domingo, 23 de junho de 2013

Condição ou profissão?

 
O querido amigo virtual Alberto Júnior me tuitou perguntando (pois é, tenho Twitter e você nem sabia): ser artista é uma condição ou profissão? A resposta imediata que me veio à cabeça foi: uma condição que exige profissão. Uma condição porque ser artista vai muito além do ofício. A visceralidade da arte rompe a barreira do tempo, do ponto, do horário, do protocolo social, da equação entre desempenho e remuneração, da hierarquia, da jornada de trabalho, dessa série de fatores organizacionais que qualquer profissão demanda e que vão de encontro ao caos criativo necessário para a produção artística. No entanto, para ser artista, a contemporaneidade exige um profissionalismo capital que demanda, do romântico modelo marginal de artistas do passado, um enquadramento e rigor de produção, sob pena de ser massacrado pela produção medíocre, porém, abundante do melhor artista da semana.
 
Foto de Katia Lopes, média de Marcelo Flecha
 
 Muito prólogo para pouco tema. Sempre que começamos um novo processo de montagem a lógica do meu tempo desaparece. Minha relação com Velhos caem do céu como canivetes não respeita nem a Katia, pessoa com a qual me relaciono muito antes do espetáculo aparecer. Livro de ponto é estar acordado. No máximo, restam-se as refeições. E não faço isso propositalmente nem por pressão de produção. Não consigo fazer diferente. Se eu gastasse esse tempo para fazer algo útil seria milionário. Protocolo social de teatro é ensaio. É quando vejo gente. Jorge e Cláudio. Jornada de trabalho é metáfora para escravidão. Parece uma reclamação, mas não é. É minha condição. É assim que acontece comigo. Sou tomado por uma sensação de satisfação que me mantem em um estado permanente de vigília criativa, e mesmo assim nem sempre funciona. Fiz muitas piores coisas do que as mínimas melhores. Contudo, é dessa maneira que acontece. Da hora que acordo ao desabamento. Claro que isso merece uma reflexão, mas, felizmente, meu pensamento está comprometido com o espetáculo. Por enquanto, pensar fora da cena é desperdício.

6 comentários:

Jorge Choairy disse...

Gestação é assim, mas que é bonito te ver imerso é. Não diria pena, mas dá um certo medo, só pra usar essa palavra da moda.

JeyzonLeonardo disse...

É sempre bom pensar em você, na sua estrutura para montar e desmontar essa nossa, essa sua realidade teatral. Mônica, Luciana e Eu ficamos de olho no final do arco-íris e nele há um bote recheado de ouro em Flecha e Pequenas Companhias de Marcelos a teatralizar os nossos desejos. beijos e saudades.

A Contadora disse...

Marcelo,
A dedicação apaixonada pela arte em vc gera impulsos, pelo que vejo, não só de criação teatral (interpretação e producao) como também de criação textual e garante energia extra até para aguentar a Organização necessária que o empreendimento termina pedindo... Texto adorável! Parabéns!

Marcelo Flecha disse...

Não tema, Jorge, estou onde gostaria de estar. Jeyzon, Luciana e Mônica, suas palavras só nos orgulham e gostaríamos de compartilhar tudo com vocés! E quem é a Contadora? Palavras tão belas merecem identidade!

diariodoandre.com disse...

Bjo

Anônimo disse...

Com essa declaração minha respiração ficou suspensa! fiquei sem fôlego!