domingo, 22 de abril de 2018

A poética da vadiagem


Estamos em Campo Grande. Fazendo o quê? Que bicho é esse que nos move, nos faz sair de casa, enfrentar o abismo, atravessar o país de norte a sul, de leste a oeste, claudicar nas vias tortuosas da geografia humana sem agarrar nada palpável, nada concreto, somente a memória sensória dos que nos abraçaram, dos que nos assistiram, dos que nos provocaram, dos que nos ensinaram? Que bicho é esse, alcunhado de teatro, que mesmo não nos deixando nada nos enriquece de tudo? Que bicho é esse, bicho?

Retumbo na cama, pós-espetáculo, e continuo remoendo e tentando aprender algo sobre o espetacular; esse momento que não é nada, mas que se arraigou em nós como se conseguisse ser tudo. Bichos de teatro são espécimes em extinção. Arvoram um momento único, mesmo na repetição infinda de sequenciais apresentações, e florescem a cada encontro como novos, contaminando a existência de outros seres, sem perceber que o contaminante teatro os carcome, sorrateiramente, a cada noite bem dormida. É nessa hora que se processa o milagre: dorme o ingênuo ator, o tolo encenador, e o sono é a terra insensata e infértil onde germina o teatro. É lá que se planta o desespero, o espanto, o assombro, e amanhecemos com uma vontade imensa de continuar avançando para lugar nenhum; pois nosso lugar é o todo, a totalidade, o nosso país.

“Batatinha quando nasce espalha a rama pelo chão”. Somos batatinhas. Já nos espalhamos por sessenta e nove cidades, e Dourados será a septuagésima; mas, ainda não entendemos por que fazemos isso. Servimos a um exército de desvairados que busca o diálogo presencial em um mundo de “reacionamentos” virtuais. Nova cidade e nova esperança de encontrar. Encontrar respostas. Encontrar abraços. Encontrar perguntas. Encontrar soldados. Encontrar pessoas, de carne e osso. O teatro é de carne e osso. E nossos ossos, atrofiados pela eterna vadiagem territorial que o teatro nos impõe, vão tentando se rearmar, récita a récita, para receber como paga final a dança de esqueletos chamada abraço.

Em poética dialética, um ser humano diz para um ser alado, – Ensina-me a voar; e segue argumentando que é para poder respirar. É para isso que vagamos Brasil afora, para poder respirar. É no voo do gigante pássaro de ferro que deixamos a terra que nos marcou e voamos para o sem-fim, respirar o ar do desconhecido, do novo, do desafio. Para continuar tentando descoser essa trama absurda de “não ter poder de escolher nossos governantes”, de “ditadores que pensam igual”, “de parecer uma segregação”; para gritar contra a desigualdade, o extremismo, a multifobia, o racismo; para não ficar “mudo e quieto como querem que permaneçamos”; para tentar descompassar essa folia polifônica de descalabros que o mundo se tornou – se você não entendeu as aspas é porque não estava em nenhuma das setenta e três tempestades de seres alados que aconteceram em todo o país desde 2013.

Deixaremos Campo Grande para trás, mas Campo Grande não nos deixa. Ele estará conosco em cada um dos 40 participantes da oficina, dos 336 espectadores, dos 70 alunos, dos 10 professores, dos queridos amigos do Grupo Casa que reflexionaram permanentemente conosco durante estes sete dias. O Programa Petrobras Distribuidora de Cultura apresenta Velhos caem do céu como canivetes, e nós tentamos representar nossos anseios, nossos medos, nossas faltas, nossas lutas. Malucos que somos, fazemos isso no tête-à-tête, na cara do espectador, para que ele possa esfregar na cara o tamanho da nossa inutilidade. Você teria coragem?

domingo, 15 de abril de 2018

Manual básico para errar o alvo


Aqui é diferente. Pensar na postagem de hoje sem ser redundante com tudo o que escrevi na postagem A política da preguiça será meu grande desafio, pois tudo o que vivemos em Primavera do Leste, dois anos atrás, dilata-se, em potência e qualidade na atualidade, e nos espanta.

Então, para não chover no molhado, assentarei meu raciocínio em um único ponto de apoio: a oficina de dramaturgia do ator que ministrei; sustentando a argumentação na significativa diferença de comparecimento, rendimento e compreensão, quando observada a adequação da clientela.

Nos plurais projetos, eventos ou programas onde sou requisitado para ministrar oficinas – e a propriedade da minha reflexão tenta se balizar nas experiências vividas em 27 cidades de 14 estados –, sempre nos deparamos, promotores e eu, com as agruras referentes à dificuldade em formar a turma em questão; e o principal desafio é adequar a clientela.

As consequências de não conseguir a clientela específica para uma oficina são sempre as mesmas: evasão, ininteligibilidade do conteúdo, nivelamento para baixo etc. No caso da nossa oficina sobre o Quadro de Antagônicos, o público-alvo são atores, alunos de teatro de curso técnico ou superior, artistas de teatro, encenadores e pesquisadores com interesse no desenvolvimento de dramaturgia a partir do ator. Quando essa observância consegue se efetivar, tudo flui com potência; e é aqui que entra a nossa experiência em Primavera do Leste, onde das vinte e cinco atrizes e atores que iniciaram a oficina, vinte e quatro concluíram. Aqui, a atenção para a formação da turma conseguiu dirimir praticamente todos as agruras do que falei acima: evasão praticamente inexistente, interlocução efetiva e aprofundamento substancial do conteúdo preconizado.  

Então, como conseguir esse resultado, sem ser excludente, garantindo a ocupação da totalidade das vagas oferecidas, e sem comprometer a oficina, tendo em vista que a não adequação da clientela exige uma adaptação inconveniente do conteúdo? Vivo esse conflito quando me deparo com um convite que me transforme em oficineiro, e vou tentando achar algumas pistas para solucionar essa problemática, através das minhas experiências recentes.

A primeira prática tem sido a de não limitar o número de inscritos ao número de vagas oferecidas. Temos estendido as inscrições a um número 30% maior que a oferta, pois o tamanho da diferença numérica entre inscrição e comparecimento no primeiro dia de oficina, em alguns casos, chega a ser um enigma indecifrável – o que faz uma pessoa se inscrever em uma oficina, ocupar a vaga de uma outra, e não comparecer?

Outra prática é a pessoalidade. Independentemente da extensão e alcance da divulgação do projeto que contempla a oficina, procuro encontrar nas cidades que visito, aquelas pessoas que imagino terem interesse na atividade, e tento convencê-las, particularmente, através de mensagem, e-mail, apelo, ultimato, chantagem – prática que você, leitora e leitor deste blog bem conhece –, do quão significativo pode ser para mim a sua presença para que a interlocução proposta pela atividade se estabeleça.

Também, a não limitação de vagas tem gerado o excedente necessário para que a própria oficina se encarregue de adequar a clientela, sem comprometer o preenchimento do número de vagas oferecidas. Ao ter mais inscritos, oportuniza-se que o interessado possa ter contato com o conteúdo e suas práticas, e decidir com maior propriedade se a atividade lhe é oportuna, fazendo com que sua possível desistência no primeiro dia (outra situação frequente) não seja uma evasão e sim um ajuste do público-alvo, pois esse desistente normalmente está contemplado no número excedente de inscrições.

São pequenos deslocamentos de práticas que venho observando na tentativa de tornar a oficina eficiente para o participante, para mim, e para quem contrata, lógico. Claro que Primavera do Leste não serve de parâmetro, pois a realidade que se vive aqui é inusitada – tão surpreendente que vou ofertar novamente o link que você desprezou acima, para que leia a postagem sobre –, mas esta nova experiência de conduzir atividades formativas pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura tem possibilitado novas percepções que fazem com que nos movimentemos no sentido de dar maior ressonância a toda e qualquer atividade da Pequena Companhia de Teatro que seja financiada com recursos públicos, mesmo que através de renúncia fiscal. Compromisso político de que não abrimos mão, mesmo quando o poder público abre mão do teatro de grupo.

domingo, 8 de abril de 2018

O teatro como mediador


O teatro não precisa de mediação. Ele é o mediador do humano com o mundo. Ele faz a mediação entre o espectador e o incompreensível universo que o entorna. É dele a responsabilidade de traduzir o ininteligível, de apresentar o espanto, de aflorar o entendimento. Se passarmos a construir cênicas que exijam a mediação de um programa, de um curador, de um crítico, de um debate, o que sobra para um reles mortal como eu, um humano que busca a mediação do teatro para tentar entender um mundo incompreensível? Como sobreviver sem a mediação do teatro para processar um mundo de radicalismos, fobias, racismos e arbitrariedades? O teatro precisa preservar seu poder de mediação, conduzir o acordo para a necessidade da diversidade.  O teatro precisa manter o atilamento que lhe é peculiar na árdua tarefa de desvendar o humano ser; esse lugar de conflitos, exageros, extremismos, abusos, intolerância e medo. Colocar o teatro em um lugar de expectativa, em um lugar de passividade, em um lugar de espera pela mediação para a sua fruição, é aniquilar sua principal característica, a presencialidade, o tête-à-tête com o espectador; a tradução eficaz do que o sujeito vê e o que o visto esconde. O teatro não muda o mundo; muda a leitura de mundo do espectador, e isso não pode acontecer se a relação entre o teatro e o espectador exige uma mediação.

Digo isto porque estamos em Alta Floresta, no Mato Grosso, lugar de humanos que vão ao teatro na busca de entender a humanidade. Durante os debates ao fim das três apresentações de Velhos caem do céu como canivetes – e nos mais de duzentos debates que fizemos nos últimos anos –, pude perceber isso com larga clareza. Os comentários, as reflexões, os apontamentos, tudo o que ouvimos reforça o poder de mediação que o teatro tem, a valia de ser o instrumento que favorece a compreensão das faltas, das falhas, das navalhas que cortam um país desgovernado. Se atravessarmos, obrigatoriamente, um intruso na compreensão do espectador, ele se sujeitará à opressão do conhecimento como instrumento de poder, subtraindo sua liberdade de escolhas, percepções, leituras, bricolagens.

Percebam que meu argumento vai contra a “obrigatoriedade” do mediador; põe o acento nas obras que exigem uma mediação. Então, por que e para que fazer um teatro que exija, necessariamente, ser mediado? Por que extrair do teatro seu discurso direto, que por si só, já é metafórico, poético, complexo? O que ganhamos complicando radicalmente o diálogo com o espectador? E pergunto isso desde um lugar de criação, em um grupo que tem por peculiaridade provocar a reflexão do público através de montagens complexas. Contudo, me preocuparia saber que nossos espetáculos exigem a explicação, a tradução, a mediação de outro instrumento que não a própria fruição da apresentação. Penso que esses instrumentos devem ser disponibilizados, favorecem a interlocução, mas a obra não pode ser hermética ao ponto desses mecanismos serem indispensáveis para o acesso, como já acontece em diversas experiências nas artes visuais. O que se ganha com isso? Sei o que perdemos. Quando vou ver uma peça que obriga uma mediação, seja ela qual for, me dá preguiça. Me sinto desprestigiado como espectador. Eu não preciso que ninguém me explique a obra. Eu quero errar à vontade, quero descobrir, quero brincar de entender; mas a obra precisa me dar esses caminhos, a obra precisa operar os códigos de linguagem que me permitam o acesso às camadas mais profundas, a obra precisa me dar as pistas para o meu trôpego caminho, não o mediador. Depois, o resultado disso se opera na minha cabeça das formas mais diversas, não necessariamente como o artista imagina, e muito menos como o mediador sugere. Digo, o quão complexa precisa ser uma peça de teatro para que o espectador não tenha condições de acessá-la sem uma mediação? Por quê? Para quê? Para quem?

Velhos caem do céu como canivetes tangencia esse tema, e circular pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura não deixa de ser uma oportunidade de fazer reverberar essas perguntas, e provocar as respostas. Estamos só no início da nossa jornada, e hoje partiremos para Primavera do Leste/MT, que receberá nossa oficina, outro intercâmbio, mais três apresentações e seus respectivos debates. Momentos do fórum permanente de reflexão que propomos para os nossos consortes de jornada e para você que acompanha a experiência, e as elucubrações provenientes desta. Qual será a próxima?

domingo, 1 de abril de 2018

Uma distribuidora de encontros e reencontros


Amanhã, mais precisamente às 6h da manhã, a Pequena Companhia de Teatro inicia mais um mergulho pela imensidão do território brasileiro, numa caminhada de interlocução permanente – principal motor de sobrevivência criativa para um grupo sediado num estado como o Maranhão, que tem o superpoder de tornar invisível o teatro de grupo. A jornada faz parte do Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, que patrocina a circulação de 57 grupos de teatro pelo país, durante os anos de 2018 e 2019.

Mantendo o nosso ideário de ocupação, a circulação que propusemos não se limita à estada na cidade durante os dias de apresentação e o perpasse das atividades complementares nos outros horários disponíveis. Passaremos uma semana em cada uma das cidades; sempre na perspectiva de estreitar o enlace com a comunidade, de entender a urbe e sua lógica teatral, de tentar estabelecer uma lógica de diálogo que justifique a nossa caída em Alta Floresta/MT, Primavera do Leste/MT, Dourados/MS e Campo Grande/MS.

Serão 12 apresentações de Velhos caem do céu como canivetes (3 por cidade), 12 debates após as apresentações, 4 oficinas sobre o Quadro de Antagônicos, 4 ações de formação de plateia em colégios das cidades, e 4 fóruns permanentes de reflexão, com os grupos Teatro Experimental, em Alta Floresta; Teatro Faces, em Primavera do Leste; Grupo Casa, em Campo Grande; e Cia. Theastai, em Dourados.

É na seleção das cidades por parte do Programa Petrobras Distribuidora de Cultura que concentro a reflexão de hoje: o conceito de aprofundamento, continuidade, estreitamento e entrelaço que adivinho no critério de seleção do edital. Das quatro cidades que visitaremos, duas fizeram parte da nossa circulação pelo mesmo programa, em 2016, com o espetáculo Pai & Filho e a nossa oficina de dramaturgia: Primavera do Leste e Campo Grande. Ou seja, as duas cidades, em um curto espaço de tempo, terão contato com todo o repertório recente, e toda a conceituação metodológica de um grupo de teatro do Maranhão, fato praticamente impossível de acontecer sem um olhar atento à qualidade de atravessamento que essa opção oferece para amenizar a fugacidade inevitável que toda circulação sutilmente esconde, e que tanto nos aflige.

No caso, não. Essas cidades ancorarão na vida da Pequena Companhia de Teatro. Os grupos de teatro que tiveram a oportunidade de passar diversas vezes pela mesma cidade sabem do que estou falando. É diferente. A relação é diferente. O olhar é diferente. O espectador vê o grupo de maneira diferente, tem a possibilidade de observar a trajetória, de estabelecer relações com o repertório, de dialogar com a cena com maior integridade; o teatrista tem contato com os métodos, tecnologias e conceito, pode cotejar obras e procedimentos, discutir caminhos; um sem-fim de sabores e digestões que um encontro não pode proporcionar, e que só se efetiva com a delícia do abraço de um REENCONTRO. Adivinho essa linha curatorial, e quero acreditar que acerto, pois a nossa alegria com toda a circulação é inenarrável, mas a satisfação de retornar se narra facilmente com o conceito, vida e sentimentos de um verbo: voltar.

A partir de amanhã, e pelos próximos 29 dias, alargaremos os números afetivos que arrolam a nossa existência. Ao término dessa jornada, serão 76 apresentações de Velhos caem do céu como canivetes, em 23 cidades de 14 estados; 31 turmas da oficina sobre o Quadro de Antagônicos, em 23 cidades de 11 estados; e, se os produtores locais botarem quente, conheceremos também o espectador de número 5.000 de Velhos caem do céu como canivetes – para uma peça apresentada preferencialmente com plateias reduzidas, é um número a ser comemorado e prepararemos algum tipo de surpresa para a felizarda ou felizardo. Aviso: repeti três vezes o nome do espetáculo porque, se você clicar no vermelhinho de cada um, terá contato com três críticas diferentes escritas sobre ele.

Claro que as outras reflexões que a iminência da viagem provocou, e as outras que a nossa circulação pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura ainda vai provocar, você acompanhará aqui. Todo domingo, após o término de cada uma das ocupações, você terá uma descrição e as respectivas elucubrações provocadas pela experiência – narrativa que você vem acompanhando desde o dia 28 de julho de 2009, primeira postagem deste blog.

domingo, 25 de março de 2018

O maldito vídeo do espetáculo!


Desde o Festival de Teatro Sul-Maranhense, em Balsas, nos idos 1989, até o Boca de Cena, este ano, em Campo Grande, participo de festivais e mostras de teatro pelo país das mais diversas formas; seja como curador, participante, selecionador, debatedor, organizador, concorrente, promotor, selecionado, jurado, oficineiro, mediador ou programador, dependendo da década e do formato do evento.

As experiências me trouxeram diferentes aprendizados que não caberiam em uma postagem. Portanto, hoje me concentro em uma condição que vem perseguindo meu juízo e sendo um dos meus maiores motores de reflexão no que se refere aos eventos que promovem encontros de grupos teatrais: o quanto o teatro ficou dependente de uma tecnologia que deveria servir apenas como instrumento de registro, o vídeo.

Me assusta a transferência de responsabilidade que acontece entre o ato teatral e o registro videográfico, instrumento normativamente impossibilitado pelos festivais de operar códigos da linguagem cinematográfica – única alternativa para que um registro em vídeo consiga aproximar o espectador do espetáculo teatral e sua ambiência –, mas obrigado a apresentar o máximo de identidade possível com a peça em questão.

Claro que a dependência da qual trato aqui diz respeito aos mecanismos de seleção e curadoria postas no país atualmente, quando o destino do espetáculo depende da apreciação, em vídeo, dos inscritos, nas mostras por parte do selecionador contratado para a tarefa – metodologia aplicada para a seleção da programação na grande maioria dos festivais e mostras do país. Essa trágica condição reduz toda uma linguagem a nada. Todo e qualquer esforço teatral fica sujeito a uma filmagem, e às coincidências entre linguagens que possam favorecer e aproximar uma peça de uma tela.

Na minha última experiência como selecionador do material em vídeo enviado para o Boca de Cena, fiquei assombrado com a dependência e comprometimento do trabalho artístico quando a atenção para o registro em vídeo não apresenta a mesma atenção dedicada à própria montagem. Um sem fim de imagens borradas, saturadas, escuras, áudios ininteligíveis, personagens fora do quadro, mídias vazias, danificadas; um caleidoscópio de tudo o que não se deve fazer se queremos que o espetáculo tenha alguma chance. Claro que a argumentação óbvia caminhará no sentido de aperfeiçoar a qualidade do registro, e a mesma réplica se encarregará de assegurar que o olhar do profissional contratado para a função tenha o treinamento necessário para fazer as desconsiderações pertinentes a cada caso. Porém, o que quero observar não trata da incompetência do grupo em fazer o registro, nem da genialidade do olhar do curador que consegue transformar registro em vídeo em teatro vivo. Trata de que essa não deveria ser uma expertise do grupo de teatro: a obrigação do artista teatral é operar os códigos da sua linguagem – o que não é pouco – para conseguir um resultado artístico contundente o suficiente para que se queira ver nos diversos polos de mostragem chamados festivais. Somar a essa exigência a representação do espetáculo em vídeo, sem deixar que se utilizem os códigos da linguagem do cinema, me parece uma demanda descabida. Mesmo que o grupo contrate o melhor cineasta do país, sem operar linguagem, esse profissional não será capaz de aproximar o espectador da experiência teatral.

Porém, se é o que está posto, como resolver o imbróglio? Agora, educada leitora e paciente leitor, me permitam falar especificamente para a cena teatral sul-mato-grossense – última experiência de seleção que participei – e tentar contribuir de alguma maneira com umas observações. Penso que é através da representação. Estudar de que maneira a imagem captada representa o espetáculo visto. Mesmo que o edital exija um plano sequência fixo e geral, estudar as adequações necessárias para aproximar o observador da cena. Detalhes simples, mas que podem fazer a diferença; como o de jamais reservar um único momento para o registro; fechar a roda no tamanho do enquadramento, se o espetáculo for de rua; nunca deixar uma fala ou cena fora do enquadramento, se esta for estruturante da narrativa.  Porém, se não for possível, pelo menos concentrem energias na qualidade técnica da imagem e do som. Dediquem-se ao registro como se fosse parte do processo. Pensem nele com excelência. Desde o meio de microfonar até o teste da mídia em diversas máquinas; desde a resolução da imagem do link disponibilizado, até a conferência da senha, caso seja necessária. Atentem a todo e qualquer detalhe que possa piorar a já comprometida relação entre o responsável pelo destino do seu espetáculo e a imagem capturada por vocês para que ele tente se sentir no teatro – essa doce ilusão que atende pelo nome de vídeo completo do espetáculo. E se não conseguirem, pois as condições de produção do seu grupo são tão amargas quanto as condições do teatro de grupo no Maranhão, talvez sirva de consolo saber que a Pequena Companhia de Teatro tem os mesmos problemas e comete os mesmos erros desde a sua gênese. Falar é fácil.

Agora, se é o que está posto, por que está posto, e por que deixamos que alguém assim o pusesse? Perceba que voltei a falar com você, leitora e leitor, que não necessariamente mora no Mato Grosso do Sul. Isso é que são elas, e, como nunca tenho respostas, busco nas postagens o diálogo que me permita entender a condição, estruturar um pensamento, e aglutinar iniciativas que possam mudar esse quadro, antes que o quadro mude o teatro de grupo do país. Como chegamos a isso? Como desmontar uma prática que achata o resultado artístico de um espetáculo teatral? Como contestar essa exigência sem ficar à margem dos festivais? Como disponibilizar o acesso qualificado a uma produção teatral produzida nos confins do Brasil?

Claro que se você vive em outro planeta, mais especificamente em São Paulo, não deve fazer ideia do que eu esteja falando. Pois aí o curador consegue ver o espetáculo teatral ao vivo, sem pagar logística nem cachê pela apresentação, e o grupo ainda agradece a oportunidade. Adoro uma fofoca.

domingo, 18 de março de 2018

Idiossincrasias de habitar o Maranhão


Semana passada estive em Caxias/MA, a convite do Grupo Fama, para acompanhar a montagem de “A Garota & o Anjo”, processo que vem sendo urdido há mais de um ano, e que agora ganha um corpo mais dramático – motivo pelo qual suspeito que o chamado tenha se estendido a mim, pois o grupo desenvolve um trabalho mais relacionado com a comédia, o popular e a rua. Lá também ministrei a oficina sobre o Quadro de Antagônicos para o SESC, parceria que teve como objetivo custear as despesas da minha ida.


Não terei maior ingerência na montagem. A cena já está construída, o conceito estabelecido, a estética definida, a dramaturgia escrita; fui convidado para acompanhar o processo final; observar, apontar, sugerir, e tentar contribuir de alguma maneira para o amadurecimento da cena. O procedimento que utilizamos foi o de eu conduzir os ensaios – principal instrumento de aperfeiçoamento teatral que acredito. Trabalhamos até a exaustão durantes os três dias do encontro. Levando em consideração que a oficina ocorreu no sábado e domingo pela manhã, ensaiamos nos turnos restantes, desde a minha chegada, na sexta à noite, até a minha partida, domingo, tarde da noite.

A experiência me trouxe sensações que pensava estarem congeladas neste vetusto coração teatreiro. Alguns de vocês sabem que, tanto Cláudio quanto eu, fomos criados artisticamente no interior do Maranhão, mais precisamente nas cidades de Imperatriz e Balsas, trinta anos atrás. O impacto de encontrar um grupo maranhense em uma trajetória de luta tão similar à que percorremos, me fez lamentar o estado em que vivemos e o país que padecemos.

Como é possível que em trinta anos nada tenha mudado? Como é possível que as condições de trabalho de um grupo de teatro no interior do Maranhão, depois de três décadas, sejam apenas as condições que o grupo estruturou independentemente, a partir de uma resistência inaudita que precisaria ser estudada? As idiossincrasias de habitar o Maranhão são tão severas que adormece a nossa percepção, e passamos anos sendo pisados sem reagir.

Já a experiência em si trouxe o tempero que adoça a amarga realidade e faz tudo acontecer. Ver esses meninos trabalhando me deixou eufórico. Não me leiam pretensioso. Trato-os assim por ser contemporâneo de teatro do pai do ator mais velho do grupo, que tem mais de 30 anos. Descobrir essa filiação me fez perceber o quão próximo estou da morte. Cada movimento, cada palavra, cada gesto carregava a ancestralidade de luta de todos nós, paridos no interior do estado. A ousadia na escolha do tema, a guinada na proposta artística do grupo, a busca de sair de uma posição de conforto, a disposição afetiva, energética, física, emocional; tudo convergia para reavivar a memória de um tempo duro, importante para a nossa trajetória, e que nos trouxe – Cláudio e eu – até onde chegamos hoje: o lugar nenhum chamado Pequena Companhia de Teatro.

Me vi no desejo de interlocução. Na necessidade que também sentia de dialogar além das fronteiras de Balsas – em um tempo onde não existia internet –, e no descaso dos gestores de cultura em promover esse intercâmbio. Circulávamos entre Imperatriz e Balsas com recursos próprios. Trabalhávamos dia e noite para poder ensaiar de madrugada. Oferecíamos aos amigos que nos visitavam o que podíamos. Construíamos a nossa cena com o desperdício de uma sociedade consumista e indiferente ao fazer teatral. Nada mudou. Nada mudou? Nada. Tudo igual. Eles resistem através das mesmas práticas que nos possibilitaram resistir, mesmo em um estado que pela primeira vez convive com uma experiência comunista. Até nisso o teatro de grupo do Maranhão tem azar: com as atuais políticas públicas do governo vemos avanços em diversas áreas sociais, mas quem pode se interessar por algo tão inútil quanto um grupo de pessoas usando o teatro para questionar as injustiças do país? Caberia lembrar ao nosso governador que o teatro de grupo é a experiência comunista, por excelência.
Mas a colheita da visita não foi de dor e sim de frescor. Me entusiasmou ver que o teatro ainda é possível. Me revigorou saber que um grupo de teatro, em Caxias, está fazendo a diferença para a sua comunidade. Me provocou pensar que neste país ainda se faz teatro contra tudo e contra todos. São quatro lindos e queridos teatristas. Cada um com a sua peculiar potência cênica, seu particular humor, sua inesperada personalidade, suas diferentes leituras de mundo e suas obscenas idades: Adriele tem 19 anos; Rodrigo, 20; André, 24 e Igor, 34. Indivíduos plurais, reunidos no mais improvável lugar de fama: um grupo de teatro (Não podia perder a piada referente ao nome do grupo, pois rimos muito falando do assunto). Agora, eles tentam provocar o espectador com os desdobramentos da relação entre um anjo e uma mulher, e me dão o prazer e a alegria de poder acompanhar a empreitada da montagem.

Porém, tem sempre um gesto, uma incompreensão, uma palavra, um mal-entendido, uma situação que nos mostra que estamos vivendo e, como vida, nada pode ser perfeito. Ainda bem. Detalhe para uma possível postagem futura. Não convide o ermitão para sair da ermida. Você não vai saber lidar com ele.

domingo, 4 de março de 2018

Dez mil espectadores!


Próximo a completar 8 anos em cartaz, o espetáculo Pai & Filho se encontra em curta temporada aqui na sede da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, 295, Centro), ontem, hoje e amanhã (sábado, domingo e segunda), às 19h, com uma série de peculiaridades que servirão como fio condutor das micro-reflexões fragmentadas que me proponho na postagem de hoje.

A primeira peculiaridade atravessa a política de preços da Pequena Companhia de Teatro. Depois de quase uma década em cartaz, e 25 apresentações em São Luís, ontem foi a primeira vez que cobramos ingresso para assistir ao espetáculo. Como o nosso posicionamento político assegura a gratuidade de qualquer atividade da Pequena quando for subsidiada com recursos públicos, fica manifesta a aridez de políticas públicas culturais pela qual passa o teatro de grupo do país, e percebemos claramente o quanto essa gratuidade contribuiu para aproximar um público com menor elasticidade orçamentária e, por consequência, que não tem o teatro como hábito. É fácil dizer que tem que cobrar, mas qualquer apreciador de teatro, que cresceu na labuta diária pela sobrevivência, sabe o que é ser privado daquela experiência artística única porque não tem o vintém que separa o quero do posso. Desta feita, o vintém corresponde ao valor de R$ 20,00.

Também é a plateia, peculiarmente, a estrela desta temporada. Na apresentação de ontem conhecemos o espectador de número 10.000! Nilson Carlos Costa, é o nome dele. Levando em conta que o espetáculo Pai & Filho foi apresentado majoritariamente com plateias reduzidas, esse é um número a se comemorar. Para atingir essa quantia, o espetáculo precisou se apresentar 148 vezes, em 62 cidades de 22 estados do Brasil. Um fato desses não podia passar incólume, e o sortudo ganhou um certificado que dá direito vitalício à gratuidade de acesso a qualquer atividade da Pequena Companhia de Teatro, além de um espumante que nos custou o borderô dos três dias de apresentações. A anedota me serve para ilustrar o pensamento primordial do nosso grupo. Não fosse o entendimento da necessidade de nacionalização da Pequena Companhia de Teatro, seria impossível chegar a essa plateia, pois a demanda local por um teatro focado em uma pesquisa de linguagem com menor diálogo como o mercado não possibilitaria atingir esse número de espectadores. Sempre trabalhamos com esse propósito, e durante toda a nossa existência como grupo, procuramos estabelecer o maior diálogo possível com o país, independentemente de projetos custeados, como no caso recente da nossa ida a Mossoró e Natal com o espetáculo Velhos caem do céu como canivetes. É o diálogo com os grupos de teatro do Brasil que assegura a nossa sobrevivência.

Seguindo com a relação de peculiaridades desta emblemática temporada, é a primeira vez que uma apresentação de Pai & Filho, em São Luís, não tem nenhuma relação com algum tipo de projeto que a companhia esteja desenvolvendo, a não ser o de manutenção independente. O espetáculo – que foi o primeiro do Maranhão a participar do SESC Palco Giratório – sempre esteve referendado pelos principais editais, prêmios, projetos e programas do país; e assim, ocupamos o Centro Cultural BNB, em Sousa/PB, participamos do Viagem Teatral, do SESI, circulamos pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, e ganhamos dois Prêmios FUNARTE de Teatro Myriam Muniz – estes, responsáveis pelo maior número de apresentação do espetáculo em São Luís. Essa realidade diz muito do questionamento levantado no segundo parágrafo desta postagem: em tempos de escassez, cortes de verbas, privatização, contingenciamento, mercado, estado mínimo, e toda a sorte de palavras do dicionário neoliberal, a constatação de uma aguda desidratação do teatro de grupo é a prova do eficiente mecanismo de desmonte cultural iniciado recentemente. Com política, sem política, você ainda pode nos assistir hoje e amanhã.

Pai & Filho também concentra 6 Prêmios SATED/MA de Artes Cênicas, nas categorias de Melhor Ator, Diretor, Espetáculo, Produção, Cenário e Figurino. Esse prêmio, tão criticado pela classe, me sugere uma sentença que deve transitar pelo imaginário teatral da cidade: ter prêmio SATED ou não ter, eis a questão. Penso que o prêmio nunca atingiu a potência que poderia ter, como instrumento de celebração anual, como momento de encontro, como reconhecimento dos esforços de produção de uma classe, contudo, o desaparecimento deste supera todas as carências que a sua existência apresentava? Digo, com a extensão do prêmio, ganhamos ou perdemos? Às vezes, quando a crítica não se faz reflexivamente, pode apresentar resultados que não são os mais saudáveis, e o poder desta pode ser devastador. Não estou certo se as críticas que fiz ao prêmio contribuíram para o amadurecimento do movimento teatral maranhense, mas tenho certeza que colaboraram para a extinção do prêmio. Foi o melhor fim?

E para encerrar o desfile de peculiaridades da curta temporada de Pai & Filho, que abre nosso calendário de atividades para 2018, não poderia deixar de falar do espetáculo em si. Venha ver. Vale a pena ver atores como Cláudio Marconcine e Jorge Choairy. Depois de oito anos em cartaz, vale a pena ver o quanto essas personagens se apropriaram da cena, o quão integro está o vigor e o frescor da ação; vale a pena ver o quanto um espetáculo vive, amadurece e se transforma com o tempo, mesmo que não se mude uma vírgula.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Quer ser membro da Pequena Companhia?


Em 2018 a Pequena Companhia de Teatro passará por transformações tão agudas que temo não suportar a agulhada. Uma delas diz respeito ao elenco do novo espetáculo, considerando que Jorge resolveu não atuar na próxima montagem, e se ocupar com as outras atividades que a encenação demandará; voltando a atuar na montagem seguinte, prevista para 2020.

Não se engane, essa decisão esconde uma provocação tão pertinaz quanto a tradição revolucionária do nosso consorte. Desde sempre Jorge foi o mais incisivo quanto a necessidade da Pequena Companhia de Teatro extrapolar as fronteiras dos quatro membros, quanto a importância de eu dirigir e eles atuarem com outras pessoas, quanto a oxigenação que essa hipótese provocaria, e toda uma dita de argumentos que até então conseguíamos esvair, levando-o a se encontrar em cena de novo, fazendo teatro por amizade, como ele costuma dizer – pois os mais íntimos saberão que ele detesta essa conversinha chata de ator, e todas as respectivas e cansadas palavrinhas do glossário, como técnica, pesquisa, processo, linguagem, potência, etc.

Eu sempre entendi a provocação, mas, como lidar com isso? Essa opção apresenta inicialmente um problema existencial: nos obriga a procurar atrizes e atores para a nova encenação, fato que não acontecia comigo desde os idos 2001, quando tive que me debruçar sobre a definição do elenco de Marat/Sade – montagem com o querido e parceiro Fernando Bicudo – que me possibilitou dirigir quatro artistas fenomenais que não estão mais entre nós: Reinaldo Faray, Aldo Leite, Antônio Gaspar e Guilherme Teles.

De lá para cá, os elencos se formaram organicamente, tanto na Pequena quanto nas montagens que dirigi para outros grupos – como a Cia. A Máscara de Teatro e o extinto Galpão de Teatro –, e ter que retornar a esse delicado exercício tem me custado alguns anos, pois conhecemos a decisão de Jorge desde 2013. Bem no fundo da alma que não tenho, acreditava que essa decisão se reverteria, e passei praticamente dois anos pensando nisso até entender que a decisão era definitiva e necessária – argumento que esclarece ao nosso espectador o porquê da demora do novo espetáculo, pois Velhos caem do céu como canivetes já carrega quatro anos e quatro meses de trajetória.

E agora? É no que estamos mergulhados. Conversando, encontrando, refletindo, indagando, vamos conhecendo pessoas e provocando atrizes e atores que possam mergulhar nesse ensaio sobre a memória que a nova montagem propõe, ao adaptar o conto A outra morte, de Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo.

Essa decisão também provocou outra reflexão no grupo, que diz respeito a inclusão, ou não, de novos membros efetivos na Pequena Companhia de Teatro. Há algum tempo vimos percebendo que a Pequena cresceu demais. As conquistas e projeção que conseguimos nos quase doze anos de trajetória trouxeram demandas que começam a esgotar nossa capacidade de atender. Fomos nos tornando multiformes e plurifacetados ao ponto de exaurir a nossa paciência, e chegamos a atender a necessidade de faxineiro, ator, designer, atendente, oficineiro, videomaker, administrador de mídias, elaborador de projetos, locutor, promotor de vendas e audiodescritor com a mesma pessoa, para citar um exemplo. Chega, não? 

A ideia de convidar uma atriz e um ator para se juntar a Cláudio Marconcine no palco da nova montagem – sim, a Pequena Companhia de Teatro prepara um espetáculo com mais de duas pessoas em cena pela primeira vez – traz a reboque a possibilidade de pensarmos no alargamento definitivo do grupo. Para aumentar nossa potência criativa e nossa capacidade de gestão, a cumplicidade permanente que um novo membro pode trazem nos apresenta um horizonte para além da importância de fechar o elenco para o novo espetáculo. E, a se confirmar essa decisão, enfrentaríamos um grande desafio: quebrar a barreira da afetividade.

Diversas vezes propagado aqui – não vou colocar nenhum link para ver se você se digna a garimpar alguma relíquia filosófica nesse amontoado de lixo reflexivo que este blog produz –, nosso grupo foi construído a partir da afetividade. Muito antes da nossa existência como grupo, Cláudio, Jorge, Katia e eu existíamos como amigos. A própria formação da Pequena – que inicialmente reuniu apenas os três últimos – aconteceu pela constatação de que estávamos sempre juntos. Criamos um grupo de teatro sem saber o que queríamos, como seriamos, ou porque faríamos. Só entendíamos que, se íamos estar juntos o tempo todo, que fosse fazendo algo inútil: teatro.

Eis outra aguda transformação que o plural usado na abertura desta postagem escondia: como incorporar um membro em um grupo de teatro que até então se sustentou em fundações tão peculiares quanto as que formaram e consolidaram a Pequena Companhia de Teatro?

A resposta está em construção. Não temos a menor ideia, ainda, nem do formato que usaremos para habitar as personagens da nova peça, nem dos mecanismos que levam à incorporação de um membro em um grupo de teatro. Estamos tateando. Eu, titubeando, tremulando, hesitando, vacilando, duvidando. A provocação de Jorge é tão potente e oportuna que deve prenunciar os caminhos criativos da nossa próxima década, e, com ela, a natural incerteza que faz tremeluzir a chama do navegador de certezas que vos escreve. Contudo, como diria a mulher em um diálogo do novo espetáculo: certezas não existem.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Dramaturgia da escuta


Em 2018 a Pequena Companhia de Teatro estreia seu novo espetáculo – ainda sem título definido –, que parte do conto A outra morte, de Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo. A montagem tem sua feitura dramatúrgica a partir da Transposição de Gêneros, sistema de adaptação literária desenvolvido pela Pequena – sobre o qual verso muito neste blog –, e que tive a alegria de fazer reverberar no projeto SESC Dramaturgias, ano passado.

Essa dramaturgia está em processo. Iniciada dia 30 de dezembro de 2016, uma série de etapas foram cumpridas – entre pesquisa, transporte de gênero e dramaturgias superpostas – e chegamos ao momento mais prazerosos; quando o esqueleto dramatúrgico desenvolvido passa a ser oralizado, para que eu possa ajustar o texto, percebendo intenções, embocaduras, e ir polindo o dito com a melhor ferramenta: a fala do ator.

Normalmente, essa prática ficava a cargo dos atores do nosso grupo, e esporadicamente algum amigo mais próximo nos auxiliava com a leitura do texto em questão.

Nesta montagem, e sem programar formalmente essa proposta, passamos a convidar outras atrizes e outros atores para nos auxiliarem na empreitada, e começamos um delicioso exercício de encontros, escutas, conversas, reflexões; alargando mormente a extensão da função das leituras, e possibilitando um outro estado de percepção da feitura dos conflitos.

Para mim, o exercício da escuta, quando estou escrevendo um texto de teatro, é revelador. Fazer parte de um grupo traz esse privilégio para quem escreve, pois dispõe do profissionalismo dos seus pares para que a vocalização da escrita se efetive, e se possa entender – dramaturgo, encenador, atores, produtora – como as palavras vão sendo salivadas, mastigadas, saboreadas e engolidas, até que reste apenas o sumo do que precisa ser dito, e sua forma.      

Estender essa experiência a outras vozes, então? É tão provocador quanto ouvir um sonho de Katia. Na pluralidade de tons, entonações, intensões, opções, resmungos, sorrisos, a contextura da dramaturgia vai ganhando conflitos; nós, argumentos. A ideia impalpável e fria da personagem – que até então era apenas um monte de palavras agrupadas em papel – ganha a materialidade polifônica que uma personagem escrita precisa ter para que desafie o próximo leitor a aturar a sua sina, porque se uma personagem não captura pelo menos um leitor, está fadada a adormecer eternamente entre as capas de um livro, ou muito pior, na sóbria combinação de magias informáticas que transformam a mais complexa personagem em um gélido arquivo de texto.

A singular experiência agrupa outros exercícios tangenciais, mas nem por isso menos provocativos. Ao nos imaginar recebendo amigos na sede, para uma leitura, a ideia de criar ambiências para elas foi imediata; saudando a generosidade dos leitores com uma estética que dilua qualquer vestígio de tédio que o convite possa despertar no coitado. Essa decisão, meramente formal, foi gerando uma investigação que, mesmo não tendo o compromisso de dialogar com a nova encenação, acaba possibilitando o terreno fértil para a experimentação de materiais, luminosidades, formações, dimensionalidades, alargando a colheita criativa que a proposta de ler entre amigos fertiliza.

Outro exercício é a própria reflexão sobre o dito. Inevitavelmente, o diálogo reflexivo durante e após a leitura se estabelece organicamente, já que o leitor se depara com a curiosa possibilidade do entrar em contato antecipadamente com os dizeres de uma peça de teatro que verá no futuro, quando da sua estreia. Essa abertura de processo não formal alimenta as reflexões que a confecção da dramaturgia no estágio atual necessita, e consigo desenrolar pensamentos complexos com a simples observação da sábia amiga que sentencia: é isso.

Quem diria. Para um sujeito artista, rígido e estruturado como sou, os desenlaces que uma sugestão simples e despretensiosa como a de “dar uma lidinha no texto” são de uma potência desajustada. Devem ser sinais de novos tempos, agora, que cinquenta anos de rigor já se passaram, e surge um novo velho homem. Dadá me conserve assim.

domingo, 24 de dezembro de 2017

Confesso: adoro Natal!


Amanhã é Natal. Hoje é a véspera, que na Argentina recebe o singelo nome de “Noche Buena”. Como artista engajado que sou, deveria advogar contra toda essa palhaçada que envolve a data, e todas as datas comemorativas capitalistas, com seus consumos inexplicáveis, as constantes distorções de posse, banquetes e afins; mas não posso. Adoro comemorações. Natal, Ano Novo, aniversário, Páscoa, dia das mães, dos pais, das crianças, do teatro, do alfaiate; anos de namoro, de casamento, de amizade; anos de casa nova, de cidadania brasileira, de grupo, de cirurgia, de fazer teatral. Tenho total fascinação por tudo o que envolva uma celebração, sempre e quando seja um evento íntimo, aconchegante, numericamente econômico, audivelmente saudável, gastronomicamente farto e etilicamente complexo.

Peço perdão pela decepção que provoco com essa revelação aos queridos amigos revolucionários que sempre se acotovelaram comigo nesta nossa utópica empreitada de transformar o mundo. Contudo, em minha defesa, digo que é mais forte do que eu. Não consigo evitar. Gosto do clima, do consumo, das luzes, das desatinadas gargalhadas. Acho que é somente nessas comemorações que me permito a felicidade irresponsável – aquela que esquece o mundo que a entorna, e egoistamente esbanja alegria sem escrúpulos ou vergonha da farta desigualdade que povoa a realidade humana.

É Natal. Uma coisa tola, tosca, sem sentido; um deus que nasce e é filho dele mesmo, um velho barbudo de vermelho, neve em São Luís, nozes, frutas secas, peru, presentes que vão e vêm, luzes que piscam – Por quê? Para quê? –, essa fascinação pela décima segunda badalada, trenó com hienas (ou seriam renas?), meias e guirlandas; tudo errado, tudo esquisito, tudo fora de lógica, tudo do jeito que eu gosto. Se não existisse Natal o dia 25 de dezembro seria patético. Natal não, véspera, pois o Natal é uma coisa menor, assim como o 01 de janeiro. Natal é o dia da ressaca; de comer o que sobrou; de fazer de conta que estamos num dia que não existe, e a letargia é o único meio de passar por ele sem que as consequências dos irresponsáveis excessos venham à tona – se você for replicar com religiões, me perdoe, estou falando de outra coisa.

As vésperas é que são elas. Natal, Ano Novo... aqui em casa comemoramos até vésperas de aniversário; ou seja, o aniversariante tem direito a duas celebrações. Eu sempre me pergunto de onde vem esse meu fascínio por comemorações. Às vezes penso que está relacionado ao fato de ser tão ranheta, tão chato, tão mal-humorado, tão insatisfeito, tão revoltado, tão furioso, tão insuportável. É como se as comemorações fossem meu bode expiatório, meu momento de espasmo cerebral inconsequente, a parte feliz que me cabe, a perpendicular euforia em relação ao meu permanente fracasso, a dita felicidade.

Imagino que esse gosto pelos festejos esteja relacionado a uma infância suculenta; ao precoce falecimento da minha mãe e a respectiva interrupção de alguma rotina de celebração infantil; à ficção que crio do meu passado e suas idiossincrasias, não sei. Sei que sou um celebrante contumaz.

Um dia vou contar dos rituais que envolvem certas festas aqui em casa, e como Katia e eu formamos a melhor dupla de anfitriões que existe no universo, mas não hoje. Hoje me concentro exclusivamente em revelar e entender esse paradoxo; esse distúrbio de personalidade; essa distorção ideologia; essa disposição festiva que destrói toda minha reputação, construída arduamente através de uma robusta sociopatia, e do padecimento crônico de simpatia reversa.

Hoje não há postagem. Hoje apenas sussurro no seu ouvido que adoro comemorar; do meu jeito, com as peculiaridades que a minha vetustez genética me impõe, mas com a disposição de um menino que espera ansioso durante toda a madrugada a passagem de Papai Noel – no meu caso, a ansiedade se traduz muito mais na imagem do menino que espera os três reis magos que na do velho barbudo. Um menino. É como eu me sinto. Feliz Natal.


domingo, 10 de dezembro de 2017

Velhos em movimento


A urgência de encontrar pontes de diálogo, neste momento de aridez cultural forjada pela ausência de políticas públicas, promove um exercício criativo, provocando os grupos de teatro do país a saírem da caixinha e buscarem mecanismos de interlocução outros que os apresentados nos últimos anos.

Recentemente participei do seminário Conversas Teatro em Movimento, promovido pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, em São Paulo, onde foram anunciados os 57 espetáculos, dos 647 inscritos, que circularão pelo país com o patrocínio do programa, em 2018 – dentre eles, nosso Velhos caem do céu como canivetes. A notícia é requentada, mas a reflexão pretende munir-se de um anacrônico ineditismo para tentar enredar o leitor na teia de inutilidades que normalmente teço para manter-me fiel ao propósito de fazê-lo perder tempo.

O encontro promoveu a reunião de grande parte dos grupos de teatro do país que são referência para nós, seja pela produção artística, seja pelas formas organizacionais, seja pelos mecanismos de resistência desenvolvidos.



Como já confessei aqui, esse tipo de reunião me torna um vampiro. Quando me encontro entre colegas que celebram a mesma sorte de viver de teatro e padecem das mesmas agruras, passo a vampirizar cada reflexão, cada problematização; tento extrair de cada papo, de cada discussão, o máximo que minha burrice permite; procuro dialogar até que a síntese seja a mais razoável possível, sem perder de vista sua condição de nova tese. Um vampiro. Vampirizo meus pares sem pudor, na tentativa de extrair deles aquela singular sabedoria que só se revela num papo entre amigos.

Nesse tipo de seminário, reunião, palestra, colóquio, o que está posto formalmente sofre o desafio de conseguir superar em importância tudo aquilo que é dito nos bastidores, nas entrelinhas, nas camadas afetivas; fazendo-nos suspeitar que a relevância da ação esteja naquilo que aparentemente é a simples estrutura social que permite a sua viabilidade: o encontro. Não que o seminário em si não tenha valor, apenas pontuo valores diferentes. É como se a estrutura do pensamento apresentado formalmente nas mesas propostas só encontrasse tangibilidade nos sussurros da informalidade.

Suspeito que os promotores do evento tenham total consciência da importância do atravessamento entre o formal e o informal, e o quanto um retroalimenta o outro, com a especificidade que cada qual traz para a construção de um pensamento estruturante para o teatro de grupo do país.

Na busca de pistas visando encontrar alternativas para enfrentar o delicado momento vivido pelos grupos de teatro de pesquisa, me deparei com uma singela, óbvia, contudo potente: o rastro, a pegada, a marca. Toda pegada é uma pista do trajeto seguido por alguém. Ao deixarmos o nosso rastro de trabalho, de enfrentamento, de resistência, sem perceber estamos deixando pistas para que outros consigam superar obstáculos, experimentar alternativas, atrair outra sorte. Quando a Pequena Companhia de Teatro resiste, insiste e não desiste, está deixando uma pista, um rastro passível de se seguir para encarar situações similares, mesmo que por companhias diferentes. Da mesma forma, ao entender as pegadas deixadas por coletivos que observamos, nós também vamos reconduzindo trajetórias, suspeitando dos atalhos, atravessando pontes, ligando o tempestuoso presente ao futuro próspero.

Não existe um único encontro que não deixe em mim uma marca. Logo, meus queridos amigos vão deixando rastros das suas experiências, pegadas que posso seguir para amortizar o peso da existência. Por isso agradeço a cada um deles, meus contrafeitos mestres – como salientei no link que você não abriu e que elucida a conclusão desta postagem.