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domingo, 1 de abril de 2018

Uma distribuidora de encontros e reencontros


Amanhã, mais precisamente às 6h da manhã, a Pequena Companhia de Teatro inicia mais um mergulho pela imensidão do território brasileiro, numa caminhada de interlocução permanente – principal motor de sobrevivência criativa para um grupo sediado num estado como o Maranhão, que tem o superpoder de tornar invisível o teatro de grupo. A jornada faz parte do Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, que patrocina a circulação de 57 grupos de teatro pelo país, durante os anos de 2018 e 2019.

Mantendo o nosso ideário de ocupação, a circulação que propusemos não se limita à estada na cidade durante os dias de apresentação e o perpasse das atividades complementares nos outros horários disponíveis. Passaremos uma semana em cada uma das cidades; sempre na perspectiva de estreitar o enlace com a comunidade, de entender a urbe e sua lógica teatral, de tentar estabelecer uma lógica de diálogo que justifique a nossa caída em Alta Floresta/MT, Primavera do Leste/MT, Dourados/MS e Campo Grande/MS.

Serão 12 apresentações de Velhos caem do céu como canivetes (3 por cidade), 12 debates após as apresentações, 4 oficinas sobre o Quadro de Antagônicos, 4 ações de formação de plateia em colégios das cidades, e 4 fóruns permanentes de reflexão, com os grupos Teatro Experimental, em Alta Floresta; Teatro Faces, em Primavera do Leste; Grupo Casa, em Campo Grande; e Cia. Theastai, em Dourados.

É na seleção das cidades por parte do Programa Petrobras Distribuidora de Cultura que concentro a reflexão de hoje: o conceito de aprofundamento, continuidade, estreitamento e entrelaço que adivinho no critério de seleção do edital. Das quatro cidades que visitaremos, duas fizeram parte da nossa circulação pelo mesmo programa, em 2016, com o espetáculo Pai & Filho e a nossa oficina de dramaturgia: Primavera do Leste e Campo Grande. Ou seja, as duas cidades, em um curto espaço de tempo, terão contato com todo o repertório recente, e toda a conceituação metodológica de um grupo de teatro do Maranhão, fato praticamente impossível de acontecer sem um olhar atento à qualidade de atravessamento que essa opção oferece para amenizar a fugacidade inevitável que toda circulação sutilmente esconde, e que tanto nos aflige.

No caso, não. Essas cidades ancorarão na vida da Pequena Companhia de Teatro. Os grupos de teatro que tiveram a oportunidade de passar diversas vezes pela mesma cidade sabem do que estou falando. É diferente. A relação é diferente. O olhar é diferente. O espectador vê o grupo de maneira diferente, tem a possibilidade de observar a trajetória, de estabelecer relações com o repertório, de dialogar com a cena com maior integridade; o teatrista tem contato com os métodos, tecnologias e conceito, pode cotejar obras e procedimentos, discutir caminhos; um sem-fim de sabores e digestões que um encontro não pode proporcionar, e que só se efetiva com a delícia do abraço de um REENCONTRO. Adivinho essa linha curatorial, e quero acreditar que acerto, pois a nossa alegria com toda a circulação é inenarrável, mas a satisfação de retornar se narra facilmente com o conceito, vida e sentimentos de um verbo: voltar.

A partir de amanhã, e pelos próximos 29 dias, alargaremos os números afetivos que arrolam a nossa existência. Ao término dessa jornada, serão 76 apresentações de Velhos caem do céu como canivetes, em 23 cidades de 14 estados; 31 turmas da oficina sobre o Quadro de Antagônicos, em 23 cidades de 11 estados; e, se os produtores locais botarem quente, conheceremos também o espectador de número 5.000 de Velhos caem do céu como canivetes – para uma peça apresentada preferencialmente com plateias reduzidas, é um número a ser comemorado e prepararemos algum tipo de surpresa para a felizarda ou felizardo. Aviso: repeti três vezes o nome do espetáculo porque, se você clicar no vermelhinho de cada um, terá contato com três críticas diferentes escritas sobre ele.

Claro que as outras reflexões que a iminência da viagem provocou, e as outras que a nossa circulação pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura ainda vai provocar, você acompanhará aqui. Todo domingo, após o término de cada uma das ocupações, você terá uma descrição e as respectivas elucubrações provocadas pela experiência – narrativa que você vem acompanhando desde o dia 28 de julho de 2009, primeira postagem deste blog.

domingo, 6 de maio de 2018

A arte de perturbar


Foram trinta dias na estrada. Dias de desassossegos e calmarias. A estrada é a palmatória que abarba os homens. Os desiguais se alinham, por bem ou por mal. Agenda, horários, refeições, compromissos, lazer, fuso, tudo gira em torno de um bem comum: o sucesso da empreitada. Em circulação, tudo o que de humano possa ser patético, se torna menor: manias, dores, humores, amores, rumores. A estrada dobra o soberbo, brune o rústico, açoita a megera, contradiz o absoluto, adoça a ríspida, ressabia o crédulo. Nenhum ser, por mais desumano, sai imune da contaminação humanitária que uma circulação teatral provoca. Circulas com teatro, humano és.

Domingo passado concluímos o projeto Velhos caem do céu como canivetes, pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura. Foram 4 cidades (Alta Floresta/MT, Primavera do Leste/MT, Campo Grande/MS e Dourados/MS), 12 apresentações, 1.226 espectadores, 12 debates, 4 oficinas, 86 concludentes, 4 intercâmbios (Teatro Experimental de Alta Floresta, Teatro Faces, Grupo Casa e Coletivo Clandestino), colégios visitados, professores provocados, alunos comprometidos, acessibilidade efetivada, dever cumprido. Uma jornada plena. Plenitude é a palavra que define o estado do que é inteiro, completo, total, integro. É como nos sentimos com o resultado da nossa residência no Mato Grosso e no Mato Grosso de Sul.

Difícil resumir humanidades em uma postagem, quando sabemos que a palavra é apenas um esforço humano de traduzir a existência. O sentir humano é intraduzível. Viver é uma experiência esvaziada de compreensões. Todavia, se a tarefa de um escritor é dar punho ao vivido, faço das minhas sensações, matéria, e do meu teclar, palavras.

Nossa finalidade era conseguir a maior interlocução possível com todos os atores do projeto; assim, grupos, público, alunos, oficinados, produtores e amigos foram abraçados pelo desejo de diálogo que nos moveu, e retribuíram com respostas muito mais potentes que as pretensas provocações lançadas; revigorando o nosso desejo de entender as condições em que se dá o fazer teatral, sobre os diversos aspectos conjunturais de cada uma das realidades vividas. De sintomático, os apagões de gestão pública que permeiam a vida do teatro, seja qual for a região, estado ou município, se a fronteira que os margeia e contém é a de um país chamado Brasil. Latente e lamentável realidade.

Entender o fenômeno teatral sempre foi outro dos nossos desejos. Com se dá a relação entre a plateia e o espetáculo? Por que essa relação se dá com permanentes altibaixos, fazendo desabrochar o paradoxo do artista espectar a plateia? Quem faz ou fez teatro já ouviu, em algum momento da vida, frases como: “a plateia estava difícil”, “que plateia ótima”, “a plateia estava fria”, “o público foi maravilhoso”, “o público reagiu bem”. Como é possível? Como, um mesmo espetáculo, pode ser recebido de maneira tão plural? Como essa relação pode variar tanto de estado para estado, de cidade para cidade? Como se dá uma plateia em estado de tensão e outra em plena euforia se estão defrontadas com o mesmo espetáculo? Pode a relação entre ator e espectador ser tão intrínseca ao ponto de conduzir a cena para lugares tão distintos, mesmo quando se tenta ser absolutamente fiel ao espetáculo? Neste ponto, o projeto não deu cabo de todas as respostas, nem poderia, mas ajudou a reformular algumas perguntas que atravessaram nossos doze anos de história, catapultadas pelas apresentações em cada uma das setenta cidades que já visitamos.

Amparados na falta de discrição que nos é peculiar, perguntamos; e ficamos sabendo de tudo, de todos, e sobre os todos do tudo. Nossa permanente dissecação de realidades, apesar de inconveniente, nos possibilita o mínimo entendimento das circunstâncias, meios e procedimentos com que se operam os códigos da linguagem teatral; mas, principalmente, das amarguras e doçuras da vida em grupo; seus atropelos, acertos, desistências, rupturas, abraçamentos, espantos e confirmações. Diagnosticar o quanto a vida em grupo é complexa, argilosa e difícil nos fortalece e fragiliza ao mesmo tempo; servindo de alavanca para o salto necessário, problemático e libertador que estamos programando. Teatro de grupo é uma somatória de falências individuais que, processadas, reorganizam-se em potência criativa, desconstruindo o “modus operandi” do individualismo contemporâneo.

Foi o que fizemos, e fazemos. Perturbar os outros com espetáculos, perguntas, encontros, treinos, jantares. Não sabemos fazer outra coisa. Perturbar a ordem, o poder, o silêncio, o sono, o juízo. Obrigado aos perturbados consortes que nos aguentaram, do primeiro ao trigésimo dia, e nos ensinaram que os caminhos podem não ser os mesmos, mas convergem para o belo encontro entre a pergunta e a resposta. E obrigado ao Programa Petrobras Distribuidora de Cultura por permitir a distribuição gratuita de um sonho maior: o de um país melhor para todos. Continuaremos, nem que chovam canivetes.

sábado, 5 de setembro de 2015

Pequena Distribuidora de Cultura


A Pequena Companhia de Teatro foi contemplada no Programa Petrobras Distribuidora de Cultura 2015/2016. Em sua quarta edição o programa contemplou 83 projetos, sendo 67 na categoria adulto e 16 na categoria infanto-juvenil, que circularão por 119 municípios dos 26 estados e do Distrito Federal. Os selecionados são provenientes de 20 estados brasileiros e é a primeira vez que um espetáculo teatral adulto maranhense participa deste programa.

O espetáculo selecionado foi Pai & Filho, que acaba de retornar de uma ocupação no Centro Cultural BNB, em Sousa, na Paraíba. Pelo programa de circulação da Petrobras o espetáculo circulará pelas cidades de Primavera do Leste/MT, Campo Grande/MS e Goiânia/GO, realizando 9 apresentações e 9 debates. Ao fim dessa circulação, o espetáculo terá visitado 62 cidades de 22 estados, com 145 apresentações Brasil afora.

Além do espetáculo, a Pequena Companhia de Teatro ofertará a oficina Do épico ao dramático: a transposição de gênero como instrumento de confecção de dramaturgia, atividade formativa já realizada em 10 cidades de 9 estados. A oficina democratiza os mecanismos de construção dos textos teatrais da Pequena Companhia de Teatro quando o ponto de partida são textos oriundos de outros gêneros literários.

Também acontecerão três encontros como grupos de teatro de cada uma das cidades, para intercâmbio de experiências e pesquisa. A inovação proposta pela Pequena Companhia de Teatro é que o grupo convidado participe, não só dos momentos reservados para a reflexão, mas de toda a estada na cidade, acompanhando oficina, montagem, preparação dos atores, ensaio, desmontagem, apresentações, debates, alargando o tempo de intercâmbio entre os grupos.

A jornada acontecerá em julho de 2016, mês em que a Pequena Companhia de Teatro completará dez anos de estrada. Até lá esperamos encher este blog de novidades e engordar a celebração deste decênio de existência.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Dando número aos bois


O ano começa a acabar e 2016 leva consigo a marca dos dez anos de existência da Pequena Companhia de Teatro. Atravessamos uma década fazendo teatro e vivendo dele, em um mesmo grupo, com os mesmos integrantes, desenvolvendo pesquisa, montando espetáculos, circulando, ministrando oficinas, promovendo festivais, participando de debates, palestras, seminários, fóruns, sem fazer concessões de ordem estética, política, investigativa, financeira ou intelectual. Esse posicionamento nos custou sangue, suor e lágrimas, mas posso assegurar que nada pingou sem a devida dose de satisfação por saber que construíamos uma trajetória regular, honesta, progressiva e permanente.

Primeiro com César Boaes enredando Jorge Choairy no labirinto de “O Acompanhamento”; depois com o fraternal enlace de Lio Ribeiro e Cláudio Marconcine, em “Entre Laços”; em 2010, Jorge e Cláudio se unem num rito patriarcal, em Pai & Filho, para logo depois saírem da órbita com Velhos caem do céu como canivetes, em 2013. Quatro espetáculos em dez anos. Em dois interstícios a Pequena colabora com a Cia. A Máscara de Teatro para as montagens de “Medéia” e “Deus Danado”, em Mossoró, além de coproduzir duas edições do “Auto da Liberdade”. Pinçaria, também, as 4 edições da Semana Imperatrizense de Teatro, e a performance poético-teatral “Literatura Viva”, com mais de 200 intervenções, para as duas primeiras edições da Feira do Livro de São Luís, das quais a Pequena Companhia de Teatro foi responsável pela direção artística. Para dez anos, poderíamos dizer que se trata de uma produção econômica, mas construída na medida dos nossos anseios e das nossas condições.

Uma das principais virtudes foi que essas produções não se bastaram em São Luís. Desde a primeira circulação, com “O Acompanhamento” pelo interior do Maranhão, em 2006, até a derradeira, com “Velhos caem do céu como canivetes” pela Amazônia Legal, viajamos 67 cidades de 25 estados do país. Todos os espetáculos da Pequena Companhia de Teatro cumpriram pelo menos um projeto de circulação. Visitamos 26 cidades do Nordeste, 14 do Sul, 4 do Centro-oeste, 14 do Sudeste e 9 do Norte, ultrapassando as 250 apresentações. Participamos dos principais projetos de circulação nacional – Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, Palco Giratório/SESC, Viagem Teatral/SESI e SESC Amazônia das Artes –, além de ocupar(e)mos os Centros Culturais BNB de Sousa e Fortaleza, através da Seleção de Projetos Culturais BNB. Viajamos de carro, de barco, de van, de avião, de ônibus, de trem, de carroça – isso mesmo que você lê.

Os 4 Prêmios FUNARTE de Teatro Myriam Muniz ganhos pela Pequena Companhia de Teatro, em 2009, 2010, 2012 e 2013, foram nosso esqueleto de sustentação, e a tábua de salvação para inúmeros grupos teatrais do Brasil, que agora padecem com a falta de entusiasmo do MINC em sinalizar uma gestão séria. Tanto os atores Cláudio e Jorge, quanto os espetáculos, direções, produções, cenários e figurinos ganharam o Prêmio SATED/MA de Artes Cênicas - 10 ao todo. Participamos de 62 festivais ou mostras de teatro locais, regionais, nacionais, internacionais e intergalácticas.

Além disso estudamos, enrolamos, aprendemos e ensinamos. Ministramos 5 oficinas – de atuação, de iniciação, de dramaturgia, de leituras dramáticas e de cenografia –  para mais de 50 turmas, em 30 cidades de 18 estados deste brasilzão, e publicamos, lançamos e vendemos/distribuímos 1.000 exemplares de um livro, minha dramaturgia reunida. Parte dessas atividades promovidas pelo Programa BNB de Cultura, outro inestimável investimento cultural que a classe artística perdeu e não se apercebeu.

Adquirimos a sede, que foi nosso grito de independência criativa. Aqui montamos e estreamos o espetáculo “Velhos caem do céu como canivetes”, mantivemos nosso repertório em temporada regular, ofertamos diversas oficinas, debates, visitas guiadas e um seminário com Gilberto Freire de Santana, Dyl Pires e André Lisboa. Ainda abrimos as portas para produções externas, e recebemos os espetáculos “Para uma avenca partindo”, “A escrita do Deus”, “As 3 fiandeiras”, a performance “Ocupa Árvore”, a palestra “Ser indígena hoje em contexto urbano”, a roda de conversa com Gero Camilo, a Mostra SESC Guajajara de Artes, a Conexão Teatro, a Semana do Teatro no Maranhão, o Festival Ponto de Vista/UFMA, A Feira do Livro de São Luís, o lançamento da revista Palavra, os intercâmbios com o Coletivo Alfenim, a Cia. A Máscara, os Clowns de Shakespeare, o Patuanú, o Tibanaré, a Cia. Pão Doce, A Outra Cia. de Teatro (na verdade, esta nos deve a visita, nós é que fomos lá), a oficina literária de Marcelino Freire, e tudo aquilo que por aqui passou e você não viu.

Também aqui, neste blog, a história da Pequena Companhia de Teatro foi sendo construída; foram 525 publicações, 1283 comentários de assíduos ausentes leitores, e milhares de visualizações, em mais de 6 anos de ininterrupta reflexão sobre o teatro e seu entorno, o mundo. Você, confidente leitor, atenta leitora, foram testemunhas das dores e dos sabores dessa jornada hercúlea, a de se fazer teatro no Maranhão e fazê-lo reverberar além das suas fronteiras.   

Para mim, sem sombra de dúvida, foram os melhores dez anos da minha vida. Katia, Jorge e Cláudio, obrigado. No agradecimento aos três sintetizo minha gratidão a todos os atores que ajudaram a consolidar a nossa caminhada, apoiando, assistindo, comemorando, participando, criticando, patrocinando, aplaudindo, conversando, ignorando, refletindo, jantando, ensinando, torcendo, brigando, convivendo, saboreando. Obrigado!

domingo, 2 de julho de 2017

Entre Pasárgada e Macondo


De 18 a 29 de julho a Pequena Companhia de Teatro ocupará o Centro Cultural Banco do Nordeste em Fortaleza/CE, com grande parte do seu repertório de atividades: 06 apresentações de Velhos caem do céu como canivetes e seus respectivos debates, 02 oficinas – O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator e Do narrativo ao dramático: a transposição de gêneros como instrumento de confecção de dramaturgia –, o lançamento do livro Cinco Tempos em Cinco Textos, que reúne minha produção dramatúrgica entre 2003 e 2009, a exposição dos figurinos da performance Literatura Viva, do saudoso Chico Coimbra, e a palestra Desconstrução estética de Velhos caem do céu como canivetes, que pretende aproximar cenógrafos e iluminadores das tecnologias teatrais desenvolvidas por nós durante a última década.

O projeto Teatralidades: a Pequena Companhia de Teatro ocupa Fortaleza foi contemplado pelo edital de Seleção de Projetos Culturais BNB 2016/2018 e segue o nosso conceito de ocupação, que procura passar o maior tempo possível na cidade com grande parte das nossas atividades, para que a comunidade que nos recebe tenha uma dimensão ampla dos caminhos do nosso fazer. Por duas edições consecutivas (a de 2014/2015 contemplou a ocupação do CCBNB em Sousa/PB) a Pequena consegue sensibilizar os pareceristas com uma proposta que foge à regra do trânsito rápido, e tenta extrair uma intensidade maior da ideia de intercâmbio. As cidades de Campo Grande/MS, Primavera do Leste/MT e Goiânia/GO também foram tocadas com o conceito, através do Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, em 2016, e muitas ramificações férteis surgiram a partir dessa interlocução mais intensa com os municípios visitados.

Quem nos receberá por lá será o Pavilhão da Magnólia, que fará nossa produção local e assessoria de imprensa, já disparando o diálogo com a cidade e suas idiossincrasias, motivo principal do nosso programa de circulação que procura conseguir o desnudamento dos prazeres e agruras do fazer teatral de cada universo. Para isso, separamos quatro dias da jornada sem atividades formais, para podermos acompanhar espetáculos locais, visitar grupos, sedes, projetos teatrais e toda sorte de atividades que nos possibilitem entender a dinâmica e a lógica da produção cênica de Fortaleza – cidade em que morei por dois anos, num tempo em que teatro ainda era um bicho de sete cabeças que eu almejava conseguir domar algum dia.

Exemplo expresso do que já falei aqui, Fortaleza é uma das capitais mais próximas de São Luís, e uma das mais distantes no que se refere ao intercâmbio de pensamento entre a Pequena e grupos de teatro do país. Estivemos por lá diversas vezes, quando da nossa circulação pelo Myriam Muniz, pelo Palco Giratório e no Festival BNB de Artes Cênicas, com Pai & Filho, mas pouco contato tivemos com a classe artística, ação fundamental para a oxigenação do pensamento, o espelhamento de práticas, o abrandamento de mazelas e a encubação de soluções para a subsistência de grupos de teatro neste trágico Brasil que hoje se apresenta. Capitais menos prováveis são aliadas contumazes na tessitura da teia de que falo no link que acabei de oferecer acima, e que você não teve a gentileza de visitar para que a contextualização seja possível.

Por quê? Por que uma capital mais próxima do que muitas outras se manteve tão distante da Pequena Companhia de Teatro? Por que Piracicaba, Campo Grande, Palmas, Belém, Cuiabá, Porto Velho, Guaramiranga, Teresina, Macapá conhecem nossos últimos dois espetáculos e Fortaleza só conhece um? A principal resposta está num problema que perpasso agora, mas que me debruçarei em uma próxima postagem: com o advento da política dos editais –  esboço de fomento cultural que contribuiu para a construção de cidadania, diferentemente do desmonte atual – deixamos de ser propositivos, e passamos a ser pautados por aqueles que determinam os eixos curatoriais dos editais em questão. Se a Pequena queria ir para Pasárgada e Macondo, não necessariamente o programa da vez queria o mesmo, e acabávamos indo apenas para Macondo. Nossa ida para Macondo, por mais sensacional que fosse, não saciava nosso desejo de ir para Pasárgada, contudo, pouco fizemos para chegar até lá, mesmo sabendo que seríamos amigos do rei.

Agora, para que o projeto de ocupação do CCBNB se tornasse viável, propusemos ir de Pequena Móvel – nome dado por Fernando Yamamoto à nossa forma de deslocamento quando vamos os quatro de carro com o reboque carregando o cenário –, dirigindo os mil quilômetros que separam São Luís de Fortaleza; pincelada de esforço que confirma o desejo de que a cidade conheça um pouco mais a fundo nossa produção. Então, o que nos impediu de arribar em Fortaleza em outro momento? A resposta na ponta da língua é o fator econômico, desculpa que nos acomodou em um calendário sugerido por nós, mas definido por outros. Desculpas, pois, a Pequena Móvel depende de uns litros de combustível para ser independente, e tenho absoluta certeza que não faltaria um colchão limpo e um espaço vazio esperando por nós em qualquer destino desejado.

As reflexões que aqui faço são os passos que dou rumo ao entendimento de outras diversas ações de sustentabilidade que precisamos desenvolver para que a nossa realidade continue sendo a de um grupo de teatro nordestino que apresenta um fazer teatral honesto, independente e constante. Uma dessas ações será o tema da postagem que escreverei no final deste mês, após confirmadas as tratativas. Só não digo do que se trata para não ter que usar a palavra “spoiler”.
 

domingo, 17 de julho de 2016

Teatro em movimento – a roda da fartura


Hoje encerramos o projeto Pai & Filho, pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, que buscou ocupar, com o maior número de atividades possíveis (apresentações, debates, oficinas e um fórum permanente de reflexão com um grupo de teatro convidado), o Centro-Oeste do Brasil (as cidades de Primavera do Leste/MT, Campo Grande/MS e Goiânia/GO), região menos atingida pelas circulações da Pequena Companhia de Teatro até aqui, pois só Cuiabá havia nos recebido, em 2012.
É o teatro que nos move, literalmente. Nos movimentamos durante uma década, em todas as direções; seguimos por via terrestre, aérea, fluvial; de carro próprio, de avião, de van, de balsa, de ônibus, de camionete, de carroça (sim, nossos cenários já viajaram de carroça algumas vezes), e colhemos os frutos desse trânsito no olhar de cada espectador, de cada garçom, de cada companheiro de luta, de cada cidadão.
Plateia em Campo Grande
Na região central não foi diferente. O Centro-Oeste se apresentou como um outro Brasil, dos muitos Brasis distintos que carregamos na nossa memória, basilar para a composição deste país plural, heterogêneo, multicultural, ambíguo, desigual; carregado de tanta potência e desperdiçado por tanta incompetência – política, pois a soma desses muitos Brasis demonstra que um poder não é capaz de aniquilar a soma das vontades de uma nação.
Aqui, goianienses, primaverenses, campo-grandenses nos ensinaram que Panelinha, Mojica de Pintado e Sobá são manjares incomuns, que toda cidade tem os taxistas que merece, que árvore dá sombra, que teatro pode ser um belo programa de fim de semana, que existe um maranhense em cada esquina, que o valor de um real varia; e nos relembraram que toda plateia merece apreço, seja de vinte ou de duzentas pessoas, pois, sempre haverá um espectador atento ao trabalho de uma companhia de teatro compromissada com a reflexão sobre o nosso país.   
Oficina em Primavera do Leste
É impossível não pensar nas pessoas que encontramos pelo caminho; nos produtores, assistentes, atores, diretores, assessores, amigas,  recepcionistas, alunos, técnicos, tradutores; nos grupos Faces Jovem, Anthropos, e Mercado Cênico a materializar a importância da troca de experiências; na quantidade de gente que resolveu dedicar sua vida ao teatro e seu entorno, e no quanto essa escolha pesa, para bem ou para mal.
O país só será nosso quando nos apropriarmos dele na sua totalidade. É o que tentamos fazer quando circulamos. Nos apropriar de cada sabor, de cada costume, de cada gesto, de cada dificuldade, de cada paisagem, de cada distância; nos sentirmos donos de cada parte que forma esse todo chamado Brasil.
Espetáculo em Goiânia
Quando parados, aprisionados na nossa aldeia, não conseguimos mensurar o quão importante é viajar, conhecer, entender, refletir; e chegamos a duvidar do poder que o teatro tem de provocar a reflexão das pessoas, de abrandar convicções cristalizadas, de dar concretude ao pensamento crítico, de abrir o diálogo, de redefinir parâmetros para a vida. O teatro é importante para vocês, para nós.
Hoje falo na terceira pessoa do plural, pois, se bem sabemos que como grupo somos a soma das nossas particularidades, como indivíduos somos a comunhão da nossa mais profunda intimidade, mesmo sem ter a menor consciência disso. E que venha a segunda etapa do SESC Amazônia das Artes!

domingo, 21 de maio de 2017

Uma pequena volta por Campo Grande


Na próxima terça-feira a Pequena Companhia de Teatro retorna a Campo Grande, cidade ocupada com nossas atividades artísticas em 2016, através do Programa Petrobras Distribuidora de Cultura. Fomos convidados para participar do Projeto Boca de Cena – Mostra Sul-Mato-Grossense de Teatro e Circo e passaremos toda a semana em terras campo-grandenses. Ministraremos a oficina O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator, participarei de uma mesa redonda sobre resistência teatral em tempos de crise e encerraremos nossa participação com uma apresentação do espetáculo Velhos caem do céu como canivetes.
Nosso trabalho no decorrer da última década se pautou no compromisso com o fortalecimento do teatro de grupo, na seriedade com que encaramos nossos projetos artísticos, e na honestidade que apresentaram nossos resultados. O curioso do convite é que saímos de Campo Grande com a certeza de que tínhamos feito um trabalho significativo e contribuído, de alguma maneira, para o fortalecimento da cena teatral local. Foi uma sensação coletiva, pois, ao deixar a cidade, os quatro sentiram que se efetivara a troca; e tudo o que o teatro opera, naquele momento, fazia muito sentido para nós. Mas, como toda certeza é uma dúvida em forma de esperança, o chamado da Fundação de Cultura do Mato Grosso do Sul serviu para confirmar o efeito da nossa passagem, e para propiciar um novo momento para a troca de experiências.
Dos encontros improváveis que a arte proporciona, Campo Grande receberá, em menos de um ano, os dois espetáculos do nosso repertório, as duas oficinas basilares da nossa construção cênica, e pílulas das reflexões que o blog da Pequena Companhia de Teatro procura provocar (assim como a oficina que facilitarei em Natal, a mesa redonda citada acima é outra atividade provocada pelo teimoso exercício de ancorar o pensamento aqui), criando o ambiente oportuno para que a comunidade local estabeleça um contato direto com a formatação do nosso grupo, os mecanismos de encenação, nosso posicionamento político, os meios de financiamento, nossas opções estéticas, os métodos para suportar a fome, os caminhos de treinamento para o ator etc. Apesar do permanente e profícuo atravessamento geográfico que os grupos de teatro brasileiros efetivam anualmente, não é comum uma cidade ter contato pleno com todo o fazer teatral de um coletivo, por isso defendemos e aplicamos, quando possível, o conceito de ocupação alargada, já realizado em Sousa/PB, Goiânia/GO, Primavera do Leste/MT, Campo Grande/MS e, em julho próximo, Fortaleza/CE, quando ocuparemos o CCBNB durante duas semanas com a maioria das nossas atividades artísticas.
Claro que a atual conjuntura político-brasileira, e o conceito derivado dessa para as políticas público-culturais – que atende pela alcunha de desmonte – compromete, significativamente, nosso projeto artístico, pois, sem um olhar sensível do poder público, qualquer iniciativa passa a ser regida pelo canibalismo do mercado e nessa seara somo meros cordeirinhos. Portanto, inciativas como a da prefeitura de Campo Grande, focada em propiciar a fruição teatral para sua comunidade, também contribui para a resistência do teatro de grupo, ao promover uma mostra teatral, quando a nova ordem sugere que artistas devem pensar em arrumar trabalho – leia o contraponto que fiz aqui a esse chiste de mau gosto.
A atenta leitora, o cuidadoso leitor, já devem ter percebido o quanto a palavra resistência tem se repetido neste nosso muro das revoluções. Essa reiteração ocorre porque – mesmo que você não saiba, e que nenhum meio de comunicação divulgue – o teatro de grupo do país, e a arte de um modo geral, vem sofrendo uma profunda desconstrução estrutural, surda, capciosa, corrosiva, e a principal arma de que dispomos para o enfrentamento é a resistência. Resistindo vamos, teatralizando, de volta a Campo Grande.

domingo, 21 de agosto de 2016

Entretecendo a teia da revolução


Anteontem encerramos nossa participação no SESC Amazônia das Artes, e mês passado concluímos nossa circulação pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura. A experiência de circular e suas consequências já foram postas aqui diversas vezes, sobre plurais pontos de observação. Todavia, em todos, a ressalva quanto a importância dessa deslocação permanente para que um grupo de teatro possa manter uma pulsação contundente, artística e financeira.

No decorrer dos últimos anos, precisamente treze, esse exercício foi possível graças a uma atenção específica por parte do governo federal, através dos mais diversos programas de fomento ao teatro, que culminou em um fortalecimento de coletivos teatrais palpável, reconhecível, admirável. Esse esforço conjunto, operado por estes dois atores – grupos e governo – possibilitou que plateias de todo o Brasil tivessem acesso ao teatro de todo o Brasil, experiência capital para o desenvolvimento de cidadania (o espectador conhece o país através dos dizeres apresentados por cada estado), para o fortalecimento do sentido de pertencimento (o país é nosso, e cada parte dele diz da nossa identidade) e para a redução dos preconceitos de classe, gênero, região, cor, religião etc.

Agora, o grave momento político vivido e os claros e daninhos caminhos sinalizados pelo Ministério da Cultura, me provocam a reflexão quanto a pouca atenção que foi dada por nós, grupos de teatro de todo o Brasil, para a consolidação de uma rede sólida de teatro que caminhasse paralelamente à esfera pública, e construísse condições de autonomia gerencial, formativa,  financeira – não cito a autonomia artístico-criativa porque creio que essa permaneceu imutável independentemente de qualquer tipo de pressão recebida. Inúmeras experiências aconteceram, com os mais diversos nomes, e semana passada, enquanto circulávamos, acontecia o III Congresso do Teatro Brasileiro, em Goiânia. Foi pouco. Para o poder que nos foi dado na última década, nossa articulação como atores políticos foi parca, e nossa ação de construção estrutural de inter-relações artísticas e sócio-político-econômicas foi tímida, por vezes, preguiçosa.

Nos foi dada a oportunidade de tecer uma teia indestrutível, onde o poder do intercâmbio, do conhecimento mútuo, da colaboração recíproca entre vinte e seis estados de um gigantesco país seria o principal instrumento de combate às arbitrariedades e desmandos de qualquer projeto político que atentasse contra o cidadão. Sei que muito foi feito (movimentos, ocupações, congressos, encontros, cartas, manifestações etc.), o que tento dizer é que, ainda assim, foi muito pouco, se comparado às condições dadas. Não soubemos entender o momento e acreditamos que poderíamos viver, permanentemente, em um estado minimamente justo. Doce ilusão.

Nos cabe alargar o tempo despendido, aprender com a experiência, e fortalecer essa teia com caminhos além das estratégias que usamos até aqui. Talvez o sinal esteja no passado, quando o único mecanismo que o teatro amador utilizava para não ser massacrado era nada mais do que um contar com o outro. No fim dos anos oitenta, o grupo Ger“ar-te”, de Balsas, sabia que o grupo “Oásis”, de Imperatriz, estava lá, e podia contar com ele.  Recebíamos inúmeros artistas em nossas casas para falar da vida, que é o que o teatro faz. Nós somos muitos e, hoje, fortes. Poderíamos ser mais, e quanto maior essa força, maior o poder para movimentar as estruturas que engessam o poder público e, por consequência, o país.

O que tento dizer é que o poder do enlaçamento, do emaranhado, da tessitura, do embrenhar-se, do enredamento, do ajuntamento foi subutilizado. A força de poder contar com centenas de grupos de teatro Brasil adentro para assentar a nossa independência foi subestimada. Nos apoiamos nos pequenos sinais dados para a construção de uma política pública cultural eficiente (editais, prêmios, fomentos, leis, bolsas etc.) e pouco usamos nosso principal apoio, o mosaico de grupos de teatro incrustados por todo o país. O que digo agora é: podem contar com a Pequena Companhia de Teatro para o diálogo, para a reflexão, para as discussões, para as manifestações, mas, também, para o colchonete no chão, para a divisão do pão, para a toalha limpa; podem contar conosco para conseguir chegar a um dos estados mais pobres do pais com seus discursos artísticos, estéticos, políticos, que são o esteio da revolução que o teatro pode promover através da capilarização dos seus dizeres.

Sim, é um mea-culpa o que faço aqui. Como artista, fiz muito pouco. Como grupo de teatro, fizemos muito pouco. Como já disse, tenho conhecimento de tudo o que foi conseguido, e reconheço nosso esforço para conquistar o que temos. Ccontudo, se você, grupo de teatro combatente, ativo, militante, não entende que tento lançar um olhar além das nossas conquistas, ou sua vaidade não permite reconhecer o que não foi feito, não vejo solução para dissipar a tempestade que se avizinha.

domingo, 20 de setembro de 2015

Sobre fracassos, holofotes, engraxates e clichês


A aprovação do nosso projeto no Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, o ineditismo do fato, e a consequente capa no caderno de cultura do jornal O Estado do Maranhão, me fez refletir sobre o quanto dependemos de factoides para que o nosso trabalho artístico seja assimilado e reconhecido pela sociedade não vinculada às artes cênicas.

A percepção da relevância não se estabelece mantendo temporadas regulares dos espetáculos gratuitamente, oferecendo oficinas de formação, dedicando dez longos anos na construção de um dizer artístico, na consolidação de procedimentos metodológicos, ou na tentativa de alargar as opções teatrais do espectador. É preciso da manchete, do fato, da notoriedade.

A ideia do homem de sucesso, do caso de sucesso, da empresa de sucesso, do sucesso do espetáculo, do ator de sucesso, do grupo de sucesso está tão consolidada na sociedade contemporânea que por mais que você renegue esses valores o interlocutor suspeitará, torcendo a boca ao imaginar que você blefa, pois é inconcebível hoje alguém ignorar um holofote.

Ainda que o caro leitor desconfie, eu afirmo: meus valores são outros. Sobre essa perspectiva, prefiro ser um homem de fracasso. Não acredito nesses valores. Sucesso e fracasso são bases de um conceito que de nada contribuem para a formação do cidadão, do artista, da sociedade. Se o conceito de sucesso é a medição da minha sobreposição ao meu entorno posso concluir que todo o entorno fracassou, e passo a medir o meu sucesso pelo fracasso dos outros?

Há décadas abandonamos a ideia de medir a arte teatral através desses parâmetros; lutamos para que hoje 99% dos festivais e mostras de teatro brasileiro não sejam competitivos, por acreditar que não é sobre o escudo desse tipo de valores que conseguiremos mensurar a relevância de uma obra de arte para a problematização da sociedade, contudo, permanecemos reféns do reconhecimento pálido, da exposição fugaz, da notícia vaga, da visibilidade anônima.

Penso que é nosso dever romper com essa lógica e assimilar a virtude da nossa insignificância. Como sentencia o clichê, a arte é inútil, e mais inútil ainda é insistir em tentar chamar a atenção do cidadão indiferente ao nosso fazer através da exposição de um esporádico episódio de sucesso. A ação artística chegará a esse cidadão de outra forma, sutilmente, sem ele perceber, e sem a necessidade de que ele reconheça a grandeza da nossa insignificância.

Mas como sobreviver sem esse reconhecimento? Como manter uma atividade artística permanente sem a visibilidade necessária para que a sobrevivência possa ser possível? Trabalhando. Da mesma maneira que a médica, o engraxate, o feirante, a professora, o barbeiro. Nenhum deles depende do reconhecimento daquele que não necessita dos seus serviços. O engraxate não depende do reconhecimento de um homem que só usa tênis. A médica não precisa do reconhecimento do são. O barbeiro não necessita do reconhecimento de um careca. Contudo, trabalham para sanar necessidades básicas e vitais para a existência humana, e lidam cotidianamente com sucessos e fracassos diários: a graxa que manchou a calça, o sorriso do paciente curado, o alto índice de reprovação na sala de aula, a fruta que apodreceu e não chegou à boca do faminto porque não dispunha do dinheiro para comprá-la.

Com o artista não é diferente. Vivemos do entendimento daqueles que enxergam em nosso fazer um sentido para suas vidas, e esse sentido está além da proximidade do sapato, do cabelo, da saúde. É nesse interstício da vida das pessoas que a arte se mostra, com o fracasso diário de tentar alargar essa brecha e com o sucesso esporádico de encontrar cabida em outro coração inquieto.

domingo, 8 de abril de 2018

O teatro como mediador


O teatro não precisa de mediação. Ele é o mediador do humano com o mundo. Ele faz a mediação entre o espectador e o incompreensível universo que o entorna. É dele a responsabilidade de traduzir o ininteligível, de apresentar o espanto, de aflorar o entendimento. Se passarmos a construir cênicas que exijam a mediação de um programa, de um curador, de um crítico, de um debate, o que sobra para um reles mortal como eu, um humano que busca a mediação do teatro para tentar entender um mundo incompreensível? Como sobreviver sem a mediação do teatro para processar um mundo de radicalismos, fobias, racismos e arbitrariedades? O teatro precisa preservar seu poder de mediação, conduzir o acordo para a necessidade da diversidade.  O teatro precisa manter o atilamento que lhe é peculiar na árdua tarefa de desvendar o humano ser; esse lugar de conflitos, exageros, extremismos, abusos, intolerância e medo. Colocar o teatro em um lugar de expectativa, em um lugar de passividade, em um lugar de espera pela mediação para a sua fruição, é aniquilar sua principal característica, a presencialidade, o tête-à-tête com o espectador; a tradução eficaz do que o sujeito vê e o que o visto esconde. O teatro não muda o mundo; muda a leitura de mundo do espectador, e isso não pode acontecer se a relação entre o teatro e o espectador exige uma mediação.

Digo isto porque estamos em Alta Floresta, no Mato Grosso, lugar de humanos que vão ao teatro na busca de entender a humanidade. Durante os debates ao fim das três apresentações de Velhos caem do céu como canivetes – e nos mais de duzentos debates que fizemos nos últimos anos –, pude perceber isso com larga clareza. Os comentários, as reflexões, os apontamentos, tudo o que ouvimos reforça o poder de mediação que o teatro tem, a valia de ser o instrumento que favorece a compreensão das faltas, das falhas, das navalhas que cortam um país desgovernado. Se atravessarmos, obrigatoriamente, um intruso na compreensão do espectador, ele se sujeitará à opressão do conhecimento como instrumento de poder, subtraindo sua liberdade de escolhas, percepções, leituras, bricolagens.

Percebam que meu argumento vai contra a “obrigatoriedade” do mediador; põe o acento nas obras que exigem uma mediação. Então, por que e para que fazer um teatro que exija, necessariamente, ser mediado? Por que extrair do teatro seu discurso direto, que por si só, já é metafórico, poético, complexo? O que ganhamos complicando radicalmente o diálogo com o espectador? E pergunto isso desde um lugar de criação, em um grupo que tem por peculiaridade provocar a reflexão do público através de montagens complexas. Contudo, me preocuparia saber que nossos espetáculos exigem a explicação, a tradução, a mediação de outro instrumento que não a própria fruição da apresentação. Penso que esses instrumentos devem ser disponibilizados, favorecem a interlocução, mas a obra não pode ser hermética ao ponto desses mecanismos serem indispensáveis para o acesso, como já acontece em diversas experiências nas artes visuais. O que se ganha com isso? Sei o que perdemos. Quando vou ver uma peça que obriga uma mediação, seja ela qual for, me dá preguiça. Me sinto desprestigiado como espectador. Eu não preciso que ninguém me explique a obra. Eu quero errar à vontade, quero descobrir, quero brincar de entender; mas a obra precisa me dar esses caminhos, a obra precisa operar os códigos de linguagem que me permitam o acesso às camadas mais profundas, a obra precisa me dar as pistas para o meu trôpego caminho, não o mediador. Depois, o resultado disso se opera na minha cabeça das formas mais diversas, não necessariamente como o artista imagina, e muito menos como o mediador sugere. Digo, o quão complexa precisa ser uma peça de teatro para que o espectador não tenha condições de acessá-la sem uma mediação? Por quê? Para quê? Para quem?

Velhos caem do céu como canivetes tangencia esse tema, e circular pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura não deixa de ser uma oportunidade de fazer reverberar essas perguntas, e provocar as respostas. Estamos só no início da nossa jornada, e hoje partiremos para Primavera do Leste/MT, que receberá nossa oficina, outro intercâmbio, mais três apresentações e seus respectivos debates. Momentos do fórum permanente de reflexão que propomos para os nossos consortes de jornada e para você que acompanha a experiência, e as elucubrações provenientes desta. Qual será a próxima?

domingo, 3 de julho de 2016

A política da preguiça



Em 2012, durante a nossa circulação pelo Palco Giratório, assistimos ao espetáculo Cabaré, do Teatro Faces, de Primavera do Leste/MT, e debatemos com eles a encenação – prática do projeto de circulação do SESC após as apresentações. Na ocasião, também encontrávamos o querido amigo Sandro Lucose, elo entre a longínqua apresentação e a nossa proposta de ocupar o município mato-grossense com todas as nossas atividades durante a semana que hoje se encerra.
O teatro tem dessas coisas: um espetáculo, uma conversa, um amigo em comum, um contato feito cinco anos atrás, reverberam nas trajetórias dos grupos e possibilitam encontros inesperados como o que estamos vivendo aqui, graças ao patrocínio da Petrobras, através do Programa Petrobras Distribuidora de Cultura.


Quando a Pequena Companhia de Teatro pensou o termo Teatralidades foi na perspectiva de extrapolar a ideia de circulação e tentar estabelecer um conceito de permanência, convivência, entrançamento e intercâmbio com a comunidade que nos hospeda, e o primeiro passo dessa ideia encontrou eco em 2015, quando da ocupação do Centro Cultural Banco do Nordeste, em Sousa.

Agora, com o auspício da Petrobras, a experiência se estende a outras três cidades brasileiras, quando nos instalamos durante uma semana no município e tentamos entender ao máximo sua gente, as agruras, desejos, conquistas e frustrações.
Claro que nossa observação está relacionada principalmente à forma como o teatro está capilarizado na comunidade, de que maneira está inserido no cotidiano da cidade, como se confrontam a obrigação do poder público de construir cidadania e a necessidade de responder ao mercado; tentar entender em qual pé está assentada a relação teatro & cidadão.
O que se vive aqui em Primavera é uma experiência incomum. Escola de teatro, grupos, centro cultural, secretário da área teatral com profundo conhecimento teórico e prático, alunos de teatro com bolsa de estudo, professores de teatro oriundos da escola contratados para lecionar, crianças brincando de teatro, artistas vivendo de teatro, teatro em árvore, teatro em caminhão cegonha, teatro de sombra, teatro na praça, teatro de graça; e o mais surpreendente, tudo isso em um município de pouco mais de cinquenta mil habitantes.
Claro que a primeira pergunta que emerge dessa pancada criativa é: como isso é possível? Um diagnóstico mais aprofundado exigiria muito mais do que uma semana, porém, a primeira resposta que encabeça todas as outras é: vontade política. Vontade política de abraçar boas ideias. Vontade política de identificar e apoiar projetos interessantes. Vontade política de criar condições para o desenvolvimento das artes. Vontade política de contratar seu secretariado por mérito. Vontade política de não se tornar um refém do voto. Vontade política de desenvolver uma gestão programada para todo o mandato, e não para o último ano. Vontade política de ser um servidor; ressalvando que, para servir, precisa-se de vontade – infausto paradoxo.
Em resumo, não há nada mais nocivo para a sociedade do que ver seus gestores alastrando sua melancólica falta de vontade e sua aguda preguiça intelectual.
 

domingo, 4 de março de 2018

Dez mil espectadores!


Próximo a completar 8 anos em cartaz, o espetáculo Pai & Filho se encontra em curta temporada aqui na sede da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, 295, Centro), ontem, hoje e amanhã (sábado, domingo e segunda), às 19h, com uma série de peculiaridades que servirão como fio condutor das micro-reflexões fragmentadas que me proponho na postagem de hoje.

A primeira peculiaridade atravessa a política de preços da Pequena Companhia de Teatro. Depois de quase uma década em cartaz, e 25 apresentações em São Luís, ontem foi a primeira vez que cobramos ingresso para assistir ao espetáculo. Como o nosso posicionamento político assegura a gratuidade de qualquer atividade da Pequena quando for subsidiada com recursos públicos, fica manifesta a aridez de políticas públicas culturais pela qual passa o teatro de grupo do país, e percebemos claramente o quanto essa gratuidade contribuiu para aproximar um público com menor elasticidade orçamentária e, por consequência, que não tem o teatro como hábito. É fácil dizer que tem que cobrar, mas qualquer apreciador de teatro, que cresceu na labuta diária pela sobrevivência, sabe o que é ser privado daquela experiência artística única porque não tem o vintém que separa o quero do posso. Desta feita, o vintém corresponde ao valor de R$ 20,00.

Também é a plateia, peculiarmente, a estrela desta temporada. Na apresentação de ontem conhecemos o espectador de número 10.000! Nilson Carlos Costa, é o nome dele. Levando em conta que o espetáculo Pai & Filho foi apresentado majoritariamente com plateias reduzidas, esse é um número a se comemorar. Para atingir essa quantia, o espetáculo precisou se apresentar 148 vezes, em 62 cidades de 22 estados do Brasil. Um fato desses não podia passar incólume, e o sortudo ganhou um certificado que dá direito vitalício à gratuidade de acesso a qualquer atividade da Pequena Companhia de Teatro, além de um espumante que nos custou o borderô dos três dias de apresentações. A anedota me serve para ilustrar o pensamento primordial do nosso grupo. Não fosse o entendimento da necessidade de nacionalização da Pequena Companhia de Teatro, seria impossível chegar a essa plateia, pois a demanda local por um teatro focado em uma pesquisa de linguagem com menor diálogo como o mercado não possibilitaria atingir esse número de espectadores. Sempre trabalhamos com esse propósito, e durante toda a nossa existência como grupo, procuramos estabelecer o maior diálogo possível com o país, independentemente de projetos custeados, como no caso recente da nossa ida a Mossoró e Natal com o espetáculo Velhos caem do céu como canivetes. É o diálogo com os grupos de teatro do Brasil que assegura a nossa sobrevivência.

Seguindo com a relação de peculiaridades desta emblemática temporada, é a primeira vez que uma apresentação de Pai & Filho, em São Luís, não tem nenhuma relação com algum tipo de projeto que a companhia esteja desenvolvendo, a não ser o de manutenção independente. O espetáculo – que foi o primeiro do Maranhão a participar do SESC Palco Giratório – sempre esteve referendado pelos principais editais, prêmios, projetos e programas do país; e assim, ocupamos o Centro Cultural BNB, em Sousa/PB, participamos do Viagem Teatral, do SESI, circulamos pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, e ganhamos dois Prêmios FUNARTE de Teatro Myriam Muniz – estes, responsáveis pelo maior número de apresentação do espetáculo em São Luís. Essa realidade diz muito do questionamento levantado no segundo parágrafo desta postagem: em tempos de escassez, cortes de verbas, privatização, contingenciamento, mercado, estado mínimo, e toda a sorte de palavras do dicionário neoliberal, a constatação de uma aguda desidratação do teatro de grupo é a prova do eficiente mecanismo de desmonte cultural iniciado recentemente. Com política, sem política, você ainda pode nos assistir hoje e amanhã.

Pai & Filho também concentra 6 Prêmios SATED/MA de Artes Cênicas, nas categorias de Melhor Ator, Diretor, Espetáculo, Produção, Cenário e Figurino. Esse prêmio, tão criticado pela classe, me sugere uma sentença que deve transitar pelo imaginário teatral da cidade: ter prêmio SATED ou não ter, eis a questão. Penso que o prêmio nunca atingiu a potência que poderia ter, como instrumento de celebração anual, como momento de encontro, como reconhecimento dos esforços de produção de uma classe, contudo, o desaparecimento deste supera todas as carências que a sua existência apresentava? Digo, com a extensão do prêmio, ganhamos ou perdemos? Às vezes, quando a crítica não se faz reflexivamente, pode apresentar resultados que não são os mais saudáveis, e o poder desta pode ser devastador. Não estou certo se as críticas que fiz ao prêmio contribuíram para o amadurecimento do movimento teatral maranhense, mas tenho certeza que colaboraram para a extinção do prêmio. Foi o melhor fim?

E para encerrar o desfile de peculiaridades da curta temporada de Pai & Filho, que abre nosso calendário de atividades para 2018, não poderia deixar de falar do espetáculo em si. Venha ver. Vale a pena ver atores como Cláudio Marconcine e Jorge Choairy. Depois de oito anos em cartaz, vale a pena ver o quanto essas personagens se apropriaram da cena, o quão integro está o vigor e o frescor da ação; vale a pena ver o quanto um espetáculo vive, amadurece e se transforma com o tempo, mesmo que não se mude uma vírgula.