Hoje acordei às
6h10 da manhã – os poucos que conhecem minha rotina sabem o quanto isso é
improvável. Levantei e fui trabalhar. De casa ao trabalho são dois lances de
escadas, para cima ou para baixo. Trabalhei. Quando o relógio mecânico marcava
8h20, o biológico anunciou que o meu sono voltara. Fiz o trajeto de vinda e
voltei para a cama. Simples assim. Não há nada mais delicioso que a autonomia
de trabalhar, acordar, comer, namorar, dormir, correr, em qualquer ordem, hora
ou dia. Foi a arte que me proporcionou esse privilégio. O teatro.
Enquanto fazia algo do que fiz enquanto acordado, pensava no quão romântico
continuo sendo. Faço teatro porque gosto. A única motivação que me levou a
traçar a minha trajetória foi gostar de fazer o que faço. Se em algum momento
da vida tivesse pensado em sobrevivência, o teatro teria me largado.
Irresponsavelmente, nunca pensei no que é necessário para viver: livros,
comida, água, roupa, luz, telefone, yerba,
internet. Tudo sempre veio a reboque de um desejo, de uma vontade, de uma
necessidade de expressão que só encontrava guarida no teatro. Irresponsavelmente
romântico. Nem o tempo, que promove aquele implacável vergamento do ser,
fazendo-o observar atento o chão que pisa sem poder alçar o voo libertário em
busca do céu, conseguiu aplacar essa irresponsabilidade. Um romântico
irresponsável. Um homem nessa condição não tem direito de protestar – se esse
homem só enxerga seu umbigo e não vê a miséria que o circunda. A propósito,
Velhos caem do céu como canivetes trata dessa miséria que você finge não ver.
Não quer dar pelo menos uma espiadinha? Segunda-feira tem apresentação, às 19h,
em uma Pequena Companhia de Teatro perto de você – e bem mais perto de mim.
P.S.: E antes
que algum gaiato venha contestar qualquer coisa que eu tenha dito ou
contradito, não se esqueçam do principal: eu sou uma ficção.
São Luís,
23.05.2014 – 13h10









