sábado, 11 de junho de 2016

Que lugar o teatro ocupa em sua vida?


A Pequena Companhia de Teatro abriu as portas da sua sede há mais de três anos. De lá para cá, foram ofertados, gratuitamente, diversos espetáculos, oficinas, palestras, seminários, encontros, reuniões, lançamentos, jantares. Por aqui passaram, aproximadamente, mil e quinhentas pessoas. Recebemos artistas dos mais diversos lugares do Brasil, primordialmente para visitas, e todos, sem exceção, ficaram encantados com as condições de trabalho, a beleza do espaço, a riqueza de detalhes que favorecem o fazer teatral, o conforto oferecido para cada espectador que aqui se aprochega.
Contudo, o curioso, é que há conhecidos íntimos – aqueles que cordialmente chamamos de amigos – que não conhecem nossa sede, nunca assistiram a uma das cinquenta apresentações de espetáculos teatrais que aqui aconteceram, e sequer conhecem o endereço. Minha bajulação incessante para conseguir a atenção de alguns beira a humilhação, portanto, nem o argumento da desinformação, nem a desconfiança qualitativa valem para justificar a ausência de interesse, a não ser que seja da turma do “não vi, não gosto”.

Não. O que faço aqui não é um reproche. Apenas indago: qual o lugar que o teatro ocupa na sua vida? Se o caríssimo leitor, que acusa o golpe semanal de ler esta postagem, puder se perguntar, avaliando as consequências da resposta para o fazer teatral maranhense, estará nos auxiliando no diagnóstico do nosso espectador assíduo e do nosso conhecido íntimo.
O país vive um momento obscuro, e todos nós, que fazemos teatro há mais de vinte anos, sabemos no que tudo isso vai dar. Nesse quadro, se a tragédia se confirmar, o único esteio que permanece é o elemento basilar do teatro: o espectador. Mas, como continuar erguendo a utópica torre de papéis se a sustentação é frágil a ponto de não atingir aquele que seria o primeiro a fundamentar nosso propósito?
Provocando a discussão, refletindo, indagando: qual o lugar que o teatro ocupa na sua vida? Sim, a pergunta é sobre o teatro, e não sobre a arte. A música você pode ouvir em casa, o livro, lê-lo no ônibus, o quadro pode estar na sua parede, mas, o teatro, precisa de você, ali, frente a frente, para poder existir.
Sou da opinião de que o público que se tornou cúmplice da nossa empreitada na última década é a coisa mais preciosa e inimaginável que um grupo de teatro pode conquistar; basta fazer um pequeno retrocesso no tempo, como escrevi outrora aqui. Entretanto, é necessário diagnosticar as condições em que se estabelece a relação entre teatro e espectador para que, passada outra década, nossa surpresa seja ainda maior.
Porém, e principalmente, é preciso estar em permanente estado de autocrítica. E é o que aqui também agora faço. Para nós, que fazemos um teatro mais reflexivo, com um diálogo menor com o mercado, a chave inicial que se apresenta é a de extrapolar os limites do conhecido íntimo, do artista, do apreciador de arte, do professor, do aluno.  Estender nosso alcance ao cidadão plural, aquele que está no ônibus, no consultório, na feira, no bairro, na padaria.
De que maneira fazer isso é que são elas, ele, tu, eu, vós, nós. Enquanto isso, se você não gosta tanto de teatro, venha pelo menos conhecer o jardim, e o jardineiro.
 

12 comentários:

Luciana Duarte disse...

Convite encantador! E se ninguém escuta? Continuamos resistindo!

Jorge Choairy disse...

Foram todos contaminados.

Marcelo Flecha disse...

Catatônicos...

Rute Ferreira disse...

É a pergunta que me faço desde março de 2010, quando o teatro se tornou uma parte efetiva de minha vida. De lá pra cá, fiz tal pergunta como artista, como professora de Arte, mas essencialmente, como espectadora. E sabe o que descobri? Que embora seja conhecido pelo momento fugaz, pelo instante, o teatro me oferece a relação mais estável, talvez por isso mesmo. É no teatro, e não no cinema ou na pintura, que me sinto mais profundamente tocada e em contato com os outros. E não é só porque o espetáculo é vivo e acontece diante de mim, naquele instante. É por isso também, mas talvez seja mais porque eu sei que nunca terei o mesmo toque de novo. Já vi Velhos Caem do Céu Como Canivetes quatro vezes, se não me engano, e cada vez ele me acaricia em um sentido. Como recusar?
Se o teatro ocupa um lugar de prioridade pra mim, ainda é cedo pra que eu possa dizer. Fiz do seu conhecimento profissão, mas sei que é preciso ser bem mais que isso pra ser prioridade.
Minha relação mais profunda com o teatro é como espectadora, de fato. É a MINHA ligação. Não a que exponho aos meus alunos, não a que diretores me pediram pra fazer... É a ligação dos meus sentidos com a arte que conheci lá em 2007 - como espectadora - com um espetáculo de escola feito de um jeito que eu nem sabia ser possível. O prazer. E se é verdade que o "amor só se mede depois do prazer", o teatro vai me ter sempre amante.

Um dia descubro qual o lugar dele por aqui. Até lá, um brinde ao bom teatro.

Marcelo Flecha disse...

Seu depoimento vale uma "print", Rute! E continue aqui, para descobrirmos juntos!

JeyzonLeonardo disse...

O teatro?
A minha vida?
Sentidos?
Busco, sempre nas três formas de viver, e quando algum me falta ou ameça não está presente, sufoco.
Poderia ser uma pessoal normal, com hábitos normais e queres normais, mas a anormalidade de ser tudo e ninguém no teatro é o que me move.
Não saber a cada início de espetáculo como seremos, mesmo sendo, é de um gosto n'alma.

Marcelo Flecha disse...

Cássia Pires disse:
"Querido Marcelo Flecha essa sem dúvida é uma discussão instigante. Como sabemos no nosso país tem se agravado esse esvaziamento nos teatros, em São Luís sempre podemos perceber um público específico, parece que a cidade só comparece aos espetáculos "que vem de fora", sem contar que um país que não se prioriza a educação isso se constitui como um cenário bem comum. Já tive vários alunos na Universidade que nunca foram ao teatro, as vezes os levava para fazerem tal estréia. Creio que a problemática é intensa e que precisamos de um árduo trabalho afim de "formar" público. Que possamos reforçar o diálogo sobre esse assunto afim de que tenhamos uma troca maior no palco, afinal é por eles e pra eles que a obra é feita.
Obs: aqui em Portugal tenho que comprar com muita antecedência. Sempre cheio. Isso independentemente de qual tipo de proposta, lotam desde os clássicos aos experimentais e de pesquisa. Seja em teatros fechados ou em programações ao ar livre. Enfim, é importante se perguntar que lugar é esse mesmo."

Marcelo Flecha disse...

"Flávia Teixeira disse:

Ao ler penso em duas frases ouvidas recentemente por essas bandas... Vou colocá-las na ordem de entrada em meus ouvidos, olhos, sentidos, fazer e paralisia...

A primeira citada frequentemente pela Maria Thais em uma história que ela costuma contra sobre um dos mestres, o Jurij Alschitz que lançou:

Vocês vivem a vida e visitam o teatro ou vivem o teatro e visitam a vida?
...

E a segunda ouvida nessa semana:

Se o teatro amanhã deixar de existir... Só quem vai sentir falta somos nós os fazedores! O resto do mundo não vai sentir a mínima falta.

Só para contextualizar estávamos falando de quanto a nossa arte é feita para nós mesmos e essa onda que acabou de passar sobre a ideia de nós artistas somos "vagabundos".

... Eu por aqui continuo querendo viver o teatro! E aí sair encontrando gente! Visitar a vida e vivê-la também porque é a matéria-prima! E acreditando que se permanecemos até agora... O mundo! A vida e as pessoas sentirão falta sim!

😘"

Marcelo Flecha disse...

Marcia de Aquino disse:

"Flecha, o convite de "conhecer o jardim ou o jardineiro" é instigador. Converso com muita gente. Sou da linha de "dar bom dia a cavalo" rsrs. Observo sempre quem está ao lado da sala que treino balé ou dos lugares que dou aula. Conheço uma senhora desde que tinha 7 anos de idade. E quando eu era adolescente, ela me disse que nunca tinha assistido um balé no Taa porque não tinha "roupa adequada". Detalhe: ela trabalha na esquina do Taa. Eu, EU, marcia de aquino, não gosto desse espetáculo que exige protocolo para ser espectador. Creio que num lugar em que não existe diálogo com as pessoas (no combo "pessoas" estão todas as pessoas, não só aquelas que possuem iniciação sensível a espetáculos) fica difícil o "namoro" TEATRO+ESPECTADOR."

Marcelo Flecha disse...

Republicando aqui alguns comentários sobre a postagem, feitos em redes sociais.

Marcelo Flecha disse...

Fátima Diniz disse:

"Como espectadora, na infância, as idas ao TAA e no teatro das igrejas, Santana e São Pantaleão, depois encenando nas datas religiosas, teatro de rua, passagem pelo Labô, com alunos da rede municipal de Alcântara, nos anos 90. Parceria e cumplicidade com o espectador, uma relação necessariamente promíscua. Nos dias que corre, estou bem distante. Pretendo voltar a assistir o trabalho da vossa Pequena Companhia. Abraços."

Nilson Carlos disse...

Eu acho que essa pergunta também é pertinente pro outro lado: quantos atores frequentam de fato espetáculos, estudam, pesquisam e se engajam? Também reflito sobre a pretensão de se atingir o cidadão plural sem subestimá-lo e paro no mesmo questionamento teu. E mais: pergunto-me se isso também depende de mim. Há alguns anos acompanho o teatro e já chorei inúmeras vezes pelo absurdo de realidade que me punge nessa expressão. Ciúme. Eu, que insisto em fazer poesia, desespero de medo de não atingir o outro. Mas confesso que foi tarde. O teatro podia ter chegado mais cedo a mim. Tanto desejo que esta hora não demore tanto ao outro.

Quero oficinas, chamem-me!

Abraços, Marcelo!