domingo, 25 de maio de 2014

O prazer de ser autônomo

Hoje acordei às 6h10 da manhã – os poucos que conhecem minha rotina sabem o quanto isso é improvável. Levantei e fui trabalhar. De casa ao trabalho são dois lances de escadas, para cima ou para baixo. Trabalhei. Quando o relógio mecânico marcava 8h20, o biológico anunciou que o meu sono voltara. Fiz o trajeto de vinda e voltei para a cama. Simples assim. Não há nada mais delicioso que a autonomia de trabalhar, acordar, comer, namorar, dormir, correr, em qualquer ordem, hora ou dia. Foi a arte que me proporcionou esse privilégio. O teatro. Enquanto fazia algo do que fiz enquanto acordado, pensava no quão romântico continuo sendo. Faço teatro porque gosto. A única motivação que me levou a traçar a minha trajetória foi gostar de fazer o que faço. Se em algum momento da vida tivesse pensado em sobrevivência, o teatro teria me largado. Irresponsavelmente, nunca pensei no que é necessário para viver: livros, comida, água, roupa, luz, telefone, yerba, internet. Tudo sempre veio a reboque de um desejo, de uma vontade, de uma necessidade de expressão que só encontrava guarida no teatro. Irresponsavelmente romântico. Nem o tempo, que promove aquele implacável vergamento do ser, fazendo-o observar atento o chão que pisa sem poder alçar o voo libertário em busca do céu, conseguiu aplacar essa irresponsabilidade. Um romântico irresponsável. Um homem nessa condição não tem direito de protestar – se esse homem só enxerga seu umbigo e não vê a miséria que o circunda. A propósito, Velhos caem do céu como canivetes trata dessa miséria que você finge não ver. Não quer dar pelo menos uma espiadinha? Segunda-feira tem apresentação, às 19h, em uma Pequena Companhia de Teatro perto de você – e bem mais perto de mim.

P.S.: E antes que algum gaiato venha contestar qualquer coisa que eu tenha dito ou contradito, não se esqueçam do principal: eu sou uma ficção.

São Luís, 23.05.2014 – 13h10



sexta-feira, 23 de maio de 2014

Segundas-feiras


17h30 - Chegada na sede da Pequena Companhia de Teatro. 
  • [Tenho oscilado esse horário. Comumente chego antes para verificar elementos de cena, limpar as cadeiras]


17h45 - Início do alongamento individual e da passada de texto com o Jorge C. 
  • [Ficamos no fundo do cenário, entre a coluna e as pernas. Diferentemente de Pai & Filho, cada um segue um alongamento particular, de acordo com as exigências da personagem e do corpo do ator]


18h - Início do aquecimento, utilizando o Quadro de Antagônicos para tal. A passada de texto continua.
  • [A minha ordem, comumente, é: velocidade/dilatação/retração/agilidade/dureza/máximo/mínimo/gueixa-feminino/samurai-masculino/leveza/peso/tensão/velocidade]


18h15 - Figurino e maquiagem.
  • [Os atores fazem suas próprias caracterizações. Jorge C. me ajuda com a maquiagem das costas e eu o ajudo colocando as asas. Um dia uma delas caiu. eu quis a morte! Percebemos depois que não era minha culpa, minha máxima culpa, mas sim da fita que perdera parte de suas propriedades de aderência]


18h40 - Como uma ou duas maçãs.
  • [Em Pai & Filho comecei a criar o hábito de fazer gargarejo com água morna, vinagre e sal. Um equívoco de minha parte. Sensação de ressecamento das pregas vocais. Depois, mudei para as maçãs. São adstringentes. As massudas não funcionam bem. Mas, quando não tem maçã, o espetáculo acontece assim mesmo. Somos cerimoniosos, mas nem tanto]


18h45 - Origem da personagem.
  • [Há oscilação no horário para a origem. Depende de muitos fatores. Esperamos o contato de Marcelo F. Iniciamos na primeira batida de Molière. Essa origem é para fazer com que o corpo relembre a forma da personagem, a partir dos antagônicos escolhidos por cada um dos atores. Esse procedimento é repetido igualmente antes de cada apresentação. No meu caso: de pé, fecho os olhos, inspiro e expiro 10 vezes, como se meu corpo estivesse buscando um relaxamento proveniente do cansaço exaustivo do corpo. Na última expiração, elevo meus braços acima da cabeça e na última inspiração deixo-as cair em direção ao chão, juntamente com meu tronco. Ainda de olhos fechados, começo a flexionar meu joelhos tentando elevar meu tronco à posição inicial, mas com uma certa dificuldade, proveniente da fraqueza sentida pelo corpo. Com o tronco elevado, já se estabelece um certo equilíbrio precário decorrente da curvatura da coluna, não muito projetada. A cabeça gira 360º para a esquerda e para a direita. A máscara já começa a se consolidar. A coluna um pouco mais curvada. Dou 10 pulos com uma força mínima a ponto de não conseguir retirar ambos os pés do chão. Abro os olhos. Inclino-me para a direita, elevando o pé esquerdo do chão. Uma força mínima e um mínimo de equilíbrio torna essa ação mais efetiva para que o corpo perceba sua fragilidade. Para mim funciona como uma espécie de termômetro. Repito para o outro lado. Pronto, agora posso andar. Ando pelo banheiro compartilhando o espaço com Jorge C. Começo a oralizar parte do texto. Algumas falas se repetem nesse procedimento: "Cobre teu corpo..."; "Meu pai os arrancou..."; "Estou brincando...". Agacho-me de duas a três vezes, repetindo formalizações de cenas do espetáculo. Entre a segunda batida e a terceira, bebo um copo com água previamente deixado sobre a pia. Ressono um pouco mais. Quando ouço a terceira batida, apago as luzes, Jorge C. abre a porta. Saímos e eu a fecho. Ficamos atrás do galinheiro esperando a sonoplastia. Jorge C. vai para a sua marca. Eu continuo, por detrás da coluna, ressonando e andando de um lado para o outro, até o momento de ir à minha marca.


19h - Início do espetáculo.

20h - Término do espetáculo.
  • [Em algum momento volto para casa. Tem noites que feliz, tem noites que triste, tem noite que pensativo. Algumas sensações não são compartilhadas. Há uma necessidade de amadurecimento do sentir, do pensar, a partir da execução a obra. Hoje, as noites de segunda têm estado mais interessantes - como as de quarta-feira. Restam-me alguns dias na semana para eu preenchê-los com arte, com desejo, com ternura]

sexta-feira, 16 de maio de 2014

E como é?

Foto de Gilberto Freire
Ah, os sonhos... Quem não os têm? 

Sonhei que queria trabalhar em algo que me desse prazer, se contrapondo à maioria das pessoas que buscam, através do consumo, o motivo para o labor: dinheiro, casa, carro, viagens. Que caminho é esse que escolhemos querendo ser felizes para o resto da vida? Que felicidade é essa que nos faz sucumbir ao cotidiano ou a necessidade de se agitar, executar ações, trabalhar para prover o sustento?

[apaga tudo]

Acordei, como todo os dias. Vontade de ficar em casa. Pensei, por alguns instantes, que precisava me levantar da cama, fazer o que comumente faço e sair de casa, me exercitar. Pensei na virtualidade das redes sociais, no filme Her, nas possibilidades dos equívocos praticados. Pensei muito. Não há porque chegar a conclusões, e hoje é sexta, não quinta. Sou brasileiro, final de semana, descanso.

[reescreva algo]

Editais para ler, projetos para escrever, postagem para redigir. Demandas. Comida no fogo, ração na tigela. 

Professor, ator, animador de festas, palhaço de frente de loja. Alugo meu tempo. 

[ouça mais música, diriam]

É viver lentamente cada momento, como se a vida não tivesse final garantido, e que as escolhas não foram gratuitas, e que a rotina não é rotina. 

O oxigênio se renova, a respiração, mesmo constante, oscila. 

[Ser ator?]


quarta-feira, 14 de maio de 2014

Maio e junho de 2014


MAIO

Dias 02 e 07, das 14 às 17h - O quê o meu corpo tem a dizer? (oficina).
Dia 05, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
Dias 08 e 09,  das 08 às 12h - Do épico ao dramático: a transposição de gênero como instrumento de confecção de dramaturgia (oficina).
Dia 12, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
Dias 17 e 18,  das 14 às 18h - Do épico ao dramático: a transposição de gênero como instrumento de confecção de dramaturgia (oficina).
Dia 19, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
Dias 20, 21 e 22, das 19 às 22h - O quê o meu corpo tem a dizer? (oficina).
Dias 21, 23 e 28, das 14 às 17h - O quê o meu corpo tem a dizer? (oficina).
Dias 24 e 25,  das 14 às 18h - Do épico ao dramático: a transposição de gênero como instrumento de confecção de dramaturgia (oficina).
Dia 26, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
Dias 27, 28 e 29, das 08 às 12h - O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator (oficina).
Dias 27, 29 e 30, das 14 às 18h - O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator (oficina).


JUNHO

Dia 02, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
Dias 03, 04 e 05, das 18h30 às 22h30 -  O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator (oficina).
Dias 07 e 08, das 14 às 18h30 - O quê o meu corpo tem a dizer? (oficina).
Dia 09, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).


IMPORTANTE:
Toda a programação ocorrerá na sede da Pequena Companhia de Teatro 
(Rua do Giz, 295, Centro Histórico).
A lotação está restrita a 45 (quarenta e cinco) lugares.
As atividades são gratuitas.
Para agendamento de grupos, gentileza entrar em contato antecipadamente.
Os interessados nas oficinas devem se inscrever antecipadamente aqui.
As dúvidas devem ser sanadas através dos contatos: pequenacompanhiadeteatro@hotmail.com / (98) 3232-6054 / 8133-2172 / 8771-7085.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Novos ecos...

 
a desesperança no palco é espelho para a desesperança dentro, ao redor e fora da ilha, mergulhada numa ausência de planos, horizontes, luzes. o espetáculo 'velhos caem do céu como canivetes', que finalmente fomos ver ontem, é dessas experiências que vão com a gente para casa a nos fazer pensar, rever, ressignificar, repensar, reagir... a renúncia à ação, aos projetos, à vida. um deixar-se ficar com ou sem asas. a simbologia do voo atirada no lodo do mangue e da morte. e ao final, luzes acesas, a certeza de que é na arte que estão as asas que nos elevam e nos levam à ação, ao movimento... arte é vontade, desejo, fome de viver e ao mesmo tempo alimento. livremente inspirado no conto 'um senhor muito velho com umas asas enormes', de gabriel garcía márquez, o espetáculo apresenta em cena o grande teatro mínimo a que se dedica a pequena companhia de teatro. palmas para marcelo flecha, jorge choairy, cláudio marconcine e kátia lopes. permanece em cartaz até junho, às segundas-feiras, sempre às 19h, no casarão da companhia (rua do giz). 
Andréa Oliveira

Ontem fui ver o espetáculo “Velhos Caem do Céu como Canivetes” da Pequena Companhia de Teatro, sai de lá com a certeza de que estão no caminho certo, como trabalho com iluminação, vou tecer elogios para as excelentes soluções encontradas para os momentos, a sincronia perfeita , beleza e leveza das passadas das cenas, tudo num só ritmo, encanto-me ainda pela luz alternativa, a qual venho estudando ultimamente. Obrigado Marcelo Flecha por esse momento, aos atores Claudio Marconcine e Jorge Choairy estão excelentes e a produtora Kátia Lopes que nos recebe como sempre, muito bem. A Pequena Companhia de Teatro merece tudo, que venham mais prêmios e outros incentivos. Aplausos.
Julio Cesar da Hora
 
VELHOS CAEM DO CÉU COMO CANIVETES

Este é o título do espetáculo teatral em cartaz na sede da Pequena Companhia de Teatro, situada na Rua do Giz, quase X com a escola de Música Lilah Lisboa, no centro da cidade (o endereço completo publicarei depois).

Sendo uma adaptação livre do conto “UN SEÑOR MUY VIEJO COM UNAS ALAS ENORMES”, de Gabriel Garcia Marquez, o texto, assinado pelo encenador Marcelo Flexa, tem momentos de rara beleza: de humanidade e de fina ironia.
 
O elenco de dois atores tem um equilíbrio cênico bastante bom. Jorge Choairy, o velho que caiu do céu, com sua atuação quase irrepreensível, faz um perfeito contraponto dramático com a encenação um tanto caricata de Claudio Marconcine, que interpreta o “ser humano” comum. E a carpintaria é sensível e de boa plástica...
 
Bem, isso aqui não é um release, tampouco uma crítica, é apenas um comentário despretensioso de um espectador, que na noite de ontem esteve lá para ver e aplaudir esses bravos rapazes e uma moça, que, antes de tudo, protagonizam uma verdadeira façanha que é fazer teatro de qualidade nesta província onde o folk lore domina as atenções de todos os daqui e dos que vão chegando.
 
(A peça fica em cartaz até o mês de junho, com apresentações todas as segundas, às 19 horas. Eu recomendo fervorosamente!)
 
Luis Mello Neves

 

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Formação

Não me sinto seguro, preparado para algumas atividades. Uma delas é atravessar o Canal da Mancha nadando. A outra, é ministrar atividades de formação.

Foto de Marcelo Flecha

A primeira, nunca fiz. A segunda, algumas vezes. Sentia-me despreparado, com uma certa restrição, um certo temor acerca da desnecessidade do ato. 

As mudanças que sempre acometem minha vida não se furtaram em somar as formações a esse rol. Hoje não chega a ser um fardo, mas uma espécie de estufa em que algumas semente são gestadas. Não falo especificamente das pessoas que participam, mas sim do conteúdo adotado por mim, meu processo de elaborar pensamento, articular ideias. 

Nada é inventado. Passa por uma espécie de crivo de recepção e formalização. Reinventa-se o conteúdo e o procedimento. Nada é novo e ao mesmo tempo continua a ser atrativo. Lembro de muita coisa que foi importante e significativa em minha vida. São as importantes que ficam, aquelas que não caducaram, que não envelheceram. E conhecimento é coletivo. Não dá para sentenciar quem é a mãe ou o pai da criança, mesmo sabendo que a identificação do conteúdo e do método é quase automática para alguns.

Outra questão, é pensar que temos o domínio da situação e elocubrar sobre os desdobramentos. Nessa perspectiva, tudo torna-se inútil e desnecessário.

Estou me reinventando nas atitudes, nas situações, nos incômodos, no ofício. Tudo faz sentido.



domingo, 27 de abril de 2014

Leituras dramáticas

No dia 11 de março de 2009 a Pequena Companhia de Teatro realizava sua primeira Leitura Dramática, buscando estabelecer essa prática como mecanismo de instigação criativa e posterior inter-relacionamento entre artistas amigos – apesar de exercitarmos leituras esporádicas desde 2005, foi nesse dia que iniciamos um ciclo mais efetivo. 
 
 O objeto de leitura do dia foi a Valsa N° 6, de Nelson Rodriguez, por Jorge Choairy.
 
De lá pra cá, diversos amigos passaram pelo pequeno palco e saboreamos juntos de momentos incomuns que ficaram plasmados em nossa memória afetiva e corporal.
 
Agora, o projeto Teatralidades propõe alargar essa experiência e estendê-la a companhias de teatro da cidade com as quais tenhamos uma identificação ou apreço mútuo.
 
A ideia conceitual não muda: separar um momento para o diálogo com amigos que se encontram forneando a experiência de produzir em coletivo, alavancando o teatro de grupos maranhense.
 
Diferentemente das experiências anteriores, as Leituras Dramáticas do projeto Teatralidades serão abertas ao público gratuitamente, aumentando o alcance da experiência e robustecendo o intercâmbio com o espectador, contudo, a atividade se fundamenta na possibilidade de diálogo entre os pares, seus processos, seus mecanismos de trabalho, seus dilemas, sabores e tensões.
 
A partir de maio, na última sexta-feira de cada mês, uma companhia, grupo ou amigos artistas realizarão leituras de textos da dramaturgia contemporânea, e nós os ciceronearemos para que a experiência seja leve, prazerosa e produtiva.
 
Abriremos nossa casa com o intuito de que esses coletivos possam estabelecer uma familiaridade com o ambiente, possibilitando a experiência de experimentar nosso palco, conhecer nosso espaço, aumentando as chances de que venham a apresentar seus trabalhos aqui em breve. É um pequeno gesto. Uma ideia. Cabe a quem quiser se arriscar responder ao aceno.

terça-feira, 22 de abril de 2014

O olhar de quem especta

Caro Marcelo,
 
Finalmente ontem, depois de tanto esbravejar com a Lei de Murphy, com os corpos celestes e com as entidades divinas, consegui assistir ao espetáculo Velhos Caem do Céu Como Canivetes. Enquanto aplaudia aquela brilhante produção, tentava me recompor do estado de êxtase que me fora proporcionado. Não o êxtase da alienação, não o “não saber de mim”; mas um outro tipo de êxtase: o êxtase da espectadora encantada. Lembro-me de ter visto partes daquele cenário quando daquela agradável conversa que tivemos sobre o Quadro de Antagônicos, na época em que eu escrevia meu TCC. Agora ali, com os atores e a luz, nem pareciam mais os mesmos objetos. Foi como se, de repente, aquela cena fosse o outro lado do espelho... Pois bem, vou deixar de meus devaneios poéticos e antipáticos.
 
O espetáculo me fez pensar acerca de muitas coisas. A primeira delas, e talvez a mais importante ou a que resume as demais, é a potência do discurso teatral, e a multiplicidade de escolhas que o geram. Fala-se de muita coisa durante a peça, mas o ponto para o qual tudo converge é um só: o ser humano e sua existência – seja ela miserável ou não, falida ou não. Fico pensando sobre os últimos bons trabalhos que vi, e me dou conta de que esse é um tema muito bem aproveitado quando – parafraseando você – se tem algo de importante a dizer. Importante só, não. Visceral. Claro que alguém pode retrucar: mas e o ser alado? A história dele não conta? Pra mim, o que parece é que o ser alado é tão humano quanto o ser humano. Crescem nele, espelhadas, todas as inquietações humanas. Já não há esperança para ele, e ainda assim, ele espera. Sabe que é um pária, e ainda assim, quer voltar. Que maior e mais fino retrato da miséria humana, senão esse? Outra coisa que fiquei pensando bastante foi a ausência de um tempo-espaço bem delineados. Veja, não estou dizendo que não existem, estou dizendo que pra mim pareceu que a peça acontece em "qualquer lugar", a "qualquer tempo" (mesmo as latinhas de Jesus não me deram a sensação de um pertencimento geográfico, e sinceramente, achei isso bárbaro!). Na verdade, é como se fosse um instante de suspensão. Talvez o delírio do ser humano, que vê uma galinha-anjo-morcego acabe chegando tão perto de mim que eu não vejo ou não quero ver onde e quando esse delírio acontece... Quem sabe?
 
Talvez o fato de conhecer o texto no qual a peça foi inspirada tenha ampliado em mim alguns direcionamentos de olhar. O fato, por exemplo, do ser humano não ter se espantado com um ser alado caído em seu quintal remete à uma das primeiras partes do texto de García Márquez. Conhecer esse detalhe talvez tenha feito com que eu admirasse o trabalho ainda mais, pois o autor de Velhos... parece ter encontrado soluções simples, físicas e sutis para os ditos e não-ditos do autor do primeiro texto. As cores do espetáculo também são de uma beleza... Não só a cor da luz, mas a cor dos elementos de cena, a cor das personagens, a cor do tapete que delimita o espaço. Sobre isso, tenho uma questão: como você chega à cor nos seus espetáculos? Sempre vejo trabalhos com iluminações lindas, mas na maioria das vezes, ou isso vem de uma incrível sensibilidade, ou de muita sorte. Mas e com vocês, como acontecem essas escolhas? Para os olhos, acaba sendo também uma festa, uma vez que as cores se afinam. Mas por falar nisso, nada me pareceu mais afinado que a movimentação dos atores. Na fala de alguém durante o debate, “a peça é um verdadeiro balé”! É como se a relação dual não ficasse somente nos personagens e em seus antagonismos, mas também na própria imagem do espetáculo e na forma como os atores se deslocam pelo espaço, dando ao espectador a compreensão de dois mundos distintos, que ora se atraem, ora se repelem. O mundo do ser humano e do ser alado? Também. Mas principalmente o mundo dos que creem e dos que não creem. Dos que esperam e dos que desesperam. E se parecem completamente diferentes a uma primeira vista, conforme a história acontece percebemos que essas diferenças têm a razão de serem contraditórias – pra eles e pra nós. Sim, pra nós. Porque os velhos caem do céu como canivetes não só no quintal de um ser humano descrente e sonâmbulo, mas cai no quintal dos espectadores também. Acaba se tornando um morcego sideral dentro do nosso espaço de existência também.
 
A propósito, não decidi o que fazer com aquele ser alado. Uma galinha? Um delírio? Um anjo? Um norueguês? Um morcego sideral? Talvez eu decida, talvez não. Por enquanto, pra mim, ele é dúvida, mesmo quando crê.
 
Saúde, luz e paz. E vida longa à Pequena.
 
Rute.
 

domingo, 13 de abril de 2014

Você é espectador de teatro?


Estamos em cartaz com o espetáculo Velhos caem do céu como canivetes – Prêmio SATED nas principais categorias – toda segunda-feira, até 09/06, às 19h, na nossa sede, Rua do Giz, 295, Praia Grande. A Pequena Companhia de Teatro ausentou-se com o espetáculo Pai & Filho durante mais de três anos, por apresentações demandadas em todo o Brasil por projetos do SESI, SESC, FUNARTE etc., que garantiram a trajetória do espetáculo até aqui. No decorrer desses anos recebemos uma constante cobrança de pessoas que nos inquiriam quanto ao retorno das apresentações em São Luís e reclamavam que ultimamente nós só nos apresentávamos fora daqui. De fato, Pai & Filho fez 109 apresentações, delas, somente cinco na ilha. Pensando nisso, invertemos a ordem. Nossos projetos priorizaram inicialmente as temporadas regulares locais e somente depois os deslocamentos. Claro que não podemos reclamar. Desde a estreia, as dezenove récitas de Velhos caem do céu como canivetes tiveram praticamente casa cheia, contudo, agora – desde segunda passada – iniciamos a temporada regular, possibilitando a apreciação do espetáculo para quem quiser, por praticamente três meses. Serão outras nove apresentações. Sendo a lotação de cinquenta lugares, garantimos a fruição gratuita a um espetáculo teatral para 500 espectadores. Tratando-se de uma cidade com um milhão de habitantes só conseguimos disponibilizar acesso a 0,05% da população. É pouco, contudo, é mais do que suficiente. Só resta saber se você estará entre os 99,95% só para poder perguntar sobre novas apresentações. Garanto que o espetáculo fará mais de cem, porém, infelizmente, sei que serão longe daqui. Depois não me venha com grê-grê pra dizer Gregório.

domingo, 30 de março de 2014

Telmah e o enfastiado


Retornei hoje de Mossoró, após assistir a estreia da Viagem aos Campos de Alfenim, espetáculo da querida Cia. A Máscara de Teatro. Como sempre, qualquer movimento que altere minha rotina provoca reflexões, que direi encontrar, prestigiar e conversar com amigos tão queridos. Há algum tempo decidi abandonar a condescendência. Como espectador, não serei mais aquele que pondera, que analisa, que justifica o injustificável. Quero ser arrebatado. Seja pela temática, pela estética, pelo desempenho, pela totalidade, ou até mesmo pela amizade, mas quero ser arrebatado. Quero ser removido do patético lugar que ocupo no mundo, e ser chacoalhado, seja por um beijo heroico, por um chute no traseiro, por um chiste embaraçoso ou pela inesperada despretensão de quem aponta na galinha e acerta o pavão. Desisto de buscar explicações ou elucubrar justificativas para tentar gostar daquilo que não gostei. Como espectador, não quero mais completar o trabalho do artista. Não quero remediar a ausência de potência de uma obra com um argumento intelectualmente preciso que cumpra apenas o papel de amenizar meu constrangimento com o insossado sabor do que vi. Não quero mais conviver com a dificuldade de admitir que não gostei. Não quero mais provar do meu próprio engodo reflexivo para amenizar minha culpa cristã por não ter gostado de um espetáculo. Deixo a razão para a ciência. Pela arte, quero ser arrebatado. Por que estou falando tudo isso? Anteontem, depois de um bom tempo, voltei a me emocionar ao ver um espetáculo. Não sei porque, nem me interessa, mas agradeço.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Abril de 2014



  • Dias 04 e 05, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes - 9ª Semana do Teatro no Maranhão (espetáculo teatral).
  • Dia 07, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
  • Dias 08, 09 e 10 - O quê o meu corpo tem a dizer? (oficina).
  • Dia 14, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
  • Dia 15 - Do épico ao dramático: a transposição de gênero como instrumento de confecção de dramaturgia (oficina).
  • Dia 21, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
  • Dias 22, 23 e 24 - O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator (oficina).
  • Dia 28, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
  • Dias 29 e 30 - O quê o meu corpo tem a dizer? (oficina).

IMPORTANTE:
  1. Toda a programação ocorrerá na sede da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, 295, Centro Histórico).
  2. A lotação está restrita a 50 (cinquenta) lugares.
  3. As atividades são gratuitas.
  4. Para agendamento de grupos, gentileza entrar em contato antecipadamente.
  5. Os interessados nas oficinas devem se inscrever antecipadamente aqui.
  6. As dúvidas devem ser sanadas através dos contatos: pequenacompanhiadeteatro@hotmail.com / (98) 3232-6054 / 8133-2172 / 8771-7085.

Como se inscrever?

A Pequena Companhia de Teatro está abrindo inscrições gratuitas para as suas oficinas de formação - uma das ações do projeto Teatralidades - graças ao Prêmio Myriam Muniz de Teatro da Funarte/Minc/Governo Federal, bem como do Programa BNB/BNDES de Cultura.


Serão 3 (três) oficinas, distribuídas em 12 (doze) turmas, em diferentes dias e horários, nos meses de abril, maio e junho, dentro da primeira etapa do projeto Teatralidades. Depois da Copa divulgaremos a segunda etapa.
 
Oficina A: Do épico ao dramático: a transposição de gênero como instrumento de confecção de dramaturgia (8h)
Oficina B: O quê o meu corpo tem a dizer? (9h)
Oficina C: O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator (12h)
 

As inscrições deverão ser feitas, gratuitamente, através do preenchimento de um formulário que se encontra aqui. É importante colocar a disponibilidade de tempo para que os horários das turmas sejam confirmados. Assim, teremos oficinas acontecendo nos 03 (três) turnos, a depender a sua escolha.

Paralelo às oficinas de formação, nesta primeira etapa, também estaremos desenvolvendo: Apresentação do espetáculo Velhos caem do céu como canivetes, às segundas-feiras, às 19h e Leituras dramáticas com companhias de teatro residentes em São Luís, na última quinta-feira de cada mês (menos no mês da Copa), às 19h.

Na segunda etapa tem mais!

Qualquer dúvida, entre em contato:
(98) 3232-6054 / 8133-2172 / 8771-7085


quarta-feira, 19 de março de 2014

Segunda-feira


 
Dia 07 de abril  de 2014 começa a temporada regular de Velhos caem do céu como canivetes pelo projeto Teatralidades, contemplado com o Prêmio FUNARTE de Teatro Myriam Muniz. Isso. É uma segunda-feira. Durante as próximas dez segundas-feiras você terá a oportunidade de assistir ao novo espetáculo da Pequena Companhia de Teatro. Aproveite. Lembre que Pai & Filho já fez cento e nove apresentações e você ainda não viu. Não vá, depois, se arrepender e ficar nos inquirindo: quando é que vocês vão apresentar Velhos caem do céu como canivetes de novo? Você tem dez chances, até dia 09 de junho. — Ah!, mas eu queria ver Pai & Filho! Espere até o segundo semestre, por enquanto, Velhos Caem do Céu como Canivetes é o que tem, pra segunda. Por que segunda-feira? Porque qualquer dia da semana é uma excelente desculpa para não ir ao teatro. Terça não dá, é ímpar. Quarta é ruim, meio de semana, futebol. Quinta é véspera de fim de semana, contramão para teatro. Sexta é dia de balada. Sábado, rebolada. Domingo, praia. Segunda, ressaca. Como veem, qualquer dia é ruim se o programa for teatro, portanto, por que não na segunda? Detalhe: TODAS AS APRESENTAÇÕES SERÃO GRATUITAS. Bastará chegar na sede da Pequena Companhia de Teatro no dia de cada apresentação e pegar seu ingresso na hora. O espetáculo começará impreterivelmente às 19h. A partir deste projeto voltaremos com a nossa política iniciada com O Acompanhamento de começarmos as apresentações pontualmente. Não haverá tolerância. Por quê? Acreditamos que é uma maneira de contribuir com a formação de uma plateia mais atenta e delicada. O endereço você já sabe: Rua do Giz (Vinte e Oito de Julho), 295, Praia Grande. Então, vamos ao teatro?

domingo, 9 de março de 2014

De volta ao trabalho


Hoje é meu último dia de férias. Foram quatro meses e meio de ócio, com duas pequenas interrupções, uma em dezembro, para as apresentações de Velhos caem do céu como canivetes em Imperatriz, e outra em janeiro, para uma apresentação na Conexão Teatro. A extensão das férias foi diretamente proporcional ao ano de 2013, um ano intenso, violento e duro. Durante as férias voltei a dormir até uma da tarde – qualidade que pensava haver perdido e creditava à idade, quando o verdadeiro agente fora a exaustão –, fizemos, Katia e eu, algumas viagens, escrevi para vocês com certa regularidade, ordenei e faxinei casa, atelier, teatro (ainda me devo o bendito escritório/recepção), atualizei leituras, escrituras; um quadrimestre sabático.
 
Amanhã faremos nossa primeira reunião do ano e as novidades são muitas. O projeto Teatralidades, que recebeu o Prêmio FUNARTE de Teatro Myriam Muniz 2013, oferece muitas novidades para a rotina da Pequena Companhia de Teatro e, por consequência, para seus aficionados. O projeto prevê oito leituras dramáticas, e convidaremos companhias de teatro locais para realizarem-nas aqui na sede, momento de intercâmbio importante para nós, depois de passarmos os últimos anos um pouco distantes por exigência da agenda externa dos nossos espetáculos e oficinas. Outra atividade que servirá para oxigenar e emaranhar nossas relações artístico-afetivas será os dois seminários previstos – fóruns para discussões sobre teatro de grupo, crítica teatral e formação de plateia. Exercício experimentado em 2006 com O Acompanhamento, a Pequena Companhia voltará com temporada regular dos seus espetáculos na sede, hora de poder ver e rever "Pai & Filho" e "Velhos caem do céu como canivetes", além do espetáculo-solo de Cláudio, ainda por estrear – na sede da Pequena Companhia de Teatro haverá uma apresentação teatral por semana, esteja você ou não. Quer atividades de formação? Também tem. Tanto pelo Teatralidades quanto pelo projeto A ótica da Pequena, patrocinado pelo Programa BNB de Cultura. Ministraremos as oficinas O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator, Do épico ao dramático: a transposição de gênero como instrumento de confecção de dramaturgia; O quê o meu corpo tem a dizer, e O elemento e a cena.
 
Essas muitas ações têm por objetivo aumentar a integração da Pequena Companhia de Teatro com a sua comunidade, consolidar nossa sede como espaço de aprimoramento teatral e estimular o diálogo entre nós e os outros. Pertencimento. Um emaranhado de atividades para acentuar o enredamento da Pequena Companhia de Teatro com a cidade. Um ano assim exige um descanso preventivo.

sábado, 1 de março de 2014

Uma pergunta


Quem acompanha o nosso blog sabe que frequentemente estamos publicando artigos sobre o Quadro de Antagônicos, que é o principal instrumento da nossa metodologia de trabalho, e sobre o qual tentamos teorizar a mais de uma dezena de anos. Contudo, alguns episódios recentes me trazem à reflexão que desenvolvo hoje e que espero me ajudem a aprofundar. O Prof. Ms. Abimaelson Santos publicou sua tese de mestrado onde um dos exemplos elucidários do seu objeto de estudo é a metodologia supracitada. A revista DRAO, publicada recentemente, contém um artigo de minha autoria que trata da mesma. De férias no Rio dei uma entrevista para a atriz Carlla Amorim para seu pré-projeto de mestrado que visa um aprofundamento mais intenso sobre o Quadro de Antagônicos. Esses três acontecimentos que muito nos honram, e nos levam a acreditar que o nosso fazer contribui para a análise dos caminhos percorridos pela investigação teatral maranhense, também me fazem indagar sobre o alcance e eficiência da teoria na busca de reproduzir uma prática. O que desenvolvo agora tem muito a ver com minha experiência primordial de leitura de livro técnico-teórico, narrada aqui. É possível descrever literalmente uma prática e dar cabo da captura do objeto, seus objetivos, metodologia e problemas? Sempre que li livros técnico-teóricos sem o auxílio de um mediador – mestre, autor, pesquisador, prático etc. – fiquei com a sensação de não chegar nem perto do postulado experimentado por seu criador quando do desenvolvimento de uma teoria a partir de uma experimentação prática. Entendem o que quero dizer? Na verdade, o que faço não é refletir, e sim, perguntar. A escrita pedagógica é capaz de traduzir um gesto, um aceno, um suspiro? Sei que a literatura consegue, e me delicio a cada descrição desenvolvida por cada um dos escritores que construíram meu imaginário literário, entretanto, pergunto: a escritura técnica pode dar cabo da análise objetiva de um objeto carregado de subjetividade como a arte? Continuo a semear indagações. Teoria e prática, eis a questão – uma dentre tantas que perturbam meu juízo.
 
 

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Artistice

 

Uma coisa é ser artista, outra coisa é fazer artistices. Chamo de artistices aquelas ações que tem por objetivo demostrar uma atividade artística, mas, na verdade, não passam de meras jogadas de estilo, palavras de efeito, ações para a construção de um mito pessoal, como se isso fosse possível. São atitudes autopromocionais, estudadas com o mero propósito de chamar a atenção para o agente artístico, o indivíduo operante, a persona. Sabemos que persona deriva do latim persõna e que significa a máscara de ator, o papel atribuído a essa máscara, blábláblá, contudo, em castelhano – possuindo a mesma derivação do latim –, persona quer dizer pessoa. Simples assim. É o que a contemporaneidade tenta fazer: tornar a pessoa a própria obra de arte, e, com isso, reduzir o tema. Imaginem um cabôco entrando em várias casas de pessoas desconhecidas, sem pedir licença, sentando-se, tomando café com elas e saindo, sem dizer palavra – a la Teorema, de Pasolini. Seria massa, não? Não. Seria uma artistice. Pensem no irmão desse cabôco postando um peido e sendo banido do mundo virtual pelo teor fétido do seu conteúdo. Seria uma atitude revolucionária, não? Não. Seria artisticie. E o cunhado do cabôco chacoalhado guizos nos guetos? Artistice. Tem artistice demais circulando por aí. As redes sociais cumprem uma fundamental função para o amadurecimento social do nosso tempo (?), contudo, são também uma fábrica incomensurável de artistices. Não falo de alta e baixa cultura, não falo de produção artística medíocre, não falo do lugar da arte no mundo atual, falo de artistice. De usar o subterfúgio artístico como mero pretexto para aparecer. Utilizar o instrumento artístico para ganhar visibilidade, fama, celebração – mesmo que seja apenas entre os pares de uma mesma corriola. Escrever um romance, montar um espetáculo, compor uma sinfonia, fazer um filme, leva tempo, pesquisa, trabalho. Tirar as calças no meio da rua, não. O mais curioso é que o esvaziamento do discurso contemporâneo apresenta um sem-fim de seguidores fiéis para cada artistice plantada na contramão da arte. Blábláblá. Tudo artistice. O pior é que, de vez em quando, eu faço as minha também. Cada corriola tem as artistices que merece.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O aprisionamento da pesquisa


Sempre que surge um tema, recebo dezenas de nenhuns pedidos para escrever sobre. Desta feita é quanto a mensuração de valor e qualificação da pesquisa teatral realizada fora da universidade. Para o Houaiss pesquisa é um conjunto de atividades que têm por finalidade a descoberta de novos conhecimentos no domínio científico literário, artístico etc. A apropriação indébita dessa palavra por parte da academia gerou uma cruel ditadura que parece preconizar que uma pesquisa só tem valor investigativo se referendada por alguma universidade. Não estou aqui a satanizar a pesquisa acadêmica, até porque ela possui um prestigio que fala per se. O meu bedelho meto-o na defesa das pesquisas realizadas fora da órbita universitária, região que compreende o resto do mundo. A defesa ocorre no intuito de incitar a prática, porque sem o endosso canônico, percebo que artistas depreciam suas investigações ou correm em busca de um aval cientificista – se advogo em causa própria é por não ter visto outros muitos advogando por nós. A maioria dos fazedores teatrais desenvolve pesquisa de campo, ou bibliográfica, ou empírica, ou laboratorial, ou descritiva, ou experimental, mesmo que, às vezes, ela não tenha a menor noção disso; porque arte não é ciência, mesmo que tentem enquadrá-la com tal. Essa vantagem faz da arte a única atividade humana capaz de desconstruir as rígidas estruturas formais e possibilitar um leque de caminhos outros na abordagem de uma investigação. Você pode pesquisar teatro a partir do seu corpo ou pode fazer do desprezo pelo seu corpo um objeto de pesquisa. O que digo é que a liberdade artística pode ser tão fértil quanto a metodologia acadêmica. Digamos que um grupo de teatro trabalhe décadas na busca de conhecimentos que auxiliem os seus membros no domínio de uma técnica que possibilite o acesso a uma representação orgânica, e logre seu objetivo. Essa pesquisa não é mais importante para o teatro que a teorização sobre a influência de Bach no trabalho de Brecht? Respeitar a pesquisa fora da universidade não subtrai valor à pesquisa acadêmica. Apenas reconhece esforços no desenvolvimento de tecnologias teatrais em todos os âmbitos possíveis, e a sala de ensaio é um dos espaços mais fecundos para a pesquisa teatral. Digo, o desenvolvimento de qualquer conhecimento teatral depende da harmonia entre o que se investiga no campus e o que se experimenta no mundo.

 

 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Uma observação


Releio um livro por necessidade. Gosto de livros técnicos. Reassisto a um filme porque alguns me emocionam (o cinema como um todo). Revejo espetáculos teatrais por dois motivos: um deles é assisti-los até compreendê-los. O outro, é se o espaço em que eles são mostrados se altera: caixa cênica, espaço alternativo, rua. Isso, obviamente, quando tenho essa possibilidade.

Nestes dias consegui reassistir a dois espetáculo em São Luís. Um deles por ambos os motivos; o outro, somente por um. Fui surpreendido pelo óbvio: se comparadas, as apresentações, dos mesmos espetáculos, são diferentes.

Recuperei o que Marcelo F. sempre fala nos debates da Pequena Companhia: apresentamos o mesmo espetáculo em qualquer lugar que a gente possa ir. Iluminação, partitura corporal e vocal, cenografia, maquiagem... rigor.

Quando isso não ocorre, a apresentação fica comprometida. Todo o trabalho que a montagem exigiu com o objetivo do público compreender e decodificar os signos, fica nebuloso. 

Recupero aqui o nível de exigência e comprometimento que temos com a nossa arte: Temos a obrigação de assumir um pretenso profissionalismo e apresentar em qualquer espaço inadequado ou com o mesmo espírito só nos apresentarmos em condições adequadas para a fruição de nossa obra?

Como espectador, quero ver e compreender aquilo para o qual a arte fora elaborada. Como artista, quero que meu trabalho seja respeitado.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Entre luz e sombra

Em ritmo de férias acentuam-se os devaneios cotidianos que eu, presunçosamente, costumo catalogar, ora como pequenos ensaios, ora como croniquetas, ora como micro teses. Aproveito a Conexão Teatro para lembrar de uma perturbadora pergunta lançada em uma demonstração técnica que assisti na década passada e que fora oportunizada novamente no evento supracitado: quem são os seus mestres? Sempre tive inveja daqueles que têm a oportunidade de citar e enaltecer seus mestres. Artisticamente, fui nascido e criado em Balsas, no interior do Maranhão, na década de 80. Época sem internet, cidade sem livraria, sem universidade, sem teatro, sem cinema, sem arte – salvo a tímida resistência de manifestações culturais como o Reisado. Não tive mestres de teatro, e tive todos os que precisei. Aprendemos juntos, uns com os outros, o que ninguém sabia. Nesse caso, seriam meus mestres os livros? Se fossem, por consequência, poderia citar seus autores como tais, e eu teria o privilégio de ter mestres como Kantor, Barba, Grotowski, Artaud, mas não. Os ensinamentos que esses livros preconizavam não foram assimilados por mim como esses autores postularam. Eram apenas as tortas e trôpegas leituras que minha ignorância possibilitava fazer, desvirtuando totalmente seus objetos, objetivos e metodologias, contudo, era o que havia. As raras obras chegavam na mala de um primo, nos braços de um amigo, ou transviadas do seu caminho original e tratadas por nós como relíquias contrabandeadas de um mundo dito civilizado, ao qual não tínhamos acesso. Quando chegavam às nossas mãos obras como El Teatro de La Muerte, Hacia um Teatro Pobre, El Teatro y su Doble – todas versões castelhanas – um oásis parecia apresentar-se à nossa frente. Porém, o oásis era seco. Não havia mentor, um mestre que mediasse a leitura facilitando a compreensão dos dizeres. Tudo era um entender sem entender direito. Um estupro à teoria. Crueldade para nós era não haver universidade na cidade. Teatro pobre, para nós, era fazer teatro em uma cidade sem livrarias. Teatro da morte era sonhar em viver de teatro e saber que se morreria de fome. Oficina era a marcenaria do meu pai. Laboratório era o que se levava para a cena, e quem padecia com a experimentação era o espectador. Quando migrei para São Luís, mais de uma década havia caído desde o teatro de colégio, passando pelo teatro amador até receber minha primeira proposta profissional. O desastre já estava feito. Eu havia forjado uma maneira de lidar com o teatro, modelado um jeito de encenar, de fazer teatro; um jeito tosco, porém, autônomo – no melhor e pior sentido da palavra. Quando surgiu a oportunidade de conhecer meus novos mestres, eles me foram apresentados como pares, pelo simples fato de eu viver do ofício. Esse fator fizera com que as relações se estabelecessem horizontalmente. Quando digo que o mestre generoso é um eterno aprendiz, é porque a generosidade e humildade dos meus mestres me impediram de tratá-los como tal. Portanto, se eu tivesse que responder à pergunta eu diria, dissimulando certo constrangimento: meus mestres são os meus pares. Com eles aprendi tudo o que sei e aprendo tudo o que não sei. Companheiros, amigos, parceiros, irmão de arte. Atores, pesquisadores, diretores, produtores, dramaturgos, cenógrafos, iluminadores, teatrólogos, figurinistas, críticos, sonoplastas. Foi cada orientação generosa, cada papo interminável, cada imersão filosófica, cada crítica aguda, cada palestra oficina fórum ou acalorado debate que formaram o artista que sou. Sempre vampirizei meus achegados. Chupei cada gota de sangue no afã de suprir esse vazio deixado pela falta de uma formação com mentores. Penso que o vazio permanecerá. Uma eterna sensação de acefalia. Não me orgulho disso. Mas agradeço a cada um dos meus contrafeitos mestres que amenizam essa falta.