segunda-feira, 30 de abril de 2012

Inominável


Uma circulação é construída por nomes. Toda sigla esconde nomes. Qualquer empresa, empreitada, empreendimento se sustenta com um infindável número de nomes que de anônimos não têm nada.  Nossa jornada, promovida pelo SESC, vem sendo banhada por um sem-número de pessoas de carne, ossos, simpatia, elegância, gentileza, competência e atenção. São as pessoas que constroem entidades, associações e companhias. Nomes próprios: Isoneth, Remédios, Dani de Jade, Marina, Gisele, Yássara, Fabrício, Seu João, Bruno, Rita, Maxwell, Luciene, Rosana, Igor, Marcelo, Nilton, Fátima, Colete, Wiliam, Rafaela, André, Mariana, Gabriela, Viviane, Débora, Miguel, Anderson, Seu Pedro, Gabriel, Andressa, Cesário, Râmisse, Seu Lima... Todos os nossos passos dependem de nomes. Toda a nossa vida depende de nomes. Basta citar algum para que a imagem volte à mente, como o sorriso largo do Fabrício, as histórias de Seu João, as sugestões gastronômicas do Seu Pedro ou o último jantar com Cesário e Râmisse – para mencionar aqueles com quem tivemos mais contato até aqui, sem provocar ciúmes (risos). Busquemos os nomes por detrás das siglas para não nos perdermos na desumana burocracia.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Palmeira dos Índios - AL


A palavra pequena no cotidiano exerce diversos significados, com objetivos de menosprezar, diminuir e limitar o espaço. Mas quando sentimos essa palavra através do teatro, em especial, a Pequena Companhia de Teatro, a palavra ganha uma expansão no seu sentido oposto, além de um espetáculo de encher os olhos, traz conteúdos e processos imprescindíveis na formação do ator. A oficina ministrada em Palmeira para nossa Cia. não só enriqueceu o grupo, como estreitou laços socioculturais, pois o palco Giratório em seus 15 anos tem democratizado o acesso às artes cênicas em todo o Brasil e levado oficinas de aperfeiçoamento e desenvolvimento do ator. Na oficina da Pequena Companhia de Teatro, conseguimos perceber um processo prático e funcional, que resultou de muito estudo e analise, por parte dos atores da companhia. E como diz o Dramaturgo/Diretor/Encenador Marcelo Flecha: “O ator criativo é aquele que busca o domínio de seu corpo, pois quem comanda a personagem não é o diretor, mas sim, o ator”.
 
Estes ensinamentos trazidos pela Pequena Companhia através do Palco Giratório, fazem com que nossos atores percebam a importância do corpo quando se faz teatro, porque o corpo não é um mero objeto ou instrumento do ator, ele tem vida própria e memória. O trabalho da Pequena Companhia de Teatro não é diferente das outras companhias do estado. É lógico que tem suas peculiaridades, o que serve para mostrar o potencial dos grupos do nordeste e incentivar os trabalhos dos grupos de Alagoas. Sendo assim, o que esperamos é que o SESC continue cumprindo com seu trabalho sociocultural, mobilizando, articulando, incluindo e democratizando as artes cênicas com esse importante projeto que é o Palco Giratório.

Marcone Correia
Ator e Diretor da Cia. Mestres da Graça

Nas ondas

Cláudio Marconcine e Fabrício Barros entrevistados na Rádio 96 FM em Arapiraca, Alagoas. Palco Giratório, abril de 2012.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Eterno retorno

Gosto de escolhas. Sempre me apareceram em profusão as oportunidades para refletir e selecionar as que me eram possíveis e desejosas. Sou o acúmulo disso. A maturidade reformula e me faz ver aprofundadamente o que se manifesta e o que ainda está encoberto. Há um revisitar importante que me move. Sinto-me crível frente às minhas inquietações criativas. Pululam buscando uma nesga de espaço no tempo que se configura curto demais para uma noite. Meus dias são noites em profusão. Sinto-me de volta à casa dos velhos.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Resumo alagoano

O passeio pelo estado das Alagoas continua. Em Teotônio Vilela, casa lotada para Pai & Filho e a oficina “Do épico ao dramático: a transposição de gêneros como instrumento de confecção de dramaturgia”. A vida se faz de experiências. Cada encontro possibilita novas reflexões. Creio que, mostrando nosso caminho, contribuímos de alguma forma para o desenvolvimento de novos coletivos ou para o amadurecimento de outros. Em Palmeira dos Índios, a oficina foi a do Quadro de Antagônicos (bastante citada aqui no blog) e o espetáculo também foi recebido com casa cheia, além de alguns sapos, pássaros e mosquitos – a adaptabilidade de Pai & Filho nos surpreende a cada espaço. As pessoas gostam muito do espetáculo. Fica evidente em todos os debates que promovemos ao término de cada apresentação. É inevitável que isso provoque uma sensação de satisfação, de orgulho, de contentamento. Fazemos teatro e pessoas se predispõem a assistir. Fazemos teatro e somos recebidos com afeto. Fazemos teatro e é o nosso trabalho. Vinte anos atrás essa realidade era inimaginável. Amanhã Arapiraca nos espera. Nós esperamos muito tempo por tudo isto.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Subestimar e superestimar

Duas qualidades muito difíceis de lidar. Por um lado é recorrente subestimar a quantidade e qualidade do público em/de teatro. Por outro, é audível a verbalização de atores que, ao afagarem seus egos, superestimam suas habilidades no palco. Quando refletimos acerca disso, percebemos o quanto nosso senso de realidade é relativizado. A problematização aponta para a variabilidade de conceitos a partir da perspectiva de que realidade equivale a verdade, e ambas não são absolutas. Há espaço para a abstração não na forma, mas na recepção. Isso ocorre, principalmente, quando a realidade coletivizada - parto da premissa da vida em comum, algo que une as pessoas num tempo e espaço, na forma de cultivo, de culto... - inexiste para aqueles que circulam, que se distanciam dos seus pares, do seu microcosmo. Tenho 1.76 de altura. No Maranhão sou considerado alto; em São Paulo, não. 

O corpo tem memória, há a recuperação de informações importantes para a composição da personagem em cada apresentação, mas ele também é falho, caduca, fica doente. O teatro deve se proteger dessas armadilhas. Elas existem e nos fazem pessoas menos corretas, mais arrogantes. Teatro tem o dever de aproximar as pessoas, numa espécie de recuperação do rito. Na contemporaneidade a distância entre os seres já é enormemente grandiosa. Não carece de reforço.




quarta-feira, 11 de abril de 2012

Que teatro queremos?

Desejos são múltiplos. Difícil o ser querer algo, conseguir e se satisfazer. Não é do humano essa satisfação plena. O contrário disso o é. Quatro seres diferentes se encontram e buscam fazer um teatro possível. Dentro das diferenças existem igualdades, pois se não o fosse, não estaríamos nesta jornada. Mas, esse dizer não é eterno. Tudo é factual. 

Marcelo F. já havia comentado sobre essa necessidade de circular, ver outras experiências, dialogar com elas. É grandioso o retorno que temos, enquanto seres, quando nos deparamos com as experiências de outros grupos e refletimos sobre o nosso fazer. 

A cada dia percebo que algumas fases são necessárias para termos qualidade na execução de nossos desejos, do teatro que queremos. Aglutinar energias na perspectiva do quê e do como dizer são essenciais para o início da jornada. O mesmo ideal e o foco, a exigência para com esse compromisso e responsabilidade com essas perspectivas são o gancho para o que virá. Distante da fama e da fortuna, o reconhecimento do seu trabalho, do que você faz e seu reconhecimento nele, determinam a qualidade do seu prazer em satisfazer um seu desejo inicial. A plenitude não existe. Nos sobra a dignidade do fazer.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Feliz aniversário!

E o palco girou. Em Fortaleza, a apresentação inaugural da nossa circulação promovida pelo SESC, no teatro Emiliano Queiroz. Bom começo. A apresentação fluiu com energia e o público foi receptivo e atento às agruras do pai e aos sarcasmos do filho. Hoje, em Maceió, entregues à simpatia e gentileza de Fabrício e Seu João, com quem circularemos em caravana por Teotônio Vilela, Palmeira dos Índios e Arapiraca, cidades do interior das Alagoas. Porém, tudo começou com a apresentação de Pai & Filho aqui, na capital. Casa lotada, público generoso e uma apresentação sólida, contundente e cuidada. O recorte especial é para o debate: é muito bom falar do nosso processo para pessoas verdadeiramente interessadas em compreender como se desenvolveu o espetáculo – miudezas e detalhes que dão tanto trabalho e dos quais poucas vezes falamos.  Agora, passada a meia-noite, comemoramos, com cerveja, conversa e cansaço, o aniversário de dois anos da estreia de Pai & Filho. Na estrada!

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Zilef

Se felicidade existe, estou bem perto dela. Duas apresentações de Pai & Filho no VI Festival BNB de Artes Cênicas no dia 30, lançamento do Palco Giratório no dia 31 e hoje, em Canoa Quebrada, recebidos pelos queridos Fábio (meu primo) e Ana, o encontro com as amigas Tony, Luciana e Angélica num saboroso passeio pela permacultura promovido pelo casal anfitrião. Preparação para a jornada que começa: Fortaleza > Maceió > Teotônio Vilela > Palmeira dos Índios > Arapiraca > Vitória > Rio de Janeiro > Caxias do Sul > Passo Fundo > Ijuí > Santa Maria > Porto Alegre > Cuiabá > Rio de Janeiro > Feira de Santana > Recife > Macapá > Rio de Janeiro. Basta? É o que tem pra hoje.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Nós e os outros


Quais os nossos limites, os dos nossos amigos e os dos outros? Como equalizamos nossa arte a partir das dificuldades ou outras necessidades que não as nossas, previamente determinadas? Como vemos isso nos amigos e nos demais? Qual a medida?

Sempre percebi uma certa diferença de comportamento e atitude - de minha parte, claro -, quando vejo um espetáculo de amigos e quando vejo espetáculos de outros. O nível de exigência para os primeiros é menor do que para os segundos.

Alguns editais não se encaixam com os nossos propósitos, com a nossa forma e conteúdo de fazer arte, mas somos exigidos a nos enquadrar para conseguir financiamento. Quando o fazemos, diluímos isso na urina. Quando são os desafetos, prostitutos.

Ontem assisti a uma montagem de Otelo em que usavam uma luz mais desenhada, com lanternas inclusive, só que em espaço aberto (não era em uma sala escura) e às 15h. Certamente aquela apresentação que vi não era 10% do espetáculo que eles se propuseram a fazer. 

Como nos relacionamos com nossa exigências dentro de um tempo? A nossa arte sempre vai querer ser imutável, mas nós, os artistas, não podemos comportar essa adjetivação. Conviver com esse dilema pode ter relação direta com o sucesso ou o fracasso. 

Do que falo ainda estou por perceber.

domingo, 25 de março de 2012

Nós e os outros


A atualidade nos revela um sintoma constrangedor: a falta de tempo para o outro. Ensimesmados, apaixonados pelo nosso umbigo, não temos mais paciência com o outro. Fui ao show de André Lucap, mas quem estava lá interessado em ouvi-lo? Bruno Azevedo esteve no Jô, porém, além dos parabéns, quem se deteve para ler sua obra? Eu mesmo, distribuí gratuitamente trezentos livros meus e jamais perguntei a nenhum dos “felizardos” se já o lera, para evitar o constrangimento (risos). Se a peça de teatro for interativa, espere para ver o show dos que vão direto para a primeira fila, esperando ser a bola da vez. Hoje, o espectador, o leitor, o ouvinte, quer mais atenção do que a própria obra que deveria fruir. Queremos visibilidade. Não ouvimos mais os outros. Os diálogos são monólogos camuflados. Quando uma discussão termina, mal sabemos do que o outro falava, mas temos na ponta da língua cada uma das nossas geniais respostas. Tudo é festa. Tudo é besta. Tudo é fresta. Tudo é funesta tentativa de chamar a atenção. Gritando, o miserável (oprimido pela esmagadora vida cotidiana de trabalhar, comer e dormir) quer dizer: eu também estou aqui!

Você sabia que...


... a pequena companhia de teatro vai ministrar a oficina “O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator” na VII Semana do Teatro no Maranhão? A atividade de formação acontecerá de 26 a 28 de março, das 14h às 18h, na sala de dança do Teatro Arthur Azevedo. Esta oficina foi contemplada pelo Prêmio Myriam Muniz de Teatro e foi realizada em doze cidades de seis estados do norte e nordeste do país, e será a principal atividade de formação da companhia durante toda a circulação do projeto Palco Giratório – SESC.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Eu, brasileiro, confesso

Escrever diariamente não é tarefa fácil. Precisa-se de muita obstinação e apego, força de vontade e desejo. 

Meu propósito sempre foi o de articular minha prática teatral com a teoria, formulando assim novo conhecimento, nova observação, novo apontamento - mesmo sabendo que nada é novo, que as coisas são cíclicas; se repetem.

Vamos iniciar outra etapa de circulação com Pai & Filho e essa será mais consistente em termos de horas de voo e tempo distante do abraço do amado. Não sinto saudades. Sinto desejos e vontade de tentar sempre o que me arruína: escrever diariamente deve ser o hábito do ator em processo de leitura, de ensaio, de apresentações. Essa lacuna é minha sentença. O que fazer com isso, ainda sofro de dúvidas entre publicar e em qual espaço e com que frequência. Sei que retomei meu perfil na rede social (sic) Facebook. Parece ser uma mudança se avizinhando, ou é o desespero de não se repetir. Estou aceitando sugestões.

Aqui é o fim do mundo.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Lado B

Você sabe o que é comprar a melhor música de um álbum sem precisar levar as outras onze que são uma porcaria? Você sabe o que é ver um filme esloveno sem precisar ir à Eslovênia? Você sabe o que é comprar tudo no mesmo lugar ou nem sair de casa para comprar de tudo, com apenas um clique? Você sabe o que é Google? Jornal on-line? Você sabe quantos e-books cabem em um GB? Você sabe quantas cores tem em um refletor de LED?  Você sabe o que é LED, e-book, GB? Você sabe o que é escrever, apagar, reescrever, apagar de novo, escrever mais uma vez, sem fazer nenhum borrão e escolhendo entre vinte mil fontes? Você sabe o que é falar à distância com um amigo olhando para ele e não pagar nada por isso? Ou jogar qualquer tipo de jogo com seu primo mais querido, sendo que, enquanto você está atacando em Beirute ele está defendendo em Pequim? Se não sabe, não me venha com saudosismos.

domingo, 18 de março de 2012

Tablet ou laptop?

Você sabe o que é comprar um LP e voltar para casa lendo o encarte? Você sabe o que é ir ao cinema e esperar a cortina abrir para ver o filme? Você sabe o que é secar a tinta do papel com um secante? Você sabe o que é ir à quitanda e pedir para por na conta? Você sabe o que é gravar uma fita cassete com as melhores lentas? Você sabe o que é abrir um dicionário? Uma enciclopédia? Abrir um jornal e ler uma coluna? Você sabe o que é acariciar, cheirar, ler um livro? Você sabe o que é fazer um refletor com lata de leite Ninho? Você sabe o que é escrever numa Remington ouvindo a trilha dos toques? Você sabe o que é receber uma carta perfumada? Você sabe o que é caderno de caligrafia, aula de retórica, comer manga em cima do pé? Você sabe como se joga xadrez? Se não sabe, não me venha com modernices.

sábado, 17 de março de 2012

Sonhos

Gosto de sonhar, de todas as formas e maneiras. Quando dormindo é sempre meio onírico. Acordado, dá a sensação de potência. Sempre sonho. Andando de bicicleta, estou à mercê do tráfego das coisas fugidias. Quando a pé, desconheço qualquer indivíduo ao meu derredor. Para a cabeça, não há restrições. 

Ontem sonhei assistindo a um espetáculo do grupo Bagaceira de Teatro na sede da Pequena Companhia (ops!). Revisitavam Shakespeare à moda dos Clowns. Vinham em cortejo e usavam meia-máscara. Era um ator de meia idade que eu acompanhava. Vez por outra ficava a observar não só a técnica que ele detinha, mas a maneira como ele fitava as pessoas. Hipnotizava-me. Ao final, eu não era mais um à meia-luz ou na multidão que se acotovelava nas escadarias do casarão (ops!). Conversávamos sobre teatro, sobre a beleza de se contemplar o desconhecido e sobre a ousadia da aproximação e do encontro. Éramos uno no fazer, no demonstrar e no sentir. 

Ontem sonhei em percorrer caminhos ainda não trilhados e ousar mais, cada vez mais e sempre.

Hoje, fiquei a pensar sobre me esquecer da quinta, da sexta, e só me lembrar do sábado. Pensei no curta do Serge em que a persona entrava em uma padaria, se aproximava da estufa e perguntava à atendente: "-Tem sonho?". E ela sentenciava: "- O sonho acabou". Subia os créditos.

domingo, 11 de março de 2012

Somos nós no espelho?

Sou um artista intuitivo. Estudo. Gosto de estudar, contudo, quando o momento aparece, não sei estruturar formalmente as soluções necessárias. “As sortes” vêm do conhecimento empírico, das percepções, das lucubrações solitárias, das discussões com meus pares, das explosões sensórias do espectador profissional que sou. Isso me aflige, porque gosto dos argumentos teóricos, das dissertações, dos nomes próprios, das referências. Sinto-me menor, claudicante, embusteiro. Sou sincero, verdadeiro, mas esta certeza não ameniza a imagem que creio que os outros têm de mim quando opero distante dos cânones. Não faço isso premeditadamente. Para mim, o momento criativo é vulcânico, e carrego comigo as influências de todos os fantasmas que me forjaram, mas não me detenho para entendê-los. No momento da criação não me interessa entendê-los. Não sei criar catalogando, referindo, comparando, consultando. O estudo vem antes e depois, nunca durante. Isso provoca na construção da obra um estado movediço, frágil e modelável como argila no torno. Rigidez, desprezada. Certezas, abandonadas. Concretudes, esfareladas. Pronta, a obra se reinventa e vejo tudo claramente: teoricamente, tecnicamente, formalmente. Tudo está lá. Límpido e cristalino. Na maioria das vezes consigo até enxergá-lo. Mas, a inferioridade, permanece. Coisa de matuto.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Tempo de preparação; tempo de ensaio

Que ator sou eu? Que ator eu vejo em cena? 

É inegável que quanto mais se ensaia, mais se distancia das imperfeições, dos equívocos, dos deslizes, e nos aproximamos daquilo que queremos. O que esquecemos ou negligenciamos talvez seja o processo anterior ao treinamento, aos ensaios. 

Como o ator se comporta horas antes dos ensaios? Qual a rotina que o ator se exige para estar pronto? Ele defeca, toma banho, limpa os ouvidos, escova os dentes, se hidrata, come algo leve, desliga-se das agruras do dia? Que tipo de leitura faz? Que música ouve? Ejacula com que frequência? Que vida é essa que o ator leva antes de se preparar para um espetáculo? Que tempo ele tem ou necessita para esse feito? Que tipo de teatro ele quer fazer, com quem faz e como faz? 

O ator é irrequieto e propositivo. Desiste do conforto - qualquer que seja ele - e reivindica a autoria e autonomia de seu trabalho. 

A nossa cultura sempre foi do desperdício de tempo, de resultado, de materiais, de gozo, de relações, de beijos, de afagos. Enquanto não sairmos desse conforto, nosso teatro será pobre em suas proposições. 


Nossa arrogância diz o contrário. Pena.

domingo, 4 de março de 2012

Por que viajamos?


Dona de um caráter entranhadamente provinciano, nossa cidade (leia-se: poder público, privado, fomentadores, mecenas e afins) não percebe a necessidade de que suas atividades artísticas dialoguem com o restante do país, circulando com suas obras, discutindo conceitos, participando de debates, oficinas, seminários, mostras, exposições, festivais etc. Esse intercâmbio contribui para o fortalecimento do movimento artístico local, para a reverberação das suas experiências particulares e para a capitalização das consequências socioculturais na cidade geradora desses dizeres.

Não se repensa nossa realidade sem conhecer outras. Não se muda um estado se o estado de consciência da classe provocadora está amordaçado por não conhecer o mundo. Não se revelará vida pulsante nas obras artísticas locais sem construir referenciais e parâmetros que mostrem as reais condições da nossa produção cultural. Precisamos ver o mundo.

A pequena companhia de teatro tem um olho aqui e outro acolá, atenta para não ficar estrábica. A peleja para empurrar o horizonte e abrir fronteiras além do nosso umbigo nos clareou caminhos e nos fez perceber que o centro do mundo e a periferia estão muito mais relacionados ao ponto de onde você olha do que à localização geográfica.

Abrir caminhos para o diálogo entre a produção artística maranhense e a do restante do país favorece o aumento de qualidade das obras de arte e contribui para a reconstrução de uma classe artística mais atenta, mais contestadora, mais reveladora e mais consciente do seu papel transformador.

sábado, 3 de março de 2012

Você sabia que...

  
... a pequena companhia de teatro foi convidada para participar do VI Festival Banco do Nordeste das Artes Cênicas? Pai & Filho se apresentará no dia 30 de março, às 15h e 18h, no Centro Cultural Banco do Nordeste, em Fortaleza – CE. Este é o nono festival onde o espetáculo se apresenta e será a terceira vez que visitará terras cearenses – anteriormente esteve em Fortaleza e Sobral com a circulação do Myriam Muniz e no XVII Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga.

sexta-feira, 2 de março de 2012

É a ferida que cicatriza?

Em mim uma dor corriqueira, cotidiana. Não gosto da vida como se apresenta. Preciso da arte para respirar, para me sentir vivo. Quando do contrário, percebo que o que tenho não me basta. Mais em quantidade e qualidade. O nível de insatisfação surpreende pela força devastadora com que me conduz ao cadafalso. Morrer em vida é meio que isso. Vai corroendo aos poucos e só fica perceptível quando transborda. Preencher esse vazio com sexo é querer cobrir o céu com um véu. A tarefa é reinventar a forma de conduzir as angústias provocadas pela distância de tudo que me fascina. Tarefa fácil, diria minha personagem. A mim, resta expor parte das vísceras e me mostrar humano, saudoso, queixoso, moroso.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Oficina

Dou oficinas desde 1990. Puro atrevimento. A primeira concluiu com o espetáculo Tropicanalha, uma divertida experiência em terras balsenses. De lá pra cá, me aventurei por várias práticas, laboratórios, tentativas e vertentes. Hoje, uma das oficinas que a pequena oferece é a que demonstra nossa “metodologia” de construção.

A experiência de ministrar a oficina “O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator” em 12 cidades do norte e nordeste do país foi instigante e nos auxiliou a perceber como as pessoas compreendem o nosso processo. Fazendo uma avaliação geral, pese ao desnivelamento entre os participantes de algumas turmas, uma gama significativa de pessoas demonstrou claro entendimento do nosso "sistema", dialogando, discutindo e encontrando referenciais para que a troca fosse o mais fértil possível. Turmas como as de Teresina e Natal buscaram além do conteúdo das três jornadas que compunha o treinamento, e procuraram aprofundar o entendimento em diálogos informais ou nos debates – onde a prática experimentada na oficina se contrapunha aos resultados atingidos em Pai & Filho.

A satisfação que sinto aponta para o objetivo do exercício. Não nos interessa estabelecer nosso fazer como método, sistema ou algo a ser seguido. É apenas o nosso jeito de fazer. A forma como fomos construindo o nosso dizer no decorrer dos anos. O principal objetivo é democratizar esse caminho para que as pessoas conheçam. Quantas vezes vi um espetáculo e fiquei morrendo de vontade de saber como eles conseguiram aquilo? Aquele prazer de ir além da observação e conhecer os meandros da construção. Por isso insistimos nos debates e nas oficinas, para que os mais curiosos encontrem um espaço para poder dialogar. Não podemos obrigar os outros a nos mostrar como fazem, mas podemos mostrar para os outros como fazemos.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O que ser dito

O ser não se esgota. Reinventa-se. Busca motivos para sentir, e quando sente, o faz até exaurir-se. Teatro é arte. Arte articula um olhar, um recorte da visão do artista frente à janela posta à frente. Quem não o faz não é artista, mesmo que usurpe o teatro em detrimento de sua perdição. 

Muito ainda está por ser dito. O esgotamento, se existe, é físico. Paira sobre as cabeças primitivamente o sexo e, além-mar, a esperança da busca contínua do como. Caminhos são sempre caminhos e quando são feitos com os olhos fechados, há segurança demais para curti-los. Assim, o pensamento chega antes do corpo. O aguarda, senão vira devaneio, refluxo, dor da contenção. 

Uma entressafra para tonificar o solo. Germinará.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Dormir

O que é dormir? É o fim? É o começo? O sono sempre me intrigou. Sempre me acompanhou. A pequena morte. Dormir sem sonhar é morrer por um instante. Abandonar-se ao abismo da não existência. O alívio absoluto do ser, antes do não ser. Só saberia morrer dormindo. A passagem tranquila da breve morte para a morte eterna. Riobaldo, no Grande Sertão, diz: “dormi mortalmente”. Brás Cubas, nas suas memórias póstumas, diz: “preferi dormir, que é um modo interino de morrer”. Sargento Getúlio diz: “Morrer é como que dormir e dormindo é quando a gente termina as consumições, por isso é que a gente sempre quer dormir”. Mas, Zaqueu, personagem de Entre Laços, alerta: “Dormir não é a mesma coisa que morrer”. E não é. Quando, em Pai & Filho, este diz – vou dormir, prenuncia-se que tudo recomeçará como antes. Quando abrimos os olhos tudo recomeça, tudo retorna, tudo continua, tudo permanece, tudo existe. O sono nos revigora e nos faz seguir existindo. Insistindo. A ressaca provocada pela falta de sono é o aviso de que não morremos o bastante. O sono profundo é a morte em vida, o alívio da existência, o fugaz desaparecimento, a glória da mente em branco, o não sentir, o não padecer, porque existir dói... Hoje estou feliz, e logo conhecerão o motivo.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Os mistérios envolvendo os encontros

Nunca soube ao certo o que me provoca virar uma esquina ou seguir em frente. Todos os caminhos levam à Roma, mas o que me reservam os caminhos? 
Como meus espaços são sempre alterados as pessoas também o são. E o que elas me provocam? O que eu provoco nelas? A resposta à segunda não me é pertinente, mas a primeira me exige. O que fazer depois de um encontro? Como moldar, reformular, digerir, relacionar, articular com o que se viu, com o que se sentiu, a partir de um encontro? 

Recupero uma fala do Marcelo F. que diz que o conforto do corpo, em processo de treinamento, é inadequado à criação e à verdade posta à cena. Não discordo dele. O que me espanta é não ter percebido o óbvio: Cada vez que eu me apodero das ferramentas do Quadro de Antagônicos (para saber mais, clique aqui), mais eu me torno confortável frente a ele. Assim, qualquer treinamento que me distancie dele vai fazer com que eu me sinta desconfortável, já que meu corpo, como os demais, tem memória. E isso é bom. Perceber-me deslocado me angustia, e me faz produzir. 

Do que falo? Vejam aquiaqui e aqui.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

6ª Jornada – Palmas e Porto Nacional

Como Cláudio comentou, chegamos ao fim do projeto de circulação de Pai & Filho, patrocinado pela FUNARTE, Ministério da Cultura e Governo Federal, através do Prêmio Myriam Muniz de Teatro, com o fundamental apoio do SESC. Meu destaque da última jornada é a plateia de Palmas. Três récitas superlotadas. Mais de sessenta pessoas voltando da porta depois de esgotada cada sessão. Um público atento, generoso e extremamente interessado em debater o espetáculo após cada apresentação. Os diálogos nos três debates foram tão intensos e extensos que quase perdemos a hora da apresentação das 21h. Eram duas sessões no mesmo dia e o bate-papo nos surpreendeu com a plateia seguinte pronta para entrar.Fazendo um balanço, antes mesmo de completar 2 anos no próximo dia 9 de abril, o espetáculo acumula 54 apresentações. Foi apresentado em 14 teatros e em 8 espaços alternativos. Foram 50 récitas com entrada franca e apenas 4 pagas. Esteve em 20 cidades (Santos, Presidente Prudente, Rio de Janeiro, Belém, Castanhal, Palmas, Porto Nacional, Teresina, Parnaíba, Fortaleza, Sobral, Guaramiranga, Mossoró, Natal, São Luís, Imperatriz, Balsas, Riachão, Santa Inês e Timon) de 8 estados brasileiros (SP, RJ, CE, PA, PI, TO, MA e RN). Participou de 8 festivais e mostras (FENTEPP, FNT, Festival Agosto de Teatro, FestLuso, FESTA, Mostra SESC Guajajara de Artes, Festival de Teatro do Rio e a Semana do Teatro no Maranhão). Ganhou 8 prêmios (Espetáculo, Direção, Texto, Ator, Produção, Figurino e Cenário duas vezes), além dos 2 prêmios Myriam Muniz, e foi visto por 3.352 pessoas. E o Palco Giratório ainda nem começou. Pai & Filho se prepara para encarar outras 30 cidades.

São números que escondem estradas, saudades, dores, elogios, conflitos, debates, pratos, conversas, vinhos, amigos, pregos, apresentações, encontros, cansaços, reviravoltas, sonos, críticas, chegadas, oficinas, comemorações, hotéis, montagens, apoios, perigos, partidas, despesas, teatros. São números de um flagrante: a pequena companhia de teatro em ação.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Estamos em São Luís

Terminamos a execução da circulação pelo Prêmio Myriam Muniz de Teatro, patrocinado pela FUNARTE/Minc/Ministério da Cultura. Agora, uma espécie de recesso até o retorno à estrada, digo, às nuvens, já que estaremos circulando pelo Palco Giratório, a começar por Fortaleza. 
Enquanto isso, executarei um projeto em Imperatriz, Marcelo F. prepara a prestação de contas do Myriam e retoma os preparativos para a montagem comemorativa dos 400 anos de São Luís - pelo SEBRAE -, Kátia L. continua no batente frente à direção técnica do Teatro Arthur Azevedo, e Jorge C. hiberna. 

As postagens permanecem.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Estamos em Porto Nacional

Madrugada em Palmas e manhã em Porto Nacional. Menos de uma hora de carro. Já havia estado aqui. Agradável o retorno. Hotel, Centro Cultural, montagem, oficina, apresentações à noite. 
Público bom como em Palmas. O Tocantins nos reservou uma excelente plateia. Os debates sofrem oscilações naturais, já que mudamos de cidade. O teatro, como o público, sempre é diverso. Ontem tivemos um ritmo puxado, pois só pudemos montar o cenário depois do meio dia, o que acarretou um certo cansaço, mas não chegou a interferir nas apresentações de modo a prejudicá-la. Ao contrário, as récitas foram muito boas. 
À noite, não jantei. Reservei-me o direito de ir dormir antes da meia noite, para não virar abóbora. Hoje, café tomado, jornal lido. Esperamos terminar esta jornada do Prêmio Myriam Muniz, com uma boa apresentação. Amanhã, São Luís nos aguarda.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Estamos em Palmas

Um pouco de chuva e buracos marcaram nosso caminho até aqui. Nada que pudesse aplacar o nosso desejo de chegar sem pernoitar na estrada. Palmas é um excelente lugar para a perdição. Entre as rodovias e o hotel há um bom percurso para isso: perdemo-nos bonitinhos, como dizem, depois de passar por muitos queijinhos repetidas vezes. 
 
Um dia que seria de folga, montamos o cenário dignamente; ficou bonita a montagem, bem limpa, graças à estrutura do teatro do Sesc. À noite, na UFT, panfleteamos, e logo em seguida fomos jantar. Noira Botelho, esposo e filhas, nós quatro e Regino Neto, o produtor local. Muito papo, boa comida e uma conta robusta para ser paga ao final. Minha agonia fez-me voltar ao hotel andando. Poucos queijinhos me aguardavam. Hoje, dia de duas apresentações, esperamos ser generosos como de hábito. Nossa religião permite isso.

domingo, 22 de janeiro de 2012

5ª Jornada – Parnaíba

A montagemO palco é o do teatro Antônio Oliveira Santos, no SESC Avenida. Montagem apertada para fazer Pai & Filho caber em 5m de profundidade. Coube. Com alguns prejuízos dramáticos e estéticos, mas coube. Era a prévia para fazê-lo caber em 4,25m da profundidade que teremos no VI Festival BNB das Artes Cênicas. Estamos testando quais são os limites do espetáculo para adequá-lo sem perder qualidade. Limites são os melhores moderadores da ambição.

A oficinaComo em outras ocasiões, um grupo demasiadamente heterogêneo. A oficina é para atores ou alunos de teatro de nível superior, mas o comparecimento foi diverso: da querida Carmem, atriz com larga experiência, a iniciantes interessados em descobrir que bicho é esse. Quando isso ocorre, mantemos o conteúdo – para evitar o prejuízo dos experientes – e procuramos operar de maneira mais didática. Não dá para dizer que não afete os resultados, mas os danos são minimizados. Dá para mandar de volta pra casa um sujeito que se predispõe a treinar por horas sem parar?

As apresentaçõesO ritmo e a energia do espetáculo recuperaram a contundência que se diluíra no primeiro semestre de 2011, quando as apresentações foram mais esporádicas. Belém e Castanhal comprovaram. Isso nos permite continuar investigando a modulação ideal da encenação. Não foi em Parnaíba. As apresentações tiveram temperatura abaixo das do Pará, mas as portas se apresentaram. Vamos abri-las.

A plateiaBem abaixo da média de público que o espetáculo tem recebido durante a circulação pelo Myriam Muniz, esta foi uma das plateias mais curiosas. Além do bêbado que Cláudio comenta abaixo, nessa mesma récita, uma banda de rock que buscava um recanto para dormir

Os debatesFora esses detalhes pitorescos, pessoas interessantes, manifestando nos debates uma propriedade peculiar de envolvimento e compreensão. A qualidade supriu a quantidade e os debates fluíram com doce cumplicidade. Essa receptividade nos auxilia na avaliação das diretrizes que traçamos para a companhia e dos caminhos que percorremos até aqui.

O apoioA cargo das queridas Lili e Ana Maria, e com os competentes José Maria e Manoel no teatro, o apoio do SESC Avenida foi fundamental para a nossa jornada. O patrocínio é da FUNARTE, do Ministério da Cultura e do Governo Federal.

O retornoFilosofia à parte, depois de cada jornada não é difícil ponderar se somos os mesmos. O eterno retorno nos traz de volta, contudo, diferentes.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O bêbado

No Rio de Janeiro, quando assistíamos a um espetáculo, tivemos a oportunidade de presenciar um bêbado como espectador. E era daqueles bêbados chatos, que insistia em participar da apresentação, estar com o foco. A turma do "deixa disso" tentava, meio que em vão, destitui-lo da façanha. Ele era um artista, uma espécie de público especializado.
Ontem, em Parnaíba, na segunda sessão de Pai & Filho, tivemos a chance de ter o nosso... bêbado. Pensei que ele estava incomodado com o espetáculo, não que estivesse sobre efeito do álcool. Independente dele, o público era difícil. Comentamos sempre que o público interfere no espetáculo, que ele é fundamental - e isso é a pura verdade. Para mim funcionou como estímulo. Precisamos ser generosos, fazer uma apresentação primoroso, independente da generosidade do público. Contradizendo-me, enquanto profissionais não podemos deixar que a plateia interfira de forma a alterar nosso estado de atenção. Da mesma maneira que é fácil deixarmo-nos vencer pelo riso fácil, é igualmente ruidoso quando não nos sentimos estimulados a cumprir com o nosso ofício.
O melhor público é aquele que é ativo, que nos sacode, que nos instiga. 

domingo, 15 de janeiro de 2012

Declaração de amor

Ultimamente tenho convivido quase que a totalidade da minha vida com os membros da pequena. Trabalho em tempo integral. Quando voltávamos do Pará, a bordo do ferry, tive uma epifania. Fiquei olhando para os três, enquanto falávamos de Velhos Caem do Céu como Canivetes, e pensava sobre o quanto sou afortunado. Um grupo que vai além da arte. Faço teatro com amigos. Trabalho com Jorge desde meados da década de noventa. Conheço Cláudio, desde o início dessa mesma década. Como companheiro de Kátia – autora da foto – levo dezesseis anos. São pessoas que fazem parte da minha vida há mais de um terço de todos os anos que vivi. São figuras pré-históricas (risos). Anteriores à história da pequena companhia de teatro. Amigos. Entre alegrias, brigas, conquistas e estresses, eles vão deixando pegadas que não constroem apenas a trajetória de um coletivo. A convivência com cada um deles vai deixando marcas e reescrevendo o guion da minha vida. Quando optamos por manter o nome companhia por extenso, foi por isso, porque nos fazemos companhia. Nesse mesmo compasso estão outras pessoas, umas próximas, algumas distantes, muitas importantes, todas distintas, no entanto, hoje resolvi falar dos três.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Pai & Filho se apresenta em Parnaíba - PI

Dando continuidade à circulação de Pai & Filho pelo Prêmio Myriam Muniz de Teatro, a Pequena Companhia estará se apresentando no Sesc Parnaíba (Rua Eunice Weaver, 01 - Centro), nos dias 19 (19 e 21h) e 20 (19h) de janeiro de 2012, na Galeria Carlos Guido (Sesc Avenida).
Paralelo às apresentações, Marcelo F. estará ministrando atividade de formação para atores, nos mesmos dias, das 14 às 18h, na Sala de IPTV (Sesc Avenida).

As atividades são gratuitas, graças ao Governo Federal, Minc e Funarte.

Deixe que digam, que pensem, que falem - 11

Foi publicado no DiárioOnLine matéria sobre a apresentação de Pai & Filho em Belém. A íntegra, você lê clicando aqui.

Sou ator e trabalho na estiva

Teatro profissional. Ator: chegar duas horas antes, fazer alongamento, aquecimento, figurino, maquiagem, palco, aplausos. Teatro amador. Ator: chegar meia hora antes, figurino, palco, aplausos. Ops, esqueci o detalhe da estiva. Carregar, montar e desmontar cenários, subir escadas, enrolar fios. Maratona dentro de um carro, em territórios de passagem ou avião, hotel, trânsito, estradas. Menos tempo para a cena. Parece que vicia essa vida, ou nos adaptamos. Quando alguém se aproxima com a intenção de ajudar, a gente meio que deseja o vício da estiva e nega a gentileza: quer sofrer sozinho a dor da carga, das opções que escolheu - e mesmo com a existência dos estivadores  já ocorreu meio que um exame na consciência... é meu papel enquanto ator carregar carga. Imagino que quanto mais se envolve em um ato, mais prazer se tem. É como se divertir num parque ao invés de ficar observando-o à distância, ou ainda montar a própria cama que servirá de descanso por décadas. Relação de pertencimento, talvez, ou o desejo de querer ter o controle de tudo, ter o máximo de prazer para si e não para os outros. Somos egoístas ou tolos. E seguimos fazendo teatro, carregando pesos, exaurindo energias, recriando relações. O conflito reside em nós. Termino recuperando a ideia de Saussure: enquanto ator, sei que sou, pois me travisto no palco. Agora, preciso de uma indumentária para a parte da estiva.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

4ª Jornada – Belém e Castanhal

Belém, 06/01/12 – 2:15 AM. Iniciamos a 4ª Jornada de circulação de Pai & Filho pelo Myriam Muniz. Viagem tranquila. ferry boat, estrada, buracos, buracos. Estávamos no Maranhão. Passagem pela divisa e a estrada melhora, chuva, chuva, chuva. Estamos no Pará. Antes da chegada a Belém, uma passada por Castanhal para ajustes de produção. Sim, mudança de planos: nem Marabá nem Ananindeua: Castanhal. Trecho final até o destino e Tainah, Leo, Zê Charone e Sueli, no Teatro Cuíra, oferecem uma recepção calorosa. Montagem tranquila, uma esticada até o restaurante Tsuru e cama. Cabeça no travesseiro, e na mente a falta de cuidado, o descaso e a beleza dos centros históricos das cidades de destino e de origem da nossa viagem.

Belém, 07/01/12 – 1:40 AM. Primeiro dia de oficina e um grupo interessante, apesar de heterogêneo. Suor e chuva. Fim da oficina e velocidade na conclusão da montagem para a sessão de 19:00h. A chuva deu trégua para aguardar uma plateia admirável, quantitativa e qualitativamente. Debate, remontagem da cena, origem, e nova apresentação de Pai & Filho às 21:00h. Debate e alegria pelas boas apresentações em sequência. No hotel a decisão repentina de correr até o Don Giuseppe para jantar: no badalo da meia noite meu aniversário se apresentava. Brinde, presentes, um bom prato e a sorte de estar entre amigos e com quem amo. O teatro tem poderes que ainda me surpreendem.

Belém, 08/01/12 – 1:45 AM. Última jornada da oficina e o prazer de poder democratizar nosso fazer com nossos pares e alguns ímpares. Cada grupo é uma nova experiência, um novo aprendizado. Montagem (o local da oficina é o mesmo da apresentação), banho na carreira e a apresentação das 19:00h nós espera com a casa lotada e gente sentada nas escadas. Não é que tem gente que gosta de teatro? Uma das melhores apresentação de Pai & Filho até aqui. O debate continua um espaço para nossa reflexão. Ouvimos até uma dissertação sobre o não-édipo. O espectador é, definitivamente, um co-autor. Desmontagem cada vez mais rápida, e meu aniversário termina com a pequena companhia reunida e outro prato para a parede. Posso querer mais? Talvez ainda role um namoro.

Castanhal, 09/01/12 – 00:06 AM. Amanhecemos na estrada, trajeto curto. Direto para a Fundação Cultural Castanhal. Montagem, ainda pela manhã, tranquila, agradável. Gosto assim, quando os detalhes ficam perfeitinhos – problema de todo obsessivo. Um rápido almoço, check-in no hotel e oficina. A predisposição para quatro horas de treinamento intenso partiu do grupo Argonautas e a tarde passou. Remontagem – novamente o local da oficina é o mesmo do espetáculo – e, depois de um banho, nosso receio de falta de público é respondido com uma bela casa. Na segunda apresentação nosso público é de argonautas e amigos. Argonautas, Madalenas, Cuíra, coletivos que estão na labuta, como nós. Somos muitos, mesmos que não nos enxerguem. Dia findo. Como cabe a mim postar no domingo, vão ficar sem o último dia da nossa jornada paraense.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Pai & Filho em Belém

Pai & Filho será apresentado em Belém, no teatro Cuíra (Riachuelo com 1º de Março - Campina), nos dias 06 (sessão às 19 e 21h) e dia 07 (sessão às 19h) de janeiro de 2012. Serão três apresentações, gratuitas, dentro do projeto aprovado pela FUNARTE/Minc/Governo Federal (Myriam Muniz). 
Quer ler um texto acerca do teatro Cuíra e do bairro Campina? O título é: Quando o Cuíra acordou a zona. Clica aqui.

Deixe que digam, que pensem, que falem - 10

O jornal Vias de Fato fez uma retrospectiva na esfera cultural, em São Luís, do ano de 2011. A Pequena Cia. foi lembrada pelo Alberto Júnior - radialista e crítico musical. Diz ele: "No difícil campo das artes cênicas, a Pequena Companhia de Teatro, a Santa Ignorância Cia. de Teatro e o talento do dramaturgo Igor Nascimento não deixaram eu me acomodar na confortável resignação de fruir de espetáculos simples. Foram geniais!"
Para ler mais, clique aqui.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Ano novo, de novo.


Em janeiro concluiremos o Myriam Muniz: Belém, Ananindeua, Parnaíba, Palmas e Porto Nacional, em três jornadas. Na bagagem, o já definido calendário de Pai & Filho no Palco Giratório, que inicia em abril e visitará trinta cidades brasileiras – em breve aqui. Hoje recebemos o convite para representar o Maranhão no VI Festival BNB de Artes Cênicas, em março. E o melhor presente de natal de todos: achamos a caixa de esgoto! (uma piada interna). O natal foi feliz e a prosperidade do ano novo se avizinha. Como esta é minha última postagem do ano, deixo minha admiração à paciência do leitor de Canterville que nos acompanhou durante o ano. Pequeno, você foi um grande!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Antagônico da leveza

Minha experiência com a leveza é contraditória. Por um lado, o enraizamento se esvai, já que o vetor da terra diminui em intensidade para que o vetor do céu seja mais presente. Com isso, o equilíbrio fica precário. Para que a estabilidade se efetive, comumente é utilizado o antagônico da velocidade (como andar de bicicleta ou passar por uma pinguela). Pode-se fazer um paralelo com uma pena ou pluma. Quanto mais veloz for, mais tempo ficará no ar. Quando perde velocidade, a atração da gravidade fará com que pouse no chão. Com o corpo humano ocorre parecido, pois quanto mais velozes estivermos, menos contato com o chão teremos. Há uma alternativa também, que coincide com essa sentença: elevar um pouco os pés, com os calcanhares descolados do chão um milímetro, a ponto de passar uma folha de papel. Essa instabilidade dará a sensação de leveza. 
Outro aspecto que consigo perceber - e aí está a contradição - é que, quanto mais estivermos enraizados, mais teremos controle do corpo, e com isso viabilizar a sensação de leveza, como se estivéssemos pisando em ovos. Ainda não utilizei esse antagônico nas personagens representadas. Em nível de treinamento sei que há contaminadores expressivos, pois a leveza navega contra a gravidade.

domingo, 18 de dezembro de 2011

O Teatro Polidramático – tese inaugural


A postagem de hoje vai entediá-lo – é minha obrigação avisar. Estou versando sobre o Teatro Polidramático. O que é? Nem eu sei direito ainda, no entanto, para melhor entender o nosso fazer, venho refletindo e analisando a presença das outras dramaturgias nos nossos processos e sua relação de interferência com a dramaturgia do ator – centro da nossa pesquisa. Nosso manifesto, postulado original da companhia, já abordava o fato quando dizia não desprezar outras, apenas utilizá-las como instrumentos em benefício do dizer do ator.

Quando cunhamos o termo “Teatro Polidramático”, não foi tentando nomenclaturar, enformar ou formatar nosso fazer, é apenas uma necessidade de compreensão, a busca de um entendimento claro para o desenvolvimento da nossa investigação.

Em uma reunião informal (a maioria das nossas são) Jorge insistia na revisão da dramaturgia do ator como centro. Em outra, Cláudio sugeria uma revisita aos diários de montagens para decupar de maneira mais sistemática se efetivamente a dramaturgia do ator está no centro. Revisão preliminar feita. Penso que está. Estar no centro não significa estar sozinha. O que se percebe é que a centralidade da dramaturgia do ator não anula todos os outros instrumentos discursivos utilizados na construção da dramaturgia final das nossas encenações.

Nós partimos de três dramaturgias capitais: a do ator, do autor e do encenador. Sendo que a do ator é central e essas outras duas circundam esta. Como as três têm grande poder de discurso, há uma relação de interferência viva em sentido recíproco.

As dramaturgias auxiliares – encontradas na maneira dramatúrgica como utilizamos a cenografia, a iluminação, a sonoplastia, a espacialidade etc. – variam em intensidade dependendo da encenação. Têm maior poder polisêmico (roubo a palavra da linguística para usá-la no sentido filosófico) e multissensório, menor capacidade de discurso, mas creio que a ingerência em relação à dramaturgia do ator é menor que às dramaturgias capitais. A do ator sim interfere nelas e reconduz sentidos e sensações. (caso queira, dê uma lida no capítulo A Leitura Transversal, de Demarcy, no livro Semiologia do Teatro, organizado por J. Guinsburg e outros, pela Perspectiva. Não tem a ver, mas tem.)

Podemos dizer que nosso “Teatro Polidramático” tem por características a integração de dramaturgias, sendo que todas são convergentes à do ator; e sua pluralidade favorece a interface entre discurso, sensação e sentido. Refletindo um pouco, esse teatro tem o ator como centro catalisador de dizer. Sua dramaturgia catalisa todas as outras, por isso o “poli”. O termo “dramático” – que no sentido etimológico melhor seria “dramatológico” ou “dramatúrgico” – permanece por uma referência intencionalmente jocosa ao termo pós-dramático.

É claro que esta pretensiosa brincadeira teórica não deve ser levada a sério, até porque, é apenas uma reflexão preliminar que busca a melhor compreensão do nosso fazer. No “Diagrama do Teatro Polidramático” abaixo, tudo fica mais confuso (risos). Divirta-se, se puder.