domingo, 30 de março de 2014

Telmah e o enfastiado


Retornei hoje de Mossoró, após assistir a estreia da Viagem aos Campos de Alfenim, espetáculo da querida Cia. A Máscara de Teatro. Como sempre, qualquer movimento que altere minha rotina provoca reflexões, que direi encontrar, prestigiar e conversar com amigos tão queridos. Há algum tempo decidi abandonar a condescendência. Como espectador, não serei mais aquele que pondera, que analisa, que justifica o injustificável. Quero ser arrebatado. Seja pela temática, pela estética, pelo desempenho, pela totalidade, ou até mesmo pela amizade, mas quero ser arrebatado. Quero ser removido do patético lugar que ocupo no mundo, e ser chacoalhado, seja por um beijo heroico, por um chute no traseiro, por um chiste embaraçoso ou pela inesperada despretensão de quem aponta na galinha e acerta o pavão. Desisto de buscar explicações ou elucubrar justificativas para tentar gostar daquilo que não gostei. Como espectador, não quero mais completar o trabalho do artista. Não quero remediar a ausência de potência de uma obra com um argumento intelectualmente preciso que cumpra apenas o papel de amenizar meu constrangimento com o insossado sabor do que vi. Não quero mais conviver com a dificuldade de admitir que não gostei. Não quero mais provar do meu próprio engodo reflexivo para amenizar minha culpa cristã por não ter gostado de um espetáculo. Deixo a razão para a ciência. Pela arte, quero ser arrebatado. Por que estou falando tudo isso? Anteontem, depois de um bom tempo, voltei a me emocionar ao ver um espetáculo. Não sei porque, nem me interessa, mas agradeço.

6 comentários:

Luciana Duarte disse...

Arrebatar. Um código, uma lição. Suas palavras nos tornam mais exigentes de nós mesmos. Estar com você é uma dádiva, me emociono sempre "não sei porque, nem me interessa, mas agradeço", como diz meu mestre Marcelo Flecha - Querido Professor. Amo demais! Obrigada, obrigada....

Marcelo Flecha disse...

Minha querida amiga, quatro dias foram muito pouco, mas serviram para muita reflexão, como todas as vezes em que nos encontramos. Obrigado pela companhia, pelo espetáculo e por você ser quem você é.

TonySilvaAtriz disse...

EMOÇÃO.É a palavra que invadiu-me nestes dias em que a presença de um mestre do Teatro juntou -se a nós no momento mais precioso de nossas vidas.Marcelo Flecha,homem de uma generosidade ímpar,de um bom gosto extremo.É com todas essas qualidades que ele cria O encontro de DIRETORES E AUTORES na Companhia Á Máscara de Teatro. Forjado nas lágrimas da saudade e do Amor é que venho dizer MUITO OBRIGADA.Precisamos nos encontrar maisssssssss.Beijos molhado de lágrimas.Vamos Viajar?

Marcelo Flecha disse...

Tony, querida amiga! Obrigado por me deixar fazer parte da sua vida. Desde 2001 muita coisa aconteceu que podia ter nos afastado, mas soubemos defender nossa amizade com unhas e dentes e o resultado vem sendo colhidos ano a ano. Com o passar do tempo estamos conseguindo nos ver com maior frequência até terminarmos todos juntos em um asilo! Sonhar não custa nada!

Marcelo Flecha disse...

João Marcelino disse:

Querido Marcelo Flecha, feliz Sábado para você e pros seus!
Agradeço pelo cuidadoso olhar recheado de carinho.
Agradeço pelas palavras, nos deliciosos encontros e reflexões acerca deTeatro e da vida. Terminei abrindo algumas caixas de histórias nunca reveladas ou compartilhadas com você. Preciso abrir outras tantas que insistem em ser abertas.
Antes de mais nada, a sua arte me comove, não me deixa indiferente, me provoca reflexões. Um dia falarei sobre, pois ela, sua arte, me cutuca e faz sair do lugar de conforto.
Agradeço a vida por ter conhecido você!
Agradeço a vida, por ter cruzado o caminho de Jeyzon, Luciana, Damásio, Leó e Tony.
Não sei ao certo o que me move nesse encontro com a Cia. A Máscara, mas sei que é necessário mover-me junto a eles nessa Viagem.
Há muito para dizer, quando construímos com amigos uma peça de teatro. Nos colocamos nela, diante dela, distante e nalgumas vezes nós somos ela. Na Viagem Aos Campos De Alfenim, a peça, é tudo isso! Sem pudores, com medos, com coragem, com alegrias, com tristezas, com ironia... A Máscara me ajudou a passar melhor o meu tempo, a usar melhor usar o meu tempo... A Máscara me salvou! A Máscara me iluminou! Sei que há muito a crescer enquanto humano, mas sinto que saí melhor depois dessa Viagem.
Você enxergou isso. Você viu isso! Você percebeu alguém gritando, querendo ser ouvido e tentando dar a sua contribuição para melhorar o nosso mundo.
Obrigado Marcelo!
Obrigado pelos ensinamentos!
A peça fala muito de você e de todos nós.
A vida poderia ser mais um effet d'ombre chinoise, onde entramos e saímos dela sem dor!
Obrigado!

Marcelo Flecha disse...

Obrigado, João, pelas tocantes palavras. Gostaria que, além da postagem e do clipe, você assistisse ao meu depoimento na íntegra. Creio que nele consigo sintetizar todo o que a Viagem conseguiu me proporcionar. Se transcrito, penso que possa até servir, não como uma crítica, mas, pelo menos, como um comentário reflexivo. Agradeço ao teatro pela possibilidade do nosso encontro! Beijão!