domingo, 24 de julho de 2016

Relato confessional sobre um conflito existencial


Durante toda a minha vida teatral me esquivei da palavra método quando se referia a práticas e teorizações organizadas por mim para o desenvolvimento de um ator pleno. Processo metodológico, treinamento, prática metodológica, metodologia, sistema, uma sorte de expressões e termos que serviram para camuflar, esconder, velar o desenvolvimento de algo que, ao nomenclaturá-lo como método, manifestava uma pretensão não condizente com o sentido da minha trajetória, porque, aos meus ouvidos, as palavras método e metido forçavam uma paronímia constrangedora.

Hoje, quase trinta anos depois de uma lida permanente e conflitante com o teatro, me pergunto: por que não chamar nosso sistema de operação do Quadro de Antagônicos de método? Pode ser insignificante, ineficiente, trôpego, claudicante, mas, tecnicamente, não seria um método, quer eu queira querer ou não?

Para simplificar o diálogo comigo mesmo recorro ao dicionário, e transponho a definição: 1) procedimento, técnica ou meio de se fazer alguma coisa, esp. de acordo com um plano. 2) processo organizado, lógico e sistemático de pesquisa, instrução, investigação, apresentação etc. É o que desenvolvemos, no mínimo, há mais de uma década com o Quadro de Antagônicos. Sei que o fato nomenclatural é irrelevante, mas o que faço aqui é um desafogo quanto à minha angustiante relação com essa palavra, instrumento de cânones intocáveis da teoria teatral.

Não sei se o que expresso tem alguma importância, nem se resolve o meu conflito, mas creio que desmistificando publicamente certos conceitos arraigados em mim, endosso a desmistificação de outros tantos que engessam o fazer teatral, principalmente para que novos agentes não demorem trinta anos como eu para se livrar de alguma amarra. Todo engessamento na arte é nocivo, inclusive quando o gesso vem da resistência em se engessar com uma palavra – haja dicotomia paradoxal para justificar essa última frase!

É isso. O breve comentário que aqui faço sobre o tema, e que me é tão incômodo, foi provocado em uma das oficinas que ministrei recentemente pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, quando o caro Táliton questionou meu receio e opôs-se contundentemente à minha resistência em utilizar o termo. Como o tempo na oficina não possibilitava minha réplica, prometi que a faria em uma futura postagem. Eis.

E agora, caro leitor, o meu sussurro final. É assombrosa a função confessional que, por momentos, este instrumento [o blog] exerce sobre minha vida profissional e pessoal – que nada mais é do que tratar de teatro dentro de casa. Espero que tenha alguma valência para você, pobre confidente a quem convido a receber a confissão. Não fosse assim, eu morreria seco.
 
 

4 comentários:

Rosianne Silva de Jesus disse...

Eu participei e pude interagir com este método de forma prática com você. Creio ser mais simples, Creio que existem ingessamentos, pela falta de liberdade e criatividade. No mais vejo que no caminho da arte a 'Intuição', pode ser mais bem sucessida do que a 'teorização' e nâo que não precisemos dela, ambas caminham lado a lado.

Marcelo Flecha disse...

Salve, Rose! É bom ver suas leituras de mundo por aqui! Apareça mais!

TonySilvaAtriz disse...

Bom dia! A cada momento que me deparo com os seus escritos sobre tantos assuntos que o fazer teatral lhe instiga a procurar respostas,ficar pensando com os meus botões por que tantas coisas incomodam esse profissional? Será que ele está certo? E eu é que não sei o que faço?Estarei eu no lugar e na função errada? Sabe Marcelo,você me levar a pensar e repensar o que faço.Amigo estou cheia de duvidas.Se uma nomenclatura lhe incomoda desta forma,imagine a situação do País como lhe tira o sono.Te adoro! Desculpe se não entendi....kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Marcelo Flecha disse...

Melhor do que entender qualquer sentença, você me entende, queridíssima amiga Tony! Fazer parte da sua vida foi um do maiores presentes!