domingo, 26 de junho de 2011

Do ensaio à cena – um rito de passagem

Cada ofício tem sua própria liturgia. Um dos elementos que compõe a liturgia do teatro é o ensaio. Cada vez mais tenho me deparado com convites para ver montagens que não têm respeitado esse elemento, e produções chegam à estreia com quinze, vinte, trinta ensaios – como se a genialidade permitisse experiências dessa natureza. O fazer teatral exige tempo, maturação, rigor, disciplina e um pouco de frescura para não perder la ternura jamás. No entanto, tenhamos respeito pelo espectador. Se não está pronto, ensaiemos até ficar. Uma das desculpas usadas para esta atitude responde pela alcunha de Processo. Digo: o processo é fundamental, mas não é o fim, é o meio para se chegar a um fim – o espetáculo. É interessante chamar o espectador para acompanhar um processo (nossa próxima montagem contemplará a experiência), mas o avisem de que disso se trata. Não o exponham àquela rotineira expressão final de quem não sabe onde foi que se meteu. Ensaio é ensaio, processo é processo, espetáculo é espetáculo. Vão me chamar de careta, eu me denominaria espectador.

7 comentários:

Rosa Ewerton Jara disse...

Total e absolutamente de acordo com isso. Acho que também posso entrar para o rol dos "caretas". É que sou de um tempo em que era preciso ensaiar exaustivamente para se faze teatro. E mesmo assim, isso não era garantia de um bom resultado. Virou modismo essa história de apresentação de "processo". Deviam era ser processados como embusteiros esses gênios que vivem desse expediente. E há, ainda alguns, mais corajosos, que ousam cobrar entrada. E teatro que é bom, nada...

Marcelo Flecha disse...

Que alegria ler suas palavras! Apareça!

Catarina disse...

Também concordo contigo. Não sou diretora, faço algumas oficinas e nem me denomino "atriz", mas já percebo a necessidade do ensaio exaustivo. Me estresso com meus colegas que querem ser atores e fazem um ensaio meia boca e se acham o máximo. Essa qualidade de ator eu quero longe de mim.
Certa vez me falaram: se faz no ensaio, faz em cena.
Logo, quer dizer que um hábito ruim do ator tem que ir para cena, ou não pode cortar o mal pela raiz assim que identificado?
Sou muito detalhista, não iria conseguir... mas enfim...
abraços!

diariodoandre.com disse...

Concordo.

Fernando Yamamoto disse...

Outro expediente "da mais alta periculosidade", como diria o meu amigo Xico Sá, é o tal do "experimento". Sob essa alcunha, entramos na era do pós-dramático-vale-tudo... "Em processo" é ensaio aberto, não é espetáculo. Ensaio em francês é repetition, ou seja, como profetiza o velho Brook, não há segredos, o segredo é trabalho... Abraço!

Gilberto Freire de Santana disse...

Ainda bem que não sou pós-modernoso e não tolero mais essas 'viagens'. Estou velho em demasia para essas aventuras infantis.

Rosa Ewerton Jara disse...

Nem precisa ser "velho", Gilberto. Só ser sério em relação à Arte, como diz Yamamoto, trabalhar, repetir até a exaustão e depois, mais uma vez, repetir e nunca se acomodar no "achar que já está bom", muito menos usar o público como cobaia dos seus "experimentos"... Tem muita baboseira por aí e eu estou me sentindo cada vez mais jovem e mais esperta diante do que tenho visto...