sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Novo eco


Velhos Caem do Céu Como Canivetes, espetáculo de excessos e de difícil assimilação
Por Alexandre Mate

Drummond manifesta em seu belo poema O Lutador que haveria palavras dentro dele buscando canal: prontas para explodir. Criadores teatrais — como vulcões em estados próximos à erupção —, aliado às palavras, teriam, além destas, imagens, deslocamentos e desenhos no espaço cênico, efeitos de diversas naturezas, músicas e sonoridades em momentos distintos... A linguagem teatral é complexa e a eclosão de seu fenômeno ocorre durante o espetáculo. Antes e depois disso, o que se tem são idealizações e tentativas de explicitação.

A Pequena Companhia de Teatro, de São Luís (MA), e cujo trabalho anterior foi o pungente Pai e Filho, apresentou seu último trabalho no Teatro do Sesi, de Piracicaba (SP), durante a nona edição do Fentepira. A obra, toma como referência um conto de Gabriel García Márquez que, de modo bastante sucinto, apresenta os diálogos entre um anjo “caído” e um homem apartado do mundo. Tal situação, característica dos embates e choques entre seres de contextos absolutamente distintos, tem como cenário uma paisagem devastada (repleta de lixo reaproveitado e transformado em “obras de arte”) e lotada de objetos heteróclitos.

Feito máquinas, as duas personagens falam sem pausa e de modo ininterrupto. Sem pausa, e como condenado ao movimento constante, o ser que habita a paisagem catastrófica, parece um descendente de Sísifo (ele não descansa nunca, e parece condenado aos movimentos sem sentido).

Sem tempo para a reflexão do espectador, os efeitos se somam e vêm aos borbotões. Gilberto Gil lembra em versos de música famosa algo como em um copo vazio haveria uma plenitude de ar. Velhos Caem... precisaria, talvez, a partir de tal preceito, conferir tempo para que o público (razão de ser do espetáculo) pudesse decodificar a pluralidade de tantos símbolos.

Portanto, pausas e ralentamentos quanto ao discurso excessivo (texto, adereços, movimentações...) tenderiam a ajudar na fruição de pequenas belezas não percebidas pelo excesso.

*Velhos Caem do Céu Como Canivetes foi apresentado no domingo, dentro da mostra oficial do 9º Fentepira

Um comentário:

Rute Ferreira disse...

Respeito o Mate, sei de seu cacife, mas levei quatro pessoas pra ver o espetáculo e discordo de que ele não oferece tempo para que o espectador o assimile, reflita sobre ele. É evidente que imediato há uma gama de símbolos bem intensa a ser decodificada, e que o espectador vai acessar dependendo de suas experiências. Mas nenhum espetáculo é feito para uma reflexão unicamente imediata. Vou ver de novo e levar outras pessoas. Seguimos conversando? Um abraço!