar a saudades. Hoje tem mais, última apresentação em São Paulo e, amanhã, BH. Notícias sobre o fim da jornada ficam para depois, porque hoje é meu dia de postar.

domingo, 5 de agosto de 2012

Cogito, ergo surto.


Em resposta à postagem sobre o Teatro Polidramático, Kil Abreu, amigo da companhia, disse: “Sinceramente, quando vejo o trabalho de vocês não penso que aquilo é uma “dramaturgia do ator”, ou dramaturgia do espaço ou etc. Penso que é um espetáculo de teatro feito com muito rigor (de atuação, e também no plano visual, etc.), que me traz uma série de questões na minha relação com o mundo. Esse rigor formal não é um valor em si, ele é parte da estrutura de pensamento do espetáculo, porque se traduz como forma e nós só podemos ler através da forma, não há saída. Então, uma parte boa do significado está nessa simetria rigorosa que o espetáculo tem, que não é apenas um atestado de rendimento técnico da Pequena companhia, senão vira formalismo. É condição para que possamos ler uma determinada fábula na visão de mundo de dois artistas, e esta visão de mundo se traduz melhor naquele arranjo formal, com aquelas características de composição.”

De fato. Contudo, o comentário aguçou minha análise e continuo refletindo a respeito. É a necessidade de entender, em melhores termos, a relação do nosso fazer com o espectador – aquele com quem compartimos a coautoria do nosso processo. Essa busca de clareza vem a reboque da nova montagem que começa a germinar. Tentando fazer a defesa do Teatro Polidramático para mim mesmo, pensava: se tomássemos uma das variáveis auxiliares do “poli-”, o cenário, e pegássemos dois atores escravos, vestidos de preto, invisíveis de representação, e se encarregassem da reprodução do movimento. Acompanhando apenas o desenvolvimento do cenário, sua movimentação e continuidade, teríamos dramaturgia? Não haveria uma construção temporal do dizer? Uma evolução do tempo-espaço dona de discurso, que não se bastaria em si, mas diria dessa fábula? Ela é auxiliar, não capital como a dramaturgia do ator do encenador ou do autor, que fundamenta a narrativa, mas está contida de significado sequencialmente ordenador dessa fábula, acho. É nessa perspectiva que vejo como os diferentes instrumentos dramatúrgicos congruem para o dito final. Mas, no fundo, acho que meu discurso busca apenas o reconhecimento dos diferentes instrumentos de significação que usamos para construir esse dizer – o que não deixa de ser uma grande bobagem porque eles nunca foram desconsiderados, nem por nós nem pelo público (risos). São só conjecturas que democratizo. Difícil é encontrar alguém interessado em lê-las (risos, de novo).

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Completude?

Há tempos que determino, sentencio minha permanência no teatro. Nasci com o cu para a lua e, a cada segundo de esperança de vida, a percepção de que nada é completo, e por tabela não nos completa, é definitivamente o que me toca profundamente. Essa instabilidade das emoções, dos conflitos é insuportavelmente prazeroso. Quando revolvo meus papeis, anotações, fotos, livros e textos, me exponho por completo: muita coisa ainda a fazer e nenhum obstáculo a não ser o tempo. Mas, sou forjado no planejamento estratégico e, como diz minha mãe, não há possibilidade de dar ponto sem nó. É que navegar em águas profundas exige ao menos um pouquinho de coragem... ou de insanidade. Esse teatro, não só me seduz, como também seduz meus horizontes. Há pureza somente nas ideias. Híbrido. Teatro de grupo pode ser cartesiano. Mas, o artista... esse possivelmente não.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Você sabia que...


... a Pequena Companhia de Teatro foi contemplada no Programa BNB de Cultura 2012? O projeto “A ótica da Pequena: 3 oficinas de formação” foi um dos três projetos maranhenses selecionados na categoria Artes Cênicas e reúne suas 03 principais atividades formativas. As oficinas “O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator”, “Do épico ao dramático: a transposição de gêneros como instrumento de confecção de dramaturgia” e “O que o meu corpo tem a dizer” serão ministradas em 2013 com o patrocínio do Banco do Nordeste. Além desse, o projeto “Xilogravura e o lambe-lambe no Turu”, de Cláudio Marconcine, também foi selecionado. Ao todo, apenas 13 projetos maranhenses foram contemplados.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Vamos fazer um filho

A leitura sempre me surpreenderá - qualquer que seja ela e possíveis signos utilizados. Ler é dar-se o direito de interpretar e dar sentido ao mundo. Tinha ressalvas com relação aos textos dramáticos e épicos para uma leitura. Enfadonha. Encontrei um motivo excelente para minha acertiva, nas palavras provenientes da boca de outrem. Rafael Martins, do Grupo Bagaceira de Teatro (CE): “Bem mais que representar, o ator contemporâneo precisa se sentir representado”. Bingo. Esta semana foi surpreendentemente produtiva. Sem televisão e sem internet, li dois livros e uma revista: Lesados e outras peças, de Rafael Martins (Edição do autor); Entre o chão e o tablado, de Lauande Aires (Edição do autor); e Subtexto, revista de teatro do Galpão Cine Horto (dez/2010/n. 07/MG). Percebo que cada vez mais me aproximo das dramaturgias (todas elas) produzidas na contemporaneidade pelo simples fato de dizerem algo que eu gostaria de ouvir, mesmo que seja o vazio, o desencontro, o estranhamento (falo tudo isso em função mais da forma do que do conteúdo), e que o teatro de grupo é, abissalmente, um lugar de pesquisa e de trabalho. Quem não tem nada a acrescentar, não acrescenta na mesma proporção de não contribui para a cena. É títere, somente. Se me atiram pedras, escreverei livros.

sábado, 21 de julho de 2012

São Luís não é Paris

Trôpego, torto e tonto.
Queria ter o entusiasmo de um Quaderna. Esforço-me. Busco no íntimo o alento para continuar insistindo, porém, às vezes, Sucupira me vence. Por que insistir, em um estado muito mais ignorante e miserável do que o de vinte anos atrás, quando iniciei minhas primeiras batalhas? Por que resistir, se a resistência exige um exercício aeróbico e a desistência tem o doce sabor da inércia? Sou um artista comprometido. Sempre fui. Por esse predicado acusam-me de ter nascido velho. Olho para o passado e vejo que velho fui. Sou. Se a luta fosse o elixir da vida eu rejuvenesceria a cada derrota e deixaria de ser um cavaleiro quixotesco, robustecendo minhas forças a cada tropeço, erguendo-me púbere para seguir em frente construindo realidades. Isso não acontece. Os moinhos continuam tão poderosos e intransponíveis quanto nunca, e o empenho não garante a última vitória. Trôpego, entre cascalhos, cascudos e cambas, arando vou. Obtuso, de novo? Faço teatro no Maranhão.

Prefiro mil palavras


Abuso. Bestialidade. Covardia. Demagogia. Escuridão. Fanatismo. Ganância. Humilhação. Ingratidão. Jogo. Litígio. Morte. Nada. Ostracismo. Perseguição. Poder. Queixa. Roubo. Safadeza. Tirania. Ultraje. Vergonha. Xenofobia. Zero.

X
Amizade. Bonança. Coragem. Dedicação. Esperança. Força. Grandeza. Honestidade. Imaginação. Justiça. Liberdade. Misericórdia. Nascimento. Orgasmo. Paixão. Querer. Razão. Simpatia. Trabalho. União. Vitória. Xodó. Zelo.

P.S.: Para saber mais, leia o texto Clausura, do livro Cinco Tempos em Cinco Textos, disponível para venda na vitrine deste blog.

domingo, 15 de julho de 2012

Aniversário Feliz!



A pequena companhia de teatro é acanhada na quantidade de membros: Katia-Katia, Chu, Cróvis e eu. Contudo, é viabilizada, em pensamento, prática, sonhos e cumplicidade, por nomes extraordinários. Colaboradores conscientes, cooperadores forçados, críticos atentos, financiadores discretos, amigos eternos, consultores de luxo, contribuintes inconscientes, comensais aplicados, ajudantes espontâneos, defensores ilustres, espectadores generosos. Meus nomes, para citar apenas alguns mais próximos ou com intervenções bem concretas, são: André, Morgana, Gilberto, Tony, César, Hamilton, Magal, Luciana, Norberto, Sandro, Lauande, Maria, Damásio, Isoneth, Sílvia, Deusamar, Fernando, Abimaelson, Didi, Lio, Jeyzon, Zilma, Erivelto, Remédios, Flávia, Ayrton, Josué, Noira, Pedro, Igor, Burbú, Manuel, Fábio... se continuasse, a lista se prolongaria por toda a postagem e ainda faltariam os escolhidos por meus pares. O diálogo com companhias como A Máscara, Santa Ignorância, Clowns, Cordão, A Outra, Tarará, Madalenas, etc. fortalece nosso discurso e reforça nossa prática. Sem falar na viabilização promovida por uma sopa de letrinhas: MINC, SESC, BNB, TAA, TUTTI-FRUTTI... Nomes, empresas, parceiros, pessoas, um emaranhado, uma rede tecida desordenadamente, uma lógica caótica de construção. Pessoas que, de alguma maneira, contribuem, mesmo sem saber, para que nossa arte se desenvolva. Para todos, citados ou não, meus agradecimentos. Por quê? Dia 11 de julho foi o aniversário desta pequena, sortuda e agradecida companhia de teatro .

P.S.: Se você é colaborador e se sente injustiçado, acrescente seu nome nos comentários como forma de repúdio!

sexta-feira, 13 de julho de 2012

A mão na massa

Montagem de Pai & Filho no Teatro Municipal Dr Altelino Afonso Costa em Paranavaí-PR / Junho/2012.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Público e privado

Acredito que o Estado tenha suas obrigações com a sociedade, com o trato e financiamento de questões que para mim são públicas, como a educação, as artes, a saúde, o transporte, a habitação. Na prática, meu trabalho é subsidiado pelo Estado e isso gera manifestações artísticas que são democratizadas através de apresentações gratuitas à comunidade. Contrário a isso está a iniciativa privada. Ainda tenho muitas ressalvas. Minha única experiência se resume ao Sesc, na perspectiva do Palco Giratório. Tenho outras experiências com recursos próprios, o que facilita a produção. Não há reservas quanto a isso. Existirá sempre um dilema nessa participação: até que ponto queremos ser orientados pelo Estado, por nossos próprios bolsos, ideias e vontades ou pela visão do capital? Nessas condições está o artista, sua criatividade e seu estômago. Qual é o ponto? Qual é a medida? Em crise, penso nas possibilidades da produção para por fim a projetos que começam a criar corpo em mim. Meu medo é que eles apodreçam em consonância com minha ideologia.

domingo, 8 de julho de 2012

Pai & Filho – Festivais e Mostras


Espetáculo dá nome a prato em festival

Hoje não vou cansar vocês com reflexões. Mando uma listinha com os vinte e três festivais e mostras de teatro que o espetáculo Pai & Filho já participou até aqui:

  • FestLuso 2011 – Festival de Teatro Lusófono, Teresina/PI
  • 7° Festival Palco Giratório Porto Alegre/RS
  • XVII FENTEPP – Festival Nacional de Teatro de Presidente Prudente/SP
  • II Mostra de Artes Aldeia Olhos D’água, Feira de Santana/BA
  • 53° FESTA – Festival Santista de Teatro/SP
  • Aldeia Caiuá – Mostra de Artes, Paranavaí/PR
  • XVII Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga/CE
  • 6° Festival Palco Giratório Recife/PE
  • Festival Palco Giratório Minas/MG
  • VI Festival Banco do Nordeste das Artes Cênicas, Fortaleza/CE
  • Festival Palco Giratório Fortaleza/CE
  • 18° Festival de Teatro do Rio/RJ
  • IV Festival Palco Giratório Jacarepaguá/RJ
  • 2° Festival Palco Giratório Curitiba/PR
  • VII Aldeia de Artes Povos da Floresta, Amapá/AP
  • Festival Agosto de Teatro, Natal/RN
  • Aldeia Palco Giratório Blumenau/SC
  • VI Semana do Teatro no Maranhão, São Luís/MA
  • 5ª Aldeia Palco Giratório Itajaí/SC
  • Festival Palco Giratório Cuiabá/MT
  • Aldeia Palco Giratório Tubarão/SC
  • Festival Palco Giratório São Paulo/SP
  • 5ª Mostra SESC Guajajara de Artes, São Luís/MA
 Se você ainda não viu Pai & Filho no festival da sua cidade mande o convite ou reclame para os organizadores!

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Somos únicos

Generalizar é mais prático. Dizer "a maioria" ou ainda "é exceção" dialoga muito com a facilidade em se encontrar arroz em feira. Seria senso comum? Dissenso formula mais, é mais conflituoso. Gosto dessa segmentação do pensamento: pensar distinto é formular com o outro além do senso comum, além do que se vê. Nada prático, mas não consigo perceber o público como uma massa homogênea, nem a obra de arte pensada para atingir (sic) esta ou aquela plateia/ nicho/segmento. Nosso pensamento, que se traveste de arte espetacular, é individualizado - mesmo coletiva. O sentido do coletivo é como se contribui, a partir do ser individual, a uma causa comum - no caso o teatro. Quando comentamos sobre a polifonia das dramaturgias dizemos que os indivíduos, em suas escritas, estão contribuindo com o todo. A plateia, mesmo não estando no processo - ainda não conseguimos fazer os ensaios abertos, mas há o propósito - faz parte da cena, pois reescreve, a partir do que é mostrado, seu próprio sentido. Alguém pode dormir, outro pode odiar, outro se emocionar, um outro jogar um tomate quase pobre ou meia maçã, não importa. A construção do pensamento é sempre ideológica.

domingo, 1 de julho de 2012

Viver de teatro, morrer de fome.

foto de André Lucap

Semana passada recebemos a querida visita dos Clowns de Shakespeare, que nos brindaram com o seu Ricardo III. Inevitavelmente, a passagem de um grupo como esse, desperta questionamentos que dificilmente se responderão em uma postagem. Quando olhamos para os Clowns, a relação de exceção à regra é inevitável. Depois de finalizada a segunda etapa do Palco Giratório, impressionou-me o pequeno número de companhias que garantem seu sustento através do teatro. Pensava ser uma realidade exclusivamente maranhense, contudo, foi difícil identificar grupos em que seus membros não dependessem de outras profissões para se sustentar. No mapeamento realizado pelo próprio Yamamoto no nordeste, em 2009, creio que apenas três companhias diziam se sustentar exclusivamente de teatro. É um sintoma nacional e só encontrará solução através de políticas públicas. Em longo prazo, o plano nacional de cultura é o caminho. Entretanto, a solução está em olhar o país como um todo e o cidadão como único. O teatro depende do cidadão. Este, sem educação e cultura, jamais poderá discernir entre Medeia & mídia, antissemita & cimento, anódina & adedonha, somático & sorumbático. É o cidadão que deve ser alimentado e não as estatísticas. Educação e cultura. Se o espectador não reconhecer no teatro a corporificação da sua própria história de nada servirão companhias vivendo de teatro para plateias vazias...

Você deve estar se perguntando por que reclamo tanto, se a Pequena vive ou sobrevive de teatro e Pai & Filho já passou dos seis mil espectadores – para um espetáculo que comporta em média cinquenta pessoas, não é pouca coisa. Não sei. Apenas mantenho o meu direito de questionar, me indignar e buscar caminhos para que o teatro conserve o seu poder transformador... Pensando bem, alguém pode me explicar por que reclamo tanto? Acho que minha ranhetice me diverte.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Há tempos

Pego-me pensando acerca da medida do tempo e a precariedade da vida. Assim, o primeiro interfere, sobremodo, na segunda. Dito isso, o direito de surfar por entre ondas de calor sobre uma prancha de gelo sólido e firme é bendito, como o fruto. A multiplicidade de se redefinir não nos torna superficiais, voláteis ou inconstantes. Faz parte do ser, de todas as influências que permitimos e outras tantas que atravessam o corpo sem pedir licença. Evidente que as escolhas são nossas - nem tanto, diriam alguns. Porém, nada está consumado a não ser a vontade de experimentar sempre, perceber até aonde o corpo vai e que além das nuvens tem um infinito a ser desvelado. Não que isso me assuste, tão pouco tenho o desejo de voar, ir para o espaço sideral. O que reflito é sobre a rigidez que nos condena a ficarmos ilhados em um tempo que não o de hoje. A perfeição só se estabelece no campo das ideias, e temos que conviver com nossos fracassos e os dos outros, com a inflexibilidade de conceitos e de relações, quaisquer que sejam elas. É insuportável morrer. Pior é não viver. Sinto-me assim. De posse desse pensamento quero curtir o tempo para que ele se consolide a meu favor; que o teatro que acredito possa ser aquele feito por mim; que meus beijos sejam beijos com sabor e sem; que os sexos sejam rijos, flácidos, tântricos; que os olhos possam descortinar o óbvio - sempre e quase sempre; que as plateias sejam mais do que cadeiras vermelhas, podendo ser de outras cores e sons - aplausos, vaias... Essa percepção daquilo que se solidifica em mim deve ser para reafirmar o ser que acredito. Quero estar aberto às estações num Estado que inexiste além de duas e me sufocar com um sorriso ardente nos lábios, mesmo que esse esconda a insatisfação das rugas nada tardias. 

domingo, 24 de junho de 2012

A realidade é pior que a queda


Se um ser de outra espécie caísse na terra e visse que os homens deixam suas sobras para que outros homens se alimentem delas, diria que a natureza da espécie humana é generosa. A verdade é que possuímos mais do que podemos usar, cozinhamos mais do que podemos comer, compramos mais do que podemos vestir... É o que responde o ser humano ao ser alado, em Velhos Caem do Céu como Canivetes. Somos uma espécie rara. Passamos da generosidade à violência em questão de segundos. Esse mesmo ser alado indaga nosso anti-herói quanto a sua falta de ideais. Nós, humanos que somos, sabemos muito bem que essa palavra deixou de existir, ficando para nós – agora artistas – o armazenamento museológico desse conceito. Não há por que lutar, há? O artista – que é humano, mas parece não ser deste planeta – vive entre a esperança e a desesperança. Acredita no homem, o vê padecer, e sofre por ele. Talvez somente uma estirpe de seres alados e sábios possam tomar conta do mundo e resolver o problema...  Se um ser pensante caísse na terra teríamos trabalho para explicar o que somos, no quê nos transformamos e como convivemos com isso.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Autoexílio

Entressafra e hiato são vocábulos presentes em minha vida, pois defini ciclos para ela. Assim, iniciam-se vários em vários momentos e começam outros em outros tantos... instantes. Meu processo criativo está escasso como absolutamente tudo. Lembro que esqueci outra palavra que repercute em mim: anestesia. Não que o exílio sirva para reflexão ou algo semelhante, é mero estado de não-estar-e-nada-fazer, sem preocupações com absolutamente nada. Formalizar palavras para uma postagem nunca foi tão desafiador. É que me sinto em férias pela primeira vez em 43 anos - acho que já me utilizei desse subterfúgio. Respirar e defecar são ações diárias que penso nesses tempos de distância do trabalho, do intelecto, dos pares. Desejo de pensar um pouco mais sobre minhas angústias de ator, mesmo sabendo que um joelho me sobra para fazer companhia a um diagnóstico que só se revela na segunda. Nem coragem (sic) para abrir uma garrafa de vinho tenho. Pensar em arte é perceber-me um tanto distante do tempo para compor pensamentos... e obras. Quase um diletante.

sábado, 16 de junho de 2012

Arte & perfumaria


A verdadeira arte não abre concessões. Não negocia. É intransigente. Para conseguir esse estágio de excelência é necessário um profissionalismo engajado. Disciplina, rigor, pontualidade, seriedade, comprometimento. Teoricamente, uma obra de arte deveria ser avaliada pelo seu resultado artístico e, em alguns casos, pelos caminhos até o parto. Infelizmente a realidade nem sempre é essa. Vinculado à arte, e em um círculo vicioso, estão os conchavos, as amizades, a competência das curadorias, as simpatias, as manipulações, os críticos e seus interesses, a mídia, os mecanismos de coação, os alinhamentos ideológicos, as gratidões, o policiamento comportamental, as negociatas, as relações de poder, os despropósitos dos que detêm esse poder, e nem sempre a projeção de uma obra está relacionada com a sua qualidade artística. Ontem, hoje e sempre. É um problema basilar. Origina-se na forma como nos relacionamos com a arte: nunca me interessou saber se Nelson Rodrigues era reacionário ou se Wilde um dândi. No momento da fruição isso não me preocupa. Não me importa saber se o autor é gente boa. Seja no teatro ou na literatura. Na música ou nas artes visuais. Estou cansando de ouvir elogios para os amigos e críticas para os desafetos. A arte exige e merece respeito. Respeitemos. Estou sendo obtuso?
Viva Dalton Trevisan!

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Palco Giratório – Fim da 2ª Jornada


Semanalmente mando um e-mail para os contatos da minha caixa postal divulgando a temática da semana. Com a maioria já me marcou como lixo eletrônico, meu esforço em ser duas vezes criativo (e-mail e postagem) tem sido em vão (risos). Mesmo assim, não me entrego. Estamos de volta a São Luís, depois da 2ª Jornada do projeto Palco Giratório. Paraná e Santa Catarina para um Pai & um Filho que completam seu passeio pela região sul do país. É a primeira região visitada na íntegra; estivemos nos três estados e ainda voltaremos em outra jornada para Curitiba – PR, Rio do Sul – SC, Chapecó – SC e Lages – SC. Da região nordeste ainda nos falta o Sergipe e a Paraíba, porém, ficaremos na vontade porque não temos previsão de visita. Da região sudeste falta apenas Minas Gerais, que visitaremos em agosto, só Belo Horizonte. Também estaremos em São Paulo, mas já o visitamos em duas ocasiões anteriores. Na região centro-oeste e na região norte ficarão as maiores vontades, pois da primeira só visitamos o Mato Grosso, e da segunda estivemos no Pará, Tocantins e Amapá – Rondônia nos espera em novembro. Goiás, Mato Grosso do Sul, Amazonas, Roraima e Acre completam a lista dos pouquíssimos estados que nos faltará visitar quando o ano acabar, além do Distrito Federal. Estar em todas as regiões do país com um espetáculo de teatro maranhense não é lá uma coisa corriqueira. Como diria o pai: Graças! ... ao Myriam Muniz 2010 e 2011, ao Palco Giratório e aos vinte festivais e mostras por onde o espetáculo Pai & Filho se apresentou até aqui. Vida longa é não morrer de véspera!

sexta-feira, 8 de junho de 2012

A palavra é arrogância

Mas, poderia ser também coragem, personalidade, orgulho. 
No teatro temos uma certa dificuldade em comentar os espetáculos dos outros por medo de magoá-los. Na vida, quando recebemos um elogio, comumente agradecemos com uma pitada de modéstia, como se fosse pecado ser valorizado. Tratamos alguns como coitados e não temos coragem de assumir o nosso teatro. Quando o fazemos, os outros é que se sentem despreparados e nos rotulam ou se distanciam. O que não sabem, os tolos, é que o que nos identifica é o orgulho que temos do teatro que queremos, e do resultado obtido, tanto em cena quanto na longevidade das encenações. Verbalizar nossa árdua tarefa em sermos felizes diariamente fazendo teatro, de forma profissional, e exigindo profissionalismo daqueles que se propõem a dialogar conosco é algo natural numa companhia que busca a excelência em suas produções. 

Sabemos o que queremos e por isso fazemos, e temos orgulho disso, e não nos cegamos. Ao contrário, estamos lúcidos o suficiente para nos mantermos íntegros, inteiros e generosos criativamente. 

segunda-feira, 4 de junho de 2012

2ªJornada

Após uma brevíssima pausa em São Luís, já iniciamos a segunda jornada da nossa circulação pelo projeto Palco Giratório patrocinado pelo SESC. Estamos em Blumenau – a Alemanha tropical – e a jornada prossegue pelas cidades catarinenses de Itajaí e Tubarão, e a paranaense Paranavaí. Quatro apresentações e uma oficina. Já somamos dezesseis estados visitados desde a estreia. Aqui, salsicha, chucrute, batata e o palco do teatro Carlos Gomes. Pai & Filho apresentado com boa dinâmica para um público receptivo e caloroso. O debate é sempre um momento à parte: perguntas, reflexões, elogios, e o relógio nos surpreende com a desmontagem por vir. Veio. Mais salsicha, mais batata, mais mostarda, um chope e hotel. Uma sensação de satisfação invade os quatro – deve ser o tamanho da cama que nos espera.

sábado, 26 de maio de 2012

O gênio detrás da máscara


Por detrás das nossas máscaras, que se expõem nas apresentações, nos debates, nas oficinas, nas entrevistas, nas postagens e fotos deste blog, há uma pessoa desprovida de vaidade artística, que pouco aparece, e que segura todas as nossas rebordoses com paciência de Jô. É membro fundador da pequena companhia de teatro, mesmo sem nunca ter pretendido pisar num palco. Uma figura que acredita mais que todos nós – muito antes do espetáculo Pai & Filho ser defendido no Palco Giratório ela já o dava por contemplado. Única mulher numa trinca de homens chatos, marrentos, maníacos, mimados e machistas – qualidades não necessariamente cabíveis aos três simultaneamente. Com serenidade, ela mata um leão, desossa a carne para o lanche e faz da pele um belíssimo casaco, sem desmanchar o penteado. Convivo com ela há dezesseis anos e jamais me negou uma resposta, mesmo que a pergunta laboral ocorresse na cama, às quatro da manhã, depois de já estar dormindo. Quando digo que o quadro da nossa companhia é um dos mais perfeitos é porque contém uma produtora competente. Sou suspeito para falar, mas falo porque, coincidentemente, estamos no Rio de Janeiro, cidade que viu esta pessoa crescer e onde se encontra parte da sua estimada família. É para isso, para que essa família possa sentir orgulho dessa mulher que põe nos trilhos esta pequena máquina de sonhos. Seu nome é Katia Lopes – como se vocês não soubessem (risos).

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Primeira bateria


Oh, que belos companheiros! Como brincam tão ligeiros. Se és covarde, saias da mesa, que a unidade é popular. Primeira bateria: companheiro, vira! Vira, vira, vira, virou!

E termina a primeira jornada do Palco Giratório do Sesc. Retorno a São Luís para uma semana numa cidade que está parada. Vamos engordar o coro dos grevistas, desfazer as malas, limpar a poeira, dormir, namorar, festejar, celebrar. 

Muitas inquietações, nenhuma dúvida, angústias anestesiadas. O tempo está ótimo para fecundar a terra. Pronto para o gozo.

domingo, 20 de maio de 2012

Oito estados, dezesseis cidades e uma certeza


O fim da primeira jornada pelo Palco Giratório se aproxima. O interior do Rio Grande do Sul deixou sua marca em nossos corações – o clima, a comida, a gentiliza das pessoas, as boas apresentações, os teatros. Em Cuiabá, o encontro com o amigo Sandro Lucose que nos levou ao Choppão: a inédita experiência de comer sopa até não poder mais. Feira de Santana foi a única baiana. Em Recife a hilária descoberta de André Macambira, e o Murilo nos apresenta um Brennand monumental e provocador. Vitória vem à mente no abraço de Jadna, Marcelo e Matheus e a possibilidade de mostrar Pai & Filho para amigos distantes. Em Jacarepaguá uma plateia surpreendentemente madura formada por alunos do ESEM. Macapá e o primeiro encontro com o gigante Amazonas – um rio que é um mar. Das Alagoas e de Fortaleza já falei antes, não com menor atenção. Oficinas, pensamentos, espetáculos, debates, detalhes. Detalhes muitos, que ficam. A caótica rotina de circular me seduz, me agrada, me encanta. Tudo é existência. Ermitão que sou, em viagem tudo muda. Me transformo sem querer me transformar. É desejo de ser. É o que sou. Artista. Um artista. Sou artista. É o que escrevo no meu check-in.

Montagem do cenário da peça Pai & Filho em Recife, Pernambuco. Projeto Palco Giratório 2012. Teatro Marco Camarotti - SESC Santo Amaro

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Tudo é novidade

Contrariando a máxima do eterno retorno, ultimamente tenho me encontrado em estado de novidade permanente: teatros, público, sentimentos de saudade, desejo, solidão, aeroportos, ritmo, comidas, ausência de determinados tipos de comida. 

Estou em contagem regressiva para retornar a São Luís e organizar determinadas coisas, tentar voltar a uma rotina mesmo sabendo que a duração é somente de 7 dias - pensei ser mais - para que retornemos aos ares em mais uma etapa do Palco Giratório.
Não há queixas, só constatação de questões que fluem a partir dessa distância do cotidiano, do conforto das escolhas diárias, mesmo sabendo que tudo não passa de pose e da ausência de sexo.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Ora, ora

“Arte minha, que está nos palcos,
 Santificai o meu nome.
 Venha a mim o vosso reino.
Seja feita a minha vontade
Assim na terra, como no céu.
O teatro meu de cada dia dai-vos hoje:
Celebrai as minhas virtudes,
Assim como tens ignorado meus truques
Em não cair na tentação e em livrar-me do mal.
Amém-me,
Uns e outros.”
Mantra do Antro de Egos. Conhecem?

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Rotina

Numa rotina é mister ser religioso: hora para dormir, comer, acordar, fazer atividade física, ler. Quando se viaja essa rotina inexiste: há uma outra dinâmica - além de mudança de fuso horário - que faz o organismo perder suas referências, o que conduz a uma alteração em seu funcionamento: intestino, sistema imunológico, fadiga, cansaço. 
Foto de Paulo Medeiros (aquecimento em Teotônio Vilela - AL)
A condução de nosso processo antes de irmos para a cena exige uma preparação de 2 horas, sendo que a primeira equivale a um alongamento sistematizado por Marcelo F., seguido de um aquecimento por contato, livre, verbalizando todo o texto do espetáculo. Esse aquecimento oscila entre movimentos aeróbios e anaeróbios. 

Com essa sistematização, queremos dar às apresentações um certo caráter de refinamento e apuro, para que a verdade e a organicidade sejam próximas, semelhantes, entre todas as apresentações. Depois desse processo temos o visagismo, a origem das personagens (15 minutos) e a espera por detrás da porta. 

Nas viagens iniciais da Pequena Companhia de Teatro através do Palco Giratório, percebemos que as apresentações têm oscilado muito nessa verdade, nessa organicidade. Nas duas últimas apresentações tenho buscado alterar esse aquecimento, acrescentando alguns exercícios anaeróbios ao final da série. Percebo, nessas circunstâncias atípicas, que o alongamento tão próximo assim das apresentações mais atrapalha que ajuda e acrescentando a minha virose, o resultado beira a catástrofe.

Muitos fatores alteram nossa performance, como o espaço, a entrada do público, a demora em começar a sessão e o ato de ressonar ou não antes da apresentações. 

As pistas estão à mostra. Exigem resposta.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Teatro brasileiro

Dormia. Enquanto dormia pensava. Estou em Cuiabá. Não no sonho, realmente estou na capital do Mato Grosso. Estamos. Na noite anterior haviamos visto o espetáculo Cabaré, da Cia. de Teatro Faces, de Primavera do Leste. Pensava na pluralidade e nas diferenças do nosso teatro. Do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul fazemos teatro de maneiras tão diversas e tão distantes que é difícil compreender e organizar tamanhas diferenças em um único país. Sem perceber, vemos espetáculos de outros estados com distanciamento e sem a menor sensação de pertencimento. Esse teatro é nosso, é brasileiro. O teatro feito no Pará ou no Paraná me pertence, é meu, diz do meu país, de um país continental que mal percebe a sua grandeza. É isso que estão lendo: ufanismo puro. Porém, na maioria das vezes, olhamos para muitas produções de outras regiões com desprezo, desdém e preconceito, obstruindo a possibilidade de compreender que fazem parte de nós, de um total brasileiro de somas, de um ser maior e antropologicamente construído de partes. É claro que não há uma unidade, nem deveria. Somos a somatória de nossas diferenças e não estamos imunes. Vemos o que somos, e se vemos com um olhar imperfeito, revelamos toda a nossa imperfeição.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Quebre a perna

Quando estava com Entrelaços, quebrei literalmente a perna em Imperatriz. Tivemos que desistir da apresentação em São Luís, se não me engano, na Mostra Guajajara. Acabamos nos apresentando no ano seguinte. Hoje, estamos em circulação com Pai & Filho pelo Palco Giratório, promovido/realizado pelo Sesc. Como quebrar a perna?
Ator é de carne e osso. Mesmo que detenha uma técnica primorosa, ele é falho porque é humano. Assim, adoeci em Santa Maria - RS - uma virose - e me pus à cena. O resultado foi a insatisfação de perceber-me... humano e... falho. A sensação de dever não cumprido, de incapacidade de fazer o que se sabe e o que se quer e deseja, como se o corpo não quisesse ou pudesse agir conforme os comandos do cérebro era visível e risível. Somos estúpidos em querer a perfeição em algo tão volátil quanto a vida, quanto o teatro. A insatisfação, por vezes, suplanta e sobrepõe-se ao prazer do ofício. Em um universo de competições, perder é sempre mais enriquecedor se comparado ao ganhar. Em um mundo de celebração, o fato de se mostrar como se é já seria garantia de reconhecimento. 

Amanhã, apresentação em Porto... não tão alegre. Muita merda para mim!

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Inominável


Uma circulação é construída por nomes. Toda sigla esconde nomes. Qualquer empresa, empreitada, empreendimento se sustenta com um infindável número de nomes que de anônimos não têm nada.  Nossa jornada, promovida pelo SESC, vem sendo banhada por um sem-número de pessoas de carne, ossos, simpatia, elegância, gentileza, competência e atenção. São as pessoas que constroem entidades, associações e companhias. Nomes próprios: Isoneth, Remédios, Dani de Jade, Marina, Gisele, Yássara, Fabrício, Seu João, Bruno, Rita, Maxwell, Luciene, Rosana, Igor, Marcelo, Nilton, Fátima, Colete, Wiliam, Rafaela, André, Mariana, Gabriela, Viviane, Débora, Miguel, Anderson, Seu Pedro, Gabriel, Andressa, Cesário, Râmisse, Seu Lima... Todos os nossos passos dependem de nomes. Toda a nossa vida depende de nomes. Basta citar algum para que a imagem volte à mente, como o sorriso largo do Fabrício, as histórias de Seu João, as sugestões gastronômicas do Seu Pedro ou o último jantar com Cesário e Râmisse – para mencionar aqueles com quem tivemos mais contato até aqui, sem provocar ciúmes (risos). Busquemos os nomes por detrás das siglas para não nos perdermos na desumana burocracia.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Palmeira dos Índios - AL


A palavra pequena no cotidiano exerce diversos significados, com objetivos de menosprezar, diminuir e limitar o espaço. Mas quando sentimos essa palavra através do teatro, em especial, a Pequena Companhia de Teatro, a palavra ganha uma expansão no seu sentido oposto, além de um espetáculo de encher os olhos, traz conteúdos e processos imprescindíveis na formação do ator. A oficina ministrada em Palmeira para nossa Cia. não só enriqueceu o grupo, como estreitou laços socioculturais, pois o palco Giratório em seus 15 anos tem democratizado o acesso às artes cênicas em todo o Brasil e levado oficinas de aperfeiçoamento e desenvolvimento do ator. Na oficina da Pequena Companhia de Teatro, conseguimos perceber um processo prático e funcional, que resultou de muito estudo e analise, por parte dos atores da companhia. E como diz o Dramaturgo/Diretor/Encenador Marcelo Flecha: “O ator criativo é aquele que busca o domínio de seu corpo, pois quem comanda a personagem não é o diretor, mas sim, o ator”.
 
Estes ensinamentos trazidos pela Pequena Companhia através do Palco Giratório, fazem com que nossos atores percebam a importância do corpo quando se faz teatro, porque o corpo não é um mero objeto ou instrumento do ator, ele tem vida própria e memória. O trabalho da Pequena Companhia de Teatro não é diferente das outras companhias do estado. É lógico que tem suas peculiaridades, o que serve para mostrar o potencial dos grupos do nordeste e incentivar os trabalhos dos grupos de Alagoas. Sendo assim, o que esperamos é que o SESC continue cumprindo com seu trabalho sociocultural, mobilizando, articulando, incluindo e democratizando as artes cênicas com esse importante projeto que é o Palco Giratório.

Marcone Correia
Ator e Diretor da Cia. Mestres da Graça

Nas ondas

Cláudio Marconcine e Fabrício Barros entrevistados na Rádio 96 FM em Arapiraca, Alagoas. Palco Giratório, abril de 2012.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Eterno retorno

Gosto de escolhas. Sempre me apareceram em profusão as oportunidades para refletir e selecionar as que me eram possíveis e desejosas. Sou o acúmulo disso. A maturidade reformula e me faz ver aprofundadamente o que se manifesta e o que ainda está encoberto. Há um revisitar importante que me move. Sinto-me crível frente às minhas inquietações criativas. Pululam buscando uma nesga de espaço no tempo que se configura curto demais para uma noite. Meus dias são noites em profusão. Sinto-me de volta à casa dos velhos.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Resumo alagoano

O passeio pelo estado das Alagoas continua. Em Teotônio Vilela, casa lotada para Pai & Filho e a oficina “Do épico ao dramático: a transposição de gêneros como instrumento de confecção de dramaturgia”. A vida se faz de experiências. Cada encontro possibilita novas reflexões. Creio que, mostrando nosso caminho, contribuímos de alguma forma para o desenvolvimento de novos coletivos ou para o amadurecimento de outros. Em Palmeira dos Índios, a oficina foi a do Quadro de Antagônicos (bastante citada aqui no blog) e o espetáculo também foi recebido com casa cheia, além de alguns sapos, pássaros e mosquitos – a adaptabilidade de Pai & Filho nos surpreende a cada espaço. As pessoas gostam muito do espetáculo. Fica evidente em todos os debates que promovemos ao término de cada apresentação. É inevitável que isso provoque uma sensação de satisfação, de orgulho, de contentamento. Fazemos teatro e pessoas se predispõem a assistir. Fazemos teatro e somos recebidos com afeto. Fazemos teatro e é o nosso trabalho. Vinte anos atrás essa realidade era inimaginável. Amanhã Arapiraca nos espera. Nós esperamos muito tempo por tudo isto.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Subestimar e superestimar

Duas qualidades muito difíceis de lidar. Por um lado é recorrente subestimar a quantidade e qualidade do público em/de teatro. Por outro, é audível a verbalização de atores que, ao afagarem seus egos, superestimam suas habilidades no palco. Quando refletimos acerca disso, percebemos o quanto nosso senso de realidade é relativizado. A problematização aponta para a variabilidade de conceitos a partir da perspectiva de que realidade equivale a verdade, e ambas não são absolutas. Há espaço para a abstração não na forma, mas na recepção. Isso ocorre, principalmente, quando a realidade coletivizada - parto da premissa da vida em comum, algo que une as pessoas num tempo e espaço, na forma de cultivo, de culto... - inexiste para aqueles que circulam, que se distanciam dos seus pares, do seu microcosmo. Tenho 1.76 de altura. No Maranhão sou considerado alto; em São Paulo, não. 

O corpo tem memória, há a recuperação de informações importantes para a composição da personagem em cada apresentação, mas ele também é falho, caduca, fica doente. O teatro deve se proteger dessas armadilhas. Elas existem e nos fazem pessoas menos corretas, mais arrogantes. Teatro tem o dever de aproximar as pessoas, numa espécie de recuperação do rito. Na contemporaneidade a distância entre os seres já é enormemente grandiosa. Não carece de reforço.




quarta-feira, 11 de abril de 2012

Que teatro queremos?

Desejos são múltiplos. Difícil o ser querer algo, conseguir e se satisfazer. Não é do humano essa satisfação plena. O contrário disso o é. Quatro seres diferentes se encontram e buscam fazer um teatro possível. Dentro das diferenças existem igualdades, pois se não o fosse, não estaríamos nesta jornada. Mas, esse dizer não é eterno. Tudo é factual. 

Marcelo F. já havia comentado sobre essa necessidade de circular, ver outras experiências, dialogar com elas. É grandioso o retorno que temos, enquanto seres, quando nos deparamos com as experiências de outros grupos e refletimos sobre o nosso fazer. 

A cada dia percebo que algumas fases são necessárias para termos qualidade na execução de nossos desejos, do teatro que queremos. Aglutinar energias na perspectiva do quê e do como dizer são essenciais para o início da jornada. O mesmo ideal e o foco, a exigência para com esse compromisso e responsabilidade com essas perspectivas são o gancho para o que virá. Distante da fama e da fortuna, o reconhecimento do seu trabalho, do que você faz e seu reconhecimento nele, determinam a qualidade do seu prazer em satisfazer um seu desejo inicial. A plenitude não existe. Nos sobra a dignidade do fazer.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Feliz aniversário!

E o palco girou. Em Fortaleza, a apresentação inaugural da nossa circulação promovida pelo SESC, no teatro Emiliano Queiroz. Bom começo. A apresentação fluiu com energia e o público foi receptivo e atento às agruras do pai e aos sarcasmos do filho. Hoje, em Maceió, entregues à simpatia e gentileza de Fabrício e Seu João, com quem circularemos em caravana por Teotônio Vilela, Palmeira dos Índios e Arapiraca, cidades do interior das Alagoas. Porém, tudo começou com a apresentação de Pai & Filho aqui, na capital. Casa lotada, público generoso e uma apresentação sólida, contundente e cuidada. O recorte especial é para o debate: é muito bom falar do nosso processo para pessoas verdadeiramente interessadas em compreender como se desenvolveu o espetáculo – miudezas e detalhes que dão tanto trabalho e dos quais poucas vezes falamos.  Agora, passada a meia-noite, comemoramos, com cerveja, conversa e cansaço, o aniversário de dois anos da estreia de Pai & Filho. Na estrada!

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Zilef

Se felicidade existe, estou bem perto dela. Duas apresentações de Pai & Filho no VI Festival BNB de Artes Cênicas no dia 30, lançamento do Palco Giratório no dia 31 e hoje, em Canoa Quebrada, recebidos pelos queridos Fábio (meu primo) e Ana, o encontro com as amigas Tony, Luciana e Angélica num saboroso passeio pela permacultura promovido pelo casal anfitrião. Preparação para a jornada que começa: Fortaleza > Maceió > Teotônio Vilela > Palmeira dos Índios > Arapiraca > Vitória > Rio de Janeiro > Caxias do Sul > Passo Fundo > Ijuí > Santa Maria > Porto Alegre > Cuiabá > Rio de Janeiro > Feira de Santana > Recife > Macapá > Rio de Janeiro. Basta? É o que tem pra hoje.