sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Encontros e desencontros

Pese a todas as qualidades do FENTEPP, um fato me causa estranheza e incompreensão. O esvaziamento do festival no que se refere à permanência dos membros das companhias para estabelecer um encontro de fazedores. Posso dizer que estou só. Claro que estou tendo a oportunidade de acompanhar boa parte da produção teatral, principalmente do estado de São Paulo. Também é claro que o foco do festival é oportunizar essa fruição à comunidade prudentina. Mas e o teatro? E as companhias? Qual é mesmo o benefício de chegar, ser visto por um número não maior do que 300 pessoas, receber o cachê e zarpar em busca de outro? A culpa não é do festival. Ele hospeda um membro de cada companhia selecionada durante toda a jornada caso o grupo deseje. Ainda assim, o encontro não se efetiva. As companhias chegam se apresentam e se vão. Lembro que alguns de nós, membros da pequena companhia de teatro, temos experiência em organização de festivais e mostras que remete ao final dos anos oitenta no interior do Maranhão. Sempre pensamos nesses encontros como um espaço para dialogar sobre o nosso fazer. Foi em um desses festivais, por exemplo, que conheci Cláudio Marconcine, par e amigo permanente de inquietações nas últimas décadas e mais recentemente membro da companhia da qual faço parte. Foi em mostras que conheci Gilberto Freire de Santana, amigo, irmão e confidente cultural desde o primeiro dia em que o nosso encontro se deu. Foi neste FENTEPP que conheci Márcio Marciano, distante de poder chamá-lo de amigo depois de algumas conversas esporádicas, mas pessoa presente durante todo o festival – fator que favoreceu a discussão das aflições de quem ter por vida o teatro. Penso que os encontros de teatro, além de trazer novos espetáculos para as comunidades contempladas, alem de servir de vitrine para companhias selecionadas, além de patrocinar uma ou duas apresentações de uma peça, deveriam ser verdadeiros encontros. Logo teremos uma experiência diferente. Guaramiranga hospeda todos aqueles que queiram permanecer durante o festival. Se o encontro se efetiva? Guaramiranga dirá.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Solidão prudentina

Foto Fernando Martinez
Dias de solidão e teatro. Conversas esporádicas com Márcio Marciano e Kil Abreu pontuam a solidão e servem para constatar que a produção teatral maranhense não existe para o Brasil se ela não circular. Em tempos de internet e suas mirabolantes redes sociais o isolamento nas aldeias continua o mesmo que vivi nos anos oitenta no interior do Maranhão. Não estou falando aqui da produção da pequena companhia de teatro. Estou falando da inexistência de qualquer referência teatral sobre qualquer produção maranhense dos últimos dez anos em qualquer um dos papos. Lembrando que as conversas são com um crítico atento à produção nordestina e com um encenador instalado na região há alguns anos. Há referências à produção recente do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, enfim, referências ao nordeste, do qual não fazemos parte. Referências também à produção do Norte, do qual também não fazemos parte. Nosso pertencimento regional é tão confuso que me pergunto se, morando no Maranhão, sou mesmo Brasileiro. E para mim, um estrangeiro em qualquer parte, isso toca fundo, mas é menos importante. Importante é circular para podermos recolocar a produção do Maranhão no Mapa do Brasil.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A salvação da rua


Hoje, como todos os que já foram e os que virão, foi um dia de teatro. Uma atividade formativa e dois espetáculos. Dia melancólico por dois motivos: um dos pares e minha ímpar favorita não estão mais aqui. Kátia e Jorge retornam para São Luis. Permanecemos Cláudio e eu, óbvio. O outro motivo vem da máscara melancólica de uma atriz do espetáculo que assistimos ontem – por que a criança cozinha na polenta? Não vou falar do espetáculo, só registro a intensidade da máscara deste ser suspenso na desgraça da vida. Melancolia pura, tocante. Aquela máscara carregava um pouco da história do mundo. Por fim, agora à noite, vimos o melhor espetáculo do festival até aqui. Recebidos pela banda “os engomados” (?), num tom inenarrável, gerando a ambiência ideal para ver Domdeandar, da Cia Teatral ManiCômicos. Belo. Agora felizes, abrimos uma garrafa de vinho e brindamos. Amanhã Cláudio parte também.

A desgraça de ter espírito


Ontem, à mesa do jantar, Marcelo F. e eu. Ao lado, o elenco de "Por que a criança cozinha na polenta?", da Cia. Mugunzá, de São Paulo. Nós, compenetrados, falando sobre as incorreções da vida e da estrada, os projetos, as agruras. Eles, eufóricos, felizes por terem se apresentado. Marcelo F. compara a felicidade deles com a nossa após as apresentações. Assim, reflito:

Somos todo energia. Ela se modula. Determinados espetáculo necessitam de um tipo de energia. Outros, de outras. Ao término das apresentações, a energia vai se modulando. Minha reflexão, minha crítica e análise, começa após os aplausos. Fazer teatro sério (sic) requer sisudez (sic)? A parte humana que me sobra, que me cabe, é reflexiva, sempre. O riso embota minha reflexão. Meu clown adormece em berço de bambu. Ele não sorri. Só se mostra. A parte espírito encontra-se em algum lugar por detrás das coxias.

Deixe que digam, que pensem, que falem - 8

Márcio Marciano, diretor do Coletivo de Teatro Alfenim e crítico do XVII FENTEPP, escreveu algo sobre a apresentação de Pai & Filho, no sítio do festival.


Abaixo, o texto na íntegra.

A tradição literária ocidental tem suas figuras emblemáticas. Kafka é uma delas. Tal é o poder de sua obra que o termo kafkiano tem hoje uso corrente. O criador de Gregor Samsa, o indivíduo transformado em inseto, imprimiu em sua literatura traços cinzentos, obscuridades e discrepâncias de modo a metaforizar o mundo administrado. Seu universo parece frio e distante. E é a partir desse universo que a Pequena Cia. De Teatro, de São Luís, concebe seu Pai e Filho, mais especificamente, baseado na “Carta ao Pai”. 


O grupo transpõe para a cena, em forma de diálogos, o texto que o Autor endereçou a seu pai, que não chegou a lê-lo. Trata-se de um longo desabafo sobre a tirania paterna, repleta de detalhes acerca do comportamento irascível desse pai que não consegue entender a perplexidade que abala a sensibilidade de seu filho. 


Essa operação não ocorre sem perdas e ganhos. É fascinante ver em cena o mundo kafkiano transmudado em um ambiente marcado por traços da cultura maranhense. Não se trata de exotismos, tampouco da ilustração regionalista de um mundo estranhado, mas da meticulosa realização de um projeto cênico, absolutamente justificado na confecção de cada detalhe do cenário, da indumentária, dos figurinos e objetos de cena. Não é o Maranhão que se insinua, mas uma fina compreensão de nosso pertencimento ao universo brasileiro. 


Nessa perspectiva, as figuras do Pai e do Filho surgem de forma orgânica, plenamente adaptadas a esse mundo repleto de fios materiais e simbólicos que se entretecem e se emaranham ao longo do espetáculo. As referências dizem respeito a algo mais profundo do que deixam entrever as aparências, dizem respeito às relações de Poder que fundam a cultura ocidental. Aqui as águas maranhenses afloram as margens do Danúbio. 


O trabalho de composição dos atores, a minuciosa definição de gestos e tons de voz, a matemática disposição e reposição dos objetos na cena, tudo leva a impressão de um lugar suspenso no tempo e no espaço, algo semelhante ao que provoca a narrativa kafkiana, uma espécie de contaminação ao mesmo tempo letárgica e exasperada, uma espécie de lucidez embriagada. 


Entretanto, apesar dos inúmeros acertos, algo se perde nessa ousada transposição e diz respeito à intenção mesma do projeto inicial, à disposição de discutir as relações de poder no seio familiar brasileiro. A família pequeno-burguesa de Kafka, historicamente situada numa Europa assolada por guerras, desfigurada pela lógica do Capital em franca internacionalização, em nada se parece com o universo patriarcal brasileiro, marcado pelo mandonismo, pela afirmação da identidade por via da supressão radical do outro. Há diferenças para além das imediatas semelhanças que seria preciso investigar. 


A mera transposição do universo kafkiano, mantidos os ritos de sociabilidade expressos na linguagem, parece não corresponder às especificidades de nossas relações familiares. Seria o caso de se perguntar por que Kafka não escreveu sua carta na forma de diálogo. Talvez porque ele próprio compreendesse a impossibilidade de uma conversa naqueles termos. A uma primeira resposta atravessada do filho, ou a uma primeira insinuação grosseira do pai, talvez a comunicação se rompesse. 


Seria o caso de indagar se a forma dialogada, baseada na inter-relação subjetiva, se o modo dramático de ressaltar o conflito não acabam por ser uma solução redutora. Seria o caso de indagar, se o tempo e o espaço do diálogo, assim como ocorre na “Carta ao Pai”, não ganhariam com uma disjunção não dramática. 

Fonte: Márcio Marciano

Efeito estufa

Vocês repararam para o monte de quadradinhos aqui do lado? Nosso 50° seguidor chegou e ele pensou que fosse passar despercebido. Seja bem vindo. Ótimo momento para nos seguir, já que estamos socializando nossas experiências no XVII FENTEPP Festival Nacional de Presidente Prudente. Hoje, dia de despachar o cenário para Guaramiranga, não deu para dormir até mais tarde, acabamos acordando oito da manhã. Cenário a caminho. Anteontem, Cláudio e eu, vimos o espetáculo Espaço Outro d’Acruel Companhia de Teatro. Nós e outras quarenta e oito pessoas, sob o sol de três da tarde, dentro de um cubículo de acrílico, olhando para fora da praça onde os atores pegavam ar fresco enquanto faziam algumas pantomimas – acho que há exageros na busca da originalidade, portanto, decidi me concentrar em trazer para esta conversa apenas aquilo que realmente me convença. Ainda não dá para fazer uma radiografia do festival, mas destaco rapidamente algumas coisas que se percebem na cidade. Os espaços para a cena – teatros, galpões e afins – são muito interessantes e a procura do público depois de dezessete anos de festival, prova que ações continuadas são efetivas na formação de plateia. Mas vamos esperar...

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Fora Fábio!


Os manifestantes do Fora Fábio! - Secretário de Cultura de Presidente Prudente - se fazem presentes desde a primeira apresentação que assistimos: sobre uma mureta, intercalando corpos em pé, giravam suas frentes e costas para a fila que se preparava para entrar e assistir ao espetáculo. Dizeres nas camisas para, logo em seguida, entrarem para assisti-lo. Eles estavam em todos os lugares, em um protesto silencioso. Assistiam a tudo.


A plateia assisti ao debate de nossa apresentação. Uma manifestação silenciosa daqueles que contemplam algo mais além do apresentado. Fitar um ao outro é articular pensares e formular dizeres que jamais serão expressos oralmente para os ouvidos de quem se mostra. A representação real de algo subjetivo provoca uma certo esvaziamento/esgotamento para, logo em seguida, ser preenchido com uma outra parte de alguém que se esvazia para a gente. Fábio sai; Clarice entra.

domingo, 22 de agosto de 2010

A espera


Podemos, Nicodemos?! Nove meses. Eternidade. Ponteiros. Estações. Ferrovias. Aeroportos. Campaínhas. Público. Aplausos. Morte. Tudo está por vir. O instante é tão teatral, tão efêmero, tão areia por entre os dedos, que insistimos em esperar que esse momento chegue. Momentos de prazer são assim, planejados com ansiedade. Uma semana para seu instante, aquele para o qual você se preparou. Sinto-me anestesiado em algumas circunstâncias. Ontem, depois do espetáculo, sentamo-nos para o debate. Muita gente para ouvir, poucas para falar. Entre nós, Marcelo F. foi o interlocutor. Jorge C. é meio avesso aos debates que se perdem de vista. Quanto a mim, anestesiado. Ficava tentando fitar os olhos das pessoas sem, contudo, conseguir. Minha vista tornou-se mais curta. Gente desconhecida, e eu me perguntava se aquele, também, não poderia ser um outro momento de prazer. Não o debate em si, mas o instante de ver gente desconhecida que foi lá para prestigiar o SEU momento de prazer planejado. Sempre gosto de imaginar, e por vezes dizer, que algumas pessoas são especiais porque passam em nossas vidas e deixam marcas que reformularão nosso pensamento. Ontem, senti-me um pouco assim, na outra margem. A anestesia diminui a dor de sentir o que se sente. 

A pequena no FENTEPP

Como diria o poeta estamos em pleno mar. Um mar teatral que banha o Festival Nacional de Presidente Prudente. Dez horas de viagem aérea e a confirmação de que o nosso Maranhão é longe. Apesar da distância e do cansaço a chegada foi tranquila. Jorge, Katia e eu. Cláudio já nos aguardava aqui. Montagem dentro da normalidade. O sono era nosso pior inimigo. Jantar e teatro: a peça era do Pessoal do Faroeste – Meio dia do fim. Nosso fim: despencamos na cama para acordar no dia de hoje: e hoje não é hoje? Hoje é e foi o dia da nossa apresentação. Oito da manhã de pé para receber uma equipe de TV no teatro municipal de Presidente Prudente – o Procópio Ferreira (eu sei, Cláudio já falou disso). Entrevista primeiro ensaio depois. Até as 13:00h. O ensaio? Assim... assim... A apresentação? Muito boa. Casa cheia. Elenco aplaudido de pé e debate agradável... Uma boa taça de vinho, muitas risadas e o sono chama... primeiras impressões... amanhã continuarei narrando nossa estada, e certamente voltarei à nossa apresentação com mais detalhes. Agora, cama. Mistura de cansaço e de prazer cumprido.

sábado, 21 de agosto de 2010

Dia 21 de agosto, às 22 horas


Hoje, às 8h, estávamos no Teatro Municipal em Presidente Prudente - SP, para ultimar a montagem do cenário, atender a uma equipe de televisão local, e ensaiar.

Tudo muito dentro das circunstâncias que norteiam, basicamente, uma apresentação em outra cidade: uma preguiça sem igual, um desejo de terminar logo o esforço físico, e voltar para casa. Dever cumprido? Não há dever; há opções e escolhas. 

Minha flexibilidade continua em alta. Mas, sinto-me um pouco fraco e sonolento. O vinho ontem foi providencial para fazer com que eu tivesse essa sensação.

Jorge e eu ainda iremos passar o texto antes da apresentação de hoje. Algumas falhas sempre são encontradas. O Melhor é a convicção de que isso sempre acontecerá. Por isso a necessidade de ensaios. Hoje a apresentação será bonita, acredito eu. Não tenho time de futebol para torcer. Sim, a apresentação será bonita.

domingo, 15 de agosto de 2010

Imperatriz. 13/06/2010. Domingo, 02:30 AM.

O hotel, quase clínica, não deu. Mudamos em busca de melhor conforto. Conseguimos. Dia dos namorados. Alguns de nós próximos dos seus, outros distantes e o dia passou quase que com a normalidade de um dia qualquer. Momento para comprar algum presente e teatro de novo. É o que a gente faz. Teatro. Boa apresentação. Limpa. Emocionante. O teatro nos permite muita coisa. Normalmente pessoas sentam-se à mesa para conversar. No bar, em casa. Conversam no trabalho. Mas o teatro nos permite dialogar, ao mesmo tempo, com cem, duzentas pessoas, e isso encurta os caminhos da pequena companhia de teatro na tentativa de discutir o seu entorno, de consolidar uma iniciativa de transformação. É possível. As mudanças acontecem. As pessoas saem do teatro discutindo temas de maneira menos rasteira. O teatro tem esse poder. Tenho percebido que há uma necessidade urgente do público por espetáculos que busquem algo mais do que mero entretenimento, e isso vem me surpreendendo. Não era assim. Algo está mudando. Sorte a nossa. Fechadas as portas do teatro, corremos para encontrar algum restaurante aberto. Conseguimos. Muitas risadas, uma boa refeição e cama. O namoro ficou para depois.

O quê: Fragmento do Diário de Viagem
Sobre: Espetáculo Pai & Filho
Onde: Jornal o Estado do Maranhão
Quando: 08/08/10
Imagens: Catálogo de Ideias
Fonte: Diário de Montagem

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Qual o seu número?



Tipos de atores. Atores não fazem tipo. Teatro tem que ter glossário. Cada um tem o seu, como cotovelo. Para cada verbete, um ator diferente. O gesso te imobiliza? Teorizando é melhor praticar. Jogar mesmo. A arte nunca imita a vida. Sequer se aproxima. Relego a naturalidade a quem, naturalmente está morto. Sobram as estéticas de vitrina. Ver, apontar, escolher, provar, pagar, levar. Modismo tem data. Amanhã, a mesma vitrina estará em promoção. E depois, outras padronagens, outros cortes. O ser nunca é o mesmo. Só as origens permanecem. O calçado carrega consigo a poeira e o pó da trilha. O que sobe aos palcos é a incerteza, a insegurança, a insuficiência de ar, o insofismável desejo de perceber-se vivo. Os olhos enjaulados percorrem sempre as mesmas lacunas. Gostaria de ser brechtiano. Assim, meus olhos não seriam mais sintomáticos para minhas falências. Quando o teatro fica sério, os atores brigam. Vou deixar o Jorge C. trancado fora de casa para perceber o vento acariciando a face rosada pelo frio. Ou, quem sabe, colocar jornais úmidos dentro dos sapatos para o desconforto do inseto. 

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Esquizofrenia

Leram a postagem intitulada Davi e Golias? Quem escreveu aquilo é um careta tentando justificar sua covardia! O artista deve e deverá sempre ir para o enfrentamento independentemente das consequências. Pobre do artista que tem que ficar se justificando para esconder sua acomodação. Digo para vocês, não confiem num homem que tem por nome Henrique sem H. Falar de netos, shopping, natal? Que conversa é essa? Se fosse desse jeito nunca haveria existido uma revolução. Pode até haver algo de nobre quando ele recusa cargos ou contratos para ser coerente com seu discurso, mas é pouco. Mudar a forma de resistência é até bonito, mas é burocrático! É com esse discursinho brando que ele pretende mudar o mundo? Ação e verbo caminham juntos. Ele fala de silêncio e fica choramingando seu destino com um monte de futilidades. Conta de telefone? Colégio? Me poupe! Se não tem peito para ser artista vire funcionário público! Saramago tinha contas para pagar mas nunca amoleceu, pelo contrário, manteve seu discurso e sua prática até a morte. Dizer que podem até botar cabresto mas que a peleja será grande? Jamais! Cabresto é para cavalo. O que esse “caboco” precisa é de um belo coice para acordar!

domingo, 8 de agosto de 2010

Davi e Golias

Um grande filósofo amigo meu, em um momento de intimidade crua, me disse: a sociedade vai nos domando. E vai. Nossa rebeldia vai cedendo. Nossa violência vai se contendo. Nosso anarquismo vai se civilizando. Nosso poder de confronto vai amolecendo. Usando seus três principais instrumentos – a família, a propriedade privada e o amor – a sociedade vai nos domando como cordeirinhos para dentro do quadro formal da vida. Para o artista, esse adestramento é mais terrível ainda. Como conseguir escapar desse aplanamento civilizatório quando se tem que pensar na conta de telefone, no colégio dos filhos, no presente de natal? Resistindo. Para o artista a luta contra o consenso é muito mais brutal e desafiadora. Somos um bando de loucos de fora do mundo tentando convencer o mundo que somos deste mundo mas que queremos um mundo melhor para poder morar. Ao artista é exigido um mínimo de coerência entre o discurso e a prática e isso nos custa abdicar de contratos ou cargos que não se alinhem com o nosso dizer, embora soframos as consequências desse posicionamento na hora de botar a mão no bolso para que o neto possa ir ao shopping. Mas essa pressão não nos abranda. Na verdade nossa resistência vai mudando o tom. Com o tempo, com as rugas e com o reumatismo, começamos a usar menos a força e mais a forma. Menos a faca e mais a pena. Menos o grito e mais o silêncio. Menos o verbo e mais a ação. Mas resistimos. Resistimos porque acreditamos que a vida pode ser melhor. O mundo pode ser melhor. A única alegria que nos resta é a certeza de que o cabresto, no artista, é bem mais difícil de botar. Podem até botar, mas a peleja é grande... Por que a foto de Ayrton Vale? Pai & Filho também trata disso.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Conflitos da profissão

As impressões que tenho do fazer teatral repercutem na minha vida fora do palco. Nem sei as motivações de distanciar um do outro, ou aglutiná-los. As personagens não interferem, não é isso, pois não sou louco - não a esse ponto da esquizofrenia -, mas há uma inquietação na busca de um aperfeiçoamento do humano no ator tal qual o ator para com a sua personagem.

E se eu fosse médico, jornalista? Não é do ser. Posso deixar de atuar, distanciar-me do teatro, mas o que se construiu permanecerá.

Pai & Filho marca algumas questões na minha vida - não acredito muito em divisor de águas; não sou tão católico assim. A relação com um grupo, com seus humores, (dis)sabores; uma exigência de rotinas e horários; atividades físicas para prontidão corporal - estou fazendo musculação pela manhã e natação no final da tarde/início da noite; e agora, circular pelo Brasil. Nunca fiz isso, só pontuadamente com "O segredo do labirinto" e "A casa dos velhos". Essa circulação aponta para a maturidade e profissionalização do fazer e uma carga de desejo de mostrar ao mundo o que temos a dizer. Talvez aí resida minha crise. 

domingo, 1 de agosto de 2010

Fragmento de um diário nunca publicado...

foto de André Lucap


“... Última apresentação em Imperatriz. Casa cheia, de novo, e outra etapa concluída. Toda desmontagem é um pouco melancólica. É um pequeno fim. No teatro, embala-se o cenário e deixam-se para trás apresentações que jamais se repetirão. Diferentemente de cinema ou televisão, no palco uma apresentação nunca será igual à outra. Tentamos codificar, ensaiar, repetir, mas, por maior empenho, talento ou disciplina, jamais se consegue a reprodução exata. Aquele gesto delicado, aquele tom de voz que toca fundo está entregue ao cidadão que se dispôs a assistir aquela apresentação. Haverá melhores, haverá piores, mas não iguais. O teatro não se atrapa. Tem vida própria. E assim, Imperatriz marca Pai & Filho para sempre. Somam-se, à vida da encenação, estas três apresentações únicas. Um abraço em Jorge, um abraço em Cláudio, um abraço em Katia, e a certeza de que estamos caminhando juntos na prazerosa estrada do amadurecimento. Como bom domingo, encerramos com pizza. Terminadas estas linhas, despenco na cama. Amanhã a estrada nos espera.”

Diário de viagem. Imperatriz. Segunda-feira, 14 de junho de 2010. 04:00 AM.

sábado, 31 de julho de 2010

Pa & Filho em Guaramiranga

O espetáculo Pai & Filho foi selecionado para a XVII edição do Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga – FNT. A peça foi selecionada entre outras 77 produções dos 09 Estados Nordestinos para a Mostra Nordeste que fundamenta o Festival, reunindo e debatendo a produção teatral nordestina. O Festival acontece de 04 a 11 de setembro de 2010 e a data de apresentação da pequena companhia de teatro será definida nos próximos dias.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

É bom ter amigos


Eles acompanham nossa jornada desde sempre, quer na escola, na vizinhança do bairro, em nossa profissão. Estão sempre presentes. No teatro, quando nos assistem, dão suporte para compreendermos melhor o nosso fazer, apontam as incorreções na performatividade. São sempre generosos e gostam de nós. Quando a distância existe, i. e., as apresentações são em outros locais, distantes deles, fico meio que desprotegido. Assim, coloco sempre uma armadura - espécie de couraça ou segunda pele - para tentar me preservar. Com isso, sentem-me arrogante e falastrão, principalmente nos debates. Apresentar para estranhos traz um distanciamento que não gosto muito. É que teimo em querer carregar comigo todas as pessoas que conheço. Assim, como farão parte da minha vida aqueles que me observam em cena, mas não tenho intimidade com eles? Talvez seja por isso que estou sendo favorável aos debates como rotina das apresentações da Pequena Companhia de Teatro. Lembro-me de desconhecidos que me forçaram à exposição escrachada das vísceras. Sinto falta dos meus. A dor profunda não se instala. Alguém tem que morrer.

domingo, 25 de julho de 2010

Nova jornada

Ítalo Itálico, conselheiro da Escola de Teatro Aquático de Titicaca, me pergunta, em um dos seus e-mails, se o elenco de Pai & Filho está sobrevivendo bem à distância. Eu perguntaria se uma personagem consegue sobreviver à distância. Nossa pequena companhia tem uma particularidade que vocês já conhecem: um dos atores mora em Imperatriz. A questão é: O espetáculo Pai & Filho sofre como isso? Depois de concluída a temporada de estreia, com apresentações em São Luís, Imperatriz, Balsas e Riachão, posso dizer que não muito. Para minha surpresa, a contundência das personagens vem sobrevivendo aos lapsos gerados pela interrupção temporal e o comprometimento da cena tem sido o menor possível. Claro que não é o ideal, mas o prejuízo é menor. A manutenção, mesmo intermitente, acontece nos encontros para as apresentações do espetáculo. O que a distância nos priva é de avançar. Explico: depois de doze apresentações começamos a perceber alguns detalhes que poderiam ser melhorados, uma cena que merecia um destino diferente, uma fração do texto que poderia ser somada, enfim, amadurecimento natural de quem tem por ofício estar em temporada. Nesse caso, quando a alteração é estrutural, necessitaríamos do tempo em sala de ensaio, da continuidade do treinamento, da experimentação, e isso sim, só é possível com a continuidade presencial. Como o projeto de circulação premiado com o Myrian Muniz oferece a oficina sobre o Quadro de Antagônicos, teremos a oportunidade, na prática, de retornar à sala de ensaio, durante uns quarenta e cinco dias, discutindo, treinando, ensaiando, revisando e “avançando” na qualidade que o espetáculo Pai & Filho ainda tem para oferecer. Depois disso, é só esperar a novelesca transferência de Cláudio para a matriz.

(Imagens de André Lucap para assédio da imprensa)
P.S.: Continua a promoção: “Seja seguidor e ganhe um beijo do diretor”... e que Katia não me leia...

Nota rápida

O espetáculo Pai & Filho foi selecionado para o XVII FENTEPP | Festival Nacional de Teatro de Presidente Prudente, que acontece de 20 a 28 de agosto de 2010. O festival não é competitivo e reúne parte da melhor produção teatral contemporânea. É hoje um dos mais importantes festivais do país e seu crescimento foi alicerçado no conceito de ser um festival que promove um panorama do teatro nacional, buscando na qualidade e na diversidade um diferencial que o tem mantido sólido, possibilitando a cada edição permitir refletir e discutir a produção nacional sem perder de vista a própria origem. A apresentação da pequena companhia de teatro está prevista para o dia 21 de agosto e o diretor Marcelo Flecha permanecerá na cidade durante todo o festival.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Como o teatro se estabelece na vida de quem faz?

Os debates sempre serão uma caixa de surpresas. Eu tenho um certo receio de estar na berlinda assim, com as luzes acesas. Talvez uma pergunta que eu não tenha convicção acerca da resposta, ou alguma questão que eu discorde de Marcelo F. ou de Jorge C. por completo.

Em Riachão reapareceu uma pergunta que ouvi no debate em que eu estava presente numa escola pública municipal de Imperatriz, acrescida de um apêndice: O que o teatro mudou na minha vida, e nas relações que eu tenho com as pessoas?

Desde quando o teatro passou a ser minha vida não me lembro. Sei que sinto saudades do palco e da maneira como eu conduzo a vida das personagens. Poder para poder fazer. Algo sempre a dizer. Viver ilimitadamente na frente de um outro. As escolhas nos conduzem a um abismo que nos abraça, sempre. Resta-nos fechar os olhos e perceber o vento.

Ano que vem, outros estados, outras pessoas, outros olhares. A felicidade nunca é abundante o suficiente para a satisfação.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Notícias

Uma semana se passou e muita coisa aconteceu desde minha última postagem. Encerramos em Riachão a última etapa da temporada de estreia de Pai & Filho. Três apresentações, casa cheia, a montagem em espaço alternativo funcionou e quase que a cidade transforma Pai & Filho em espetáculo infantil. Muita criança. Incrível. E o mais incrível: assistiam em silêncio e sem dormir... vai entender... gostaria de dizer “sem se entediar”, mas, nesse caso, o depoimento teria que ser deles. De volta a São Luís, a notícia: a pequena companhia de teatro foi contemplada com o prêmio Myriam Muniz para circulação do espetáculo Pai & Filho pelo norte e nordeste do país. Único espetáculo maranhense premiado. Apenas sete na categoria em todo o nordeste. Não, não é déjà vu. Em 2010 a companhia recebeu o prêmio para montagem de Pai & Filho, agora o prêmio é para a circulação do espetáculo. Grande pequena! Desculpem a empolgação, é que são muitos anos de luta para alguns segundos de reconhecimento. Quer ler mais novidades? Vou para outro parágrafo para não confundir.
Agora filosofando: quando uma obra está pronta? Acho que era Borges que dizia que o problema de não publicar um livro é que passamos o resto da vida revisando-o. Vivo esse dilema. Tenho cinco textos teatrais e um projeto de publicação contemplado com o Prêmio BNB de Cultura. Você, leitor atento, dirá: se encaminhou o projeto desejava a publicação dos textos. Não necessariamente. Projeto é presente sem futuro. Só existe se aprovado. Então escrever um projeto é um ato esquizofrênico. Já projeto aprovado é autor apavorado: vale a pena publicar? Tem a qualidade necessária? É tamanha a incerteza que ainda nem encaminhei o livro para os pares responsáveis pela possível apresentação. O problema é que, diferentemente dos tantos livros de poemas que escrevi e nunca publiquei, esta dramaturgia reunida tem prazo para publicação, ou seja, não tem volta. Como diria meu amigo: “é dar a cara para bater”. Tenho a impressão de que os textos estavam felizes na gaveta... Eles não confessam...
Não é preciso dizer que as fotos são do debate e da montagem em Riachão

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Eu sou ator.

Estou adorando me apresentar com Pai&Filho. Seria fácil para qualquer ator falar isso, como é comum falar de seu novo trabalho. Mas, comigo, tem uma diferença fundamental, que é a de que eu não gosto de me apresentar. Dou-me o direito de mudar, sempre - obedecendo a uma certa coerência, obviamente.

Amanhã, estarei indo a Balsas com o objetivo de me apresentar em Riachão. E teremos outros debates, outras filmagens. Sei que tudo não é novo, e ao mesmo tempo é sempre uma novidade antiga, mas, a arte, o teatro, é uma porta que espreita uma realidade que é moldada por nós, e exposta aos berros pelas janelas. Quem passa dá uma olhada, e fica surpreso com o que vê - isso quase sempre. Por vezes, um homem nu. Por outras, mulheres chorosas. Ninguém fica ileso quando espreita uma janela. Sinto-me assim, sendo espreitado no palco por olhares buscando significados para tudo que fazemos. É como se fôssemos dissecados vivos.

Quanto mais apresentações, mais pessoas a nos perceber. Gosto disso. E não se contrapondo a isso, mudamos sempre - ou quase sempre. Por isso, digo que sou ator e que gosto de me apresentar no palco.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Riachão


Estou em Riachão. Sexta, sábado e domingo, 20:00hs, Pai & Filho no auditório da Prefeitura Municipal. Última etapa da temporada de estreia de espetáculo contemplado com o Prêmio Myriam Muniz.
A produção de temporada em cidade inédita tem sabor adocicado. Contato com novas pessoas, adaptação do espetáculo a um novo espaço, receios quanto à eficiência da divulgação, expectativa, discussão sobre as dificuldades de produzir cultura em um município com vinte mil habitantes, enfim, nova rotina para nova cidade.
Amanhã vou fazer a montagem e pela primeira vez o espetáculo será experimentado em espaço alternativo – um pequeno auditório onde o cenário estará na plateia – sem a caixa preta para arredondar a estética. Será o último teste para desencanar quanto à tentativa de encenação multi-espacial que pretendemos para Pai & Filho.
Depois é só descansar e esperar a chegada dos pares e da minha ímpar predileta.

Nota de utilidade pública: O curso de elaboração de projetos no interior do estado para o edital do BNB acontecerá no município de Riachão nesta sexta-feira pela manhã.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Notícias do lado de lá

As pessoas me perguntam: quando vocês vão apresentar outro espetáculo?, como se teatro desse em árvores. Um espetáculo pode - e deve - ser visto várias vezes. 

Ainda estamos por apresentar em Riachão, concluindo assim a temporada de estreia. Marcelo F. colocou o pé na estrada hoje pela manhã para tratar disso. 

Estou em São Luís e ainda não consegui ver Jorge C. para, ao menos, bater o texto. Tenho a sensação que só vou namorar.

A expectativa para os editais e coisa e tal é grande, pois eles darão um norte à circulação de Pai&Filho para outras cidades/estados/regiões além de nosso umbigo. 

Minha experiência em circulação sempre foi muito restrita, como os próprios debates que estamos fazendo. Tem um certo ar de maturidade no ar, que vem com a proposta de fazer teatro de grupo - profissionalmente falando.

Tenho muitas inquietações acerca do meu/nosso fazer, e a minha distância geográfica dos demais da Pequena C. está me deixando meio inerte em minhas ações cotidianas. Falta em mim o contato, fundamental para a compreensão das coisas.

Acho que preciso tomar uma Coca-cola.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Procurados

Vocês já pararam para se perguntar por que só Cláudio e eu postamos neste blog? Notaram que Jorge e Katia (ator e produtora da companhia) não postam? Faço esta pergunta por quê? Porque quero saber o porquê.

Nessa infeliz rotina de escrever para ninguém – tendo em vista que o caro leitor é um mero fantasma que finge estar presente em algum momento posterior ao ato de escrever – não conseguimos nem a solidariedade dos nossos pares. Os reticentes companheiros nos largam solitários no limbo do mundo virtual e seus seguidores mais virtuais ainda – aqueles amigos que só clicam “seguir” para se livrar da minha cobrança quando encontro com eles. Ainda em Entre Laços, foi Jorge que me convenceu da necessidade de estabelecer um diálogo direto com nossos espectadores/leitores e o quanto “esse tal de blog” (na época um verdadeiro E.T. para mim) era um mecanismo moderno e interessante. Katia, a mais fiel das leitoras obrigadas, já fica modorrenta no domingo – dia anterior ao meu dia de postagem. Cabe a você, leitor de Canterville, gerar pressão nos outros membros da companhia através da frequente quantidade de comentários e e-mails que mandam, para que o gelo destes seres se derreta, e vocês possam passar a usufruir das suas inéditas opiniões (risos gerais para todo este parágrafo).

Segue, abaixo, as fotos dos procurados:


Em Balsas, na apresentação de Pai & Filho, um espectador adulto disse que seguiu a orientação da mãe e compareceu. Nunca havia visto um espetáculo teatral. Surpreso, depôs que a apresentação gerara nele uma satisfação tamanha que agradeceu à mãe por estar ali, naquele momento, presenciando o que viu. Morei parte da minha vida em Balsas, sei muito bem o que é não ter teatro para ver... nem cinema... nem ...

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Ainda sobre os debates

Estou editando parte do material, resultado de nossas apresentações em São Luís, Imperatriz e Balsas - vídeos para registro, prestação de contas... -, e percebi algo que me fez refletir: estou falando demais nos debates. Isso me intriga em alguns aspectos. Penso que o debate poderia ser uma espécie de apêndice das apresentações, um momento para dialogar mesmo com o espectador, formar platéia, uma prática que poderia ser marca da Pequena Companhia de Teatro. Nos espetáculos que vejo, sinto falta disso. E seria um tempo para o público, inclusive, comer pipoca e tomar refrigerante.
                                                                                                   foto Ayrton Vale

Sei que esta foto está descontextualizada, mas gosto dela

Hoje eu fui a uma escola debater sobre o espetáculo. É que os alunos haviam assistido e não participaram efetivamente do debate. Assim, fui lá com esse propósito. Algumas questões estavam voltadas ao fazer teatral, de uma forma geral; curiosidade de como é tentar viver de teatro, as dificuldades encontradas, os prazeres, o processo de criação. Alguns dormiram, mas normal. Eu acabei falando bobagens, o que é normal também vindo de mim. A sinceridade é nociva, às vezes. Gosto de chocar ainda, creio eu. 

Debater é como sentenciar o outro com sua visão, discurso outro que não o da encenação. Sei que não é papel do teatro fazer isso, mas ajuda na leitura de uma obra. Efetivamente é uma ótima pedagogia.

Estou com saudades do espetáculo. Gosto dele. Torço para que possamos, de fato, trilhar por aí. Sinto-me mais maduro em cena. Talvez reflexo dos debates.


quarta-feira, 30 de junho de 2010

Quem ri por último ri atrasado

foto Ayrton Vale

Mesa de bar. Mossoró. Cidade Junina. Entre amigos, discutimos. Teatro. Na mesa atrizes queridas (Tony e Luciana) e o diretor do espetáculo “Chuva de Bala no País de Mossoró”, o competente João Marcelino. A conversa toca em um ponto que sempre me inquietou.
Dou um exemplo: no espetáculo "Pai & Filho" há uma cena, logo no início, em que o pai mata um mosquito nas costas do filho com violência. O público ri. Normal. Mas para mim é essa cena que concentra toda a trajetória dramática que as personagens carregam em si: o pai, no golpe, mostra seu vigor, seu poder, sua força; mas a ação está a serviço do bem estar do filho, que era mordido por um mosquito. O filho, frágil, absorve o golpe sem reclamar. Por que a cena surge? Porque ela diz do que eles são ou porque poderia ser engraçada? Esse é o ponto. O compromisso com o “como” dizer não pode estar refém do público. O riso, ou choro, ou indiferença, ou nada, deve ser consequência. A cena – em que alguns riem, outros ignoram e outros sofrem – é tecnicamente clownesca porque precisava ser. Se gosto da reação? Gosto e é saborosamente inesperada; a cena não foi construída para isso. Posso falar do coito de Teodoro com a vaca em "Deus Danado", do Tuco vestindo o smoking em "O Acompanhamento", enfim, cenas que existem porque são necessárias. Talvez esteja sendo um pouco hermético hoje, mas acho que deu para entender. Deu?

terça-feira, 22 de junho de 2010

E lá fomos nós!

foto André Lucap

De volta a São Luís depois das apresentações de Pai & Filho em Imperatriz e Balsas. Falta Riachão. Em Julho. Amanhã parto para Mossoró rever os amigos da Cia. A Máscara de Teatro. Muitos e-mails, comentários e quantidades de cartas recebidas pelo correio reclamando minha presença no blog. Vocês não perceberam, mas passei uma semana sem postar. Um e-mail do Bernardo Bôscoli, membro da Real Academia de Teatro Prático, perguntava como foram as apresentações em Imperatriz e Balsas. Começo por Imperatriz que desconstruiu meu receio quanto ao possível distanciamento provocado pelo palco italiano. O contato entre as personagens e seus convidados foi intenso e não creio que os espectadores tenham perdido atmosfera por estarem na platéia do “Ferreirinha”. Esteticamente a montagem ficou bela, a melhor até aqui. As apresentações foram boas. Depois dos sessenta dias de intervalo desde a última apresentação em São Luís, o resultado superou minhas sempre pessimistas expectativas. A casa? Cheia, como sempre, e no domingo aquela saborosa sensação do dever cumprido. Já Balsas nos reservou algumas surpresas. Uma avalanche de gente no primeiro dia que nos obrigou a devolver para suas casas umas duzentas pessoas entre alunos e alunos e um blecaute que inviabilizou a última apresentação. Sim. No domingo faltou luz e só voltou à meia noite. Desmontagem no escuro. No mais, o espetáculo do Sábado foi o melhor dos cinco apresentados nos dois municípios. Convidado a escrever um diário de viagem para um jornal local, vou postar nos próximos dias e a conta gotas aqui no blog, algumas impressões registradas nesse diário. Aguardem. Ainda temos muito para contar desta jornada pelo sul do Maranhão.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Debates e suas motivações

Uma das contrapartidas no projeto aprovado - Pai & Filho -, são os debates após as apresentações. Atores exauridos pelo esforço/suor, encenador eufórico. Lembra um pouco as mostras/festivais em que os grupos, numa perspectiva de compartilhar o seu fazer, disponibilizavam palavras ao vento para os fazedores teatrais. Um público especializado, digamos assim.

Neste caso, a comunidade em geral é que se faz presente e acreditem, a maioria fica mais de 50% do tempo disponibilizado para o debate, fazendo perguntas e/ou ouvindo as respostas.

Para o teatro o público existe. Entretanto, ele quase não é exigido na encenação, pois ele não está por lá, não acompanha o processo, não discute com o encenador. Ele aparece e pronto. A relação que se estabelece sempre foi de distanciamento, e as reações podem ir desde um bocejo a uma dormida conjugada com um ronco, tosse, saídas antes do término, atender um celular... enfim, termômetros para ter uma noção da atenção do espectador para com a obra. 

Quando franqueamos a palavra para um público ausente do processo, a primeira coisa que nos incomoda são as perguntas acerca da incompreensão de certas opções, ou ainda a necessidade de entender absolutamente toda a encenação, as características das personagens, esquecendo por completo que nosso teatro é uma obra aberta.

Parece-me que politicamente é importante disponibilizar esses espaços. Eu gosto muito. Adoro colocar meu pensamento em palavras. Assim, me exponho mais. Aquilo que não ficou claro, se solidifica em ação - palavra é ação. Pensamento, idem. Quanto aos espectadores, eles deixam um pouco essa distância e sentenciam seu pensar. É um exercício discutir em nossa sociedade, e os espaços estão sendo raros. Acho que se não fosse contrapartida no projeto, não faríamos. Assim, teríamos mais tempo para desmontar o cenário, tomar um vinho e ficar nos masturbando sobre a compreensão dos espectadores. Hoje, não temos mais isso.

Este final de semana teremos apresentação em Balsas-MA. Marcelo Flecha, Jorge Choairy e André Lucap já estão por lá. Eu e Kátia Lopes, em São Luís. Iremos na quinta-feira. 12h de viagem de ônibus!!!

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Em Imperatriz são 08h36.

Marcelo Flecha, Kátia Lopes, Jorge Choairy e André Lucap encontraram o ator, esse que vos tecla, em Imperatriz, para apresentações.

Cenário montado, fizemos uma passagem para relembrar marcações e texto - há alguns dias não estávamos manutenindo o espetáculo. A distância física é terrível.

Duas emissoras de televisão apareceram para externas, com o intuito de informar a comunidade sobre as apresentações. Um dos repórteres indaga sobre o teatro de patifaria e teatro tradicional. Essas questões têm uma relação com o fazer de um grupo de pessoas da cidade de Imperatriz e em contraponto, o nosso teatro - que segundo ele seria tradicional.

Bobagens à parte, a Pequena Companhia de Teatro não se filia a uma estética específica, mas se alimenta de pensamentos e ações de pessoas que escreveram e experienciaram sobre/o teatro durante séculos. Nossa contribuição, nosso fazer, principia-se aí. Pra isso, ela se fortalece quando elabora seu manifesto. Cada espetáculo/apresentação é como se afirmasse o seu propósito. Enquanto isso, a gente se debruça em nossa prática para analisá-la, e perceber se estamos em um caminho que nos convença.

Depois daqui, Balsas e Riachão.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

E lá vamos nós!

                                                                                                             foto Ayrton Vale
Quinta-feira embarcaremos para Imperatriz. Sexta, sábado e domingo, Pai & Filho no Teatro Ferreira Gullar. 20hs. Entrada franca. Depois, Balsas e Riachão. Na viagem seremos três personagens à procura de um ator no bom e velho Ford KA. As personagens? Katia, Jorge e eu. O ator? Cláudio.








Santa Inês /Indo para São Bento

Já estive nas duas situações: já morei no “interior” e recebi espetáculo da “capital” e já morei na capital e viajei com espetáculos para o interior. “Nunca” circulei do interior para a capital. No Maranhão, a relação entre capital e interior sempre foi muito problemática. São Luís se sente o próprio estado e só lembra que o interior existe quando alguma produção precisa circular para receber recursos. A via raramente é de mão dupla. Raramente projetos do “estado” pensam na produção realizada no interior circulando pela capital, ou entre os próprios municípios do interior. A pequena companhia tem uma proposta afetivamente ligada ao interior do estado (a palavra “interior”, que tanto odeio, se repetirá aqui umas quinhentas vezes). Desde a sua fundação, todos os espetáculos circularam pelo estado independentemente dos recursos recebidos, e, em alguns casos, custeados pela própria companhia. Os Espetáculos O Acompanhamento, Entre Laços e Pai & Filho incluíram cidades do interior nas suas temporadas de estreia e projetos como o da Literatura Viva já foram desenvolvidos em outros municípios maranhenses. Também já recebemos em São Luis grupos do interior do Maranhão e do Rio Grande do Norte, mas em todos os casos havia uma afinidade de proposta ou um vínculo afetivo muito grande. E é nisso que acreditamos – estou tendo certa dificuldade em falar na primeira pessoa do plural porque o "fogo amigo" de Cláudio frequentemente vem me desdizer como companhia, mas falo por mim e falo como membro fundador da pequena companhia de teatro (risos). Acreditamos que as relações precisam se estabelecer também de maneira afetiva (como o próprio Cláudio comenta na postagem do dia 27 de maio) e somente assim se solidificarão. Se a circulação não é uma alternativa para a troca de experiências e discussão dos diferentes fazeres e só se efetiva quando se precisa justificar um projeto, em nada se avança. Foi com projetos de circulação entre Balsas e Imperatriz que, há vinte anos, conheci duas das pessoas mais importantes na formação do meu fazer. Circulemos pelo nosso estado com o coração aberto.






São José de Ribamar /Bacabal

sexta-feira, 4 de junho de 2010

O quadro de antagônicos e a vida que se mostra.

Para mim, hoje não é sexta-feira. É ontem.

Tive contato com a obra de Ivã Volpi e fiquei encantado. Pensei num livro sobre dansintersemiotização, de Soraia Maria Silva, a partir dos Profetas, do Aleijadinho. Acho que o Quadro de Antagônicos tem a ver com a vida que se mostra. Me vi percebendo o material e o movimento das obras do Ivã e relacionando com o Quadro, como Soraia e os Profetas. Assim, relaciono a vida ao Quadro, para ele não se tornar árido. Uma pista, talvez. Estou envolvido com isso, com essa troca de experiências, de construção coletiva de conhecimento. Parece-me uma espécie de mímesis corpórea cubista. Ainda tenho muito o que ler e pesquisar. Entendam como uma espécie de impressão de que o processo do Quadro de Antagônicos é apenas um fio de uma meada.