domingo, 14 de outubro de 2012

C®iatividade


Ainda adolescente, ou nem tanto, quando passava por algum bloqueio criativo, entrava debaixo de uma grande mesa que havia na pizzaria Tutti Frutti – local onde amassava e assava pizzas enquanto pensava em Kantor e Grotowski. Essa mudança inusitada de posição, de perspectiva, de olhar, me auxiliava a ver as coisas de outra maneira, subverter o ponto de vista, deslocar a estruturação do pensamento, colapsar o raciocínio lógico. Funcionava. Com o passar do tempo, as estratégias foram mudando, sempre no intuito de oxigenar a criatividade, matéria-prima do meu ofício. A arte teatral, como expressão artística, é mais desafiadora do que qualquer outra. Tudo o que se cria se esvai com a morte do espetáculo e o que fica não supera uma amena lembrança. O golpe criativo de um cineasta perpetua-se. Mesmo sendo medíocre, bastará um único lampejo, que o eleve à condição de realizar um filme significativo, para consagrá-lo. A revolução criativa de um escritor será lida por séculos. Se o autor não for genial, ainda assim, sua obra será "não lida" por séculos. Todavia, nenhum jovem espectador poderá dizer que respirou a genialidade de Victor García,  no máximo ouviu falar ou contemplou algumas estáticas imagens fotográficas. No teatro, a criatividade sempre será exigida quantitativamente, porque uma peça nada mais é do que a anterior à próxima, demandando do artista um vigor criativo continuado. Para manter o frescor inventivo, sempre me dispus, mesmo que fosse debaixo de uma mesa. Sei que, entre os leitores, há alguns jovens teatreiros com opiniões inexoráveis. Estejam atentos à ruptura, à mudança de rota, aos desafios de se reinventar, de surpreender a si. Mantenham-se fecundos para poder permanecer produzindo sempre, senão padecerão no inferno do esquecimento ou no purgatório da lembrança, contudo, padecerão. No teatro, só atinge o céu quem caminha permanentemente.

2 comentários:

Xico Cruz disse...

Eu ainda tô pelejando pra ser criativo, mas tá difícil.

Beijos.

Saudades, tô sempre lendo esse cantinho.

Xico Cruz

Hamilton disse...

Variando um pouco o assunto dentro do que foi abordado, e pensando na arte musical, a gravação em disco criou a possibilidade de congelar momentos performáticos para a posteridade... alguns artistas são ouvidos assim: "o Gilberto Gil da década de 1970".. É quase outra pessoa, outro ele mesmo... essa situação é mais paradoxal quando se trata dos registros de "ao vivo". Ao contrário do estúdio, o palco (ou o estúdio de gravações ao vivo) proporciona situações irrepetíveis, mas reprodutíveis pela gravação... por sabermos que são momentos únicos, essas gravações de performances ao vivo tornam-se valiosíssimas em nossa cultura... particularmente quando se trata de artistas que surpreendem a todos em cada nova performance, como Charles Mingus no álbum Mingus Dynasty: exemplo de experiência irrepetível, mas pelo menos de registro reprodutível...
Mas na música, para certos artístas, e creio que para certo público também, a experiência única e efêmera é mais envolvente do que qualquer outra...
Ainda em pleno vigor produtivo, Mingus adoeceu e ficou numa cadeira de rodas e sem poder tocar seus instrumentos... ô castigo. Imagina o quanto ele ainda poderia caminhar (como você diz Marcelo)...
Felizmente, para ele, não era um homem de teatro, restaram os discos.