domingo, 30 de janeiro de 2011

Dúvidas, dívidas e devaneios.

.
Durante os próximos três dias faremos uma simulação da oficina “O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator” que aplicaremos na circulação do espetáculo Pai & Filho pelo Norte e Nordeste do Brasil.



A ideia é reproduzir as condições que a companhia poderá encontrar durante a jornada. Trabalharemos em um pequeno espaço que o ator e amigo Lauande Aires dispõe em sua residência. Seremos nós três (CM, JC e MF) e ele.
.

A perspectiva dessa atividade me provoca alguns questionamentos quanto à importância desses mecanismos de diálogo entre fazedores como fórum de intercâmbio de experiências: nossa prática terá alguma importância para pessoas que não sejam membros da companhia?
.

Quando sugeri a oficina para o projeto pensava que sim. Agora, como tudo na minha vida, não sei. Penso que se ao menos conseguirmos demonstrar como acontecem as formações das personagens no processo de construção da pequena já estaremos auxiliando os operadores a gerar uma relação de causa e efeito – tendo em vista que os participantes terão contato como a obra (espetáculo) e seus mecanismos de construção (oficina). Mas o motivo da postagem é levantar a questão para futuras reflexões: temos algo essencialmente relevante para repassar?

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

E mesmo sendo um to(lo)do, sou em partes

Quando um ator alcança sua plenitude em estado de representação? Individualmente, tem papeis que me satisfazem, verdadeiramente. Diretor satisfeito e público convencido, também fortalecem a primeira acertiva, mesmo sabendo que existem verdades e verdades, perspectivas e perspectivas. Sei de toda essa história que fazem com que a gente nunca tenha uma crença sólida e profunda sobre algo. Sempre tem os senões. 
Ciclos como a vida, os papeis atribuídos pelo diretor têm princípio e fim, quando termina-se, definitivamente, a carreira da peça, do espetáculo. Alguma coisa fica com o ator e com seu público. Dia desses, no supermercado, um empacotador lembrou de Urubus e Pérolas. Eu me lembro dos espetáculos que fiz. Não sei a data de nascimento de minha mãe e nem o de falecimento de meu pai. Se pensarmos em níveis de importância, o espectador deverá ser uma espécie de termômetro para a insatisfação. Não a ausência dele, mas sim a sua presença consistente. Espectadores e espectadores. Quero ter os meus. Quero ter a todos eles como amigos, que são convidados a entrar em minha casa, a sentarem no chão e conversar sobre a vida. Quero essas pessoas completas para que juntos, possamos nos sentir incompletas gentes, em um espaço que jamais vai ser preenchido. Vazios não são faltas. Não faltam espectadores, mas sim espectadores. Teatro existe, o que não existe é teatro. 

E assim, um tolo escreve em partes.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Vale prêmio

.
.
Passamos de oitenta seguidores! Vamos comemorar com prêmios: os próximos cinco comentários receberão gratuitamente um exemplar do livro Cinco Tempos em Cinco Textos (à venda na livrarias Poeme-se, Tambores e Leiamundo), lançado pela pequena editora de livros no último dia sete. Detalhe: os comentários não poderão ser referentes a este post. Deverão ser pertinentes a temas de postagens anteriores – como prova de que alguém lê – não se esquecendo de registrar o endereço de correspondência para o envio do livro. Nosso sistema permite acessar comentários por ordem cronológica, independentemente de em que postagem for feito o comentário.

Também receberão livros as próximas seis pessoas que se tornarem seguidores, levando o blog à incrível marca de noventa pessoas amigas que clicaram em “seguir” por compromisso e nunca mais apareceram!

É a pequena companhia de teatro fortalecendo seus laços internéticos e seu compromisso com a democratização desta opereta meia boca.

P. S.: Palavras do autor

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A improvisação: método e instrumento

Tendo o teatro o caráter do efêmero, e o drama grego equivaler à ação, é sensato crer que “o drama é a única forma mediante a qual podemos utilizar plenamente o homem na exploração de si mesmo, dentro do contexto de uma situação viva, e a experiência mais profícua dessa experiência deverá ser realizada através da improvisação”[1].

Lembremo-nos aqui que “a commedia dell’arte eleva a improvisação à categoria do artístico”[2], pois que “em oposição ao teatro literário, os cômicos dell’arte, do ofício, sustentavam que o autor é o ator”[3]. Então, em um dado momento, temos um ator, que é encenador e autor, de forma concomitante.

FO (2004) recupera, inclusive, a informação de derrubada da quarta parede pela dell’arte, quando diz: “Pois bem: a idéia de derrubar a quarta parede já obcecava os cômicos dell’arte[4]. E isso é importante na medida em que, quanto mais o ator se aproxima do público, mais terá a improvisação como instrumento.

Mesmo enquanto método, a improvisação serve para auxiliar na reconstrução da fabulação, anterior ao tempo da narrativa da peça “para investigar ações que o personagem não vive na peça (...) além de ajudar a localizar ações, intenções e subtextos”[5].

Quando o espetáculo estreia, e imagina-se que o encenador esteja satisfeito com o resultado, e os atores já com suas personagens modelares e compostas, a improvisação não deixa de ter espaço, principalmente em se tratando da importância que os espectadores têm no ato da encenação. E é esse espectador que vai alterar a ordem do espetáculo, mesmo que ele opte pelo silêncio. Ele, com sua intuição determinará o seu envolvimento.

O ator, incorporado com a necessidade de sentenciar indelevelmente o teatro enquanto efêmero, potencializando o tempo do agora, do é, será generoso se utilizar-se de sua intuição.

Entretanto, se colocarmos o espectador-atuante no mesmo nível de importância para a improvisação, há de continuar a sua eficácia: “Tudo isso aumenta o desconforto do ator, constrangido a ficar em guarda, vigiado por todos os lados ao mesmo tempo, acuado a descoberto”[6].

A beleza do teatro é a celebração entre atores e público. Ambos devem se dar esse direito.

[1] HODGSON, J. & RICHARDS, E., apud JANUZELLI, Antonio. A aprendizagem do ator. São Paulo: Ática, 1992. p. 63.
[2] CHACRA, Sandra. Op. cit. p. 225.
[3] Ibidem.
[4] FO, Dario. Manual mínimo do ator. São Paulo: Senac São Paulo, 2004. p. 120.
[5] BARBOSA, Zé Adão, CARMONA, Daniela. Op. cit. p. 96.
[6] ASLAN, Odette. Op. cit. p. 183.

domingo, 16 de janeiro de 2011

A estética do feio – primeiras impressões

.
.
O belo é esteticamente óbvio. Adoro o feio. O assimétrico. Toda forma disforme é absolutamente perfeita na sua desordem caótica. O feio instiga com maior vigor do que a passividade do belo. O feio acorda. O belo adormece. Somos conduzidos a ver de maneira padronizada. Nosso olhar viciado é escravo da simetria, da perfeição. Imperfeito. Feio é o que se é. O que somos. Como somos. Cromossomos. Nossa feiúra brilha quando não é camuflada com a maquiagem opaca do belo. Quando a cortina se abre, beleza demais enjoa – a cortina se fecha e o feio ainda pede reflexões. O trabalho da pequena favorece a aceitação do feio e não cai no equívoco de tentar torná-lo belo. Falo do feio como adjetivo positivo: a estética do feio substituindo a cosmética do belo.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Flecha e as tragédias do ser

.
O jornal O Estado do Maranhão publicou um comentário de André Lisboa sobre o livro Cinco Tempos em Cinco Textos, dramaturgia reunida de Marcelo Flecha, lançado dia 07 de janeiro na Oficina Escola. Para acessá-lo clique no diário do André ou na foto abaixo. Para adquirir o livro, envie um e-mail para contato@pequenacompanhiadeteatro.com. .

Chuva, suor e vinho

O melhor leitor do nosso lançamento foi Ubiratan Teixeira. Suas palavras descrevem o que foi a noite:


“Lançamento de livro, para mim, é algo semelhante ao ritual promovido pela parturiente até meados dos anos 50 do século passado reunindo em torno de sua cama os parentes e as pessoas gradas para apresentar seu pimpolho quando servia um cálice de vinho moscatel.

Nos lançamentos de livros, muitos vão para filar o grogue e o dicumê, outros para se exibirem diante das câmeras de televisão e microfones das raras emissoras de raio, um razoável número dos presentes comprará a obra considerando que é chique ficar na fila do autógrafo, mas raros a lerão.

Não sou fanzoca de lançamentos por essas e outras circunstâncias: o rango é péssimo e as presenças geralmente azedas e depois, conhecendo meu povo como conheço, mesmo havendo exceções excepcionais, sei quem produz o quê e por que.

Conhecendo o trabalho de ourivesaria que Marcelo Flecha desenvolve no teatro, encarei o temporal que desabava sobre a cidade na noite e na hora do lançamento deste precioso “Cinco Tempos em Cinco Textos” e me dei infinitamente gratificado por lá ter ido. O ambiente era saudável e descontraído, tudo informal, lá estavam as pessoas despidas dos preconceitos e dos gestos mesquinhos, gente que fala minha própria língua; pessoas com o olhar saudável sobre nosso mundo, velhos parceiros que não via fazia largos tempos, antigos “amores” encastoados nos meus sentimentos mais nobres, imagine o leitor aquela zona sem atropelos!

Boaes, Mariano, Dyl Pires, Gilson Cesar, Jeane, Lúcia, todas as lúcias, todos os souzas, e pedros e glórias, dezenas de nomes e rostos amigos que não os via desde o século passado, abraços autenticamente fraternos, apertos de mãos sem nojo, nada daquelas palmadinhas despidas de calor & vida nas nossas costas e mãos molengas e sem tato; e, sem falar no autor, figura imprescindível, também essa criatura que está se tornando tão especial para a história cultural do Maranhão, que é Bruno Azevêdo me obsequiando de cara com o que presumo ser sua última produção literária, o romance fastifud “O Monstro Souza" (Pitomba, São Luís/2010, próximo capítulo do meu Hoje é dia de...).

“Cinco Tempos em Cinco Textos” desmente o que o autor andou falando, já em esperta defensiva, em uma entrevista que o próprio concedera ao nosso assanhado editor do Alternativo, de que depois de ícones como Brecht, Shakespeare, O’Neil, Ibsen era temeridade encarar o gênero: se seguisse esse raciocínio a dramaturgia mundial não teria hoje esses personalíssimos (re)criadores e outra centena deles, considerando que já havia acontecido os gregos Sófocles, Eurípedes e Aristófanes. Os cinco textos de Marcelo Flecha incluídos nesse volume seriam assinados por qualquer um desses “tolos” que fizeram – e fazem – a história do teatro planetário, Artaud (criador da Crueldade, onde não havia nenhuma distância entre ator e platéia – mais ou menos aquilo mostrado na noite de lançamento), Ionesco, Beckett, Genet, Stoppard: autores incluídos na categoria de criadores que aceitavam o princípio defendido por Grotowski pra quem cenários, figurinos e luzes são apenas armadilhas desnecessárias ao significado central que o teatro pode gerar.

Marcelo Flecha completou seu ciclo; pertence à família: pode permanecer sem susto.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Deixe que digam, que pensem, que falem - 7


Roberta Gomes/IMirante comenta sobre o lançamento do livro de Marcelo Flecha. Para acessar o portal e ler a matéria, clique aqui.

Abaixo, a íntegra dela.

Cinco textos em Cinco tempos é lançado hoje, 
por Marcelo Flecha

Considerando-se até pretencioso e com um certo medo do registro, o dramaturgo Marcelo Flecha, da Pequena Companhia de Teatro, enfrenta esses sentimentos e lança o seu primeiro livro: "Cinco tempos em Cinco textos". A publicação, fruto de um projeto aprovado pelo Prêmio BNB de Cultura 2010, reúne os cinco textos teatrais de Marcelo, produzidos de 2003 a 2009.

"Distorções de um dia interminável", Memórias de um mau-caráter", "Dois", "Privada" e "Clausura" mostram algumas reflexões do dramaturgo ao longo desses seis anos. "Apenas um texto desses cinco já foi encenado [Memórias de um mau-caráter]. Os outros são inéditos.[...] Como ator e diretor, sempre gostei do efêmero, daquilo que fica no imaginário, no momento, na lembrança. Sempre tive muito medo do registro. Quando o projeto foi aprovado que resolvi reler os textos", revela Marcelo Flecha.

Para o dramaturgo, o ato de publicar é um ato de pretensão. "Diante de tantos escritores clássicos e magnifícios, você publicar alguma coisa é muito pretencioso", afirma. Sobre estar com os livros nas mãos, vendo a sua obra publicada, ele comenta. "É muito doloroso, mas vale pelo processo de contribuição para a sociedade. Com o livro, estamos ajudando a democratizar o conhecimento". Dos livros impressos, 500 exemplares serão distribuídos gratuitamente.

E para quem nunca leu um texto teatral, Flecha aconselha. "Acho interessante que esse leitor não tenha medo da construção literária do teatro. É diferente, mas é bom para conhecer essa dinâmica. Vale experimentar pelo menos uma obra!".

O lançamento de "Cinco tempos em Cinco textos" será lançado nesta sexta-feira (7), às 19h, na Ofina Escola, na Praia Grande (em frente ao Terminal da Integração). E quem estiver presente terá a oportunidade de rever cenários das peças "O Acompanhamento", "Entre Laços" e "Pai e Filho", ouvir leituras de "Dois", com Jorge Choairy e Marconcine", além de degustar queijos e vinhos. "Queria isso, um lançamento informal, livre para receber contribuições artísticas e sem mesa de autógrafos!", completa Marcelo Flecha.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O ator, esse ser invertebrado

O trabalho de composição do ator, numa perspectiva da representação preconizada pela antropologia teatral, implica a plena convicção, para o ator, do tipo de teatro que se quer fazer levando em consideração, principalmente, todo o processo, e não tanto o resultado final, que certamente será consequência do traçado escolhido.

Então, o itinerário será importante porque ele é o aprendizado do ator, e como cada ser é único — e na contemporaneidade há uma multiplicidade de sentires, de culturas, quer ocidentais quer orientais, um turbilhão de informações —, o ator-compositor deverá exigir-se um rigor a partir do seu olhar, já que esse processo de trabalho, de treinamento, é individual, mesmo que em dado momento seja significativo a participação de outros atores, numa perspectiva de construção coletiva, de partilha e envolvimento — de acordo com cada projeto de montagem.


Quando esse posicionamento se estabelece, o ator percebe que não está só. Mesmo com informações provenientes de seu ser, ele tem interferência do espaço que o cerca, dos atores que estarão envolvidos com ele, com seu encenador, com o público. Essa percepção recupera a ideia de energia. Se o ator não perceber que absolutamente tudo interfere no seu processo, na qualidade de energia que desprende e manipula, e não ter rigor com o seu fazer, certamente não haverá verdade, tão pouco vida em sua cena.

Independente das matrizes que utilizar, de jogos teatrais ou técnicas, as energias e o rigor devem ser considerados em todo o treinamento. O debruçar-se sobre ele é que dará um retorno acerca dos procedimentos adequados ou não ao que se pretende, já que hoje não se aceita mais uma única verdade, mas sim as verdades possíveis de serem observadas, de serem aferidas.

A composição do ator e o procedimento adotado para a composição de uma partitura, possibilita um aprimoramento do conhecimento do próprio corpo do ator, seus limites, flexibilidade, massa, seu grau de concentração e envolvimento a partir da generosidade criativa disponibilizada; reconhecimento de sua capacidade em organizar conceitos e formular hipóteses; analisar o seu próprio fazer, dialogando consigo e com o outro; trilhar uma alternativa de processo do início ao final dele, analisando-o à luz das teorias teatrais existentes.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Um rascunho, um esboço, um vazio

Eu sou ator. Escrevi um texto teatral (não há drama; não há essa intenção). É o segundo, acho. Compartilho.


O ASNO, A CARROÇA E O LONGE

Personagens:

Homem
Mulher
O tempo

O tempo: Se me tens como inimigo, perceberás que a guerra estabelecida não será por mim instituída. Digladiar é para os fortes, assim como a morte está para os fracos filhos de Eva.

Mulher: Tomas a mim, mortal insepulta, como todas de minha espécie. Para de sussurrar a decomposição de si por sobre aqueles que jamais, jamais serão seus aliados.

Homem: Amigo, pousa sobre mim a sua mão. Faça-se aliado dos que buscam a esperança abissal de um esquálido aspargo cultivando em terra infértil. Mate a seiva fácil.

O tempo: Abraço o sim tanto quanto o não é rejeitado. Se calo é porque a sujeição vem funérea e natimorta passível de devorar, incomensuravelmente, o livro das horas. Negue-se à escrita e feneça.

Mulher: Não concebo a guerra de nervos nem a paz coloquial de fétida boca indigesta. Degluto a saliva no vento e giro ponteiros neutralizados pela dor de um hiato submisso.

Homem: Sinto-me confuso entre a retidão da linfa que se mostra e o sangue que ferve em seu esconderijo labiríntico. Minha angústia, mulher, é perceber-me no tempo.

O tempo: Apaguem as lembranças, desacreditem nas projeções, parem de respirar e sintam a fortaleza e a agonia dos ponteiros. Entreguem o pó ao vento e a carne, putrefata, aos vermes. Não tenho domínio de mim.

Mulher: Sou, enfim, liberta de ti. Devoram sofregamente minha seiva e repercute, em mim, a troca natural das cinzas e do pó. Diluo-o no outro que me consome.

Homem: Quero refletir o que fui, debruçar sobre ti as agruras do mundo, sentir a carícia tempestuosa do vento e ver, reflexo no espelho, os olhos da multidão perdida em vasto tempo; sentencio-me em tuas linhas meu encanto.

Fim

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Prêmio SATED


A pequena companhia de teatro foi a grande vencedora do Prêmio SATED – MA de Artes Cênicas 2010. Das oito indicações que recebeu ganhou os prêmios de Melhor Figurino, Melhor Cenário, Melhor Ator (Cláudio Marconcine), Melhor Produção, Melhor Direção e Melhor Espetáculo. Na ocasião, o diretor Marcelo Flecha anunciou o embrião da próxima montagem: "Velhos Caem do Céu como Canivetes" – inspirada no conto "Un Señor Muy Viejo com Unas Alas Enormes", de Gabriel García Márques – além de divulgar o lançamento da sua dramaturgia reunida que ocorrerá nesta sexta na Oficina Escola, em São Luís.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Eu, eu mesmo...

A improvisação, quer como espaço mental, método ou instrumento, reforça a ideia de efêmero existente no teatro enquanto teatro-vida. E a esse teatro é impossível dissociar o ator-encenador, enquanto artista responsável pela estética proposta e o espectador-atuante, num espaço teatral diferente dos teatros com palco italiano, em que as sensações são os detonadores da espontaneidade, que por conseqüência, leitmotiv para a improvisação. 


O homem, com suas inquietações, não poderá obter respostas, se não percorrer um caminho, tendo condições ou não, de consegui-las, pois o importante, para diminuir as inquietações, é caminhar, puro e simplesmente; movimentar-se. Seu duplo será eficaz nessa procura, nesse processo. É ele quem refletirá suas angústias, o provocador de atitudes, mesmo que elas sejam a recusa, o desvio do olhar. Não há condições, na contemporaneidade, de desistir do outro, pois que, desistir do outro é desistir de si. 

O teatro-vida precisa do espectador, mas não aquele que, vicariamente, se realiza através da catarse. E esse processo é, também, referenciado no ator. Então, na mudança de postura e de atitude frente às inquietações é que se fará um espetáculo teatral de ator, em que o espaço teatral aciona o espectador-atuante para viver.

Hoje, no teatro que faço, incorporo isso. E isso é bom, mesmo eu não sendo um cristão.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Livro (-me)

.
O convite
.
Chegou. O livro Cinco Tempos em Cinco Textos está na minha mão. Agora deu. Fu#@u. Dia sete de janeiro vamos fazer o lançamento na Oficina Escola – aquele prédio da Praia Grande onde aconteceu o Salão de Artes. A ideia é passar uma noite agradável com amigos, tentando entender o que é esse momento de publicar uma obra. Vamos nos divertir vendo Jorge e Cláudio ler um dos textos, fazer os convidados participar de intervenções urbanas, tocar, cantar, tomar um vinho, comer um queijo. Nada de mesa para autógrafos ou discursos. Vamos celebrar. Quem receber o convite impresso terá direito a um exemplar do livro. Quem não receber vai comprar e ajudar um autor a não morrer de fome. Até lá vou ficar jogando algumas informações por aqui. Acompanhem.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Reconhecimento, fama e fortuna

Ser artista. Dizer-se um requer certo estofo. Eu cá sempre tenho minhas dúvidas sobre ser artista, sobre o que produzo ter qualidade, sobre estar satisfeito com tudo o que me cerca e me alimenta. Existem duas referências possíveis para que eu me questione ou não: o que vem de dentro e o que vem de fora. Quando alguém diz que gostou do meu trabalho, preciso crer, inicialmente, que essa pessoa está sendo sincera. Acredito na humanidade, mas dizem que pessoas adoram mentir, fazer fita. Quanto sinto uma satisfação ela é sempre sensorial, e mesmo que haja interferências externas, sou eu e meu universo que dizem que estou bem. Sempre é muito pessoal. Já ouvi muita coisa e algumas delas mexem um pouco comigo, fazem com que eu aguce algumas partes adormecidas ou esquecidas, como a necessidade de reconhecimento e do vil metal.

Nunca saberei se estou no caminho ideal. Posso saber se o que faço me satisfaz e seduz, as motivações de continuar ou alterar o ritmo do caminhar. Tudo continua muito subjetivo; as interferências são sempre diferentes, e as conclusões serão sempre passíveis de amparo.

Eu sou um tolo, e já me convenci disso. Gosto de sê-lo. Assim, posso falar besteiras, ser ridicularizado, perdoarem-me por dizer/fazer tolices. 

O homem comum fala, o sábio escuta, o tolo discute, já dizia um provérbio oriental. 

Sou ocidental. Das duas, uma: ou sou homem comum, ou sábio. Com medo de errar, vou ficar com a segunda opção.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Diários, semanários, mensários, anuários...

por Kafka
por Kafka
.
Como Brecht e Cairo, há alguns anos trabalho com diários. Utilizo este instrumento para pautar minhas ações. Toda atividade artística é acompanhada por apontamentos, relações, observações, rotinas – manuscritos que geram um banco de dados para posterior consulta. Entre esses escritos é inevitável que escapem alguns pensamentos... Colhi três que aqui transcrevo:

“... Poupo meus não filhos do conflito com o paterno, com a fúria do ser descendente. Poupo meus não filhos da dor de nunca se ser sem ser imagem e semelhança. Poupo meus não filhos de terem que se esquivar de si na busca da perfeição prometida. Poupo meus não filhos de viver.”

“... Entre lados estou seco. Paredes de solidão. Só batem à porta os deuses. Os semideuses invadem as moradas dos mortais fazendo a festa dos pecadores. Solitário, esfrego minhas mãos à espera. Gotas pingam em gotas. Entre elas as luzes se entendem. Eu não entendo. Desvio a vela e sopro para outro norte mais desnorteado do que outrora. Desapareço de mim e fim. O fim é. Na esfera do absoluto tudo está contido. Em mim, o ser, não é.”

“... Ultimamente tenho a impressão de que todas as retas estão tortas. Minha visão entrega sinuosidade em qualquer estrutura linear. Vejo as curvas tortuosas de toda régua construída para alinhar. As linhas dos cadernos parecem leitos de rios onde minha caneta navega tentando não colidir com as margens...”

Dias
08 de novembro e 12 de dezembro transcrevi outros. E assim vão passando os dias, os meses, os anos... dia 07 de janeiro se aproxima... aguardem novidades... e não guardem segredos.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O artista, os editais, a estabilidade, a efemeridade e o teatro

Lesados, do Grupo Bagaceira

Somos um grupo que adora editais. Nada mais democrático para distribuir recursos e bens, principalmente quando acreditamos que a cultura deve ser subsidiada pelos entes públicos.

Somos um grupo que aprova projetos em editais e ao mesmo tempo, um grupo que não aprova projetos em editais. É que editais dão em árvore. Nossas angústias, idem.

Comumente, Marcelo F. tem encaminhado mensagens pela internet me dando conta dos projetos encaminhados e não aprovados pela Pequena Companhia de Teatro. Eu estou indo morar em São Luís no próximo ano. Do que viver?

Meu pensamento...

[agora estou me viciando. Quando não estou pensando em nada, fico contando mentalmente. Reflexo da academia, dizem]

...não dá para pensar em viver só de editais, isso seria uma espécie de estabilidade que não deveriam provocar, pois eles são públicos, e não de poucos. Como funcionalismo público, um acomodar-se sem igual. Teatro na adversidade... morrerei de fome... não será a primeira vez; possivelmente nem a última.

Minha realidade diz que o teatro me faz vivo, e comungo de um sacrifício incondicional sobre esse labor. Um vigor é perceptível quando a maré sobe, quando o mar fica revolto. A gente não dorme. Sinto-me vivo... em cena.

Faz tempo que não atuo... sinto-me morto.

domingo, 12 de dezembro de 2010

... de véspera!

.
Permitam-me outra liberdade poética. É que amanhã, definitivamente, o livro estará a caminho da impressão. O dia que antecede um dia como esse foi descrito por mim outrora:
.

“Hoje o dia não tem número. É incontável. O tempo existiu sem matemáticas conferências. Apenas um dia passou. Eu passei com ele. Estou, um dia, envelhecido. Um “um” não numérico. Um “um” abstrato, onomatopeico, fechado em tempo. Incontestável. Setas, no relógio sem ponteiro, mostram que sobrevivi. Vivi sem saber que vivia. Revivi sem antecedentes. Desviei dos pormenores para pôr menores atos sobre a mesa. Degustei cada um deles sem me engasgar e digeri ações inesperadas. O homem – posto no tempo oposto à sua ruína – correr a favor do tempo. O fim do dia salva. Outros dias virão e se encaixarão no calendário e somar-se-ão aos outros e, contados, engordarão os séculos: mas este permanecerá suspenso no tempo à espera. O dia anterior ao fracasso é sempre um bom dia. O melhor dia.”

sábado, 11 de dezembro de 2010

No forno


Nesta segunda-feira o livro Cinco Tempos em Cinco Textos, dramaturgia reunida de Marcelo Flecha, será encaminhado para a impressão na Halley Gráfica e Editora. O livro, uma realização da pequena companhia de teatro, tem o patrocínio do BNB e do BNDES através do Programa BNB de Cultura e o apoio cultural do SESC – Maranhão.

A publicação concentra em um volume cinco textos teatrais: Distorções de um dia interminável, Memórias de um mau-caráter, Dois, Privada e Clausura. Sobre o livro, Fernando Yamamoto, diretor do grupo de teatro Clowns de Shakespeare, diz: “... Outro aspecto instigante destas peças aqui apresentadas é a falta de compromisso com uma linha estilística. Flecha transita por referenciais dos mais diversos; ao lermos suas obras, é inevitável passearmos pela ausência de perspectiva beckettiana, pela crueza de Plínio Marcos, pelo niilismo da incursão teatral de Pablo Picasso em seu O Desejo Pego pelo Rabo, o distanciamento ácido brechtiano e, até mesmo, a aproximação ao teatro contemporâneo argentino – fazendo jus às suas raízes – de Daniel Veronese e seu coletivo El Periférico de Objetos...”

Breve nas melhores livrarias.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Diálogo da dança com o teatro

O ator, em situação de representação, necessita de outros elementos, que não o texto dramático, para compor a cena. "Dizemos que essa maneira particular de construção da cena e da personagem é uma maneira não interpretativa de representação", já que "a interpretação está intimamente relacionada com o texto dramático", o que não inviabiliza a utilização do texto em dado momento do treinamento, mas ele não servirá de matriz para a cena. É fundamental que neste momento inicial o ator esteja somente, e tão somente, com seu corpo e com a carga de informação que é inerente ao seu existir. 

Entretanto, esse desejo de usar o corpo para expressar/dizer algo “não determina o que ele deve fazer, os procedimentos que adotará. A expressão do ator, de fato, deriva — quase apesar dele — de suas ações, do uso de sua presença física. É o fazer, e o como é feito, que determina o que um ator expressa". Isso ocorre tanto na dança, como no teatro — obviamente, na visão de um dançator. 

Como improvisação, a dança no teatro pode vir a funcionar como processo para a composição ou enquanto instrumento em cena. A bem da verdade, ela já vem sendo utilizada em quase todos os processos de composição do ator. O diferencial, talvez, seja que ela está diluída, dessacralizada por constituir matéria de dançarinos/bailarinos — visão equivocada e que o autor desta postagem discorda. 

Os mecanismos de análise do movimento coreográfico, como o croqui e o storyboard devem ser utilizados para o ator-compositor ou ator-performer, além do chamado diário-de-bordo, para consubstanciar seu processo criativo e de significação, muito mais do que o vídeo, pois esse último tem uma visão limitada se comparado à planta-baixa. 

As matrizes utilizadas no início do processo devem ser experienciadas ao extremo para que despertem o processo criativo, e transformem os movimentos corporais em expressividade para a cena. 

Da mesma maneira que no teatro se utiliza de elementos pré-expressivos, a dança também o faz. Não esqueçamos que tudo faz parte de um único treinamento, que coloca o ator-dançarino em prontidão. Não que eu esteja dizendo que o trabalho com as danças de salão estejam na pré-expressividade, não. Ao contrário, é exemplo de treinamento expressivo. Falo dos alongamentos, que diferem, em muito, dos praticados pelos atores em teatro, pelos atletas em academias. Os propostos ampliam o corpo no espaço, conscientizam a musculatura de forma mais expressiva, interferindo, sobremodo, na fluidez, nas estruturas espaciais e nas dinâmicas. 

domingo, 5 de dezembro de 2010

O Papel do cru na pequena companhia de teatro


“...Cru. A encenação deve conter a crueza do ser. O não cozido. O natural, sem precisar ser naturalista. O rude, porém, espontâneo. O ser, só. Uma estética sem temperos ou preparos excessivos que cozinhem o ator deixando-o pronto para a degustação. Encenação indigerível, não degustável para aqueles que perderam o contato com o inigualável sabor do cru. Arte vendida em lata tem data de validade. Vence. Apodrece. A encenação pronta para o consumo padece.”

Este fragmento do Manifesto Danado, escrito para a estreia do espetáculo Deus Danado em Mossoró, sintetiza o conceito da crueza. Quando a pequena fala em cru, quer dizer da não diluição das percepções. Não falamos apenas da estética, falamos da encenação como um todo. De não facilitar para o espectador. Os materiais trabalhados e a crueza do acabamento reforçam isso. Exige do espectador uma disposição para a leitura. Uma disposição para a compreensão além do óbvio. Quando Deusdete Dias, membro da Nação Acadêmica De Artes (N. A. D. A.), pergunta sobre os livros de Pai & Filho toca no ponto. O papelão está aparente, cru, tosco. É o trabalho do ator e a disposição do espectador que transformam aquele amontoado de papelão em elementos vivos da narrativa. Já a crueza da representação dos atores escapa ao naturalismo. Exige do espectador um olhar não televisivo. As personagens nunca são aquelas do cotidiano. São seres ampliados, cuja lente de aumento revela as imperfeições, não só da alma, mas do corpo. Em outro fragmento o manifesto diz: “... Evitemos o desperdício do tempo alheio com obviedades, com composições televisivas, com burocracia cênica.” Evitemos. Ofereçamos ao espectador um novo desafio a cada encenação. Não deixemos que a “zona de conforto”, de que tanto fogem os artistas, caia no colo do espectador, aquele que é o destino final da arte, queiramos ou não.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Eu me manifesto


O teatro não é casa de ninguém. Não há ditadura do texto, do cenário, da indumentária, da estética da fome de um povo secularmente faminto por manifestações do seu próprio ser, tão pouco a ditadura do corpo que se molda. Teatro não precisa ser conflituoso ao extremo. O conflito é interno, o expectador é o seu próprio ator-autor-encenador. A exigência da existência do teatro deixou de ser a catarse. Ele é visceral. Não é ator sem órgãos, mas sim como potência de ser preenchido esse vazio. Quando se diz sem órgãos evita-se pensar no vazio enquanto potência. Ela vem daquilo que o ator-compositor-dançarino-encenador-performer-expectador exerceu, viu, experienciou em todos os minutos desta vida, da vida de seus pais, de seus avós, de seus ancestrais. São essas referências que interferem nesse espaço vazio que jamais será preenchido. E é essa insaciedade que fará o teatro crer ser vida, gênero de primeira necessidade. O pão deixará de ser posto à mesa para ser devorado, consumido nos palcos existentes no interior e fora de nós. Essa percepção do teatro-vida existirá quando o espaço-vazio possível, dos que fazem,  for povoado de matizes coletivas que exercerão uma espécie de transe àqueles experienciadores devidamente fisicizados  participarem e se sentirem pertencentes à não-ação. Teatro é ação na não-ação. O não-conflito existente no conflito. Teatro-vida é anterior ao teatro; anterior à ação. A força motriz, a energia vital, o impulso, essa sensação de virilidade, da protuberância entre as pernas juvenis é o teatro que se mostra capaz de ser potência criadora. O não, existente em uma boca carcomida pelo tempo, pela técnica apurada, pela virtuose, será ineficiente sempre. O hoje se efetiva na improvisação enquanto instrumento, na essência das coisas. O que fica, fica. O que se dilui, se dilui. Teatro é efêmero, surge da necessidade de incorporar a ineficiência divina. A performatividade é inerente ao teatro do ator solitariamente completo, pois que ele sempre permanecerá sendo parte. Parte daquilo que se constrói, buscando destruir sempre. Remodelar, reformular, nunca! Construir para destruir, sempre! A saída deixa de ser uma porta entreaberta para ser paredes sólidas e flexivelmente leves,  com asas...

domingo, 28 de novembro de 2010

O papel da manufatura em Pai & Filho

“Ninguém vai ver!” O comentário é comum em teatro quando algum acabamento ficou ruim: uma manchinha, um corte torto, uma costura mal feita etc. Eu digo: o ator vê. A manufatura e a dedicação ao detalhe nas produções da pequena companhia de teatro são motivadas por esse argumento. Na busca da verdade, o ator constrói seu universo através das referências disponibilizadas. Os elementos ao seu redor repercutem na sua percepção e, por consequência, na das personagens (Próspero que o diga, com o seu bendito sapato!). O contato com o aparelhamento estético, seja ele cru ou cozido, instrumentaliza o caminho do ator na busca da construção dessa realidade, mapeando seu horizonte.
No caso de Pai & Filho a manufatura está diretamente ligada ao universo kafkiano. Pinta o ambiente do espetáculo. A meticulosidade na construção de cada objeto repele a realidade e apresenta um mundo de coerente desconexão, buscando reproduzir essa atmosfera não natural, quase delirante, como o quarto onde são realizados castigos corporais no local de trabalho de Josef K. Busca-se a distância para aproximar. O que é um alfaiateiro? Um escrevedor? Um linheiro? Caixotes a la matrioshka? Vários elementos desfilam pelo espetáculo fazendo parte da narrativa imagética sem levantar as suspeitas do espectador quanto à sua veracidade, mesmo sabendo que ninguém escreve com rolha nem em um caderno tão grande.
Por outro lado, a manufatura de tudo aquilo que está em cena dá a imprecisão necessária para compreender estes seres, em especial o pai, de quem pensamos saber menos. A execução manual, a imperfeição do que é construído com as mãos, nos remete imediatamente à ideia de trabalho, e da sobrevivência a partir dele, imagem da obsessão por prosperidade do pai – o que nos leva imediatamente à linha, assunto de uma próxima postagem.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Schopenhauer


Ele diz: "Minha longa experiência pessoal levou-me a presumir que a loucura aparece com frequência desproporcionalmente maior nos atores. Pudera! Qual não é o abuso que fazem da própria memória! Todos os dias devem ora decorar um papel, ora relembrar um antigo: no entanto, esses papéis não são ligados por um contexto, ao contrário, estão sempre em contradição e em contraste uns com os outros, de modo que toda noite o ator tem de se esforçar para se esquecer por completo e ser um outro, totalmente diferente. Uma vida como essa leva-os diretamente para a loucura".


E quanto a mim, há tempos eu quebrara o CD A tempestade, da Legião Urbana. Dia desses reencontrei-me diante de uma prateleira e lá estava ele a me observar. Comprei-o. Limpar o quarto ouvindo-o é produtivo. Distante dele, parece-me que se amplia o foco para com a liberdade e a insuficiência de justificativas para o viver. E o teatro preenche toda a parte do lado de fora e toda a parte do lado de dentro. Transborda pelo ladrão. Resta a casca frágil que serve de sustentáculo às vísceras. Além da linha, o trem. Aquém de nós, a linha. Não há limites. Há infinitas alternativas. Reclamo de barriga cheia, diria minha mãe. Cheia não se sabe de quê. Se vierem as fezes, dialogarei sobre o conteúdo. Se não, só a forma me permite. 

Mais um dia, mais um tempo, mais um ciclo. Quando será a próxima apresentação de Pai&Filho?

domingo, 21 de novembro de 2010

O papel das cores em Pai & Filho

Com a pausa nas apresentações, aproveito para me deter sobre o papel das cores em Pai & Filho. É claro que se sabe que nada em cena é gratuito. Mas, no caso das cores, às vezes pode parecer aleatório.Como nenhum comentário ainda foi relacionado a esse tema, e como já temos uma trajetória considerável, me adianto à leitura dos que virão e digo: duas cores se destacam entre a predominância pastel da crueza que acompanha as últimas encenações da pequena – o azul e o vinho. Que azul? No início do espetáculo, quando as personagens ainda não entraram em casa, a relação com o mundo exterior se dá na cor azul: a luz, a porta e as camisas das personagens. O desaparecimento do azul – lembrando que a porta cai, a luz azul some e as camisas são retiradas e penduradas do lado de trás do porta-objetos, escondidas do olhar do espectador – subtrai do filho a referência de mundo e a possibilidade de liberdade. Esta cor só aparecerá novamente no tecido azul, quando o filho compara o pai a um mapa-múndi. Já a cor vinho, predominante no interior da casa a partir dos cubos, da toalha de mesa e da cor da linha que coze as camisetas debaixo, é a cor da nobreza, da aristocracia, puída e desgastada pela decadência desse pai que já foi próspero, mas ainda preserva a dignidade da pose.
Somam-se a essas cores, a paz, no tecido branco estendido pelo pai no único momento de trégua, o tecido preto que enterra o filho quando o pai cobre-o com o peso de ser sua única esperança, o amarelosolarpoente que ilumina o filho quando ascende a vela para escrever e a cor natural do cru, que reforça nossa proposta de deixar para o ator e o espectador o desafio de transformar os objetos com aparente crueza em elementos vivos em cena. Mas isso já se refere também à manufatura, tema de uma próxima postagem. A obra não se explica, eu sei, mas o estudo e o processo de construção da cena podem ser úteis para um leitor mais curioso, sem contar que preciso alimentar este faminto blog.
Próximos títulos:
O papel da reciclagem na pequena companhia de teatro
O papel da manufatura em Pai & Filho
O papel do cru na pequena companhia de teatro
O papel da manipulação do cenário em Pai & Filho

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Não me ensine; me fascine

Quem ensina e quem aprende? O que é passível de repasse ou de construção e quem determina isso? Qual a motivação que faz com que o teatro seja objeto de pesquisa e análise? Oficinas de formação? Debates? O que temos a ensinar a alguém? 

Não me sinto capaz de ensinar nada a ninguém, pois cada um tem suas necessidades, seus prazeres. Quando me vejo frente a um mundaréu de gente, sendo o foco, percebo que algum equívoco há. Não pode ser assim.

E o teatro? Escolhe-se um conteúdo imenso de coisas e tudo é exposto. Quem faz, o faz por uma motivação. Quem vislumbra, redescobre outras. Ninguém aprende com o teatro. Não dá. Teatro é além disso. Daí, vem o fascínio. Teatro bom é aquele que fascina. Conteúdo bom é aquele que ilumina os olhos. Conhecer é fácil. O difícil é deixar-se seduzir.