domingo, 24 de julho de 2011

Pirataria de ideias

Ouço frequentemente as frases “nada se cria tudo se copia”, “tudo já foi feito” ou “não reinventar a roda” quando relaciono conceitos sobre a criação artística. Esses provérbios urbanos, desculpas de armazém, justificam o que de mais comum venho observando na baixa arte provinciana: a cópia (infelizmente não tenho acesso ao museu do Louvre nem vejo a Royal Shakespeare Company, mas, francamente, não creio que seja muito diferente da nossa realidade).

Marcelo França e Marcos Flecha por Lucap

O conceito de criação artística está relacionado cada vez mais a um acervo de memória, onde o artista busca, não a criação, mas, a lembrança: “vamos usar aquela imagem daquele filme”, “que tal aquela roupa daquele musical?”, “lembra daquela escultura que a gente viu?”, e por aí desfilam os caminhos criativos desses intermináveis plagiadores. Palavras como homenagem, inspiração, relação, domínio público, etc. servem para camuflar o simples fato de trocar o inventivo pelo fácil caminho da cópia – não vou abordar o copia e cola cibernético porque o texto não teria fim.

Sim, tudo já foi inventado, o que não tira o mérito de quem inventar de novo. O processo de criação, de buscar algo inédito, vai além da pesquisa, das referências, dos cânones, deve obedecer a busca incessante da ruptura, da procura do original – mesmo sabendo o que essa palavra representa na contemporaneidade. Se, obedecido esse processo, o objeto criado também foi utilizado por um tailandês enquanto ensaiava em Taormina, paciência. Contudo o caminho foi pessoal, a descoberta, pessoal, a busca, pessoal, apenas – coincidentemente – dois seres humanos, em distintos pontos do mundo, seguiram o mesmo caminho e chegaram à mesma conclusão (me lembrem de contar, um dia, sobre o final do Santo Inquérito e do Espírito da Coysa).

O sabor da criação é incomparável. Estudos, análises, acervos, viagens, são fundamentais para alicerçar o caminho do ser criativo e não para servir como banco de busca ou catalogação de clichês. Você é daqueles que cria ou que copia? Vamos inventar?

10 comentários:

Gilberto Freire de Santana disse...

Meu amigo, "tudo já foi inventado, o que não tira o mérito de quem inventar de novo". Assino embaixo (pra variar!)

Enjoairy disse...

Vou copiar e colar.

JeyzonLeonardo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
TonySilvaAtriz disse...

Pois é estamos ficando demente com criações copiadas,a grande maioria acha que é a formula do sucesso,para se manter na mídia.Pois bem por esse dias me peguei pensando nos dez anos de um historia que não tem cópia e a formula foi nós que inventamos.Estou com saudades... Não sei mais me comunicar com o professor que virou aluno.Dê notícias.Pelo menos isso.

diariodoandre.com disse...

Você é daqueles que cria ou que copia? Vamos inventar? hahaaha

Hamilton Oliveira disse...

O modo da invenção, o método, se não for copiado, tbm pode levar a algo novo... mas quem vai correr o risco de criar um método?
Porém, optando pela aplicação do consagrado fica mais difícil escapar do previsível. Mas quem não tem método caça com estilo... e copiar tem se tornado uma arte sofisticada.

Marcelo Flecha disse...

Há recriações que são tão orgânicas quanto as originais e gozarão sempre de prestígio. A reboque destas, estão todas as pobres cópias às quais me refiro. E, convenhamos, algumas chegam à desfaçatez de só mudar o título (risos).

JeyzonLeonardo disse...

pela terceira vez. Querido Professor, essa necessidade de piratear ideias, talvez venha da necessidade de se conseguir uma resposta imediata, temos pressa para expor nossas angustias e não estamos aptos a ouvir e aprender a construir a partir de repetições e ver que neste jogo de "mesmos" podemos criar coisas incríveis. alguém um dia falou que - "Ouvir é de ouro..." mais criar um identidade é divino.

Marcelo Flecha disse...

Rapaz! Pensei que não saía! Isso é que é ter zelo pelo que se escreve! (risos)

Sandro Fortes disse...

Mas as palavras nunca são nossas
nós as plagiamos de nossos pais
de sangue ou de pepel:
nós as copiamos do vento.