domingo, 27 de dezembro de 2015

Quem é você?

Não sou homem de listas, pedidos, desejos, promessas. Faço o que está ao meu alcance para que minha vida seja tão boa quanto o meu esforço para que a vida dos outros seja. Não consigo imaginar o bem-estar se não for coletivo. Os outros são outros eus, e meus eus são tão plurais que confundiriam meus pedidos. Uma virada de ano não dá conta da histórica desigualdade que nos constituiu como sociedade, portanto, em vez de dar pulinhos sobre as ondas, dou meus pulos para fazer do teatro o instrumento de transformação que sonhei quando ainda não fazia promessas para um ano novo – como disse, não sou homem afeito a essas práticas. Principio insistindo em não abandonar a utopia — um ser humano que acredita no poder de algo tão inútil como o teatro, ou é um tolo, ou um idealista, que, contemporaneamente, significam a mesma coisa. Abraçado a essa égide, vou imaginando um mundo melhor enquanto reparo pequenas fissuras, porque um mundo se constitui de partes pequenas, e se deixo que a parte que me cabe roa, não posso exigir o melhor através do reparo dos outros. Entretanto, sabedor de que tudo é pouco quando os excluídos são tantos, desabito o utópico desejo para habitar a realidade, e mergulho na análise dos pequenos atos, aqueles que corrompem, transformam, denigrem, enriquecem, destoem, melhoram. Qual humano me tocou ser? O foragido? O mesquinho? O mártir? O clandestino? O corrupto? O exilado? O invejoso? O ser simbólico é a essência do ser real. Qual é o meu traje? Que papel me fora outorgado pela imagem que criei de mim? É a partir dessa imagem que se constitui a relação com o entorno, e não se espera honestidade do corrupto, lealdade do infiel, clausura do mundano. O que o mundo espera de mim enquanto me pavoneio sobre o quanto eu ajudo a melhorá-lo? Tocou-me o papel do insignificante, do invisível. É desse lugar que tento mudar o mundo. É da impotência dessa condição que enfrento todos os moinhos. É desse abismo que sonho construir um mundo melhor para todos. É dessa miserável situação que violento a minha vaidade ao prever que o próximo ano será tão igual quanto todos, se minha inércia não se quebrar em benefício do todo. 

2 comentários:

Hamilton disse...

O invisível só está lá porque ninguém o vê! Pode ser uma boa posição para mexer e remexer em pequenos atos que montam o quebra-cabeça de pequenas partes do mundo. Avante Pequena Companhia de Teatro! Parte e arte que a realidade rói, mas não corrói! Abraços entusiasmados Marcelo, Kátia, Cláudio e Jorge. Estou pronto pra "rodar" a chegada de 2016!

Marcelo Flecha disse...

E vamos rodar muitooooooooooo!!!!!