terça-feira, 24 de agosto de 2010

Deixe que digam, que pensem, que falem - 8

Márcio Marciano, diretor do Coletivo de Teatro Alfenim e crítico do XVII FENTEPP, escreveu algo sobre a apresentação de Pai & Filho, no sítio do festival.


Abaixo, o texto na íntegra.

A tradição literária ocidental tem suas figuras emblemáticas. Kafka é uma delas. Tal é o poder de sua obra que o termo kafkiano tem hoje uso corrente. O criador de Gregor Samsa, o indivíduo transformado em inseto, imprimiu em sua literatura traços cinzentos, obscuridades e discrepâncias de modo a metaforizar o mundo administrado. Seu universo parece frio e distante. E é a partir desse universo que a Pequena Cia. De Teatro, de São Luís, concebe seu Pai e Filho, mais especificamente, baseado na “Carta ao Pai”. 


O grupo transpõe para a cena, em forma de diálogos, o texto que o Autor endereçou a seu pai, que não chegou a lê-lo. Trata-se de um longo desabafo sobre a tirania paterna, repleta de detalhes acerca do comportamento irascível desse pai que não consegue entender a perplexidade que abala a sensibilidade de seu filho. 


Essa operação não ocorre sem perdas e ganhos. É fascinante ver em cena o mundo kafkiano transmudado em um ambiente marcado por traços da cultura maranhense. Não se trata de exotismos, tampouco da ilustração regionalista de um mundo estranhado, mas da meticulosa realização de um projeto cênico, absolutamente justificado na confecção de cada detalhe do cenário, da indumentária, dos figurinos e objetos de cena. Não é o Maranhão que se insinua, mas uma fina compreensão de nosso pertencimento ao universo brasileiro. 


Nessa perspectiva, as figuras do Pai e do Filho surgem de forma orgânica, plenamente adaptadas a esse mundo repleto de fios materiais e simbólicos que se entretecem e se emaranham ao longo do espetáculo. As referências dizem respeito a algo mais profundo do que deixam entrever as aparências, dizem respeito às relações de Poder que fundam a cultura ocidental. Aqui as águas maranhenses afloram as margens do Danúbio. 


O trabalho de composição dos atores, a minuciosa definição de gestos e tons de voz, a matemática disposição e reposição dos objetos na cena, tudo leva a impressão de um lugar suspenso no tempo e no espaço, algo semelhante ao que provoca a narrativa kafkiana, uma espécie de contaminação ao mesmo tempo letárgica e exasperada, uma espécie de lucidez embriagada. 


Entretanto, apesar dos inúmeros acertos, algo se perde nessa ousada transposição e diz respeito à intenção mesma do projeto inicial, à disposição de discutir as relações de poder no seio familiar brasileiro. A família pequeno-burguesa de Kafka, historicamente situada numa Europa assolada por guerras, desfigurada pela lógica do Capital em franca internacionalização, em nada se parece com o universo patriarcal brasileiro, marcado pelo mandonismo, pela afirmação da identidade por via da supressão radical do outro. Há diferenças para além das imediatas semelhanças que seria preciso investigar. 


A mera transposição do universo kafkiano, mantidos os ritos de sociabilidade expressos na linguagem, parece não corresponder às especificidades de nossas relações familiares. Seria o caso de se perguntar por que Kafka não escreveu sua carta na forma de diálogo. Talvez porque ele próprio compreendesse a impossibilidade de uma conversa naqueles termos. A uma primeira resposta atravessada do filho, ou a uma primeira insinuação grosseira do pai, talvez a comunicação se rompesse. 


Seria o caso de indagar se a forma dialogada, baseada na inter-relação subjetiva, se o modo dramático de ressaltar o conflito não acabam por ser uma solução redutora. Seria o caso de indagar, se o tempo e o espaço do diálogo, assim como ocorre na “Carta ao Pai”, não ganhariam com uma disjunção não dramática. 

Fonte: Márcio Marciano

Um comentário:

Carol Mello disse...

faz sentido. mas as traduções são traições, não?