domingo, 10 de março de 2013

Cultura ou tortura?


 
As personagens de Velhos caem do céu como canivetes estão em permanente processo dialético, mesmo sem ter a menor consciência disso. Em certo momento eles dizem:

SER ALADO – Por que não tens [os quatro] dentes [superiores da frente]?
SER HUMANO – Meu pai os arrancou na infância.
SER ALADO – Em sinal de sacrifico?
SER HUMANO – Não. Para trocá-los por dentes de ouro.
SER ALADO – Por quê?
SER HUMANO – Uma tradição da época.
SER ALADO – Tradição estranha.
SER HUMANO – Possuir dentes de ouro era sinônimo de ascensão social.
SER ALADO – E o ouro?
SER HUMANO – Nunca chegou, nem a fartura.

Qual é o limite entre tradição e mutilação? Até onde a cultura se justifica por si? Touradas são cruéis, mas não consigo imaginar a humanidade sem sua beleza. Por outro lado, agulhas na pele me causam extremo desconforto. Apesar do fragmento transcrito não ser o tema da encenação, herói e anti-herói azedam por zonas que vão além dos motes motores da pré-dramaturgia. Esse poderá ser um deles, mesmo que não seja. Fica a pergunta: o que faria você arrancar seus dentes?

4 comentários:

Neusa Portilio disse...

O trabalho desta Pequena Companhia me encanta e me inspira. Espero ter a oportunidade de ver no palco este processo de fazeção de Os Velhos.
Aqueleabraço

diariodoandre.com disse...

Massa!

Marcelo Flecha disse...

Obrigado, Neusa, André. Os comentários aqui me são mais caros que lá (face, twitter etc) rsrsrsrr...

Hamilton disse...

Vozes dentro da cabeça, me lembrando que, do futuro, estão ouvindo e observando, através de implantes dentários biônicos, o que digo e o que não faço, no passado. É de arrancar os dentes!