quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Você sabia que...


... a Pequena Companhia de Teatro foi contemplada com o Prêmio FUNARTE de Teatro Myriam Muniz 2013? O projeto auxiliará na manutenção das atividades da companhia, com temporadas regulares, debates, oficinas, seminários, leituras dramáticas, organização de acervo, produção de conteúdo etc. Único projeto maranhense contemplado em 2013, é a quarta vez que a Pequena Companhia de Teatro recebe o prêmio desde sua fundação. Aproveitamos para saudar os queridos amigos da Cia. A Máscara de Teatro, de Mossoró/RN, pela premiação!

 

domingo, 1 de setembro de 2013

Sobre a distribuição de ingressos


Rua Vinte e Oito de Julho, 295. É para esse endereço, na Praia Grande, que você deverá se dirigir dias 04, 05 e 06 de outubro, se quiser prestigiar a estreia do espetáculo Velhos caem do céu como canivetes, nova montagem da Pequena Companhia de Teatro, que tem o patrocínio da FUNARTE, através do Prêmio de Teatro Myriam Muniz – se tudo der certo, como já falei na postagem anterior.

Como a configuração da montagem em relação ao espaço possibilitou uma plateia de cinquenta lugares – dependendo do espetáculo acho que a sala pode comportar mais de cem –, estamos pensando em uma estratégia de distribuição de ingressos eficiente, já que as três primeiras apresentações do espetáculo serão gratuitas, como contrapartida de patrocínio, assim como todas as apresentações nas cidades contempladas pela estreia estadual.

Uma das ideias é disponibilizar os ingressos com uma semana de antecedência na sede da Pequena Companhia de Teatro, como forma de fidelizar a clientela e evitar problemas nos dias das apresentações. Bastaria ao interessado passar na sede e pegar o seu ingresso, um por pessoa. O ingresso só teria valor até quinze minutos antes de o espetáculo iniciar – seria uma pena termos espaços vazios na temporada de estreia.

Aos interessados em assistir, mas que não pegaram ingressos antecipadamente, bastaria dar um telefonema para a Pequena Companhia de Teatro, confirmar como está a procura, e vir para a fila no dia das apresentações. Já os interessadíssimos, que se deparassem com uma seção esgotada, contariam com a lista de espera para os ingressos procedentes do atraso ou ausência daqueles que anteciparam a retirada, e seriam disponibilizados quinze minutos antes do espetáculo

É uma hipótese. Estou escrevendo para saber a sua opinião. Ajude-nos a achar a melhor alternativa opinando no blog, Face, Twitter, e-mail, carta, telefone ou pessoalmente – eu prefiro os comentários no blog, é ele que faz o trabalho todinho e o mérito fica sempre para Face, Twitter e Cia. Ltda.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

O diretor, o ator e o público


O diálogo entre o primeiro e o segundo resultará na aproximação ou distanciamento do terceiro. As dúvidas sobre a excelência na performatividade dos primeiros cercará toda a fruição do terceiro. As pistas para a elucidação da justificativa do existir do espetáculo podem não ser percebidas.

Não há sucesso ou fracasso. Há um diálogo entre os três que sempre será ruidosa. São seres que carregam em si a sua visão da história do mundo, e seus corpos reescrevem sua história a partir da experiência vivida diariamente. O resultado? Visões diferentes de um ato, que nunca será o mesmo. Teatro é evento que deve ser prestigiado ene vezes pela mesma pessoa. Talvez assim ela possa se aproximar do trabalho executado pelo ator e pelo diretor.

domingo, 25 de agosto de 2013

Acredite, se quiser...

Dia 04 de outubro estreia o espetáculo Velhos caem do céu como canivetes, na nova sede da Pequena Companhia de Teatro – se o IPHAN, a Blitz Urbana, a SEMFAZ, o Corpo de Bombeiros, o Cartório e o Santíssimo Escabau deixarem. Sim, estou apostando todas as minhas fichas nessa data, apesar de saber que ainda dependemos de alguns procedimentos, tanto artísticos, quanto técnicos e burocráticos. Os ensaios vão muito bem e vislumbro estrear com, no mínimo, dez ensaios preparatórios finais – algo como realizar vinte apresentações internas antes da própria estreia. Até lá também teremos várias apresentações de Pai & Filho, no estado de São Paulo, pelo projeto Viagem teatral, do SESI, além do Troca-Troca no Nordeste (encontro para oxigenar nosso fazer, promovido pela A Outra Cia. de Teatro, em Salvador/BA), onde Cláudio será nosso representante. Como veem, estou otimista porque sou pessimista. Não serão alguns extintores, meia dúzia de protocolos ou algumas centenas de latas que irão aplacar nosso modesto desejo: o de recebê-los bem, com um bom espetáculo. 

domingo, 18 de agosto de 2013

O que pensa um diretor em fim de montagem?


E tudo ganha forma. Como tenho insistido aqui, o caos criativo é o melhor caminho para a concepção, embora ele nos atropele com inseguranças, medos, dúvidas, receios – pântano natural de quem cria sobre o vazio. O momento do caos é, sem dúvida, o pior momento da montagem, o mais dolorido, o mais assustador. Esse momento inicial passou e tratei dele anteriormente – basta ir rolando o blog e as revelações surgirão. Agora, não mais. Agora, tudo é acendimento. O vácuo deixado pelo caos nos dá carona e as soluções surgem organicamente. É como se o momento de caos servisse para concentrar toda a fortuna criativa num caldeirão de significados e, a partir daí, tivéssemos uma fonte de ideias disponíveis e oferecidas no exato momento em que são necessárias. Esse é o motivo do sereno fervor que me toma nos últimos dias. Tudo se resolve com uma precisão sígnica que me faz respeitar ainda mais o processo. Se a dor foi a mais profunda já vivida por mim em um início de montagem, o prazer é diretamente proporcional a ela, e cada hora de ensaio, cada jornada de confecção, cada reflexo produzido pela posição de um refletor migram da angustia para a serenidade. Este é o momento presente. O melhor de tudo é que não tem mais volta. Agora tudo é definitivo, e o espetáculo já diz como será. O espectador gostará? Por enquanto eles têm nosso suor e estas parcas palavras. É o que tem pra hoje. Mas não se animem, o amanhã ainda demora.

PS: Quem me conhece deve estar questionando meu conceito de caos (risos).
 

domingo, 11 de agosto de 2013

Antígua e Barbuda


Penso que as marcas de expressão que carrego no rosto formam o mapa da minha trajetória. Aprecio cada ruga, cada cicatriz, cada mancha, porque dizem de um tempo vivido, de momentos perpetuados, de passos dados em busca do presente. O Ser Humano, do espetáculo Velhos caem do céu como canivetes, também carrega as suas marcas no rosto, contudo, o mapa traçado é compreendido de desalento, frustrações, dores, desilusões – riscos na pele que revelam a alma. Diferentemente de Pai & Filho – quando o espetáculo apresentava duas personagens mais arquetípicas, e os antônimos opressor & oprimido, vítima & algoz, eram marcantes e delineavam a trajetória dos seres em questão – o novo espetáculo caminha para apresentar personagens mais sutis. A permanente indefinição da origem do Ser Alado desconstrói a imagem arquetípica angelical e oferece maiores nuances. Anjo? Ave? Sonho? Homem? Demônio? Delírio? Esse ser com asas guarda consigo o mistério da própria existência. Cabe a um mísero ser humano decifrar o enigma, trambalear no ardil construído pelo voador, sem deixar-se atordoar. Ou seria apenas um delírio místico? Um desejo mítico? Se a fome é a pior das dores, de um ser fragilizado por ela tudo pode se esperar. Essa estrutura dramatológica viabiliza uma investigação criativa mais particularizada das personagens e oferece para os atores um arsenal mais delicado de instrumentos para a construção dos seres. Nesse astucioso momento do processo nos encontramos hoje. Costurando a teia que organiza estas personagens para que alcem voos íntimos, complexos e duradouros.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

O texto


Pobre do ator que tem dificuldade em decorar um texto. Pobre de mim. 

Trauma. Sou do tempo em que éramos obrigados a decorar tabuada, datas comemorativas e por aí vai.

Demoro para memorizar textos. Demanda um certo tempo e maneirismos. Imagino que cada um tenha os seus. 

Hoje devorei as últimas falas de Velhos... Sempre são muitas, já que somos somente dois em cena. 

Não tenho medo de brancos. Já tive alguns, mas sempre reinvento o texto, altero a ordem, deixo para o outro ator se virar. Mas, também sou daqueles que depois dificilmente esquece. Lembro-me ainda de textos interpretados nos festivais de poesia, crônica e conto realizados em Imperatriz e de algumas falas de espetáculos que já atuei. 

Em Velhos..., a possibilidade de se ouvir um texto bem falado é enorme, já que a segurança da memória possibilita uma oscilação maior na intenção da fala.

Do texto, restaram algumas páginas e parte da espiral da encadernação. A gata que reside em meu quarto devorou-o acintosamente.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Oxigenação

Estamos te esperando.
Processo, montagem, apresentações. Nada de novo. Entretanto, quando essas etapas são de dois espetáculos diferentes, há uma certa alteração comportamental no corpo do ator. Ele se reduz para ampliar, como se precisasse diminuir a tensão; alterar o foco para dilatar a percepção do ofício. 

Há algum tempo que a Pequena não circula junta, não se distancia da sala de ensaio nossa de cada dia. O Cansaço e a sonolência dão espaço para outras sensações.

O crescimento, talvez, seja a percepção da capacidade de sempre se superar, para não cometer os equívocos do desânimo, da ineficácia, do comedimento.

São Bernardo do Campo (SP), onde estamos no momento, começando a jornada de apresentações de Pai & Filho pelo SESI-SP, recupera um pouco isso. 

Agora preciso me queixar de outra coisa...

domingo, 28 de julho de 2013

Olho por olho


 
Experiência & exigência caminham juntas e a passos largos. É fácil notar o quanto os três anos que separam Pai & Filho de Velhos Caem do Céu como Canivetes acentuaram nosso nível de exigência. Homens mais maduros, artistas mais exigentes. Exigência aguçada, tempo dilatado: de 1° de abril para cá, vão-se quatro meses de ensaio e este processo de montagem já deixou claro que exige mais. Os sessenta e sete ensaios necessários para a estreia de Pai & Filho já foram ultrapassados e a modelagem continua, como falei aqui. O binômio (experiência + exigência) deveria resultar em competência, mas a arte não permite fórmulas, por isso a dúvida, a ansiedade e o fracasso de que Cláudio fala logo abaixo desta postagem. Vejo este momento com serenidade e alegria, porque o nível de exigência que os atores da Pequena atingiram é o desejo de consumo de qualquer diretor de teatro, sempre e quando este tenha calos suficientes como para maturar a exigência necessária para o desafio proposto.  O que tento dizer é que a sensação de dificuldade nada mais é do que uma consequência do nível de exigência adquirido. De gentes [sic] tão preocupadas, comprometidas e exigentes porcaria não pode sair. Pode, mas não é o caso. Por isso minha serenidade.  Gostaria que pudessem ver o que vejo, particularizar o olhar de cada um dos leitores deste blog para cada nuance, cada gesto, cada suspiro que constrói um espetáculo. Suspeito que o momento mais rico do teatro fique para o encenador, aquele primeiro espectador que vê o que ninguém verá – sutilezas de qualquer processo. Por isso a segurança, a certeza. Se meu olhar não anda falhando ou fiquei estrábico e não percebi, creio que ofereceremos um bom espetáculo. Palavra de caolho.

 
 

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Sobre dúvidas, ansiedade e fracassos

O céu está uma só coisa cinza...
Estaremos iniciando a circulação de Pai & Filho pelos SESI-SP, a partir do dia 01 de agosto de 2013. Por isso, este mês tivemos que abrir um espaço na jornada de ensaios de Velhos... para um reencontro entre Próspero e seu filho. Constamos, mais uma vez, que o Quadro de Antagônicos funciona. As personagens continuam a existir. Agora, faço parênteses (há uma certa aura de expectativa na montagem de Velhos... por ene motivos: eu e Jorge C. contracenando em duas montagens seguidas, isto é, a Companhia de fato está formando repertório com seu elenco; distanciamento das personagens entre o Pai/Ser Humano & Filho/Ser Alado; constatação da competência ou "in" de seu núcleo artístico em distanciar uma obra pronta (sic) de outra em processo, e por aí vai).
Azul. O céu está azul.
Aqui começa a residir a ansiedade...

Minha vida está se resumindo a contar: conto as páginas que faltam para decorar; as horas de ensaios; as viagens que temos que fazer; os dias para o resultado dos projetos; as repetições dos exercícios na academia; os beijos dados; as horas de sono que passo; as idas ao banheiro nas madrugadas; os litros de água sorvidos durante os dias; os orgasmos. Dia desses me peguei contando as batidas do meu coração... achei-as descompassadas. A prioridade sempre foi respirar teatro, não me asfixiar nele. Refletirei sobre isso.

Em tempo: As fotos são de Marcelo F., e ele vai achar que pretendo desistir de algo.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

O dia é hoje

Foto de Marcelo F.
Enquanto não tomarmos para nós a cronologia das horas, o mundo será o que é. Meu hoje é carregado de repetições com sentido, que fazem de mim um ser identitário. As segundas-feiras são abarrotadas de terças, de quartas, de quintas e de sextas. Os finais de semana são os dias do lixo. Paulinho Moska ainda faz um sucesso com a música "O último dia". Meus dias são sempre "o último dia", e não tenho como correr disso. A pulsação, o respirar e transpirar, as relações e os conflitos são característicos de quem vive seu derradeiro momento. Tudo é sempre, sempre e sempre muito, muiiiiiiiiiiiiito urgente. O teatro não me enternece. Talvez, no instante do gozo, eu me sinta um pouco deslocado do calendário das horas e me percebo um pouco na onda das ruas, no oba oba, na felicidade de um instante. Tirando a exceção, é regra: o dia é hoje. 

Ensaios são urgentes. Apresentações, não. Mas, os orgasmos são surpreendentemente necessários ao azeitamento das engrenagens. Um homem feliz é aquele que transa e faz teatro. Minha vida deveria ser regra; o que sobra é exceção.

domingo, 7 de julho de 2013

Argila no trono

 
 
Amigos de plantão, não esperem a estreia de Velhos Caem do Céu como Canivetes antes do final de agosto. Estamos no sexagésimo ensaio e tudo indica que esta montagem demandará uns noventa, próximo do exigido em Deus Danado – espetáculo que mais tempo de montagem demandou usando o Quadro de Antagônicos, com cento e dois ensaios. É a argilosidade do fazer teatral que o torna tão encantador. Pouco nele é concreto. Pai & Filho estreou com sessenta e sete ensaios, Medeia com uns quarenta e cinco (?), Entre Laços com trinta e sete, d’O Acompanhamento não lembro bem. Argila. Em todos os casos foi adotada a mesma prática metodologia – não necessariamente os mesmos procedimentos. Todos seguiram trilhos semelhantes e todos aceleraram, descarrilaram, dobraram, estancaram, desenfrearam e chegaram de acordo com suas necessidades e especificidades. Argila. Cada processo dita uma nova máxima, faz suas próprias exigências, postula novos dilemas, revela  curiosos caprichos, camufla grandes desafios, apresenta surpresas ou surpreende por não apresentar problemas; cada montagem é única e múltipla. Como falei, teatro é argila, e meter a mão na massa é muito bom. A presença diária do Ser Alado e do Ser Humano na sala de ensaios apresenta alguns sinais do espetáculo que vocês verão: o tom, suas temperaturas, a atmosfera, as ambiências de conflito, a paleta de cores, os ritmos, os ritos... Para tudo aparecer se precisa de tempo, e o tempo de um espetáculo não pode ser medido cronologicamente. Como poderia dizer o Ser Alado, o que determina o tempo de uma nova montagem são as nossas sensações.

domingo, 30 de junho de 2013

Ensaio sobre os ensaios


 
A melhor pessoa do mundo é a primeira pessoa do plural: nós. O teatro é a arte do encontro – sei que algo parecido já foi literatizado. É uma arte coletiva, feita de partes, de pares.  Teatro é o conjunto, a união, a tessitura e o todo. Tenho o privilégio de trabalhar com Jorge e Cláudio. De Katia já falei aqui. Atores íntegros, comprometidos, conscientes. Seres que transformam um coletivo em algo que excede o agrupamento de artistas com objetivos comuns. Amigos, por excelência. Essas características peculiares da nossa reunião reverberam na totalidade da obra, porque os ensaios são a espinha dorsal do nosso processo, do que se pretende, da energia e força para buscar o que se quer. É no ensaio que tudo se apresenta, se desenha, se efetiva ou apodrece. Qualquer preconcepção vira argila nas mãos das personagens.  Ideias flutuam para outras concretudes, problemas viram verdadeiras epifanias, tornando as pedras do caminho matéria-prima para a construção do que se quer. Os ensaios de Velhos Caem do Céu como Canivetes não podiam estar melhores: vida pulsante na sala de ensaio da nova sede. Vigor, disposição, foco. Claro que o início da Terceira Jornada não nos possibilita arremessar ao longe um resultado, mas vejo o Ser Humano e o Ser Alado habitando a sala de ensaios, povoando nosso imaginário, construindo o elo com o espectador, dimensionando o conflito entre personagens ímpares. Ainda não sabemos bem onde estão ou como são, mas sabemos que estão lá. Sejam bem-vindos.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Perfil

Foto de Marcelo F.
Quando selecionamos o antagônico-guia para a personagem e a partir de então nos exercitamos nessa opção, o corpo vai se moldando de acordo com as exigências da escolha. Esse corpo modelado chamamos de perfil. Assim, estamos na fase de modelagem do perfil, em que o antagônico-guia é exigido a provar se é forte o suficiente para as situações/movimentos que as outras dramaturgias exigem. Quanto mais o tempo passa, mais constato que o perfil se formaliza no movimento, que mesmo com o corpo em não-movimento, a sensação da energia no espaço permanece. O corpo é inteligente e vai se formalizando, alterando o seu estado. Corpo expressivo, extra-cotidiano, pulsante, vivo, acrescentando significados, modificando formas. Momento de criação. Se o ator está disponível funciona como uma grande brincadeira, um jogo em que as regras mais ampliam do que limitam. Há prazer no que fazemos.

domingo, 23 de junho de 2013

Condição ou profissão?

 
O querido amigo virtual Alberto Júnior me tuitou perguntando (pois é, tenho Twitter e você nem sabia): ser artista é uma condição ou profissão? A resposta imediata que me veio à cabeça foi: uma condição que exige profissão. Uma condição porque ser artista vai muito além do ofício. A visceralidade da arte rompe a barreira do tempo, do ponto, do horário, do protocolo social, da equação entre desempenho e remuneração, da hierarquia, da jornada de trabalho, dessa série de fatores organizacionais que qualquer profissão demanda e que vão de encontro ao caos criativo necessário para a produção artística. No entanto, para ser artista, a contemporaneidade exige um profissionalismo capital que demanda, do romântico modelo marginal de artistas do passado, um enquadramento e rigor de produção, sob pena de ser massacrado pela produção medíocre, porém, abundante do melhor artista da semana.
 
Foto de Katia Lopes, média de Marcelo Flecha
 
 Muito prólogo para pouco tema. Sempre que começamos um novo processo de montagem a lógica do meu tempo desaparece. Minha relação com Velhos caem do céu como canivetes não respeita nem a Katia, pessoa com a qual me relaciono muito antes do espetáculo aparecer. Livro de ponto é estar acordado. No máximo, restam-se as refeições. E não faço isso propositalmente nem por pressão de produção. Não consigo fazer diferente. Se eu gastasse esse tempo para fazer algo útil seria milionário. Protocolo social de teatro é ensaio. É quando vejo gente. Jorge e Cláudio. Jornada de trabalho é metáfora para escravidão. Parece uma reclamação, mas não é. É minha condição. É assim que acontece comigo. Sou tomado por uma sensação de satisfação que me mantem em um estado permanente de vigília criativa, e mesmo assim nem sempre funciona. Fiz muitas piores coisas do que as mínimas melhores. Contudo, é dessa maneira que acontece. Da hora que acordo ao desabamento. Claro que isso merece uma reflexão, mas, felizmente, meu pensamento está comprometido com o espetáculo. Por enquanto, pensar fora da cena é desperdício.

domingo, 16 de junho de 2013

Manifesto antropomórfico

 

Fazer teatro é fazer política. É entender e questionar, ao mesmo tempo, o mundo em que se vive, seus abismos e fronteiras. Sim, porque se não há um abismo que impeça nossa passagem haverá uma fronteira para nos impedir. O teatro não deve pedir passagem, ele deve arrombar as porteiras e destruir os muros da intolerância, do preconceito, da pasteurização, da condescendência com a mediocridade, do cinismo, da desilusão. Veja que o verbo usado é “dever”, e não “poder”. O teatro não pode se dar ao luxo de escolher se agora ou daqui a pouco, ele deve ser sempre o instrumento transgressor que todo conservador abomina. Estou cansado de ver o teatro ser usado como instrumento multiplicador dessas mesmas coisas que deveria combater. Política. Mesmo que você não saiba, se você está fazendo teatro está fazendo política. Está tomando uma posição, mesmo sem saber. Está construindo ou destruindo, mesmo sem ter consciência disso. Se você faz teatro você está dizendo se a miséria é uma provação de deus ou se é escrotidão humana. Se você faz teatro você está dizendo se homo sapiens, homossexual, homonímia ou homofóbico. Se você faz teatro você está marcando um posicionamento perante a sociedade, desqualificando o inqualificável ou desobedecendo a métrica. Se você faz teatro você está, mesmo que não tenha o menor conhecimento disso, discutindo religião, arte, futebol, gênero, economia, opressão ou o sexo dos anjos. Portanto, tenha mais cuidado com a forma como você trata o teatro.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

É só impressão

Foto de André Lucap
De certo que nada existe de novo, de inédito. Tentamos remendar, reorganizar o pensamento e as coisas. Assim é o mundo a partir de nossa insatisfação. 

Quando a história do autor é contada pelos livros, a do pintor o é pelas suas telas - qualquer artista é reconhecido por sua obra.

Conceituar artista e obra o tempo dita. Se se conhece a obra em construção de um artista contemporâneo é porque se gosta e acompanha sua trajetória. O contrário disso é a satisfação ou desapontamento pelo recorte. 

Estamos fazendo história quando percebemos que é o segundo espetáculo em que eu e Jorge C. contracenamos. Queremos chegar a um número que satisfaça aos quatro membros da Pequena. Esse é o jogo. O céu continua a ser o limite. 

O passo de hoje foi a definição do antagônico-guia das personagens. A partir de segunda seguimos com a jornada dramatúrgica dos atores. Contaremos nossa história para aqueles que quererão acompanhá-la.

domingo, 9 de junho de 2013

Velhos e a estética do feio

A montagem de Velhos caem do céu como canivetes vem possibilitando o aprofundamento no que se denominou anteriormente aqui como a estética do feio. O desafio está em não tornar o feio bonito, e sim, mantê-lo feio e interessante. Explico: o Ser Humano, anti-herói do novo espetáculo, é um catador de lixo e pretenso artista plástico, medíocre e frustrado. A qualidade estética do espetáculo deverá ou deveria acompanhar essa premissa sem escorregar para um abrandamento estético que dilua seu estranhamento e favoreça a aceitação visual do olhar padronizado – olhar acostumado à admiração do belo e à censura do feio. O resultado precisa estar no limiar desse paradigma, deslocando o olhar do espectador para um lugar novo, onde o visto reverbere no humano ser, sem o apelo insípido do belo. Contudo, a encenação deve também oferecer uma unidade estética que potencialize as três dramaturgias que costumamos chamar de capitais, oriundas do tripé autor → ator ← encenador. Para tal, a obviedade de um caleidoscópio sujo, gritante e desconexo apresentaria um resultado meramente estético e de pouco valor dramatológico. Limiar. Essa é a palavra. O difícil trânsito pelo limite, pela beira, pela borda, pela margem. Difícil tarefa. Como todas são quando o tratado é o ato teatral. Afinal, teorias e ladainhas à parte, o que você quer ver é um bom espetáculo.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Bufão

O grande dilema entre o que querem que você seja, o que você é; o que você aceita e o que rejeita, renega.

Do que somos feitos? O que queremos? Os prazeres? 

Semana de resguardo em detrimento de mudanças climáticas mundanas. Desfaz-se o jogo e recomeça a vida. A roda da fortuna, diriam. A garganta inflamada lê a notícia de que Michael Douglas  nega que atribuiu câncer a sexo. É preciso assistir ao Faroeste Caboclo para me sentir melhor. Uma outra viagem e sem alucinógenos e o corpo distante dos abraços e beijos. Processos são assim. Em dado momento, imersão; em outros, distração.

domingo, 2 de junho de 2013

Procedimento de montagem – As Jornadas


Estamos perto de finalizar a Segunda Jornada do processo de montagem do espetáculo Velhos Caem do Céu como Canivetes.
 
Na Primeira Jornada, que chamamos de Pré-expressiva, utilizamos o Quadro de Antagônicos para o aprimoramento do ator, visando o alargamento do seu repertório sem nenhum compromisso com a nova encenação. É um período de investigação e experimentação corpórea, que não tem por objetivo o desenvolvimento de parâmetros expressivos, e sim a percepção da totalidade do corpo, seu funcionamento, suas extensões e limites. Momento de treinamento por excelência.
 
 
Na Segunda Jornada, que chamamos de Expressiva, nos valemos do mesmo instrumento, porém, com outro foco, a expressividade. O Quadro de Antagônicos é operado na busca da construção das personagens, através de experimentações físico-rítmico-energéticas. Os atores buscam os perfis das personagens a serem construídas através do experimento e descarte de antagônicos, como Cláudio tratou aqui. Depois de quarenta ensaios o fim desta jornada se aproxima com bons sinais de expressividade para o Ser Alado e o Ser Humano.
 
 
Das duas jornadas anteriores procede a última, denominada  Jornada Dramatúrgica. As personagens passam a experimentar seus perfis e a aumentar a produção de dramaturgia atoral – que inclui a construção da cena através da experimentação no espaço de conflito. Nesta jornada soma-se o texto, que passa a ser inserido concomitantemente aos experimentos na busca de referências para a montagem. Aqui é exigida dos atores a maior potência criativa e creio ser a jornada mais prazerosa de todas, pois é dela que resulta a cena que você vê. Trocando em miúdos, é mais ou menos isso. Bem mais do que menos, se levarmos em conta as horas de trabalho, as gotas de suor e a inesgotável fonte de incertezas que habita qualquer nova encenação.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Somos um grupo

Foto de Marcelo Flecha
Velhos caem do céu como canivetes é meu terceiro espetáculo na Pequena Companhia de Teatro. Antes Pai & Filho e Entrelaços. Todos utilizando o Quadro de Antagônicos como procedimento metodológico na preparação dos atores para a construção da personagem. 

Na bagagem esses espetáculos e o corpo. À frente outro. 

Grupos de pesquisa são surpreendentes, pois exigem esforço e tempo para comprovar hipóteses. E sempre estamos em processo, questionando o nosso fazer, testando as alternativas, pondo-nos à prova. O prazer só reside enquanto houver busca, foco, apreço, desejo, gosto. Estamos assim, nos encontrando diariamente para redescobrirmos nosso fazer. Amigos não caem do céu como canivetes.

domingo, 26 de maio de 2013

Velhos e a nova sede



A montagem de Velhos Caem do Céu como Canivetes está no seu 39° ensaio. Minha ausência do blog nada tem a ver com isso, ao contrário, queria estar postando desde o primeiro dia, porém, a Oi, empresa responsável pela transferência do antigo telefone/internet para a nova sede/residência, precisou de dois meses e dez dias para efetuar uma simples mudança de endereço. Paciência. Na vossa ausência – são vossas vozes que habitam meu imaginário enquanto escrevo cada postagem – gozei mais que sofri. Um novo espetáculo oxigena o velho artista. As dores trazidas pela montagem nunca machucam a alma, apenas chamuscam o corpo. Estar em processo é sentir-se útil, porque o que fazemos transgride a pretensa inutilidade da arte. A montagem caminha a passos largos e serenos, diferentemente de outros processos, quando a dependência de espaços alugados para ensaios e apresentações destoava do tempo demandado pela cena. Agora, com casa própria, tudo funciona melhor mesmo quando não funciona. Uma engrenagem azeitada que contempla a prática na sala de ensaio, a teoria no espaço de vivências, a construção no atelier, os testes no palco, a produção no escritório. Tudo ao mesmo tempo e no mesmo espaço, como se entrássemos na Fita de Moebius, em movimento infinito, até envelhecermos, decrépitos e unidos por um abraço de celebração que revelará um amontoado de ossos fragilizados. Velhos, aplicando o Quadro de A(nta)gônicos, esperando o fim. Ilusão? Delírio? Sonhar não custa nada. Só custa para aquele que ouve ou lê o sonho.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

O processo criativo

Cada processo é diferente do seu anterior, mesmo que a Pequena Companhia de Teatro tenha um único procedimento metodológico para as suas montagens. É que atores são humanos e cheios de manias. Tem dias que estamos mais receptivos e outros nem tanto. Dias bons e ruins que fazem com que percebamos a transitoriedade das acertivas. Muitas variáveis. É que teatro é arte e não ciência. Muitos humores e o corpo reage como quer, como o organismo manda. E tentamos arduamente acreditar que corpo e voz não são dissociados e ao mesmo tempo queremos dissociar a racionalidade da subjetividade. Repetir algo de um dia para o outro é pedir que os atores em processo refaçam o gelo que derreteu. Tudo é muito volátil. A sensação de ausência, de cansaço, de quase desespero é angustiante e ao mesmo tempo enternecedora. Vá entender...

domingo, 12 de maio de 2013

E começa a diversão

Foto de André Lucap
Antagônicos são assim: alguns gostamos e outros nem tanto. Uns funcionam para alguns fluxos de energia e não se solidificam a partir de outras necessidades. A determinação se estabelece nas escolhas do ator. Estamos nesta fase, de fazer opções, jogar com elas e perceber a que mais se afina. Entendo por afinar  a satisfação do ator em estar no jogo com a personagem e que ela se sinta confortável com o perfil escolhido a ponto de correr, saltar, cair, levantar, dialogar. O jogo é este: perceber quais os caminhos a serem seguidos para a composição da personagem. Nessa semana começamos a experimentar 8 antagônicos de um total de 16 (eram 18, mas isso é uma outra história). Estamos abertos ao descarte a partir daí, de forma mais individual, pois o anterior foi em conjunto (eu e Jorge, no mesmo dia, e a mesma quantidade de antagônicos). Agora o ritmar se estabelece um pouco mais individualizado. Eu, por exemplo, já descartaria mais 4, para ficar com os 4 que eu mais me senti atraído para esta montagem. Entretanto, acho meio imaturo excluir quatro em uma única passada mais consistente. Vou me ater a deletar dois deles, ficando com 6 para jogar esta semana. O processo é cansativo, produtivo, divertido, prazeroso. Uma mistura de sensações entre o desejo de não ir e o prazer que querer ficar. Extremos. Sinto-me brindado.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Descarte

E começamos a descartar os antagônicos que não nos apetece para a composição das personagens. No processo anterior era momento de crise, pois o tempo, naquela época, para mim, não era o suficiente para sentenciar a exclusão. Neste processo o procedimento metodológico do Quadro de Antagônicos se mostra mais claro no aspecto da experimentação, o que me fez jogar mais, perceber outras possibilidades, tanto na parte pré-expressiva como agora, onde a expressividade se faz presente. Paralelo aos ensaios, fazer com que o texto seja decorado, página a página, diariamente, tem estado na pauta. Sempre grasnei acerca de decorar textos. Este tempo está mais tranquilo, tudo se encaixando. Tento não pensar, racionalizar muito determinadas questões, principalmente antevendo resultados. Buscar deixar o corpo se encarregar do processo, de forma integral tem se tornado o lema diário dos ensaios.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Apontamentos

Sempre gostei da ideia de anotar as sensações provenientes dos processos criativos por vários motivos. Porém, nunca executei de forma sistematizada como estou fazendo agora em "Velhos...". Algumas impressões já podem ser percebidas, dentre elas o rigor com o tempo e com essa tarefa, que deve se relacionar com o do processo criativo e com as intervenções do encenador; recuperar indicações surgidas em dias anteriores - foi assim que escolhi os antagônicos para trabalhar no processo expressivo de ontem -; consolidação do processo criativo, em que as escolhas são estruturadas em algo que foi feito, percebido, levado em consideração e anotado. Em algum momento essas impressões/anotações servirão de material subsidiário da composição expressiva. 

Semanalmente, antes do sábado, elas são digitadas, analisadas e relacionadas em suas importâncias para monitoramento dos encontros de sábado, mais cerebrais, na sede da Companhia.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Rotina

Acordar às 6h, tomar banho, café. Pegar ônibus às 7h e ficar nele durante 1h30. Ministrar curso livre de xilogravura das 9 às 12h, almoçar pão com ovo e outras "guloseimas" no Supermercado Mateus da Rei de França; retornar ao curso livre que reinicia às 13h. Volto para casa às 16h. Uma hora de relógio no ônibus. Em casa, faço o jantar em uma hora. Ensaio às 19h. Faço a digestão enquanto me alongo. Chego em casa às 23h. Durmo às 0h. Essa é minha rotina, de segunda a sexta-feira, até o dia 10 de maio. Meu corpo grita, reage a tudo isso. Falta-me tempo para muita coisa. Ossos do orifício... Quero minha vida de volta!

domingo, 7 de abril de 2013

Novo processo

Teve início esta semana o novo processo: Velhos...

O processo começou com uma reunião no dia 01/04/2013 e na terça deu-se o trabalho físico, e quando se trata da Pequena, o físico é exigido, sobremodo.

Este é o terceiro espetáculo da qual faço parte e que teve em sua preparação o "Quadro de Antagônicos". Senti uma necessidade de jogar mais com o procedimento metodológico adotado por crer que tudo precisa ser reinventado. O corpo não é mais o mesmo, tem outras informações. A inquietação modula sempre. É nessa perspectiva que a abordagem que dou ao procedimento precisa ser diferente das anteriores. Oxigênio para respirar, somente. Há uma certa segurança nesse experimentar, na medida em que a racionalidade está no comando. Inevitável que, em alguns momentos - e estou falando somente da primeira semana de treinamento - as dúvidas existem, a qualidade do movimento se dilui, a energia modula mais aquém do que além. O processo é outro, e é diferente - sempre.

Quero crer que o resultado será satisfatório para o ator, para o encenador e para o público. 

sábado, 6 de abril de 2013

sábado, 23 de março de 2013

Os dois

Eram dois irmãos que compartilharam a mesma mulher.

Eram pai e filho que viviam em suas respectivas gerações.

Serão dois seres, de diferentes mundos e visões.

Cláudio e Jorge.

Como se estabelece a escolha dos atores e suas personagens, e como essa fórmula de dois pode vir a estar desgastada?

A roda.

Há um mito que diz que atores bons são atores com múltiplas facetas. Não sei sapateado, cantar. Sou humano e falho e acredito no eterno retorno. E outro: Se há algo na personagem que se identifica com o ator, é mais fácil, mais prazeroso em compô-la. 

Personagem não é roupa; nunca lhe cai bem. Se vivemos em uma comunidade, e somos humanos, certamente haverá algo que nos identifica além das pernas e da língua. Não dá para fugir disso.

Mais uma vez um espetáculo com dois atores? A tensão, geradora de conflitos, está no nosso corpo, literalmente. Ela nos faz ficar de pé. Esse ato em si, é carregado de conflitos, de tensões. Enganam-se os teóricos quanto a diferenciação de movimento e ação quando dizem que o primeiro não tem intenção. Há, só não consciente. Assim, as limitações se restringem ao universo do expectador, e não da encenação. 

Atores nunca saem ilesos da vida. Teatro é vida. Fazer teatro é como respirar, não só no aspecto da necessidade como também da continuidade do fazer. E é sempre um exercício compor personagens, quaisquer se sejam elas, contanto que se tenha tempo e espaço para tal, já que algumas encenações assassinam os atores com a ditadura do texto ou da direção. Ator precisa de oxigênio. Ator precisa de amor, carinho e afeto do diretor. Esse jogo é de interesses. O resultado é compartilhado por todos: um espetáculo!

sexta-feira, 15 de março de 2013

O ator santo

Foto: Wolfgang Panek
Tenho um xamã que sentencia: - Teatro é sua religião; sê santo. Não posso fugir. Por décadas busco o contato íntimo com o divino que sempre se mostrou longe demais. O teatro faz-me religioso. Penso nele todos os dias, converso com os meus pares sobre ele, busco a perfeição em seus rituais. Não sou, mas quero buscar a santidade no teatro. Receitas existem, certamente. Porém, o caminhar é pessoal. Professo a minha fé permanentemente nele sem, contudo, dar-lhe os devidos créditos. Ao teatro todo o reino e toda a glória. Não serei xiita com os incrédulos ou com os vendilhões do tempo - não muito, mas não exijam meu silêncio. As escrituras são diversas proporcionalmente à quantidade de fés. Meu templo continua a ser meu corpo íntegro e minha crença em um teatro vivo, verdadeiro, autêntico, cruel e reflexivo permanece inalterada. Amém!

Foto: Wolfgang Panek

domingo, 10 de março de 2013

Cultura ou tortura?


 
As personagens de Velhos caem do céu como canivetes estão em permanente processo dialético, mesmo sem ter a menor consciência disso. Em certo momento eles dizem:

SER ALADO – Por que não tens [os quatro] dentes [superiores da frente]?
SER HUMANO – Meu pai os arrancou na infância.
SER ALADO – Em sinal de sacrifico?
SER HUMANO – Não. Para trocá-los por dentes de ouro.
SER ALADO – Por quê?
SER HUMANO – Uma tradição da época.
SER ALADO – Tradição estranha.
SER HUMANO – Possuir dentes de ouro era sinônimo de ascensão social.
SER ALADO – E o ouro?
SER HUMANO – Nunca chegou, nem a fartura.

Qual é o limite entre tradição e mutilação? Até onde a cultura se justifica por si? Touradas são cruéis, mas não consigo imaginar a humanidade sem sua beleza. Por outro lado, agulhas na pele me causam extremo desconforto. Apesar do fragmento transcrito não ser o tema da encenação, herói e anti-herói azedam por zonas que vão além dos motes motores da pré-dramaturgia. Esse poderá ser um deles, mesmo que não seja. Fica a pergunta: o que faria você arrancar seus dentes?

sexta-feira, 8 de março de 2013

A crítica

A tensão é mola para qualquer repertório de palavras e atitudes. Crítica que é boa mesmo, a gente coloca no currículo para conseguir financiamento. Quem lê jornal e crítica para assistir a um espetáculo teatral está em grandes centros, com teatros sempre lotados e caros, sem informação dos grupos responsáveis e com disposição para folhear jornal e programações/agendas. 

Não somos bons de escuta. Gostamos mais de falar do que de ouvir e compreender o outro. Reflexo do homem da atualidade que é carente e vive na frente de computadores, em redes sociais (sic). Somos lacônicos e nosso ego é grandiloquente. Aos amigos, os benefícios; aos inimigos, os malefícios; ao resto, a indiferença. Daí se reside o "falem mal, mas falem de mim".

Reconhecimento é bom. Torna-nos mais dignos do nosso trabalho. A interlocução se faz necessária. Dar voz ao espectador não é tarefa tão difícil. O insuportável é dar-nos o direito de ouvir o que eles têm a dizer.

Tudo é circunstancial.

domingo, 3 de março de 2013

Retalhos de pensamento pra não gastar juízo

 

Dois domingos sem postar. Você não percebeu, mas foram. Não é bem um bloqueio criativo, é que estou espremendo meu cérebro na dramaturgia de Velhos e não posso cometer excessos. Vivo de lapsos criativos, se desperdiçados, impera o médio.  (Não vou colocar o link em Velhos. É só dar-se o trabalho de descer duas postagens e saber do que se trata). Fevereiro se foi e, com ele, os pedreiros da reforma da nova sede. Benzadeus! Agora é o tempo da mudança: caixas, faxinas, reboque... Nunca estive tão perto da felicidade. Uma família maravilhosa, uma companhia composta de amigos, projetos a perder de vista, saúde mental (ou a pretensão de achar que a tenho), um espaço físico fantástico para o exercício artístico, amigos que me aturam, novo espetáculo em processo e a casa dos sonhos não sonhados – como bem marcou meu amigo Gilberto na sua última imersão dialético-bodejal em São Luís. Uma das discussões permeou esse assunto e consequentemente, os motivos da realidade que vivo. Atribuí-los à sorte – como já falei aqui – resultaram simplistas e descabidos para dois pretensos seres pensantes em exercício. Surpreendeu-me uma lógica que não saberia reproduzir aqui, mas que serviu como um contra-argumento efetivo. O problema é lidar com isso. Estou descobrindo que Marcelo Flecha, quase feliz, é um homem insuportável. Sem a ranhetice, o peculiar humor, o desalento, sou mais intolerável ainda. E fazer os mais próximos padecer esse inferno tem me deixado constrangido. Acho que o remédio está em manifestar meu estado em doses homeopáticas para não espantar os que ainda me suportam. Portanto, "Cuidado: homem feliz".

sexta-feira, 1 de março de 2013

Arcada dentária


Fios de cabelo; quantos temos? Depois de mortos, nem os vermes os querem. Impressões digitais identificam os vivos. A pele é demais perecível. Arcada dentária, os ossos, as alterações sofridas, servem também para identificação. Algumas coisas se perdem e outras são preservadas.

O ator é humano. Alguns processos buscam, a partir dessa identificação a composição de personagens. Quer na mitologia pessoal quer na repetição de movimentos corporais cotidianos característicos de cada um, esses elementos tendem a fortalecer a busca da escritura de uma dramaturgia para o ator. Provém dele - ao menos aparentemente. 

O interesse, parece-me, é buscar alguma coisa orgânica a ponto de se sentir ligado à  criação. Imagino que as repetições de composições, ou elementos surgidos, possam respingar em toda a obra do ator. Como dissociar o que já fora do que está por vir são outros vinténs. A sensação de desamparo, quando me deparo com algum material consistente, a ponto de lidar com ele em processos criativos, angustia. Julgo-me e serei julgado por isso. Esse ligâmen existe. A consciência disso faz com que o ser, produtor de significados, oxigene ainda mais seu corpo já formalizado para uma outra formalização, e mais outra, mais outra, outra. Por isso essa permanente reconceituação de corpo. 

A cada espelho quebrado, um dente é perdido ou achado.