domingo, 12 de julho de 2015

Arte e sistema: uma difícil equação


Após um semestre burocrático, envolvidos em produção de planos, inscrição em festivais, aprovação de dois projetos no SALIC, catalogação de acervo, adequação de arquivo, e outros tantos males necessários para o desenvolvimento da Pequena Companhia de Teatro, eis que retomaremos nossas atividades artísticas a partir da ocupação do Centro Cultural Banco do Nordeste de Sousa/PB.

Sim, perdemos (ou ganhamos) um semestre cuidando de burocracia. Semestre atípico, mas necessário. A pluralidade e diversidade das nossas atividades impossibilitam que a Katia (nossa produtora) seja a única responsável por esses afazeres. Com isso, um tempo criativo valioso é despedido para que a máquina funcione. Por incrível que pareça, não me desagradam essas ocupações – fugindo do imaginário de que artistas são arredios a papeladas, mas não morro de amores por elas.

(Abro um parêntese para falar de um comentário sobre a minha postagem Lei Rouanet ou a diferente lógica de um artista, quando uma leitora carioca dizia não concordar que a gente fizesse de tudo, não aceitar que cada um dos membros da Pequena Companhia de Teatro tivesse várias funções, que isso não era bom porque desvalorizava o artista, que melhor seria se cada um de nós exercesse apenas uma função, que, que, que. Percebe-se que o sudeste não conhece o “resto” do Brasil, e arremato: ninguém conhece a realidade de uma companhia de teatro maranhense a não ser uma companhia de teatro maranhense. Fecho o parêntese pedindo o seu esforço para reatar o fio da meada.).

O que levanto aqui é a necessidade de projetar, a importância de programar, mas, principalmente, o fundamental que é desenvolver uma visão estratégica para além do horizonte cercano, como já falei aqui. Como artistas que somos, precisamos entender nosso entorno, para podermos projetar uma vida de arte em um mundo em que a arte não faz parte da vida.

Esse paradigma exige de nós um olhar menos romantizado (difícil para um romântico inveterado como eu) pelo menos por um quarto do ano produtivo. Afastar-se da cena, do poema, do cinema, do fonema, e ocupar-se do problema, do dilema, da Caema, do esquema; porque ninguém pode entender o que queremos com o nosso fazer artístico a não ser nós mesmos. Digo, não podemos repassar nosso futuro artístico para um tecnocrata, sob pena de encontrarmo-nos na jaula de um leão, com um banquinho e um açoite, sem ter feito a “oficina” de adestração.

Mas como dimensionar tempo artístico e tempo técnico? Como saber se não deixei de ser artista e nem percebi? Como escapar da ardilosa armadilha burocrática sem arranhões?

Penso (apesar de saber que, como diria João Grilo, todo penso é torto) que a arte não se esmaga. O artista não se rende. O sistema jamais conseguirá vergar um artista de verdade. Se a vida lhe tragou, você jamais foi artista. Se você teve que largar a arte para cuidar da produção, sua vida sempre foi produzir, e isso não é demérito, é reconhecimento. Mas, se você é artista e tem que ralar para conseguir fazer sua arte acontecer, não se aflija, você poderá penar, se lascar, se endividar, se rejuntar, mas o artista permanecerá intacto, pese ao esforço do sistema em aniquilar sua arte. Não vejo como possível o esvaziamento artístico em prol de um atarefamento burocrático. No momento exato o artista explode, retoma, inicia, professa.  Se você é artista e teme estar cambaleando pela roleta do sistema, insisto: não se aflija. O impulso artístico organiza isso para você. Do contrário, sinta-se livre, você nunca foi artista.

2 comentários:

Rute Ferreira disse...

Deve haver poesia na papelada também... ;)

Marcelo Flecha disse...

(Risos) poesia pura!