domingo, 7 de junho de 2015

Manifesto de um morador da Praia Grande


Katia e eu somos moradores do Centro Histórico de São Luís há vinte anos, aproximadamente – ela a mais tempo do que eu. A Pequena Companhia de Teatro também é sediada aqui, na Praia Grande. Morar e estabelecer-se profissionalmente no centro da cidade é uma ação política, e uma atividade permanente.

Ouço e leio, com frequência, comentários acerca da importância de atividades com foco na ocupação do Centro Histórico de São Luís, sem ouvir por parte dos locutores e escritores a importância de que essas ações sejam permanentes.

Regularidade. Persistência. Paciência. Resistência. Permanência. Qualquer transformação só é possível a partir desses predicados. Manter um espetáculo em temporada regular possibilita ao espectador a decisão de ver uma apresentação quando ele quiser, e não quando o artista quiser que ele queira. São as ações regulares que aproximam o indivíduo de uma linguagem, de um projeto, de uma intenção, de uma apresentação, de um bairro.

Cante tango todas as terças na Praça Nauro Machado e os aficionados de tango lhe seguirão, como é de praxe, mas os menos apreciadores do gênero, sabendo da existência do empedernido cantor, saberão aonde ir quando o desejo inesperado de ouvir um tango se apresentar.

Sinto fastio ao ver meu bairro servindo de discurso promocional em esporádicos eventos, atividades, situações ou discussões e, em seguida, desqualificado pelos mesmos promotores com as tachas quase indissociáveis de sujo, perigo, decadente. Ao reforçar esse discurso não percebem que também desqualificam ações como a nossa: como assim, cara pálida? Eu moro aqui e não vejo a menor diferença entre a sujeira e a insegurança deste bairro e a de qualquer outro da cidade, inclusive os mais nobres.

Ademais, essas atividades quase nunca são acompanhadas de ações efetivas para a humanização da Praia Grande, pelo contrário, focam seus esforços em convencer o cidadão para que não deixe de aparecer durante o evento, aquele recorte de tempo necessário para o sucesso da empreitada – fator que provoca a curiosa situação de termos cidadãos ludovicenses visitando o Centro Histórico pela primeira vez. (Vale aqui a velha máxima, assunto para uma próxima postagem: cultura não é evento).

A única ação concreta que viabilizaria a humanização do Centro seria a residencial. A Praia Grande precisa de mais moradias, mais moradores, mais artistas moradores, mais reuniões de vizinhos, mais passeios com o cachorro, mais saídas para comprar pão, mais futebol na rua, mais cadeiras nas calçadas, mais zoada. Menos repartições, secretarias, instituições, burocracia. O Centro precisa de mais cheiro de gente depois das seis da tarde. Se a vida do homem só se efetiva em sociedade, um bairro só se efetiva se servir como instrumento de socialização desse homem, do contrário, vira um amontoado de prédios desusados. Portanto, se quiser ajudar, venda seu apartamento e compre um sobrado. Seria uma alegria tê-lo como vizinho, e poder lhe pedir uma xícara de açúcar emprestado.

12 comentários:

Sandro Fortes disse...

Obrigado pelo convite. A tão comentada decadência da Praia Grande é geral, perigos nos espreitam por toda a extensão de nossa pobre cidade de São Luís. E eu que era frequentador assíduo da área confesso que me afastei mesmo, perdi o hábito de estar perambulando a cada fim de semana e testemunhando o burburinho dos artistas e do povo, não me afastei apenas temendo assalto, mas também por perda de identidade com o local, que passou a abrigar pagodes e outras festas massivas para as quais não tenho muita paciência, nunca tive, nem nos anos 90. Essa falta de identidade talvez pudesse ser superada por um convívio cotidiano, como você diz. Como tenho pensado em me mudar do apê para outro local acho interessante essa sua sugestão. Um caso para se pensar. É preciso resgatar a Praia Grande como o importante pólo cultural de S. Luís que era, é preciso tirar o povo dos shopping centers e trazê-lo de volta para as ruas, mas isso exige um bocado de mudanças a serem feitas, mais investimentos em segurança pública (pois o episódio dos policiais metralhados nos trailers foi a gota d'água traumatizou a galera) e melhorar a estrutura (o centro inteiro está caindo aos pedaços). Abraço!

Marcelo Flecha disse...


Sua mudança para cá seria o primeiro passo, Sandro! O resto a gente resolve depois! (risos) Por isso não quis dar o enfoque nas políticas públicas, porque é mais do mesmo, sabemos da realidade. Mas se nós, cidadão, tomarmos uma iniciativa em uma direção, o poder público vem atrás, pode acreditar. Obrigado pela sua atenção, e seu sempre preciso depoimento! Você estava sumido dos comentários aqui, não faça isso com este pobre escritor!

Marilia disse...

Eu sou moradora do centro histórico de São Luis há 9 anos (já!)e, apesar de tudo, não troco por bairro nenhum de São Luis. Adoro morar aqui! Não sou sua vizinha de porta, mas quando precisarem de açúcar (ou de qualquer outra coisa ou sentimento), podem chegar!E para esse movimento pelo Centro, pode também contar comigo.

Marcelo Flecha disse...

Salve, vizinha! Açúcar, não, mas um bom papo sempre é bem vindo. Vamos marcar!

LUIZ CARLOS SOUZA disse...

Salve Marcelo! Concordo com tudo o que você expôs sobre nosso histórico patrimônio, tão negligenciado por todas as esferas de poder constituído e que, no entanto, não zelam como deveriam. Preservar nossa história é um legado para as gerações atuais e futuras, bem como uma força da economia na geração de fluxo de habitantes locais e turistas. Mas nossos governantes, parece que não enxergam um palmo adiante das necessidades comuns de todo o povo que aqui vive e ama essa terra. Sou um goiano apaixonado por São Luís e pelas coisas boas que tem o Maranhão. E que não são poucas. Só falta trabalho sério dos detentores do poder em valorizar nossas riquezas históricas e culturais em conjunto com políticas públicas que favoreçam a ocupação positiva e produtiva.
Luiz Carlos

Camila Farhat disse...

Procuro um sobrado na Praia Grande!

Marcelo Flecha disse...

Salve, Luiz! Seja bem-vinda, Camila!

Rute Ferreira disse...

Tu tá é querendo mais companhia para os domingos de tédio. Mas, Marcelo, se tu tivesse mais vizinhos tagarelas, as postagens dominicais seriam substituídas por uma conversa na calçada. E aí, ai de quem não morasse na Rua do Giz!

Marcelo Flecha disse...

Isso é hora de aparecer? Não postei semana passada esperando seu comentário!

Hamilton Oliveira disse...

Boa ex-vizinho! Viver na Praia Grande, no Desterro ou no Centro... Rapaz, que convite bacana. Espero voltar logo. Confesso que os argumentos atiçaram minha propensão adormecida (risos).

Marcelo Flecha disse...

Você é um péssimo exemplo, Hamilton! Você não podia ter saído daqui nunca. Não fui nem consultado!

Izaque Botelho disse...

Admito que estou com uma "invejinha santa" de você rsrs Morar na Praia Grande é meu maior sonho. Tenho 16 anos, e me diferencio dos meus amigos, enquanto eles almejam um apartamento na Península, eu sonho em um dia poder morar no Centro Histórico :)
A Praia Grande é um lugar mágico, saber que naquelas ruas andaram as mais variadas pessoas, de níveis e sonhos ímpares é algo incrível.