Pego-me pensando acerca da medida do tempo e a precariedade da vida. Assim, o primeiro interfere, sobremodo, na segunda. Dito isso, o direito de surfar por entre ondas de calor sobre uma prancha de gelo sólido e firme é bendito, como o fruto. A multiplicidade de se redefinir não nos torna superficiais, voláteis ou inconstantes. Faz parte do ser, de todas as influências que permitimos e outras tantas que atravessam o corpo sem pedir licença. Evidente que as escolhas são nossas - nem tanto, diriam alguns. Porém, nada está consumado a não ser a vontade de experimentar sempre, perceber até aonde o corpo vai e que além das nuvens tem um infinito a ser desvelado. Não que isso me assuste, tão pouco tenho o desejo de voar, ir para o espaço sideral. O que reflito é sobre a rigidez que nos condena a ficarmos ilhados em um tempo que não o de hoje. A perfeição só se estabelece no campo das ideias, e temos que conviver com nossos fracassos e os dos outros, com a inflexibilidade de conceitos e de relações, quaisquer que sejam elas. É insuportável morrer. Pior é não viver. Sinto-me assim. De posse desse pensamento quero curtir o tempo para que ele se consolide a meu favor; que o teatro que acredito possa ser aquele feito por mim; que meus beijos sejam beijos com sabor e sem; que os sexos sejam rijos, flácidos, tântricos; que os olhos possam descortinar o óbvio - sempre e quase sempre; que as plateias sejam mais do que cadeiras vermelhas, podendo ser de outras cores e sons - aplausos, vaias... Essa percepção daquilo que se solidifica em mim deve ser para reafirmar o ser que acredito. Quero estar aberto às estações num Estado que inexiste além de duas e me sufocar com um sorriso ardente nos lábios, mesmo que esse esconda a insatisfação das rugas nada tardias.
quinta-feira, 28 de junho de 2012
domingo, 24 de junho de 2012
A realidade é pior que a queda
Se um ser de outra espécie caísse na
terra e visse que os homens deixam suas sobras para que outros homens se alimentem
delas, diria que a natureza da espécie humana é generosa. A verdade é que possuímos
mais do que podemos usar, cozinhamos mais do que podemos comer, compramos mais
do que podemos vestir... É o que responde o ser humano ao ser alado, em Velhos Caem do Céu como Canivetes. Somos uma espécie rara. Passamos da generosidade à
violência em questão de segundos. Esse mesmo ser alado indaga nosso anti-herói quanto
a sua falta de ideais. Nós, humanos que somos, sabemos muito bem que essa
palavra deixou de existir, ficando para nós – agora artistas – o armazenamento
museológico desse conceito. Não há por que lutar, há? O artista – que é humano,
mas parece não ser deste planeta – vive entre a esperança e a desesperança.
Acredita no homem, o vê padecer, e sofre por ele. Talvez somente uma estirpe de
seres alados e sábios possam tomar conta do mundo e resolver o problema... Se um ser pensante caísse na terra teríamos trabalho
para explicar o que somos, no quê nos transformamos e como convivemos com isso.
quinta-feira, 21 de junho de 2012
Autoexílio
Entressafra e hiato são vocábulos presentes em minha vida, pois defini ciclos para ela. Assim, iniciam-se vários em vários momentos e começam outros em outros tantos... instantes. Meu processo criativo está escasso como absolutamente tudo. Lembro que esqueci outra palavra que repercute em mim: anestesia. Não que o exílio sirva para reflexão ou algo semelhante, é mero estado de não-estar-e-nada-fazer, sem preocupações com absolutamente nada. Formalizar palavras para uma postagem nunca foi tão desafiador. É que me sinto em férias pela primeira vez em 43 anos - acho que já me utilizei desse subterfúgio. Respirar e defecar são ações diárias que penso nesses tempos de distância do trabalho, do intelecto, dos pares. Desejo de pensar um pouco mais sobre minhas angústias de ator, mesmo sabendo que um joelho me sobra para fazer companhia a um diagnóstico que só se revela na segunda. Nem coragem (sic) para abrir uma garrafa de vinho tenho. Pensar em arte é perceber-me um tanto distante do tempo para compor pensamentos... e obras. Quase um diletante.
sábado, 16 de junho de 2012
Arte & perfumaria
A
verdadeira arte não abre concessões. Não negocia. É intransigente. Para
conseguir esse estágio de excelência é necessário um profissionalismo engajado.
Disciplina, rigor, pontualidade, seriedade, comprometimento. Teoricamente, uma
obra de arte deveria ser avaliada pelo seu resultado artístico e, em alguns
casos, pelos caminhos até o parto. Infelizmente a realidade nem sempre é essa.
Vinculado à arte, e em um círculo vicioso, estão os conchavos, as amizades, a competência
das curadorias, as simpatias, as manipulações, os críticos e seus interesses, a
mídia, os mecanismos de coação, os alinhamentos ideológicos, as gratidões, o
policiamento comportamental, as negociatas, as relações de poder, os
despropósitos dos que detêm esse poder, e nem sempre a projeção de uma obra
está relacionada com a sua qualidade artística. Ontem, hoje e sempre. É um
problema basilar. Origina-se na forma como nos relacionamos com a arte: nunca
me interessou saber se Nelson Rodrigues era reacionário ou se Wilde um dândi.
No momento da fruição isso não me preocupa. Não me importa saber se o autor é
gente boa. Seja no teatro ou na literatura. Na música ou nas artes visuais. Estou
cansando de ouvir elogios para os amigos e críticas para os desafetos. A arte
exige e merece respeito. Respeitemos. Estou sendo obtuso?
Viva Dalton Trevisan!
segunda-feira, 11 de junho de 2012
Palco Giratório – Fim da 2ª Jornada
Semanalmente
mando um e-mail para os contatos da minha caixa postal divulgando a temática da
semana. Com a maioria já me marcou como lixo eletrônico, meu esforço em ser
duas vezes criativo (e-mail e postagem) tem sido em vão (risos). Mesmo assim,
não me entrego. Estamos de volta a São Luís, depois da 2ª Jornada do projeto
Palco Giratório. Paraná e Santa Catarina para um Pai & um Filho que
completam seu passeio pela região sul do país. É a primeira região visitada na
íntegra; estivemos nos três estados e ainda voltaremos em outra jornada para Curitiba
– PR, Rio do Sul – SC, Chapecó – SC e Lages – SC. Da região nordeste ainda nos
falta o Sergipe e a Paraíba, porém, ficaremos na vontade porque não temos
previsão de visita. Da região sudeste falta apenas Minas Gerais, que visitaremos
em agosto, só Belo Horizonte. Também estaremos em São Paulo, mas já o visitamos
em duas ocasiões anteriores. Na região centro-oeste e na região norte ficarão as
maiores vontades, pois da primeira só visitamos o Mato Grosso, e da segunda estivemos
no Pará, Tocantins e Amapá – Rondônia nos espera em novembro. Goiás, Mato
Grosso do Sul, Amazonas, Roraima e Acre completam a lista dos pouquíssimos
estados que nos faltará visitar quando o ano acabar, além do Distrito Federal. Estar
em todas as regiões do país com um espetáculo de teatro maranhense não é lá uma
coisa corriqueira. Como diria o pai: Graças! ... ao Myriam Muniz 2010 e 2011,
ao Palco Giratório e aos vinte festivais e mostras por onde o espetáculo Pai
& Filho se apresentou até aqui. Vida longa é não morrer de véspera!
sexta-feira, 8 de junho de 2012
A palavra é arrogância
Mas, poderia ser também coragem, personalidade, orgulho.
No teatro temos uma certa dificuldade em comentar os espetáculos dos outros por medo de magoá-los. Na vida, quando recebemos um elogio, comumente agradecemos com uma pitada de modéstia, como se fosse pecado ser valorizado. Tratamos alguns como coitados e não temos coragem de assumir o nosso teatro. Quando o fazemos, os outros é que se sentem despreparados e nos rotulam ou se distanciam. O que não sabem, os tolos, é que o que nos identifica é o orgulho que temos do teatro que queremos, e do resultado obtido, tanto em cena quanto na longevidade das encenações. Verbalizar nossa árdua tarefa em sermos felizes diariamente fazendo teatro, de forma profissional, e exigindo profissionalismo daqueles que se propõem a dialogar conosco é algo natural numa companhia que busca a excelência em suas produções.
Sabemos o que queremos e por isso fazemos, e temos orgulho disso, e não nos cegamos. Ao contrário, estamos lúcidos o suficiente para nos mantermos íntegros, inteiros e generosos criativamente.
segunda-feira, 4 de junho de 2012
2ªJornada
Após
uma brevíssima pausa em São Luís, já iniciamos a segunda jornada da nossa
circulação pelo projeto Palco Giratório patrocinado pelo SESC. Estamos em
Blumenau – a Alemanha tropical – e a jornada prossegue pelas cidades
catarinenses de Itajaí e Tubarão, e a paranaense Paranavaí. Quatro
apresentações e uma oficina. Já somamos dezesseis estados visitados desde a estreia. Aqui, salsicha, chucrute, batata e o palco do
teatro Carlos Gomes. Pai & Filho apresentado com boa dinâmica para um
público receptivo e caloroso. O debate é sempre um momento à parte: perguntas,
reflexões, elogios, e o relógio nos surpreende com a desmontagem por vir. Veio.
Mais salsicha, mais batata, mais mostarda, um chope e hotel. Uma sensação de
satisfação invade os quatro – deve ser o tamanho da cama que nos espera.
sábado, 26 de maio de 2012
O gênio detrás da máscara
Por detrás das nossas máscaras, que se expõem nas apresentações, nos debates, nas oficinas, nas entrevistas, nas postagens e fotos deste blog, há uma pessoa desprovida de vaidade artística, que pouco aparece, e que segura todas as nossas rebordoses com paciência de Jô. É membro fundador da pequena companhia de teatro, mesmo sem nunca ter pretendido pisar num palco. Uma figura que acredita mais que todos nós – muito antes do espetáculo Pai & Filho ser defendido no Palco Giratório ela já o dava por contemplado. Única mulher numa trinca de homens chatos, marrentos, maníacos, mimados e machistas – qualidades não necessariamente cabíveis aos três simultaneamente. Com serenidade, ela mata um leão, desossa a carne para o lanche e faz da pele um belíssimo casaco, sem desmanchar o penteado. Convivo com ela há dezesseis anos e jamais me negou uma resposta, mesmo que a pergunta laboral ocorresse na cama, às quatro da manhã, depois de já estar dormindo. Quando digo que o quadro da nossa companhia é um dos mais perfeitos é porque contém uma produtora competente. Sou suspeito para falar, mas falo porque, coincidentemente, estamos no Rio de Janeiro, cidade que viu esta pessoa crescer e onde se encontra parte da sua estimada família. É para isso, para que essa família possa sentir orgulho dessa mulher que põe nos trilhos esta pequena máquina de sonhos. Seu nome é Katia Lopes – como se vocês não soubessem (risos).
sexta-feira, 25 de maio de 2012
Primeira bateria
Oh, que belos companheiros! Como brincam tão ligeiros. Se és covarde, saias da mesa, que a unidade é popular. Primeira bateria: companheiro, vira! Vira, vira, vira, virou!
E termina a primeira jornada do Palco Giratório do Sesc. Retorno a São Luís para uma semana numa cidade que está parada. Vamos engordar o coro dos grevistas, desfazer as malas, limpar a poeira, dormir, namorar, festejar, celebrar.
Muitas inquietações, nenhuma dúvida, angústias anestesiadas. O tempo está ótimo para fecundar a terra. Pronto para o gozo.
domingo, 20 de maio de 2012
Oito estados, dezesseis cidades e uma certeza
O
fim da primeira jornada pelo Palco Giratório se aproxima. O interior do Rio
Grande do Sul deixou sua marca em nossos corações – o clima, a comida, a
gentiliza das pessoas, as boas apresentações, os teatros. Em Cuiabá, o encontro
com o amigo Sandro Lucose que nos levou ao Choppão: a inédita experiência de
comer sopa até não poder mais. Feira de Santana foi a única baiana. Em Recife a
hilária descoberta de André Macambira, e o Murilo nos apresenta um Brennand
monumental e provocador. Vitória vem à mente no abraço de Jadna, Marcelo e
Matheus e a possibilidade de mostrar Pai & Filho para amigos distantes. Em
Jacarepaguá uma plateia surpreendentemente madura formada por alunos do ESEM. Macapá
e o primeiro encontro com o gigante Amazonas – um rio que é um mar. Das Alagoas
e de Fortaleza já falei antes, não com menor atenção. Oficinas, pensamentos,
espetáculos, debates, detalhes. Detalhes muitos, que ficam. A caótica rotina de
circular me seduz, me agrada, me encanta. Tudo é existência. Ermitão que sou, em
viagem tudo muda. Me transformo sem querer me transformar. É desejo de ser. É o
que sou. Artista. Um artista. Sou artista. É o que escrevo no meu check-in.
Montagem do cenário da peça Pai & Filho em Recife, Pernambuco. Projeto Palco Giratório 2012. Teatro Marco Camarotti - SESC Santo Amaro
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Tudo é novidade
Contrariando a máxima do eterno retorno, ultimamente tenho me encontrado em estado de novidade permanente: teatros, público, sentimentos de saudade, desejo, solidão, aeroportos, ritmo, comidas, ausência de determinados tipos de comida.
Estou em contagem regressiva para retornar a São Luís e organizar determinadas coisas, tentar voltar a uma rotina mesmo sabendo que a duração é somente de 7 dias - pensei ser mais - para que retornemos aos ares em mais uma etapa do Palco Giratório.
Estou em contagem regressiva para retornar a São Luís e organizar determinadas coisas, tentar voltar a uma rotina mesmo sabendo que a duração é somente de 7 dias - pensei ser mais - para que retornemos aos ares em mais uma etapa do Palco Giratório.
Não há queixas, só constatação de questões que fluem a partir dessa distância do cotidiano, do conforto das escolhas diárias, mesmo sabendo que tudo não passa de pose e da ausência de sexo.
segunda-feira, 14 de maio de 2012
Ora, ora
“Arte
minha, que está nos palcos,
Santificai
o meu nome.
Venha
a mim o vosso reino.
Seja
feita a minha vontade
Assim
na terra, como no céu.
O
teatro meu de cada dia dai-vos hoje:
Celebrai
as minhas virtudes,
Assim
como tens ignorado meus truques
Em
não cair na tentação e em livrar-me do mal.
Amém-me,
Uns
e outros.”
Mantra do Antro de Egos. Conhecem?
quinta-feira, 10 de maio de 2012
Rotina
Numa rotina é mister ser religioso: hora para dormir, comer, acordar, fazer atividade física, ler. Quando se viaja essa rotina inexiste: há uma outra dinâmica - além de mudança de fuso horário - que faz o organismo perder suas referências, o que conduz a uma alteração em seu funcionamento: intestino, sistema imunológico, fadiga, cansaço.
Foto de Paulo Medeiros (aquecimento em Teotônio Vilela - AL)
A condução de nosso processo antes de irmos para a cena exige uma preparação de 2 horas, sendo que a primeira equivale a um alongamento sistematizado por Marcelo F., seguido de um aquecimento por contato, livre, verbalizando todo o texto do espetáculo. Esse aquecimento oscila entre movimentos aeróbios e anaeróbios.
Com essa sistematização, queremos dar às apresentações um certo caráter de refinamento e apuro, para que a verdade e a organicidade sejam próximas, semelhantes, entre todas as apresentações. Depois desse processo temos o visagismo, a origem das personagens (15 minutos) e a espera por detrás da porta.
Com essa sistematização, queremos dar às apresentações um certo caráter de refinamento e apuro, para que a verdade e a organicidade sejam próximas, semelhantes, entre todas as apresentações. Depois desse processo temos o visagismo, a origem das personagens (15 minutos) e a espera por detrás da porta.
Nas viagens iniciais da Pequena Companhia de Teatro através do Palco Giratório, percebemos que as apresentações têm oscilado muito nessa verdade, nessa organicidade. Nas duas últimas apresentações tenho buscado alterar esse aquecimento, acrescentando alguns exercícios anaeróbios ao final da série. Percebo, nessas circunstâncias atípicas, que o alongamento tão próximo assim das apresentações mais atrapalha que ajuda e acrescentando a minha virose, o resultado beira a catástrofe.
Muitos fatores alteram nossa performance, como o espaço, a entrada do público, a demora em começar a sessão e o ato de ressonar ou não antes da apresentações.
As pistas estão à mostra. Exigem resposta.
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Teatro brasileiro
Dormia.
Enquanto dormia pensava. Estou em Cuiabá. Não no sonho, realmente estou na
capital do Mato Grosso. Estamos. Na noite anterior haviamos visto o espetáculo
Cabaré, da Cia. de Teatro Faces, de Primavera do Leste. Pensava na pluralidade e
nas diferenças do nosso teatro. Do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul
fazemos teatro de maneiras tão diversas e tão distantes que é difícil
compreender e organizar tamanhas diferenças em um único país. Sem perceber,
vemos espetáculos de outros estados com distanciamento e sem a menor sensação
de pertencimento. Esse teatro é nosso, é brasileiro. O teatro feito no Pará ou
no Paraná me pertence, é meu, diz do meu país, de um país continental que mal
percebe a sua grandeza. É isso que estão lendo: ufanismo puro. Porém, na
maioria das vezes, olhamos para muitas produções de outras regiões com desprezo,
desdém e preconceito, obstruindo a possibilidade de compreender que fazem parte
de nós, de um total brasileiro de somas, de um ser maior e antropologicamente
construído de partes. É claro que não há uma unidade, nem deveria. Somos a somatória
de nossas diferenças e não estamos imunes. Vemos o que somos, e se vemos com
um olhar imperfeito, revelamos toda a nossa imperfeição.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Quebre a perna
Quando estava com Entrelaços, quebrei literalmente a perna em Imperatriz. Tivemos que desistir da apresentação em São Luís, se não me engano, na Mostra Guajajara. Acabamos nos apresentando no ano seguinte. Hoje, estamos em circulação com Pai & Filho pelo Palco Giratório, promovido/realizado pelo Sesc. Como quebrar a perna?
Ator é de carne e osso. Mesmo que detenha uma técnica primorosa, ele é falho porque é humano. Assim, adoeci em Santa Maria - RS - uma virose - e me pus à cena. O resultado foi a insatisfação de perceber-me... humano e... falho. A sensação de dever não cumprido, de incapacidade de fazer o que se sabe e o que se quer e deseja, como se o corpo não quisesse ou pudesse agir conforme os comandos do cérebro era visível e risível. Somos estúpidos em querer a perfeição em algo tão volátil quanto a vida, quanto o teatro. A insatisfação, por vezes, suplanta e sobrepõe-se ao prazer do ofício. Em um universo de competições, perder é sempre mais enriquecedor se comparado ao ganhar. Em um mundo de celebração, o fato de se mostrar como se é já seria garantia de reconhecimento.
Amanhã, apresentação em Porto... não tão alegre. Muita merda para mim!
segunda-feira, 30 de abril de 2012
Inominável
Uma circulação é construída por nomes. Toda sigla esconde nomes. Qualquer empresa, empreitada, empreendimento se sustenta com um infindável número de nomes que de anônimos não têm nada. Nossa jornada, promovida pelo SESC, vem sendo banhada por um sem-número de pessoas de carne, ossos, simpatia, elegância, gentileza, competência e atenção. São as pessoas que constroem entidades, associações e companhias. Nomes próprios: Isoneth, Remédios, Dani de Jade, Marina, Gisele, Yássara, Fabrício, Seu João, Bruno, Rita, Maxwell, Luciene, Rosana, Igor, Marcelo, Nilton, Fátima, Colete, Wiliam, Rafaela, André, Mariana, Gabriela, Viviane, Débora, Miguel, Anderson, Seu Pedro, Gabriel, Andressa, Cesário, Râmisse, Seu Lima... Todos os nossos passos dependem de nomes. Toda a nossa vida depende de nomes. Basta citar algum para que a imagem volte à mente, como o sorriso largo do Fabrício, as histórias de Seu João, as sugestões gastronômicas do Seu Pedro ou o último jantar com Cesário e Râmisse – para mencionar aqueles com quem tivemos mais contato até aqui, sem provocar ciúmes (risos). Busquemos os nomes por detrás das siglas para não nos perdermos na desumana burocracia.
quarta-feira, 25 de abril de 2012
Palmeira dos Índios - AL
A palavra pequena no
cotidiano exerce diversos significados, com objetivos de menosprezar, diminuir
e limitar o espaço. Mas quando sentimos essa palavra através do teatro, em
especial, a Pequena Companhia de Teatro, a palavra ganha uma expansão no seu
sentido oposto, além de um espetáculo de encher os olhos, traz conteúdos e
processos imprescindíveis na formação do ator. A oficina ministrada em Palmeira
para nossa Cia. não só enriqueceu o grupo, como estreitou laços socioculturais,
pois o palco Giratório em seus 15 anos tem democratizado o acesso às artes
cênicas em todo o Brasil e levado oficinas de aperfeiçoamento e desenvolvimento
do ator. Na oficina da Pequena Companhia de Teatro, conseguimos perceber um
processo prático e funcional, que resultou de muito estudo e analise, por parte
dos atores da companhia. E como diz o Dramaturgo/Diretor/Encenador Marcelo
Flecha: “O ator criativo é aquele que busca o domínio de seu corpo, pois quem comanda
a personagem não é o diretor, mas sim, o ator”.
Estes ensinamentos trazidos pela Pequena Companhia através do Palco Giratório, fazem com que nossos atores percebam a importância do corpo quando se faz teatro, porque o corpo não é um mero objeto ou instrumento do ator, ele tem vida própria e memória. O trabalho da Pequena Companhia de Teatro não é diferente das outras companhias do estado. É lógico que tem suas peculiaridades, o que serve para mostrar o potencial dos grupos do nordeste e incentivar os trabalhos dos grupos de Alagoas. Sendo assim, o que esperamos é que o SESC continue cumprindo com seu trabalho sociocultural, mobilizando, articulando, incluindo e democratizando as artes cênicas com esse importante projeto que é o Palco Giratório.
Marcone Correia
Nas ondas
Cláudio Marconcine e Fabrício Barros entrevistados na Rádio 96 FM em Arapiraca, Alagoas. Palco Giratório, abril de 2012.
sexta-feira, 20 de abril de 2012
Eterno retorno
Gosto de escolhas. Sempre me apareceram em profusão as oportunidades para refletir e selecionar as que me eram possíveis e desejosas. Sou o acúmulo disso. A maturidade reformula e me faz ver aprofundadamente o que se manifesta e o que ainda está encoberto. Há um revisitar importante que me move. Sinto-me crível frente às minhas inquietações criativas. Pululam buscando uma nesga de espaço no tempo que se configura curto demais para uma noite. Meus dias são noites em profusão. Sinto-me de volta à casa dos velhos.
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Resumo alagoano
O passeio
pelo estado das Alagoas continua. Em Teotônio Vilela, casa lotada para Pai
& Filho e a oficina “Do épico ao dramático: a transposição de gêneros como
instrumento de confecção de dramaturgia”. A vida se faz de experiências. Cada
encontro possibilita novas reflexões. Creio que, mostrando nosso caminho, contribuímos
de alguma forma para o desenvolvimento de novos coletivos ou para o amadurecimento
de outros. Em Palmeira dos Índios, a oficina foi a do Quadro de Antagônicos (bastante citada aqui no blog) e o espetáculo também foi recebido com casa
cheia, além de alguns sapos, pássaros e mosquitos – a adaptabilidade de Pai & Filho nos surpreende a cada espaço. As pessoas gostam muito do espetáculo.
Fica evidente em todos os debates que promovemos ao término de cada apresentação.
É inevitável que isso provoque uma sensação de satisfação, de orgulho, de
contentamento. Fazemos teatro e pessoas se predispõem a assistir. Fazemos
teatro e somos recebidos com afeto. Fazemos teatro e é o nosso trabalho. Vinte
anos atrás essa realidade era inimaginável. Amanhã Arapiraca nos espera. Nós
esperamos muito tempo por tudo isto.
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Subestimar e superestimar
Duas qualidades muito difíceis de lidar. Por um lado é recorrente subestimar a quantidade e qualidade do público em/de teatro. Por outro, é audível a verbalização de atores que, ao afagarem seus egos, superestimam suas habilidades no palco. Quando refletimos acerca disso, percebemos o quanto nosso senso de realidade é relativizado. A problematização aponta para a variabilidade de conceitos a partir da perspectiva de que realidade equivale a verdade, e ambas não são absolutas. Há espaço para a abstração não na forma, mas na recepção. Isso ocorre, principalmente, quando a realidade coletivizada - parto da premissa da vida em comum, algo que une as pessoas num tempo e espaço, na forma de cultivo, de culto... - inexiste para aqueles que circulam, que se distanciam dos seus pares, do seu microcosmo. Tenho 1.76 de altura. No Maranhão sou considerado alto; em São Paulo, não.
O corpo tem memória, há a recuperação de informações importantes para a composição da personagem em cada apresentação, mas ele também é falho, caduca, fica doente. O teatro deve se proteger dessas armadilhas. Elas existem e nos fazem pessoas menos corretas, mais arrogantes. Teatro tem o dever de aproximar as pessoas, numa espécie de recuperação do rito. Na contemporaneidade a distância entre os seres já é enormemente grandiosa. Não carece de reforço.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Que teatro queremos?
Desejos são múltiplos. Difícil o ser querer algo, conseguir e se satisfazer. Não é do humano essa satisfação plena. O contrário disso o é. Quatro seres diferentes se encontram e buscam fazer um teatro possível. Dentro das diferenças existem igualdades, pois se não o fosse, não estaríamos nesta jornada. Mas, esse dizer não é eterno. Tudo é factual.
Marcelo F. já havia comentado sobre essa necessidade de circular, ver outras experiências, dialogar com elas. É grandioso o retorno que temos, enquanto seres, quando nos deparamos com as experiências de outros grupos e refletimos sobre o nosso fazer.
A cada dia percebo que algumas fases são necessárias para termos qualidade na execução de nossos desejos, do teatro que queremos. Aglutinar energias na perspectiva do quê e do como dizer são essenciais para o início da jornada. O mesmo ideal e o foco, a exigência para com esse compromisso e responsabilidade com essas perspectivas são o gancho para o que virá. Distante da fama e da fortuna, o reconhecimento do seu trabalho, do que você faz e seu reconhecimento nele, determinam a qualidade do seu prazer em satisfazer um seu desejo inicial. A plenitude não existe. Nos sobra a dignidade do fazer.
segunda-feira, 9 de abril de 2012
Feliz aniversário!
E
o palco girou. Em Fortaleza, a apresentação inaugural da nossa circulação
promovida pelo SESC, no teatro Emiliano Queiroz. Bom começo. A apresentação
fluiu com energia e o público foi receptivo e atento às agruras do pai e aos
sarcasmos do filho. Hoje, em Maceió, entregues à simpatia e gentileza de
Fabrício e Seu João, com quem circularemos em caravana por Teotônio Vilela,
Palmeira dos Índios e Arapiraca, cidades do interior das Alagoas. Porém, tudo
começou com a apresentação de Pai & Filho aqui, na capital. Casa lotada,
público generoso e uma apresentação sólida, contundente e cuidada. O recorte
especial é para o debate: é muito bom falar do nosso processo para pessoas
verdadeiramente interessadas em compreender como se desenvolveu o
espetáculo – miudezas e detalhes que dão tanto trabalho e dos quais poucas vezes
falamos. Agora, passada a meia-noite,
comemoramos, com cerveja, conversa e cansaço, o aniversário de dois anos da
estreia de Pai & Filho. Na estrada!
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Zilef
Se felicidade existe, estou bem perto dela. Duas
apresentações de Pai & Filho no VI Festival BNB de Artes Cênicas no dia 30,
lançamento do Palco Giratório no dia 31 e hoje, em Canoa Quebrada, recebidos pelos
queridos Fábio (meu primo) e Ana, o encontro com as amigas Tony, Luciana e
Angélica num saboroso passeio pela permacultura promovido pelo casal anfitrião.
Preparação para a jornada que começa: Fortaleza > Maceió > Teotônio
Vilela > Palmeira dos Índios > Arapiraca > Vitória > Rio de Janeiro
> Caxias do Sul > Passo Fundo > Ijuí > Santa Maria > Porto
Alegre > Cuiabá > Rio de Janeiro > Feira de Santana > Recife > Macapá
> Rio de Janeiro. Basta? É o que tem pra hoje.
sexta-feira, 30 de março de 2012
Nós e os outros
Quais os nossos limites, os dos nossos amigos e os dos outros? Como equalizamos nossa arte a partir das dificuldades ou outras necessidades que não as nossas, previamente determinadas? Como vemos isso nos amigos e nos demais? Qual a medida?
Sempre percebi uma certa diferença de comportamento e atitude - de minha parte, claro -, quando vejo um espetáculo de amigos e quando vejo espetáculos de outros. O nível de exigência para os primeiros é menor do que para os segundos.
Alguns editais não se encaixam com os nossos propósitos, com a nossa forma e conteúdo de fazer arte, mas somos exigidos a nos enquadrar para conseguir financiamento. Quando o fazemos, diluímos isso na urina. Quando são os desafetos, prostitutos.
Ontem assisti a uma montagem de Otelo em que usavam uma luz mais desenhada, com lanternas inclusive, só que em espaço aberto (não era em uma sala escura) e às 15h. Certamente aquela apresentação que vi não era 10% do espetáculo que eles se propuseram a fazer.
Como nos relacionamos com nossa exigências dentro de um tempo? A nossa arte sempre vai querer ser imutável, mas nós, os artistas, não podemos comportar essa adjetivação. Conviver com esse dilema pode ter relação direta com o sucesso ou o fracasso.
Do que falo ainda estou por perceber.
domingo, 25 de março de 2012
Nós e os outros
A atualidade nos revela um sintoma
constrangedor: a falta de tempo para o outro. Ensimesmados, apaixonados pelo
nosso umbigo, não temos mais paciência com o outro. Fui ao show de André Lucap, mas quem estava lá
interessado em ouvi-lo? Bruno Azevedo esteve no Jô, porém, além dos parabéns,
quem se deteve para ler sua obra? Eu mesmo, distribuí gratuitamente trezentos
livros meus e jamais perguntei a nenhum dos “felizardos” se já o lera, para
evitar o constrangimento (risos). Se a peça de teatro for interativa, espere
para ver o show dos que vão direto para a primeira fila, esperando ser a bola
da vez. Hoje, o espectador, o leitor, o ouvinte, quer mais atenção do que a
própria obra que deveria fruir. Queremos visibilidade. Não ouvimos mais os
outros. Os diálogos são monólogos camuflados. Quando uma discussão termina, mal
sabemos do que o outro falava, mas temos na ponta da língua cada uma das nossas
geniais respostas. Tudo é festa. Tudo é besta. Tudo é fresta. Tudo é funesta tentativa
de chamar a atenção. Gritando, o miserável (oprimido pela esmagadora vida
cotidiana de trabalhar, comer e dormir) quer dizer: eu também estou aqui!
Você sabia que...
... a pequena companhia de teatro vai
ministrar a oficina “O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento
para o ator” na VII Semana do Teatro no Maranhão? A atividade de formação
acontecerá de 26 a 28 de março, das 14h às 18h, na sala de dança do Teatro Arthur
Azevedo. Esta oficina foi contemplada pelo Prêmio Myriam Muniz de Teatro e foi
realizada em doze cidades de seis estados do norte e nordeste do país, e será a
principal atividade de formação da companhia durante toda a circulação do
projeto Palco Giratório – SESC.
quinta-feira, 22 de março de 2012
Eu, brasileiro, confesso
Escrever diariamente não é tarefa fácil. Precisa-se de muita obstinação e apego, força de vontade e desejo.
Meu propósito sempre foi o de articular minha prática teatral com a teoria, formulando assim novo conhecimento, nova observação, novo apontamento - mesmo sabendo que nada é novo, que as coisas são cíclicas; se repetem.
Vamos iniciar outra etapa de circulação com Pai & Filho e essa será mais consistente em termos de horas de voo e tempo distante do abraço do amado. Não sinto saudades. Sinto desejos e vontade de tentar sempre o que me arruína: escrever diariamente deve ser o hábito do ator em processo de leitura, de ensaio, de apresentações. Essa lacuna é minha sentença. O que fazer com isso, ainda sofro de dúvidas entre publicar e em qual espaço e com que frequência. Sei que retomei meu perfil na rede social (sic) Facebook. Parece ser uma mudança se avizinhando, ou é o desespero de não se repetir. Estou aceitando sugestões.
Aqui é o fim do mundo.
quarta-feira, 21 de março de 2012
Lado B
Você
sabe o que é comprar a melhor música de um álbum sem precisar levar as outras onze
que são uma porcaria? Você sabe o que é ver um filme esloveno sem precisar ir à
Eslovênia? Você sabe o que é comprar tudo no mesmo lugar ou nem sair de casa
para comprar de tudo, com apenas um clique? Você sabe o que é Google? Jornal
on-line? Você sabe quantos e-books cabem em um GB? Você sabe quantas cores tem
em um refletor de LED? Você sabe o que é
LED, e-book, GB? Você sabe o que é escrever, apagar, reescrever, apagar de
novo, escrever mais uma vez, sem fazer nenhum borrão e escolhendo entre vinte
mil fontes? Você sabe o que é falar à distância com um amigo olhando para ele e
não pagar nada por isso? Ou jogar qualquer tipo de jogo com seu primo mais
querido, sendo que, enquanto você está atacando em Beirute ele está defendendo
em Pequim? Se não sabe, não me venha com saudosismos.
domingo, 18 de março de 2012
Tablet ou laptop?
Você
sabe o que é comprar um LP e voltar para casa lendo o encarte? Você sabe o que
é ir ao cinema e esperar a cortina abrir para ver o filme? Você sabe o que é
secar a tinta do papel com um secante? Você sabe o que é ir à quitanda e pedir
para por na conta? Você sabe o que é gravar uma fita cassete com as melhores
lentas? Você sabe o que é abrir um dicionário? Uma enciclopédia? Abrir um jornal
e ler uma coluna? Você sabe o que é acariciar, cheirar, ler um livro? Você sabe
o que é fazer um refletor com lata de leite Ninho? Você sabe o que é escrever
numa Remington
ouvindo a trilha dos toques? Você sabe o que é receber uma carta perfumada?
Você sabe o que é caderno de caligrafia, aula de retórica, comer manga em cima
do pé? Você sabe como se joga xadrez? Se não sabe, não me venha com
modernices.
sábado, 17 de março de 2012
Sonhos
Gosto de sonhar, de todas as formas e maneiras. Quando dormindo é sempre meio onírico. Acordado, dá a sensação de potência. Sempre sonho. Andando de bicicleta, estou à mercê do tráfego das coisas fugidias. Quando a pé, desconheço qualquer indivíduo ao meu derredor. Para a cabeça, não há restrições.
Ontem sonhei assistindo a um espetáculo do grupo Bagaceira de Teatro na sede da Pequena Companhia (ops!). Revisitavam Shakespeare à moda dos Clowns. Vinham em cortejo e usavam meia-máscara. Era um ator de meia idade que eu acompanhava. Vez por outra ficava a observar não só a técnica que ele detinha, mas a maneira como ele fitava as pessoas. Hipnotizava-me. Ao final, eu não era mais um à meia-luz ou na multidão que se acotovelava nas escadarias do casarão (ops!). Conversávamos sobre teatro, sobre a beleza de se contemplar o desconhecido e sobre a ousadia da aproximação e do encontro. Éramos uno no fazer, no demonstrar e no sentir.
Ontem sonhei em percorrer caminhos ainda não trilhados e ousar mais, cada vez mais e sempre.
Hoje, fiquei a pensar sobre me esquecer da quinta, da sexta, e só me lembrar do sábado. Pensei no curta do Serge em que a persona entrava em uma padaria, se aproximava da estufa e perguntava à atendente: "-Tem sonho?". E ela sentenciava: "- O sonho acabou". Subia os créditos.
domingo, 11 de março de 2012
Somos nós no espelho?
Sou
um artista intuitivo. Estudo. Gosto de estudar, contudo, quando o momento
aparece, não sei estruturar formalmente as soluções necessárias. “As sortes”
vêm do conhecimento empírico, das percepções, das lucubrações solitárias, das
discussões com meus pares, das explosões sensórias do espectador profissional
que sou. Isso me aflige, porque gosto dos argumentos teóricos, das
dissertações, dos nomes próprios, das referências. Sinto-me menor, claudicante,
embusteiro. Sou sincero, verdadeiro, mas esta certeza não ameniza a imagem que
creio que os outros têm de mim quando opero distante dos cânones. Não
faço isso premeditadamente. Para mim, o momento criativo é vulcânico, e carrego
comigo as influências de todos os fantasmas que me forjaram, mas não me detenho
para entendê-los. No momento da criação não me interessa entendê-los. Não sei
criar catalogando, referindo, comparando, consultando. O estudo vem antes e
depois, nunca durante. Isso provoca na construção da obra um estado movediço,
frágil e modelável como argila no torno. Rigidez, desprezada. Certezas,
abandonadas. Concretudes, esfareladas. Pronta, a obra se reinventa e vejo tudo
claramente: teoricamente, tecnicamente, formalmente. Tudo está lá. Límpido e
cristalino. Na maioria das vezes consigo até enxergá-lo. Mas, a inferioridade,
permanece. Coisa de matuto.
quinta-feira, 8 de março de 2012
Tempo de preparação; tempo de ensaio
Que ator sou eu? Que ator eu vejo em cena?
É inegável que quanto mais se ensaia, mais se distancia das imperfeições, dos equívocos, dos deslizes, e nos aproximamos daquilo que queremos. O que esquecemos ou negligenciamos talvez seja o processo anterior ao treinamento, aos ensaios.
Como o ator se comporta horas antes dos ensaios? Qual a rotina que o ator se exige para estar pronto? Ele defeca, toma banho, limpa os ouvidos, escova os dentes, se hidrata, come algo leve, desliga-se das agruras do dia? Que tipo de leitura faz? Que música ouve? Ejacula com que frequência? Que vida é essa que o ator leva antes de se preparar para um espetáculo? Que tempo ele tem ou necessita para esse feito? Que tipo de teatro ele quer fazer, com quem faz e como faz?
O ator é irrequieto e propositivo. Desiste do conforto - qualquer que seja ele - e reivindica a autoria e autonomia de seu trabalho. A nossa cultura sempre foi do desperdício de tempo, de resultado, de materiais, de gozo, de relações, de beijos, de afagos. Enquanto não sairmos desse conforto, nosso teatro será pobre em suas proposições.
Nossa arrogância diz o contrário. Pena.
Nossa arrogância diz o contrário. Pena.
domingo, 4 de março de 2012
Por que viajamos?
Dona
de um caráter entranhadamente provinciano, nossa cidade (leia-se: poder público, privado, fomentadores, mecenas e afins) não percebe a necessidade
de que suas atividades artísticas dialoguem com o restante do país, circulando
com suas obras, discutindo conceitos, participando de debates,
oficinas, seminários, mostras, exposições, festivais etc. Esse intercâmbio
contribui para o fortalecimento do movimento artístico local, para a reverberação
das suas experiências particulares e para a capitalização das consequências
socioculturais na cidade geradora desses dizeres.
Não se repensa nossa realidade sem conhecer outras. Não se muda um estado se o estado de consciência da classe provocadora está amordaçado por não conhecer o mundo. Não se revelará vida pulsante nas obras artísticas locais sem construir referenciais e parâmetros que mostrem as reais condições da nossa produção cultural. Precisamos ver o mundo.
Não se repensa nossa realidade sem conhecer outras. Não se muda um estado se o estado de consciência da classe provocadora está amordaçado por não conhecer o mundo. Não se revelará vida pulsante nas obras artísticas locais sem construir referenciais e parâmetros que mostrem as reais condições da nossa produção cultural. Precisamos ver o mundo.
A pequena companhia de teatro tem um olho aqui e outro acolá, atenta para não ficar estrábica. A peleja para empurrar o horizonte e abrir fronteiras além do nosso umbigo nos clareou caminhos e nos fez perceber que o centro do mundo e a periferia estão muito mais relacionados ao ponto de onde você olha do que à localização geográfica.
Abrir caminhos para o diálogo entre a produção artística maranhense e a do restante do país favorece o aumento de qualidade das obras de arte e contribui para a reconstrução de uma classe artística mais atenta, mais contestadora, mais reveladora e mais consciente do seu papel transformador.
sábado, 3 de março de 2012
Você sabia que...
...
a pequena companhia de teatro foi convidada para participar do VI Festival Banco do Nordeste das Artes Cênicas? Pai
& Filho se apresentará no dia 30 de março, às 15h e 18h, no Centro Cultural
Banco do Nordeste, em Fortaleza – CE. Este é o nono festival onde o espetáculo
se apresenta e será a terceira vez que visitará terras cearenses –
anteriormente esteve em Fortaleza e Sobral com a circulação do Myriam Muniz e
no XVII Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga.
sexta-feira, 2 de março de 2012
É a ferida que cicatriza?
Em mim uma dor corriqueira, cotidiana. Não gosto da vida como se apresenta. Preciso da arte para respirar, para me sentir vivo. Quando do contrário, percebo que o que tenho não me basta. Mais em quantidade e qualidade. O nível de insatisfação surpreende pela força devastadora com que me conduz ao cadafalso. Morrer em vida é meio que isso. Vai corroendo aos poucos e só fica perceptível quando transborda. Preencher esse vazio com sexo é querer cobrir o céu com um véu. A tarefa é reinventar a forma de conduzir as angústias provocadas pela distância de tudo que me fascina. Tarefa fácil, diria minha personagem. A mim, resta expor parte das vísceras e me mostrar humano, saudoso, queixoso, moroso.
domingo, 26 de fevereiro de 2012
Oficina
Dou
oficinas desde 1990. Puro atrevimento. A primeira concluiu com o espetáculo Tropicanalha, uma divertida experiência em terras balsenses. De lá pra cá, me aventurei por várias
práticas, laboratórios, tentativas e vertentes. Hoje, uma das oficinas que a pequena oferece é a que
demonstra nossa “metodologia” de construção.
A
satisfação que sinto aponta para o objetivo do exercício. Não nos interessa
estabelecer nosso fazer como método, sistema ou algo a ser seguido. É apenas o
nosso jeito de fazer. A forma como fomos construindo o nosso dizer no decorrer
dos anos. O principal objetivo é democratizar esse caminho para que as pessoas
conheçam. Quantas vezes vi um espetáculo e fiquei morrendo de vontade de saber como
eles conseguiram aquilo? Aquele prazer de ir além da observação e conhecer os
meandros da construção. Por isso insistimos nos debates e nas oficinas, para
que os mais curiosos encontrem um espaço para poder dialogar. Não podemos
obrigar os outros a nos mostrar como fazem, mas podemos mostrar para os outros
como fazemos.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
O que ser dito
O ser não se esgota. Reinventa-se. Busca motivos para sentir, e quando sente, o faz até exaurir-se. Teatro é arte. Arte articula um olhar, um recorte da visão do artista frente à janela posta à frente. Quem não o faz não é artista, mesmo que usurpe o teatro em detrimento de sua perdição.
Muito ainda está por ser dito. O esgotamento, se existe, é físico. Paira sobre as cabeças primitivamente o sexo e, além-mar, a esperança da busca contínua do como. Caminhos são sempre caminhos e quando são feitos com os olhos fechados, há segurança demais para curti-los. Assim, o pensamento chega antes do corpo. O aguarda, senão vira devaneio, refluxo, dor da contenção.
Uma entressafra para tonificar o solo. Germinará.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Dormir
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Os mistérios envolvendo os encontros
Nunca soube ao certo o que me provoca virar uma esquina ou seguir em frente. Todos os caminhos levam à Roma, mas o que me reservam os caminhos?
Como meus espaços são sempre alterados as pessoas também o são. E o que elas me provocam? O que eu provoco nelas? A resposta à segunda não me é pertinente, mas a primeira me exige. O que fazer depois de um encontro? Como moldar, reformular, digerir, relacionar, articular com o que se viu, com o que se sentiu, a partir de um encontro?
Recupero uma fala do Marcelo F. que diz que o conforto do corpo, em processo de treinamento, é inadequado à criação e à verdade posta à cena. Não discordo dele. O que me espanta é não ter percebido o óbvio: Cada vez que eu me apodero das ferramentas do Quadro de Antagônicos (para saber mais, clique aqui), mais eu me torno confortável frente a ele. Assim, qualquer treinamento que me distancie dele vai fazer com que eu me sinta desconfortável, já que meu corpo, como os demais, tem memória. E isso é bom. Perceber-me deslocado me angustia, e me faz produzir.
domingo, 5 de fevereiro de 2012
6ª Jornada – Palmas e Porto Nacional
São números que escondem estradas, saudades, dores, elogios, conflitos, debates, pratos, conversas, vinhos, amigos, pregos, apresentações, encontros, cansaços, reviravoltas, sonos, críticas, chegadas, oficinas, comemorações, hotéis, montagens, apoios, perigos, partidas, despesas, teatros. São números de um flagrante: a pequena companhia de teatro em ação.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Estamos em São Luís
Terminamos a execução da circulação pelo Prêmio Myriam Muniz de Teatro, patrocinado pela FUNARTE/Minc/Ministério da Cultura. Agora, uma espécie de recesso até o retorno à estrada, digo, às nuvens, já que estaremos circulando pelo Palco Giratório, a começar por Fortaleza.
Enquanto isso, executarei um projeto em Imperatriz, Marcelo F. prepara a prestação de contas do Myriam e retoma os preparativos para a montagem comemorativa dos 400 anos de São Luís - pelo SEBRAE -, Kátia L. continua no batente frente à direção técnica do Teatro Arthur Azevedo, e Jorge C. hiberna.
As postagens permanecem.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Estamos em Porto Nacional
Madrugada em Palmas e manhã em Porto Nacional. Menos de uma hora de carro. Já havia estado aqui. Agradável o retorno. Hotel, Centro Cultural, montagem, oficina, apresentações à noite.
Público bom como em Palmas. O Tocantins nos reservou uma excelente plateia. Os debates sofrem oscilações naturais, já que mudamos de cidade. O teatro, como o público, sempre é diverso. Ontem tivemos um ritmo puxado, pois só pudemos montar o cenário depois do meio dia, o que acarretou um certo cansaço, mas não chegou a interferir nas apresentações de modo a prejudicá-la. Ao contrário, as récitas foram muito boas.
À noite, não jantei. Reservei-me o direito de ir dormir antes da meia noite, para não virar abóbora. Hoje, café tomado, jornal lido. Esperamos terminar esta jornada do Prêmio Myriam Muniz, com uma boa apresentação. Amanhã, São Luís nos aguarda.
Assinar:
Postagens (Atom)





















