domingo, 7 de agosto de 2016

Como crescer ficando pequeno?


Com a recente aprovação da nossa ocupação do Centro Cultural BNB de Fortaleza, em novembro, através do Edital de Seleção de Projetos Culturais, chegamos a pouco mais da metade do ano de comemoração da nossa década de teatro passando por três regiões do país, Norte, pelo SESC Amazônia das Artes (terça-feira partiremos para a 2ª etapa), Centro-Oeste, pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, e agora, uma mordiscada no nosso Nordeste. Ainda temos três meses livres para convites do Sudeste e Sul para fecharmos o aniversário com chave de roda.

Isso tudo que o parágrafo menciona, e que nos alegra profundamente, esconde um fato gravíssimo que vimos percebendo no decorrer dos últimos anos, e que hoje, como de costume, exponho aqui no blog, este muro de indagações: como crescer mantendo-se pequeno?

A pergunta pode parecer anedótica, mas explicarei seu propósito antes mesmo de você tentar responder ou desvendar. Durante os últimos anos percebemos que nossas conquistas e o robustecimento do nosso currículo tem sido prejudicial na busca de alguns mecanismos de viabilização teatral – leia-se editais e projetos de ocupação, circulação, montagem, manutenção etc. Acredite, o fato de termos nos tornado uma companhia de teatro estruturada, contínua, profissional e produtiva, virou, em certa medida, um problema.

A assertiva vem sendo percebida por outros grupos de teatro parceiros, de trajetórias incomparavelmente mais contundentes que a nossa, o que reforça a necessidade do debate que proponho a partir desta explanação: pode algo ou alguém ser punido por sua excelência? Claro que quando uso o termo excelência estou me referindo a eles, pois nós ainda galgamos, aos sobressaltos, um trilhar na busca de atingir o patamar das nossas referências, que, na maioria, são coletivos teatrais de queridos amigos.

Essa realidade pressupõe que grupos de teatro consolidados são tão estruturados que prescindem dos poucos instrumentos de apoio à produção teatral que existem no país, e que vivem em condições estáveis e confortáveis. O equívoco nefasto esconde a principal realidade de 99% dos grupos de teatro brasileiros, o de não fazerem a menor ideia do que acontecerá com eles no ano seguinte, independentemente do estágio de organização que o coletivo tenha atingido.

Se a esse problema estrutural soma-se a desconsideração por parte dos mecanismos de viabilização cultural, por pressupor a não necessidades desses, pode-se deduzir que quanto maior a trajetória do grupo maior a possibilidade de que ele acabe, o que forja um contrassenso tipicamente brasileiro. Então deveríamos tentar não crescer? Ficarmos um pouquinho piores? Não deixar transparecer nossas conquistas? A querida leitora, o caro leitor, entenderão que o dilema que aqui exponho, apesar de seríssimo, é tão irônico que não me privaria jamais de utilizá-lo para uma chacota: devemos camuflar nossas vitórias e alardear nossas derrotas?

Entendo que o favorecimento ao novo, à iniciação, ao começo é fundamental para a oxigenação da arte, e que todo aquele que começa precisa de apoio para poder se desenvolver, porém, também é verdade que nós começamos na unha, sem apoio nenhum, totalmente clandestinos, e tivemos que provar, a muito chão, porrada e decepção, que estávamos aptos a receber algum tipo de aceno, e nem por isso desistimos.

Mais uma vez vou tropeçar na ausência de políticas públicas, único caminho para aprofundar a compreensão da necessidade de estudos, mapeamentos, diagnósticos e apreciações que a sofisticada linguagem teatral requer; para que problemas capitais como o que aqui exponho não se alastrem, tornando-nos professadores de falácias com a tese de que quanto melhor for o grupo de teatro para a comunidade pior será para ele. Somente políticas públicas bem estruturadas conseguem enxergar além do óbvio, e problematizar questões que fogem do senso comum, do debate virtual, do bate-boca em rede social. Na atual conjuntura, esse sonho está ficando cada vez mais distante, e continuaremos, indefinidamente, tentando fazer no peito o que os governos não fazem por puro desrespeito.

Claro que você, que está começando a fazer teatro, deve pensar que reclamo de barriga cheia. Na verdade, e mais uma vez, estou pensando no seu futuro, se você tiver estômago, persistência, criatividade, coragem, ideal, ânimo e paciência para chegar até lá.  

9 comentários:

Francisco Antonio Vieira Vieira disse...

Temos sofrido no decorrer dos anos este mal... 30 anos pesa muito e nos afastar de muitos recursos e instrumentos de fomento a nossa manutenção.

Marcelo Flecha disse...

Salve, Pellé! A postagem homenageia o Harém, uma das maiores referências de manutenção de grupos teatrais. É bom ver seus comentários por aqui!

Luciana Duarte disse...

Penso e digo que amanha será um novo dia... esperança esta sempre comigo... Dias melhores. Quem esta nessa trajetoria de infortunios e Glorias minha reverência e respeito. Adiante...

Jacqueline Lemos disse...

Ler e aprender. Gosto deste blog por isso. parafraseando Anne Sexton, diria que nem o amor, nem uma tosse e menos ainda uma trajetória de resiliência, persistência e sucesso podem ser disfarçados.

Beth Néspoli disse...

Muito a pensar sobre isso, Marcelo Flecha. Quando trabalhava como repórter no jornal O Estado de S. Paulo lembro de ter tido ao menos uma longa conversa sobre isso com Eduardo Tolentino de Araújo, diretor do Grupo Tapa. Com 30 anos de existência, à época (primeira década do século 21), e quase dez peças em repertório, o Tapa acumulara (e ainda acumula, segue na batalha) um amplo acervo de figurinos, cenografia. Onde guardar? Qual o custo de manter tudo isso? O Tapa alugava um grande espaço só para isso. Assim, o grupo precisaria de apoio mesmo nos períodos em que não tivesse nenhum espetáculo em cartaz, não é? Mas quando se trata de patrimônio material é sempre mais fácil pensar em termos de artes visuais (ainda que apoios não sejam fáceis para nenhuma área artística, é preciso dizer) do que em arte teatral. E mais ainda. No caso de certos grupos os apoios não vêm de lado algum, porque costumam ficar fora do ângulo de visão dos integrantes de comissões de fomento à chamada vertente experimental da cena e também do apoio via leis de incentivo, cuja decisão e escolha vêm de empresas que querem patrocinar criações de apelo mais comercial para fazer o seu marketing para o grande público. Esse problema atinge companhias que costumam ser definidas como estando no intervalo entre uma vertente e outra, penso em grupos como o Tapa e o Cemitério de Automóveis, este último de Mário Bortolotto, ambos sediados em São Paulo (a primeira veio do Rio, a segunda de Londrina). São duas que penso assim, de imediato, mas são muitas no Brasil inteiro. Se houvesse um interesse político em criar um amplo projeto de fomento às artes, todas essas questões seriam pensadas de modo a ter diferentes programas voltados para as reais necessidades de cada vertente, em todos os campos da arte. Em vez disso, programas esparsos, sem vinculação entre eles, muitas vezes acabam por alimentar o crescimento daquilo que já conseguiria apoio privado (lembremos dos milhões vindos de renúncia fiscal para Cirque du Soleil entre outras aberrações) e deixam à míngua projetos que realmente precisariam de apoio público. Desviei do seu tema, mas você estimulou a expansão da crítica. Quanto ao que você diz, sim, acontece muito também, o grupo está supostamente estruturado e não precisa mais de apoio. Isso ocorre porque falta diferenciar, o que seria papel da tal política pública. Na França, por exemplo, só para dar um exemplo, companhias já sedimentadas, recebem do governo, anualmente, o complemento do que não conseguiram com bilheteria. Isso estimula a relação com o espectador e, ao mesmo tempo, não cerceia a liberdade de experimentar sem ter necessariamente de agradar a muitos.

Marcelo Flecha disse...

Não acho que tenha desviado não, Beth. Acho que são emaranhados do mesmo problema, e a conclusão do seu comentário apresenta um solução simples e eficiente, que eu jamais havia pensado. Claro que para isso é necessário tudo aquilo que a postagem aborda e que seu comentário reforça, mas já é um caminho para se pensar em alternativas no que se refere a políticas públicas para essa questão. Grande abraço, e apareça sempre que puder!

Marcelo Flecha disse...

Luciana, sua esperança me comove! Devem ser os anos e as pancadas que nos separam, mas sua força nos ajuda a continuar, avante!

Marcelo Flecha disse...

A paráfrase é ótima, Jacqueline! Mas o melhor é saber que este exercício de provocar reflexões por aqui faz algum sentido!

JeyzonLeonardo disse...

Em Mossoró/RN a Companhia A Máscara de Teatro juntamente com a Cia. Pão Doce de Teatro alimentam um Projeto intitulado " Espetáculo Espaço Artístico",uma sede para que as companhias possam se exercitar com temporadas insistentes, um espaço onde montamos, recebemos parceiros da arte e vemos que continuar é pura resistência artística, que ultrapassa qualquer entendimento numérico, não há patrocínios, apoios, padrinhos. há artistas lutando todas as noites para manter leões vivos. A Pão Doce em Circulação pelo País junto ao Palco Giratório, leva consigo o nossos sonhos e lutas e nessa trajetória tem nos informado o quão duro cada artista tem enfrentado neste país para fazer o que sabe, gosta e alimenta muitas almas. daqui A Máscara de Teatro mantem viva a arte de um grupo, a cultura de uma cidade inteira, esquecida pelos desejos politicos e floreia os olhos sociais que se atrevem a embarcam em nossa viagem.

lutemos.