sábado, 8 de outubro de 2016

Sonhando com a realidade sem sonho


Sonhei que o ser humano sofria uma grave mutação na garganta. Sutil e gradualmente, perdia a capacidade de gritar e desenvolvia a capacidade de engolir. Como o grito caíra em desuso antes do fenômeno que o sonho anunciava, pouco se percebia a gravidade da mutação, e a sociedade caminhava aliviada, em silêncio e engolindo tudo.
Bizarro. Engolia-se tudo, sem gritar. A garganta se tornara um bueiro, uma fossa, alargada pela quantidade de matéria e miséria que por ela passava, e a deglutição aumentava, impossibilitando a saída do grito que tentava trafegar em sentido contrário, sem sucesso. Tudo era engolir, tragar, ingerir. A falta de grito gerava uma falsa ideia de tranquilidade, de controle do caos, de encaixotamento sistêmico, de domação da anarquia, de ressignificação da utopia.
Engolia-se professor de teatro, filosofia, educação física e sociologia em uma mesma tragada. Mesmo que esses quisessem gritar não adiantava, porque o sistema já os tinha engolido, e agora faziam parte do grande bolo alimentar que levava o nome de reforma. A privatização era engolida com o tempero da concessão, e por essa garganta passavam parques, autódromos, petroleiras. Engolia-se PEC, CLT, USA, em uma grande sopa de letrinhas.
A garganta tornava-se tão profunda que chegava a ser obscena. No sonho, engolia-se homofobia, racismo, tortura, pedofilia, machismo. Onde antes sopravam gritos anticorrupção agora engolia-se pactuação. Também, por essa mesma garganta, passavam os goles de whisky, enquanto as varandas gourmet cozinhavam direitos sociais, trabalhistas e culturais para degustação; o grito da delação dava lugar ao gole de negociação; o grito de fúria virava fuagrá; engolia-se voto, vitória, maioria; engoliam-se as minorias.
O novo sistema digestivo era tão perfeito que ministérios engoliam ministérios, secretarias engoliam secretarias, turismo engolia cultura, restituição de posse engolia ocupação. Em alguns casos, a secretariofagia acontecia sem se ouvir um grito, porque os cargos, contracheques e contratos engoliam a ética, a decência, a transparência, a moral.
Nem mesmo o teatro, que figurava como instrumento de confronto, sustentava o grito. Era tragado pelo mercado, pelo sucesso, pelo público a qualquer preço, pela necessidade de dialogar com o capital, com o vil metal, com o material. O teatro deixava de ser o contraponto, o contrassenso, o contrabando; o teatro virava a cereja do bolo pronta para se degustar.
A autofagia foi tamanha que a garganta engoliu o próprio grito, e ninguém mais protestou. Ao acordar, sobressaltado, me perguntei: qual é o mundo que quero para os meus não-filhos? Intrigado com a falta de nexo entre a pergunta que me afligia e o sonho antropofágico que me acordava, respirei fundo, dei um grito mudo, e voltei a dormir, em silêncio.

4 comentários:

Hamilton Lima disse...

Rapaz, essa luta da garganta e do estômago contra aquilo que se engole parece com uma ruminância. Nesse caso o grito poderia ser um regurgito, se resistência. Ou será um vômito, por negação?

Acho que o grito, quando reduzido a palavra de ordem, soa um pouco como um ato domesticado, às vezes civilizado demais, preso ao argumento, e um argumento, ao disputar a propriedade da razão, é quase sempre medroso, constrangido pelo contexto, pelo possível, pelo que será entendido pelo outros... ê boiada!

Mas, e se fosse um fonema que fugisse à lógica usual, que exprimisse a força do corpo em reagir ao que o contexto tenta lhe imputar e lhe fazer engolir garganta a dentro, seria então um ato digestivo caótico libertário? Qual seria o seu som?

Depois de ler teu texto, fiquei pensando, talvez duvidando, mas querendo acreditar: um grito pode mesmo afirmar a resistência do corpo contra a lógica da passividade e da ponderação, quando isso trouxer dor à existência? E se, sim, existissem coisas que só o teatro fosse capaz de fazer pelo mundo? Um palco, por ser inútil, produziria um grito subversivo?

Vou ruminando...

Anônimo disse...

Tempos tão estranhos... O teatro por aqui tem aberto canais... Ja tem gritado em alto e bom tom... Ouvi esse grito no avesso do claustro, no tragedia e comedia latino americana e mais recente no "Nós" do Galpão! É tempo de ressistencia! E de Atos! Ações! Tempo de fortalecer os nossos! Tempo de guerra! De estrategias! O que se anuncia é doloroso! É tempo de reinventar-se!!! Sigamos!


Flavia Teixeira

Eraldo Maia disse...

Caro parceiro, Flecha. Ando um pouco mais otimista, não que creia no que os políticos e a política nos reservam, mas encorajados por nossa disposição de brigar sempre, como você faz agora.

Ainda há tempo
Eu, corpo rijo na fotografia de marfim,
mãos enrugadas, coluna enrijecida:
artroses que dizem não ao desejo de voar.
Na cabeça, um prego segurando antenas;
nos pés, rodinhas de rolemã:
sonho de ir além,
beber a salmoura da vida,
encher de trapo os nós de minha cintura
e dançar com Yanomamis,
embriagado do Daime da floresta.
Eu, de limitado vagar nos passos,
decifro na madrugada o latido dos cães,
e atravesso insone a noite interminável.
Eu que tantas promessas fiz ao suicídio,
pego-me ao fogareiro queimando ervas
que me decifrem o enigma da longevidade.

Marcelo Flecha disse...

Ruminemos, sigamos e briguemos, Hamilton, Flávia e Eraldo!