sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A aceitação de estranhos

Não preciso de ninguém, sou autosuficiente, quero ter minha independência. O teatro me demonstrou o contrário. Vaia de bêbado não vale, já dizia o dissonante Tom Zé. Aplausos de amigos também não. Sobram-nos os desconhecidos, os estranhos às vistas. Desses preciso de acolhimento, já que nesses casos sinto-me como um corpo estranho no ninho/útero. 
Oficina em Teresina

Quero saber como estou no palco, e os aplausos não me satisfazem por completo. Nem palavras elogiosas. Elas não funcionam para a necessidade de aceitação que preciso. Ir além do que as próprias asas limitam. Há uma dor em se sentir no vazio, distante de algo que ainda não sei ao certo - reconhecimento pelo trabalho que desenvolvo ou por mera carência.

Primeira apresentação em Teresina


Espero a aproximação daqueles que me olham à distância. Sei que deixamos marcas naqueles que nos observam, nos tocam, são acariciados por nós - qualquer tipo de carinho é possível, é provável. Quero dizer que eu também sou marcado por aqueles que somente espectam. A energia se desloca no espaço, modula a minha em cena. Depois de cada sessão, nunca sou o mesmo que a principiou. O quarto do hotel é um excelente abrigo.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Diário de Timon (2ª parte)

24/08/11. Quarta, 1:44 AM

Segunda apresentação em Timon e a sensação de uma boa oxigenada para Pai & Filho. O exercício de apresentar-se seguidamente possibilita a percepção imediata das referências e um dia é a consequência do dia anterior. Constatação de que 90% dos espectadores nunca tinham visto um espetáculo teatral. Em Riachão o índice foi o mesmo. Sintoma da distância entre nosso desejo e a realidade de um estado sempre à margem. Estado de excluídos. No final da noite, agora em Teresina, o lançamento do meu livro (aquele de que tanto falei aqui) que faz parte da programação do FestLuso. Um exemplar cruzará o oceano e pousará em Luanda, Angola. Abraço nos amigos d’A Outra Companhia de Teatro da Bahia, presentes no Festival, e saída à francesa para uma taça de vinho no quarto do hotel. Jorge, Cláudio e a deliciosa crise de riso de Katia. Não tenho do que reclamar.

24/08/11. Quarta, 23:19 PM

Fim de cena em Timon. Bom espetáculo, mais intenso, mais vivo. Nosso desafio agora está na excelência. Pai & Filho deverá atingir aquele ponto que distingue uns de outros e essa busca é o desafio permanente da pequena. Casa cheia, debate animado e a clareza de estar contribuindo, de algum modo, para a transformação. Chamem-me romântico, que seja! Cresci acreditando nisso e levo décadas de derrotas nas costa. Vitórias chegarão. Agora mesmo, acabamos de desmontar em Timon e vamos montar em Teresina enquanto bebemos para relaxar. Nosso descanso é carregar pedras. Que venham!

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Diário de Timon

21/08/11. Domingo, 23:00 PM.

Cheguei do Rio esta madrugada, com dois prêmios para Pai & Filho na bagagem (Texto e Cenografia). No mesmo domingo já estava dirigindo rumo a Timon e Teresina (Myriam Muniz e FestLuso). Comigo, os de sempre: Jorge, Cláudio e Katia, que voltaram do Rio antes de mim. A ideia era montar ainda hoje em Timon, mas problemas com a produção postergaram a jornada. Amanhã montagem, oficina e espetáculo. Viagem tranquila, tempo para pôr o papo em dia e Teresina se apresenta. Hospedagem, jantar e cama. Amanhã o dia promete.

22/08/11. Segunda, 23:00 PM.

Montagem recorde: duas horas. Primeira montagem diagonal em sala alternativa para otimizar o espaço. Problemas de quórum adiaram o início da oficina... coisas de circular. Tempinho para um descanso e hora da primeira apresentação de Pai & Filho pelo projeto Myriam Muniz de Circulação. Timon inaugural. Fora alguns momentos de frieza, a apresentação aconteceu mais descomprometida. Às vezes me levo exageradamente a sério e, o burocrata, acaba sendo eu. O exercício de nos apresentar seis vezes em cinco dias será importante. Hospedados em Teresina, a possibilidade de rever Pellé e amigos de outros FestLusos. Cansado, vou-me.

sábado, 20 de agosto de 2011

Pai & Filho em Timon

A circulação do espetáculo Pai & Filho começa em Timon, nos dias 22, 23 e 24 de agosto (segunda, terça e quarta-feira), às 20h, na Microlins (Av. Pres. Médici, 835). A oficina ocorrerá nos mesmos dias, das 14 às 18h, na Faculdade Maranhense São José dos Cocais (Rua 1, 290).

O apoio local é da Microlins, Faculdade Maranhense São José dos Cocais, Prof. André Loiola, e Libomir Coutinho.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Assim é teatro de grupo

Grupos de teatro são quase todos iguais, mesmo em suas diferenças. São feitos por humanos - dizem -, constam de diretores, atores, produtores. Muitas ou poucas pessoas. Algumas sedes e muitas atividades dentro e fora do palco. Algumas incontingências, muitos planejamentos, projetos, dinheiro ou não-dinheiro para financiamento dos sonhos que se tornarão espetáculos premiados e aplaudidos ou não. Todos são muito semelhantes. Todos querem seu próprio espaço de criação e mostragem. 

Algumas experiências demonstraram que a administração desses espaços carece de gente especializada e tempo para geri-lo. Quando não, a produção e pesquisa do grupo residente cai assustadoramente. Tornam-se burocratas do seu próprio espaço para a ocupação dos outros. Aluguel, água, telefone, burocracia, responsabilidades outras.

Não acredito em sorte ou azar, nem em bem ou mal. Acredito na capacidade de reflexão, análise e posição que fazem com que as escolhas sejam coerentes com o propósito para o qual elas se destinam. Por outro lado, a perdição é temporariamente uma excelente... escolha. Percorre nos instantes, nos minutos e horas que me separam do possível treinamento marcado e da prova de um material gráfico que não ficará pronto como planejado. 

Relaxar e escrever, pensar na notícia requentada que será servida como fresca, lembrar do gosto do vinho por sorver e esperar a nova rotina que se avizinha: viajar sem gaiolas e com o peito aberto. A alegria de comer a omelete reside em quebrar os ovos e desistir da salsicha. Scooby Doo, cadê você, meu filho?!

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Entrevista

Marcelo: O que você está achando do Festival de Teatro do Rio?
Flecha: Minhas impressões não são conclusivas, mas é um festival simpático.
Marcelo: E a apresentação de Pai & Filho?
Flecha: Foi caoticamente harmoniosa. A receptividade do público me surpreendeu, riram muito. Só o Rio de Janeiro para querer transformar Pai & Filho em uma comédia. Depois da apresentação, comentários calorosos, elogios, e a certeza de estar fazendo teatro de qualidade.
Marcelo: Por que a roda gira?
Flecha: Porque não é quadrada.
Marcelo: Durante o debate você enrolava um novelo de linha, por quê?
Flecha: Para adiantar a desmontagem. O debate foi mediado por Amir Haddad. Sua condução monologal me permitia enrolar enquanto ouvia. Depois, com a interferência de Cláudio e as perguntas dos espectadores, pude dialogar. O público foi muito generoso, mas continuo sentindo falta de discutir o processo mais a fundo.
Marcelo: E sobre os outros espetáculos?
Flecha: Estou vendo todos, nenhum que me arrebatasse, ainda. Acho que estou cada vez mais ranzinza e mal humorado. A Casa de Cultura Laura Alvim, sim, uma delícia. E Ipanema é muito agradável.
Marcelo: Qual a falta que não falta?
Flecha: De vergonha.
Marcelo: Qual a sua opinião sobre o fato do festival ser competitivo?
Flecha: Todos são. Na contemporaneidade estamos sempre competindo e consumindo, infelizmente. Nas mostras não competitivas, a disputa é apenas mais sutil.
Marcelo: Por quê?
Flecha: Por quê?
Marcelo: Você é um entrevistado insuportável, nunca pensou em se matar?
Flecha: Pensei, logo, desisti.
Marcelo: ... que pena.

domingo, 14 de agosto de 2011

Mando notícias do lado de cá

Sãos e salvos, nunca. Sempre haverá uma ferida a ser cicatrizada. Correr riscos é nosso ofício. Pessoas em um palco, às vistas, requerem bem mais além de talento e fé em seus próprios tacos.
Nunca é somente mais um festival. Sempre buscamos a superação de tudo: performance, extrato de conta bancária, limite de cartão de crédito, relacionamentos. Tudo minuciosamente anotado em uma agenda. A busca não é segura, nunca. Deslizes serão sempre presentes. O risco de fugir ao controle é iminente, quase sempre. E sabemos disso e daquilo, mas insistimos em ver a felicidade na perda do controle: estamos vivos.
É que além do horizonte há sempre uma chance de um recomeço, nunca do ponto em que se parou, nunca acumulando coisas, nunca sofrendo, mas vivendo intensamente as escolhas feitas, quer na vida, quer nos palcos. As relações entre ambas serão risíveis na maior parte do tempo. A verdade é feliz. A mentira, idem. Esse duplo nos acompanha tanto em uma quanto em outra.


E quem disse que a vida não se eterniza?

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

E Cazuza tinha razão

Lidar com um teatro de energias requer um corpo pronto. A capacidade de armazenamento de informações está diretamente relacionada à disposição e prontidão do corpo que anteriormente vivenciou, experienciou a construção de uma personagem em sala de ensaio. Se o corpo deixa de estar pronto, a personagem se distancia, não por falta de memória corporal, mas por limitações físicas de um corpo que se ausentou de suas atividades diárias. O nível de exigência em um treinamento para a construção de um espetáculo deve ter seus critérios contaminados na manutenção das ações cênicas. É aquela velha história de que o espetáculo não se esgota – em nível de ensaios – na estreia. A frequência dos encontros entre os atores e a direção deve ser permanente, como é permanente o respirar, o comer, o vestir. Quando isso se altera numa perspectiva de descontinuidade, as consequências não são nada interessantes para a recuperação de uma aproximação daquilo que se estabeleceu como razoável para a permanência das personagens na ação vívida da cena. Sabemos que o teatro é efêmero, mas o mínimo de definição e continuidade permaneceriam... naquilo que se propôs, o ator, consciente disso, lida com as incontinências do cargo: viver é morrer diariamente um pouco. E teatro ainda é drama, e ator-dramático-capricorniano-ansioso-confesso sofre com as palavras ditas e as não-ditas; com a falência do corpo e com a sonolência dos passos.

Acho que é lenda urbana, mas dizem os seres alados que sobrevoam as catedrais góticas da Finlândia, que existe um patrício de Mara e Dona que de tão neurótico contava macarrões para serem cozidos, ao dente, e distribuídos em pequenas porções em coités piauienses, para os desabrigados dos teatros do Maranhão. Minha neura maior está na fragilidade permanente do corpo adormecido pela incapacidade do uso. 

domingo, 7 de agosto de 2011

Tripla jornada



Enquanto a pequena prepara sua apresentação no 18° Festival de Teatro do Rio, dia 13, 21:00h, no Teatro Laura Alvim, em Ipanema, confirma sua participação no FestLuso 2011 – Festival de Teatro Lusófono, promovido pelo querido Grupo Harém. Será o primeiro festival internacional de Pai & Filho.

O semestre começa com esses dois eventos e com o início do projeto de circulação, em Timon e Teresina, confirmando a impecável carreira do espetáculo até aqui.

Mantendo a prática deste blog, Cláudio Marconcine e Marcelo Flecha se encarregarão de escrever o diário desta jornada tripla.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

A memória dos outros

Memória se relaciona com conhecimento. Ao colocarmos em cena alguma ação física, ela repercute nos outros, através da memória, algo que não é indiferente àquele que vê. É que memórias se encontram, independente do tempo ou da geografia. Os encontros apaixonados são feitos de memórias acumuladas resgatadas sem pudores. Uma nação é feita de memórias. A minha, a sua, a do outro. A memória do outro passa a ser a sua quando é compartilhada. O corpo tem memória. Ele fala em gestos aquilo que sentiu. O ator, encenador e seu público têm uma memória coletiva. Em algum momento elas se encontram. Alguns espetáculos lidam melhor com isso; outros não. Boas ou ruins, as memórias nos fazem perceber que não estamos sós. As conexões sempre nos fazem próximos àquilo que se apresenta no palco. 

O que fazemos com nossas memórias? 

domingo, 31 de julho de 2011

Leyendo a los que leen

Há leituras e leituras. Aqui em casa há uma hierarquia. De acordo com a qualidade que atribuo ao livro, o ritual de leitura se estabelece. Entre as categorias, em decrescente nível de prestígio, estão: leitura no escritório, com livro apoiado na bancada; na cadeira da sala, com o livro em mãos; na cama, com livro em mãos e, às vezes, sem óculos; em qualquer lugar, sem ordenamento; e a derradeira e desprestigiada leitura no banheiro. Fora do meu habitat, essa hierarquia desaparece e leio qualquer coisa em qualquer lugar.

Alguns livros são promovidos durante o processo de leitura. Começam no banheiro e terminam na escrivaninha. Outros já são estrelas reconhecidas: possuo um exemplar da prosa de Borges que ganhei dia 27 de fevereiro de 1987, a bancada nem existia. A edição limitada do “Grande Sertão: Veredas” exigiu bancada pela forma física, antes mesmo do conteúdo chegar. Não revelarei títulos de banheiro: também escrevo e não suportaria a represália de ver minha obra entre papel higiênico e sabonetes.


Livros teóricos de teatro ganham bancada, diretamente. Confesso que alguns não mereceriam passar do banheiro, mas o ofício me exige certos cuidados prévios. Outros passam de leitura a estudo, imediatamente, e me debruço sobre eles. Nesses casos, somam-se aos óculos, BIC preta e bloco de anotações. Jamais tracei uma única linha de caneta ou lápis em um livro. Fruto de uma educação conservadora, em Buenos Aires, quando aprendíamos também a forma de como segurá-los – o que me parece um exagero.


Quando o livro é teórico, o desconhecimento provoca uma das melhores sensações para quem está diante dele. Essa sensação de estar prestes a desvendar seu conteúdo, entendê-lo, analisá-lo, assimilá-lo ou desprezá-lo, confunde-se entre ansiedade e desespero. Adoro a sensação.


Já o prazer da ficção é outro. Seja lírico, épico ou dramático, o livro impressiona pelo seu mistério. A sensação aproxima-se à perda da virgindade. Passo a passo a obra se desvenda, lentamente. Primeiro o contato físico, o toque, o cheiro, a capa, o papel. Depois a forma, o estilo, os nuances. Em crescente, o conteúdo, seus dizeres, seu teor, seu ser, em si. Prazeres.

Agora percebo que o filho, de “Pai & Filho”, lê mais do que escreve. Será sintomático?

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Bola cantada

Estar em São Paulo é sempre brincar com a ausência das coisas. Teatro e cinema não saem da cabeça, da memória. Lembranças que precisam sempre estar presentes como algo a ser manifesto. O ar, a comida, o cinema, o teatro. Quando digo que não gosto de assistir a espetáculos teatrais, deem descontos generosos.


Minha programação, foi: terça-feira, dia 19: A pantera, de Camila Appel; quarta-feira, dia 20: Absinto, de Cássio Scapin; quinta-feira, dia 21: Fragmentos do desejo, da Cia dos à deux; sábado, dia 23: Louise Bourgeois: Faço, Desfaço, Refaço, com Denise Stoklos e domingo, dia 24: Nomes do pai, da cia. da memória.

Três merecem destaque: Denise me emocionou profundamente por eu perceber como o teatro físico funciona. É uma mulher que quero ser quando crescer. Nomes do pai... eu fui ver porque tomam como base, também, Kafka e seu Carta ao Pai. Uma montagem de época, algumas cenas muito próximas de nós, enquanto  ação física. Nenhuma palavra é pronunciada. Mas, o treinamento dos atores é outro. Não os percebi vivos. Fragmentos do desejo é puro cinema. Temática ruim. Excetuando alguns momentos, os atores foram sugados pela precisão técnica do espetáculo.

Hoje estou assim, pulsando. Ainda sinto-me capaz de ir além. Ferve em mim o desejo de expor o que me consome – quase sempre penso e digo isso porque se tornou sentença de vida.

Ah, o palhaço... vai continuar adormecido. Não dá para fugir do óbvio.  

domingo, 24 de julho de 2011

Pirataria de ideias

Ouço frequentemente as frases “nada se cria tudo se copia”, “tudo já foi feito” ou “não reinventar a roda” quando relaciono conceitos sobre a criação artística. Esses provérbios urbanos, desculpas de armazém, justificam o que de mais comum venho observando na baixa arte provinciana: a cópia (infelizmente não tenho acesso ao museu do Louvre nem vejo a Royal Shakespeare Company, mas, francamente, não creio que seja muito diferente da nossa realidade).

Marcelo França e Marcos Flecha por Lucap

O conceito de criação artística está relacionado cada vez mais a um acervo de memória, onde o artista busca, não a criação, mas, a lembrança: “vamos usar aquela imagem daquele filme”, “que tal aquela roupa daquele musical?”, “lembra daquela escultura que a gente viu?”, e por aí desfilam os caminhos criativos desses intermináveis plagiadores. Palavras como homenagem, inspiração, relação, domínio público, etc. servem para camuflar o simples fato de trocar o inventivo pelo fácil caminho da cópia – não vou abordar o copia e cola cibernético porque o texto não teria fim.

Sim, tudo já foi inventado, o que não tira o mérito de quem inventar de novo. O processo de criação, de buscar algo inédito, vai além da pesquisa, das referências, dos cânones, deve obedecer a busca incessante da ruptura, da procura do original – mesmo sabendo o que essa palavra representa na contemporaneidade. Se, obedecido esse processo, o objeto criado também foi utilizado por um tailandês enquanto ensaiava em Taormina, paciência. Contudo o caminho foi pessoal, a descoberta, pessoal, a busca, pessoal, apenas – coincidentemente – dois seres humanos, em distintos pontos do mundo, seguiram o mesmo caminho e chegaram à mesma conclusão (me lembrem de contar, um dia, sobre o final do Santo Inquérito e do Espírito da Coysa).

O sabor da criação é incomparável. Estudos, análises, acervos, viagens, são fundamentais para alicerçar o caminho do ser criativo e não para servir como banco de busca ou catalogação de clichês. Você é daqueles que cria ou que copia? Vamos inventar?

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Alguma coisa acontece, sempre

Em São Paulo a temperatura oscila dentro e fora de mim. As informações não são novas - boa parte delas -, mas as sensações são. Rostos, corpos, um desejo de espetáculo-solo se avizinha. Profusão de energias, coração acelerado, falta de atividade física, cerveja diária. Tudo isso é motivação para o dizer, somente. E pode-se estar distante, buscar mais recursos fora, mas esse desejo de pertencer a alguém e a algum grupo permanece forte. Nossa casa, nossa companhia é a melhor coisa do mundo. 
Os caminhos permanecem inalterados, as experiências se multiplicam, o fazer se solidifica. Nosso teatro é a nossa constância. Para que melhor?

domingo, 17 de julho de 2011

Dirigir

Outro dia comecei a fazer uma lista nominal de atores, atrizes, bailarinos, bailarinas e muitos não atores que dirigi nesta vida – coisas de quem é artista e não tem o que fazer. Como dirigi grandes espetáculos (falo de tamanho) tive oportunidade de trabalhar com muita gente. Hoje trabalho com dois atores em cena. A pequena companhia de teatro tem o luxo de aglutinar, em seu pequeno quadro, dois atores, um diretor e uma produtora – considero um dos quadros mais perfeitos para uma companhia formada por quatro membros.

Velhos tempos: nem suor nem rugas

O ofício – diretor ou encenador – sofreu transformações no decorrer dos anos, e eu me transformei com ele. Passei da observação à ação. Da violência à paciência. Da consciência à demência. Da ansiedade à calma. Da conveniência à intolerância. Da prática à teoria. Do gosto ao sabor. Do improviso à rotina. De amador a profissional. De admirador a amador. Do verbo ao gesto. Do excesso à essência. Do muito ao pouco. Da madrugada à noite. Da ambição à despretensão. Do sonho à realidade. Do Ger“ar-te” à pequena. Do discurso ao diálogo. Da luz à sombra. Do cozido ao cru. Da juventude à velhice. Da obsessão à obsessão... mas evito contar macarrão.

Tempos velhos: efeito para os defeitos


Quando concluir a lista de atores, vou publicá-la, para podermos brincar de quem está e quem não está.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Lango-Lango Retardatário

Algumas coisas marcam forte o ritmo que conduz o condenado à forca. Mostrar-se sempre foi uma exercício de força, confiança, desapego. Não sou assim em boa parte do que sou fora dos palcos. Há muito andava observando o chão com medo de encontrar olhos me espreitando. Hoje é um pouco diferente disso. 

Mas, o palhaço ficou dormindo, deixou de sair, não se propôs a levar torta na cara, não olhou e compartilhou o suficiente. O medo se instaurou no corpo de um ator que comumente busca a transgressão como suporte para o viver. Assim, um pouco morreu. 

Dizem as línguas dos outros que cada coisa tem seu tempo. Acredito nisso quando quero. Quando não, descarto. A monotonia do ofício é quebrada quando do ofício parte-se para o orifício. 
A figura

Limpar a casa, renovar o guarda-roupas, refazer as tarefas de casa. Muita coisa muda/ou. O nome permanece o mesmo, quase uma sentença.

E do palco à praça, do conforto ao desapego. O corpo deixa uma parte de si surfar no vento. Quebra-se a maldição, busca-se a redenção. E o palhaço, o que é? É ladrão de homem sem chulé!

domingo, 10 de julho de 2011

A personagem

(Ainda sobre a dramaturgia do ator.)

Uma personagem é muito mais que uma estrutura física codificada para a ação. É uma composição de energias que decorre da fisicidade impressa pelo ator no processo de construção. Essa composição vai solidificando o perfil, a aura, a imagem da personagem. Enxerga-se a personagem na vida que ela emana e não no texto que verbaliza ou na forma que a caracteriza. Nossa busca está em dar vida a seres críveis mesmo apresentados em formatos incríveis. Suas estruturas físicas devem conter a funcionalidade necessária para sua existência, sem cair na virtuose como simples muleta. A estranheza que buscamos tenta deslocar o olhar do espectador para além do simples encontro, ampliando as deformidades do ser. Esse ser é sua essência. Essa caminhada caracteriza a pequena companhia e ajuda a conceituar sua principal dramaturgia, a do ator.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

A palavra no ator

O diálogo que se estabelece entre o Pai e o Filho é meio monocórdico. Dá a sensação de que os atores falam desse modo individualmente também: um diálogo que se repete, sempre. Ou são dois monólogos? E assim sendo, eles se ouvem, mas possivelmente não se escutam. Essa repetição tem equivalência na vida: dia após dia, tudo é mais do mesmo, e ao mesmo tempo se renova. É que buscamos falar algo além da palavra oralizada. 
Com isso, o corpo do ator em cena se estabelecerá de uma outra maneira, ressignificando a palavra dita. 

domingo, 3 de julho de 2011

Lentidão


Tenho o raciocínio lento. Eficiente, mas lento. Seja artístico ou científico, lento. Produzir cada uma destas postagens implica em uma semana de labuta. Palavra que entra, palavra que sai, palavra que volta, palavra que cai. Fonética, fonologia, sintaxe, semântica, sêmola, fermento, água e sal. Além da consulta final a Cláudio Aurélio Marconcine. No teatro é igual – ou pior. Novo processo de montagem e o raciocínio é espremido, da alvorada à madrugada, para chegar a uma gota de luz. Cada detalhezinho besta, do espetáculo que vocês veem, consumiu dias de pensamento. Cada ensaio demandou horas de preparação. Invejo o raciocínio rápido! Tenho um amigo cuja velocidade de raciocínio é assustadora – sua humildade me impede de revelar o nome. Com essa dádiva eu estaria assoviando e chupando cana. A lentidão do meu raciocínio me permite, no máximo, estas parcimoniosas linhas. Se eu fosse cronista, e tivesse que produzir uma lauda por semana, estaria frito. Como combino meia dúzia de palavras, estou apenas ferventando.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Jivago

Eu tenho um prazer enorme em fazer teatro.  As verdades nunca são absolutas. Fundamentalmente, estabelecemos uma verdade para nós. Gosto de trabalhar na Pequena Companhia porque a dramaturgia do ator está bastante presente, conjugada às demais dramaturgias. Uma de minhas verdades é que teatro é arte de ator. 

Mas, reaprendo sempre e percebo que o diretor existe, que o cenógrafo existe, que o figurinista existe, que o produtor existe. A vida se reinventa, a arte também.  A nossa arte vai além da própria palavra oralizada. Está no corpo, no gestus. Preciso teorizar um pouco mais acerca desse fazer. É que o teatro nunca se/me esgota. Não quero me economizar. Apenas Dr. Jivago.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Você sabia que...


A instalação “Labirinto”, de Marcelo Flecha, foi uma das seis obras premiadas no 2° Salão de Artes Plásticas de São Luís? A obra também serve de suporte estético e conceitual para espetáculos, performances e intervenções urbanas, e está exposta para visitação de maio a julho na Oficina Escola, na Praia Grande. O resultado foi divulgado ontem à noite no arraial da praça Maria Aragão.

domingo, 26 de junho de 2011

Do ensaio à cena – um rito de passagem

Cada ofício tem sua própria liturgia. Um dos elementos que compõe a liturgia do teatro é o ensaio. Cada vez mais tenho me deparado com convites para ver montagens que não têm respeitado esse elemento, e produções chegam à estreia com quinze, vinte, trinta ensaios – como se a genialidade permitisse experiências dessa natureza. O fazer teatral exige tempo, maturação, rigor, disciplina e um pouco de frescura para não perder la ternura jamás. No entanto, tenhamos respeito pelo espectador. Se não está pronto, ensaiemos até ficar. Uma das desculpas usadas para esta atitude responde pela alcunha de Processo. Digo: o processo é fundamental, mas não é o fim, é o meio para se chegar a um fim – o espetáculo. É interessante chamar o espectador para acompanhar um processo (nossa próxima montagem contemplará a experiência), mas o avisem de que disso se trata. Não o exponham àquela rotineira expressão final de quem não sabe onde foi que se meteu. Ensaio é ensaio, processo é processo, espetáculo é espetáculo. Vão me chamar de careta, eu me denominaria espectador.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Pai & Filho no 18º Festival de Teatro do Rio

A Pequena Companhia de Teatro participará da 18ª edição do Festival de Teatro do Rio (RJ), com o espetáculo Pai & Filho. Neste ano o homenageado é Pedro Paulo Rangel.


A apresentação ocorrerá no dia 13 de agosto, às 20h, no Teatro Laura Alvim. 

Expectativas

Sempre fui avesso em criar expectativas por crer que projetá-las sem, contudo, alcançá-las ou superá-las, geraria uma certa decepção/frustração que poderia embotar meu processo - qualquer que fosse ele.

Composição de personagem é sempre muito difícil nessa perspectiva. Apresentações em festivais, também. Um misto de arrogância, presunção ou insegurança e modéstia. 

Ao mesmo tempo em que sabemos definir, identificar e perceber falhas, equívocos, acertos, coerências, sabemos também escamotear, afrouxar, dissimular. A aceitação do outro ainda é fundamental para velar nossas expectativas. Com o tempo elas aumentam em proporção comparadas à capacidade, que vai inversamente diminuindo.

Socraticamente, "só sei que nada sei(o)"

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Você sabia que...

... a pequena companhia de teatro foi fundada em 11 de julho de 2006? Apesar dos componentes trabalharem juntos desde 98, foi só nesse ano que o grupo ganhou legalidade cenepejosística e alvarasesca. Inspirado na Pequeña Orquesta Reincidentes, o nome surgiu numa reunião à beira da praia, num belo fim de tarde, entre JC, KL e MF, pensando numa alcunha que representasse sua singela despretensão.

domingo, 19 de junho de 2011

100

Estamos comemorando a incrível marca de cem seguidores! Apesar disso continuamos sem leitores, sem vergonha, sem assunto, sem problema, sem teto, sem noção, sem tempo, sem desculpa.

“Moléstia” à parte, nossa proposta tem se mantido fiel ao nosso propósito: escrever periodicamente sobre teatro e seu entorno – o mundo. Eu sei que a esta altura você, leitor fantasma, deve estar cansado das minhas lamurias, e deve perguntar – indignado – se depois dos fiéis dezoito meses de leitura eu ainda ignoro a sua existência. Respondo: claro que não! A vitimização corriqueiramente praticada por mim visa apenas seduzi-lo pelo meio mais infalível e deplorável: a pena. Eu ofereço o produto da minha pena (representada contemporaneamente pelo teclado) em troca da sua.

Se os cem seguidores que a seta indica(va) existissem eu ficaria sem graça. Como sei que somos só você e eu, fico mais à vontade para reclamar a sua presença. Sem motivo e sem razão, mas, sem frescura.

sábado, 18 de junho de 2011

Você sabia que...

... o ator Jorge Choairy é um dos mais irrequietos pesquisadores musicais de São Luís? Dividindo seu tempo entre a cena e a pista, sua sensibilidade para a descoberta de novas sonoridades o levou a assinar a trilha de diversos espetáculos, desfiles, exposições, performances, instalações e lançamentos, além da conhecida trajetória como um dos DJs mais badalados da ilha.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

E o palhaço, o que é?

De duas sensações que me marcaram muito, uma delas foi a minha experiência em participar de um retiro (ou quase isso) de clown.

Desde então, tento formular algo para que essa experiência transforme ainda mais o meu fazer teatral. Inevitavelmente alguma coisa ficou, mas preciso ter um espetáculo-solo com ele, o Lango-Lango, pois que esse círculo/fase ainda não se concluiu.

Estímulos não faltam. Dia desses um sinal de fumaça do país de Mossoró indicava um alvo. Outro, recebi um e-mail avisando-me de um curso com o Fernando Vieira, na Cia. Luís Louis (SP). Inscrevi-me.

O país de Mossoró que me aguarde. A reinvenção é estimulante.

E a cena muda, clownesca, transformar-se-á em espetáculo dramático.

Lango-Lango em sua primeira saída, na praia de Itapuã - BA

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Você sabia que...

... Katia Lopes é a Diretora Técnica do Teatro Arthur Azevedo? Com mais de uma década dedicada a essa casa de espetáculos, a produtora da pequena companhia de teatro ocupou os cargos de Diretora do Núcleo de Programação Visual, Chefe do Cerimonial, Assistente da Direção Técnica e há mais de um ano lidera a equipe técnica do principal teatro Maranhense.

domingo, 12 de junho de 2011

Medeia – um comentário

Amor? Ódio? Vingança? Difícil equilibrar-se na teia deixada por Eurípides entre as palavras que compõem sua Medeia, sem perceber-se à beira do abismal universo humano. Focada no feminino – corte na tradição de Ésquilo e Sófocles –, é a mulher que representa a trágica condição humana a deparar-se com os descaminhos da vida. Desprezando a ideia do destino a guiar os passos descompassados (como defendiam seus pares), o autor descarrega no fator comportamental toda a responsabilidade do infortúnio. A personagem – uma Medeia mais humana que sobre-humana mais mítica que mística – transita por todas as mazelas do labirinto psíquico sem conseguir se desvencilhar das amarras que a vingança lhe impõe pelo amor negado. A amante se sobrepõe à mãe, e o filicídio é fato. Diria o popular: é a história da mãe que matou os filhos. Nada pode ser maior. Nada pode ser pior. É nisso que a genialidade euripidiana se concentra: são nossos atos a desatar os flagelos da existência como se o antídoto nos fosse negado no primeiro suspiro para nos abandonar errantes nesta constante contagem regressiva que chamamos de vida. Medeia erra querendo acertar. “Acerta”, em si, o erro, por considerar necessário o sofrimento mais agudo para aquele que, arbitrariamente, subjugou seu estado feminino, transformando seu amor em ódio. Esta mulher, ensimesmada, se fecha aos apelos e sentencia o mau esposo à pior das penas, que só poderia brotar (como defendiam os antigos) da alma feminina. Machismos à parte, Eurípides marca a humanidade com aquilo que há de mais humano: a mulher. E nos permite, ao decifrar este conturbado universo, desvendar as amarguras e desvarios da alma humana, com suas costumeiras e belíssimas imperfeições.

Imagens da montagem de Medeia pela Cia. A Máscara de Teatro

Você sabia que...

... o diretor Marcelo Flecha faz parte do seleto grupo de diretores que dirigiram o Auto da Liberdade, em Mossoró? O espetáculo, a partir do livro homônimo do poeta Crispiniano Neto, conta os principais fatos históricos da cidade e também foi encenado por Amir Haddad, Fernando Bicudo, Gabriel Villela e João Marcelino. Na montagem de Flecha, em 2005 e 2006, um palco de 1.400m² abrigou cerca duas mil pessoas em cena.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Idas e vindas

Sempre fui racional em demasia. Tudo tem que ter um motivo, um significado. Deus é o longe e destino não existe, nem sorte ou azar. Quer explicar, explica. Não consegue, paciência... Virar uma esquina ao invés de outra sempre é motivo para reflexão: E se eu não virar aqui, o que me espera na outra? Tudo tem que ser pensado, analisado, refletido. Impulsividade só em momentos de exotismo e em situações relacionadas ao amor.
Foto retirada do blog do Torcedor

Fiz minha inscrição para o ENEM-2011. Depois, fiquei pensando as motivações disso... e de fazer xilogravura também. Tudo tem repercussão no desejo de me reconhecer no teatro que faço e que acredito. Tudo gira em torno disso. Sei que um dia vou desistir de tudo e fazer medicina, ou virar monge, eremita, nada relacionado com o teatro que hoje digo acreditar e reconhecer. Tenho facilidade em apagar a lousa e reinventar o tempo, as gentes e os espaços, tanto os de dentro quanto os de fora.

A filosofia pode dar sustentáculo ao teatro que não se faz ciência, ou a psicologia para minimizar o sofrimento de um não-natimorto.

A ausência dos palcos ainda me causa uma certa estranheza. Vou virar DJ.

Dispositivo móvel

Agora o blog da Pequena Companhia de Teatro pode ser acessado por dispositivo móvel, em um formato específico para esse tipo de equipamento. Leitura mais fácil, mais prática. O portal do R7 (sic) deveria seguir o mesmo caminho... O endereço é o mesmo. 

domingo, 5 de junho de 2011

O que tenho?

(Para entender clique aqui.)Casa própria (risos). Carro do ano (risos). Amigos que me amam (muitos risos). Lavadora de roupa (risos). Uma profissão que não usa relógio de ponto, mas pontua o juízo como um ponteiro (riso reflexivo). Uma companheira inenarrável (sem rir). Uma companhia pequena (risos). Uma pequena companhia que mia (riso sem graça). Um trabalho que me permite não trabalhar (riso mentiroso). Uma estudante de luxo (risos para não chorar). Luxo de poder estudar (risos). Um joelho atrofiado e três membros – Jorge, Cláudio e Katia (risos de pegadinha). Um ofício que não admite burocracia (sem rir). Sobrinhos começando a viver (riso meigo). Viagens pelo Norte, Nordeste e Sudeste (risos quilométricos). Sexo de graça (riso sem vergonha). Poucas desgraças, piadas sem graça e muito, muito mau humor.