domingo, 12 de junho de 2011

Medeia – um comentário

Amor? Ódio? Vingança? Difícil equilibrar-se na teia deixada por Eurípides entre as palavras que compõem sua Medeia, sem perceber-se à beira do abismal universo humano. Focada no feminino – corte na tradição de Ésquilo e Sófocles –, é a mulher que representa a trágica condição humana a deparar-se com os descaminhos da vida. Desprezando a ideia do destino a guiar os passos descompassados (como defendiam seus pares), o autor descarrega no fator comportamental toda a responsabilidade do infortúnio. A personagem – uma Medeia mais humana que sobre-humana mais mítica que mística – transita por todas as mazelas do labirinto psíquico sem conseguir se desvencilhar das amarras que a vingança lhe impõe pelo amor negado. A amante se sobrepõe à mãe, e o filicídio é fato. Diria o popular: é a história da mãe que matou os filhos. Nada pode ser maior. Nada pode ser pior. É nisso que a genialidade euripidiana se concentra: são nossos atos a desatar os flagelos da existência como se o antídoto nos fosse negado no primeiro suspiro para nos abandonar errantes nesta constante contagem regressiva que chamamos de vida. Medeia erra querendo acertar. “Acerta”, em si, o erro, por considerar necessário o sofrimento mais agudo para aquele que, arbitrariamente, subjugou seu estado feminino, transformando seu amor em ódio. Esta mulher, ensimesmada, se fecha aos apelos e sentencia o mau esposo à pior das penas, que só poderia brotar (como defendiam os antigos) da alma feminina. Machismos à parte, Eurípides marca a humanidade com aquilo que há de mais humano: a mulher. E nos permite, ao decifrar este conturbado universo, desvendar as amarguras e desvarios da alma humana, com suas costumeiras e belíssimas imperfeições.

Imagens da montagem de Medeia pela Cia. A Máscara de Teatro

8 comentários:

Flavia Teixeira disse...

que foto maravilhosa! O espetáculo deve ser du caralho heim?!?

CAIRO MORAIS disse...

ai ,,, fiquei com vontade de ver Medeia...sou tão carente de arte!

Marcelo Flecha disse...

Foi sim, Flávia! Foi o primeiro trabalho que dirigi da Máscara, em 2005. Adorei fazer. Dizem que ficou muito bom rsrsrssrs. Estão sempre pensando em remontar e deixar em repertório... Esteve em Imperatriz, viu Caio? Só que você ainda não tinha nascido rsrsrsrsrsrssrss

Luís Diniz disse...

Medeia - um fragmento. Assisti em Imperatriz no tempo da Semana de Teatro, pouco antes do Gilberto Freire sumir numa nave espacial. Um dos que mais gostei. Perde só pra outro, que não lembro direito o nome, mas lembro que rolou na UEMA e eram apenas duas atrizes, um homem e uma mulher. Talvez o título era "Deus do cão danado". Infelismente o Cairo não pode me tirar essa dúvida. Ele ainda não tinha nascido. Sequer era rosa púrpura.

Marcelo Flecha disse...

Exatamente: Deus Danado, da mesma Cia., último espetáculo que dirigi com eles. Esse ainda está em cartaz e vai completar 04 anos de existência. A nave do Gilberto está prestes a retornar...

Luciana Duarte disse...

Que saudade, querido professor... De tudo, de nada... de estarmos juntos descobrindo, sofrendo, chorando, rindo, tomando aquele vinho... Sempre me agradou a idéia de retornar ao intrigante e fascinante mundo de Medéia, mas "...tudo ta desembestado o dia se entrometedo..." (Deus Danado)

Marcelo Flecha disse...

Saudaaaaaaaaaaades!!!!!!

Carol Mello disse...

achei lindo, deu vontade de ver!