domingo, 19 de março de 2017

A cosmética do pensamento


Um amigo, curador e crítico teatral, ao se referir a mais uma das infindáveis polêmicas da semana, brincava, em uma rede social, sobre a diferença entre pensamento, autoajuda, sabedoria, reflexão e afins. O comentário, contido de deliberada despretensão, caiu sobre minha cabeça com o peso da Biblioteca de Alexandria.
O que, efetivamente, tenho escrevinhado aqui? A ideia de fazer parte de uma cosmética do pensamento atropelou meu juízo, e desde a leitura do despretensioso comentário, não consigo deixar de me ver como um fantoche a serviço da rede, elucubrando formas de externar o que penso, como se isso tivesse alguma relevância. A função do exercício, para mim, sempre foi clara, a de assentar angústias, pensamentos, reflexões que faço; mas para esse fim bastaria arrolá-las em alguma espécie de diário, caderno de cabeceira, lista de tiradas, arquivo como atalho no desktop. A pergunta que já se reiterava, e que agora assume cinquenta tons de cinza (desculpem-me o trocadilho infame) é: qual a função de tornar esse exercício público?
Como sempre levei uma vida pacata, abrigada – com indícios de sociopatia para alguns, e de egoísta reserva para outros –, vi na proposta lançada por Jorge de criar um blog, uma alternativa de conexão com o exterior, uma forma de interlocução nova, onde pudesse organizar um pensamento mais estruturado, diferentemente da fugacidade oferecida pelas redes sociais – como já versei aqui sobre tudo o que versarei a seguir, abordando outros aspectos. Nesse exercício vão-se sete longos anos de ininterrupta provocação, reflexão, confissão, análise, crítica, com a despretensão que me é cara, mas sem o fantasma de frivolidade que agora me assola. Não, não quero isso. Não era essa minha intenção. Mas, como saber se essa prática de escrita serve a deus ou ao diabo – sim, perdoem meu preconceito, mas autoajuda, para mim, é coisa do capeta –, pergunta o ateu? O que pode se produzir de sentido no limite de uma postagem? Quanto de reflexão cabe na brevidade da blogosfera? A exposição não seria apenas uma forma de revelar uma personalidade narcísica?
Penso teatro, preponderantemente. Esse pensamento busca entender melhor o nosso fazer; problematizar, na medida do possível, algumas amarras entorpecedoras; contestar máximas imutáveis, tão frágeis quanto bolhas de sabão; e tentar aferir ao contemporâneo o seu lugar, o de ser novo na medida em que o novo é um velho amigo de tudo o que já foi. Mas, tudo isso serve a mim, no máximo a nós, membros da Pequena Companhia de Teatro. Logo, como mensurar se o valor do pensamento merece extrapolar as fronteiras da Rua do Giz? Não consigo uma resposta.
Com o passar dos anos – e eles passaram até me aproximar do meio século – tenho tido menor capacidade para responder, e uma abusada necessidade de perguntar, provocando respostas que exigem um ouvido atento, fato que se contrapõe à prática que me obrigo aqui; então, para que se precipitar no abismo das considerações?
Talvez alguma resposta esteja incrustada no próprio pensamento; o de ser a expressão mais concreta do espirito humano, o que nos diferencia, o que nos torna uma massa de carne criadora do mundo que conhecemos. Quiçá, na minha bruta formação, foi no pensamento que encontrei o melhor caminho para o parco conhecimento que carrego – o “parco” é a contra modéstia da personalidade narcísica citada acima e escamoteada até aqui. Talvez seja a forma que encontrei para sobreviver, neste exagerado novo mundo de bestagens, vazios, vaidades, aberrações e banalidades; apostando na transformação da vida a partir das reflexões geradas no caminho para a morte.
Como advertido, e mais uma vez, só tenho perguntas. Talvez essa seja a real motivação. Através deste instrumento – o blog – consegui encontrar os interlocutores necessários para dar as respostas às perguntas que passaram a me acabrunhar na derradeira etapa da vida; e das formas mais variadas – o comentário no blog, nas redes, a interpelação do leitor na fila do teatro, a ressalva feita pelo amigo no sofá da sala, a mesa redonda provocada pelo assunto abordado na postagem – esse interlocutor se apresenta para amenizar a grande angústia, a que constrói o humano ser por não saber de coisa alguma.
Talvez. Não sei. Só sei que diante da possível pecha de esteticista de autoajuda lhe peço, encarecidamente, me outorgue o emblemático, pitoresco e descompromissado título de filósofo de botequim.

5 comentários:

Piahuy: Estúdio das Artes disse...

Um grande mestre de teatro me repassou a seguinte doutrina que considero muito válida: "- Para chegar onde estou, e poder decidir minha vida artística conforme minha vontade, tive que vender minha alma ao diabo diversas vezes, em diversas proporções, e nas mais constrangedoras circunstâncias. Doeu, não nego. Mas meu presente é fruto do meu passado, e hoje estou no lugar que sempre desejei estar."
O mundo, e o teatro que ele contém, não se muda dentro de gavetas. Cada um que escreve, fala, cria, contribui com um verso. Se é exercício narcisista? Pode ser que sim e pode ser que não. A luz nasce em todo lugar, as trevas também. Tudo serve a propósitos insondáveis, acreditemos ou não. Amor ou egolatria separam-se na medida das motivações.
Abração Flechovski.

Marcelo Flecha disse...

(Risos) Esse teu mestre é um charlatão, um fanfarrão, um embusteiro... Mas você consegue, na dúvida que permeia a existência da postagem, me mostrar que ainda vale a pena. Obrigado, amigo. Abraço!

Bárbara Paiva disse...

Sua fala provoca, inquieta, desassossega...
Para os fazedores de arte, ou não. Suas perguntas geram respostas, perguntas, duvidas, certezas!
Lê-lo é alimentar-se!

Marcelo Flecha disse...

Quando vejo, ouço ou leio você, só penso naquela feijoada maravilhosa que você nos ofereceu! Obrigado, pela leitura, mas, principalmente, pela feijoada! (Risos)

Bárbara Paiva disse...

Alimentemo-nos então, de arte e feijoada!