domingo, 10 de julho de 2016

Passeando na contramão – 10 anos de teatro


Amanhã, dia 11 de julho, a Pequena Companhia de Teatro celebra dez anos de história. Durante os dias que antecederam a data, ocupei meu desgovernado juízo na reflexão do quão descompassadas com a norma foram as nossas opções no decorrer desta década, fazendo-nos trafegar na contramão na maioria das nossas ações, projetos, pensamentos e realizações.
O leitor atento perceberá que o que aqui faço não é um juízo de valor, e que não mensuro virtudes ou defeitos, apenas aponto o nosso contrapasso com a atualidade, sendo por vezes crítico, ou pelo menos ácido, ao abordar alguns dos assuntos da nossa prática.
No que se refere à tecnologia teatral – quando sabemos que a palavra tecnologia alude a todo e qualquer saber técnico desenvolvido para o aprimoramento do teatro – a Pequena Companhia de Teatro sempre transitou na contramão da pirotecnia, dos equipamentos eletrônicos, das novidades estéticas, dos mecanismos modernos, e focou o desenvolvimento de uma  tecnologia que favorecesse soluções simples para problemas complexos, concebendo técnicas de praticidade, precisão, operacionalidade e efetividade; alertando para a percepção de que é possível desenvolver tecnologia teatral a partir do desperdício contemporâneo, sem necessariamente depender de recursos financeiros  significativos.
No exemplo que estamos vivendo agora, outra contravenção. Sustentado pela lógica do capital, as circulações de espetáculos devem sempre realizar suas ações no menor prazo de tempo, buscando a otimização de recursos, e tornando as passagens pelas cidades fugazes, tanto para quem visita quanto para quem recebe. Nossa prática, quando são projetos propostos pela Pequena Companhia, busca a permanência na cidade visitada pelo maior tempo possível e incluindo o maior número de atividades, para viabilizar um intercâmbio efetivo, nos possibilitando conhecer minimamente a cidade que nos recebe e sermos por ela reconhecidos.
Mesmo nas atividades formativas, quando hoje prepondera a maleabilidade de conteúdo, a horizontalidade, o improviso, a descontração, a ausência de rigidez, a tolerância de horários, nossas oficinas concentram esforços em estabelecer um padrão de conteúdo, uma organização programática, uma intolerância com atrasos e ausências, uma exigência em oferecer resultados, um rigor em avaliar se os resultados foram atingidos; uma chatice. Contramão.
Em tempos de tablets, laptop, celulares e afins – e agora falo de uma prática minha – os registros de processos de montagens, oficinas, observações de ensaios, análises de circulações e reflexões são manuscritas em catálogos, diários e cadernos, que vão se espalhando pela sede e pela casa, consumindo dezenas de canetas BIC pretas, para depois deixar-me contrafeito ao precisar transportar os manuscritos para o computador, palavra por palavra, quando uma necessidade de produção me exige o transporte.
Outra curiosa oposição de sentido percebe-se na terceirização: quando a lógica atual é a de aglutinar, através da contratação de terceiros, para fazer como que o trabalho seja o mais coletivo possível, nossa prática é a de concentrar o maior número de funções prováveis, e só são buscados fora da companhia aqueles serviços que não nos sentimos verdadeiramente capazes de realizar, não significando que aqueles a que nos propomos tenham a excelência pressuposta para a empreita.
E a sede? Enquanto qualquer humano normal pensa em ter uma piscina, nós queríamos ter um teatro. Próprio. Esse desejo talvez fosse mais meu e de Katia, do que de Jorge e Cláudio. Ou, talvez, nem de Katia, pois imagino que ela ainda sonhe em pegar sol à beira de uma piscina. Ainda assim, investiu-se todo e qualquer centavo acumulado durante toda uma vida para poder conquistar a independência de espaço, fundamental para o efetivo desenvolvimento artístico de um grupo teatral dedicado à pesquisa de linguagem.
E assim chegamos à própria linguagem. No momento em que tempo é dinheiro, e quanto maior o número de montagens por ano maior a possibilidade de multiplicar os ganhos, nossas encenações levam, em média, três anos, entre o início da pesquisa e a estreia do novo espetáculo, contramão digna de multa gravíssima e perda de sete pontos na carteira.
Tudo na contramão; não calculada, não programada, não pensada, mas, contramão enfim. O tortuoso caminho de estabelecer um fazer identitário, orgânico, honesto, por vezes reinventando a roda, por vezes sendo atropelado por ela.
Como supracitado, o que faço aqui é uma reflexão sobre a nossa jornada, nesse dia que antecede o do nosso aniversário, sem apontar erros ou acertos, pois, acredito que na arte não exista certo ou errado, existem caminhos; e se bem sabemos que o caminho de dez anos não nos torna gênios, ele serve, com certeza, para descobrirmos que nós possuímos a soma dos quatro piores gênios que possa existir em um grupo de teatro – adoro antanáclases.

15 comentários:

Jair Balieiro Damasceno disse...

Parabéns pelo trabalho e pela boa luta de existirem enquanto pessoas, artistas e grupo, realizando um trabalho de qualidade artística respeitável.
Muitas décadas mais, se for o desejo.

Marcelo Flecha disse...

Caro amigo, Jair! Permita-me que já o trate assim. É que o nosso contato na oficina, aqui em Campo Grande foi tão prazeroso que a sensação de proximidade é inevitável. Agradeço sua generosidade, grande abraço!


Eduarda Saraiva disse...

NA contramão dos padrões e tempo mínimo estipulado, da pressa e da pressão pelo faz-me-rir...acredito que foi um corajoso e digno caminho que escolheram. Eu em minha humilde opinião, as vezes por uns metros de distância, onde acalento meus anseios de arte em estudo de música (também!) sempre gosto de citar "a pequena companhia ali",- Assista! Você tem!. Sem babações nem nada. Acho que a gente não tem só que admirar quem tá longe da gente, nos flashs, em cartaz no Arthur...
Me encanta a concepção cênica que usam, a construção cenográfica,a dramaturgia de uma riqueza (será que se aprende a fazer isso? Me questiono sempre)a interpretação carregada de um não sei o que...Que quando acaba o espetáculo a gente fica: esse cara era o personagem? Até as linhas do seu rosto não são mais as mesmas!
Acho que isso que chamam de entrar num personagem a ponto de não reconhecermos o personagem na pessoa que o interpreta. É Um v-effect não programado, mas é ISSO!
Meus parabéns..
Sendo bem fofa e carinhosa até. .Como qualquer admirador : adoro o trabalho de vocês. Um beijo..Meus sinceros Parabéns.
Força sempre.

Marcelo Flecha disse...

Eduarda, querida, as suas palavras e a sua presença são parte da nossa celebração! Obrigado!

Fernando Yamamoto disse...

Viva!!!! Viva!!! Dez vezes viva!!!!! Vida longa, meus queridos!!! E nos vemos já em Teresina, Flêtcha!!!!!

TonySilvaAtriz disse...

PARABÉNSSSSS PRA VOCÊS NESTA DATA QUERIDA,MUITAS...AI EU DEIXEI PRA QUE VOCÊS COMPLETEM. QUANTOS PASSOS FORAM DADOS,QUANTAS VEREDAS FORAM ABERTAS,QUANTOS CAMINHOS PERCORRIDOS,QUANTOS PENSAMENTOS,QUANTAS IDEIAS...QUANTOS...ESTOU TÃO FELIZ POIS TEMOS A PEQUENA TRAÇANDO HISTORIA,DESENHANDO MUNDOS E DESCREVENDO SONHOS...PARABÉNSSSSSSSSSSSSSSSS.

Hamilton Lima disse...

Caramba! Essa contramão que vocês pegaram nem atalho é!
Pode ser que tenha alguma coisa errada na sinalização da vida, digo, da via!
Risos,
Hamilton

JeyzonLeonardo disse...

sou apenas um aprendiz que diz.... vivas a pequena.









exercício entregue professor!

Marcelo Flecha disse...

Fernando, Tony, Hamilton, Jeyson, amigos queridos!! Essa história foi construída entre todos nós, e somo felizardos por isso! Obrigado a vocês todos! E, Fernando, já estou fazendo a mala! (Risos)

Andre disse...

Rapaz, faço gosto desta contramão. Felicidades. A PEquena Cia é um grupo de amigos queridos e que guardo bem no coração! Mais mil anos!!!

Adriana Fernandes de Oliveira disse...

Parabéns, guerreiros pelo trabalho extraordinário da pequena companhia sucesso

Adriana Fernandes de Oliveira disse...

Parabéns, guerreiros pelo trabalho extraordinário da pequena companhia sucesso

Flecha Fabio disse...

Caro primo Flecha, acredito que Menos é Mais, e o trabalho de vocês é, sem dúvida, muito "Mais". Parabéns a todos.
Espero poder compartilhar contigo estudos de transposição literária para teatro e cinema, seus ensinamentos abriram novos caminhos para o meu trabalho.
Forte abraço.
Fábio Flecha

Marcelo Flecha disse...

Querido Fabio! Foi um prazer! Espero que nossa parceria se efetive! Grande abraço!

Flecha Fabio disse...

Querido Marcelo, gostaria de falar contigo sobre seu processo de trabalho num projeto para o audiovisual, temos um edital aberto para desenvolvimento e acredito que podemos trabalhar juntos nisso, gostaria de passar maiores informações sobre esse desafio. Meu email é flecha@renderbrasil.com

Forte abraço
Fabio Flecha